1 milhão de pinguins, 600 mil ovelhas, 15 mil minas explosivas, 3.000 Homo Sapiens civis…e pelo menos 18 bilhões de barris de petróleo
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1 milhão de pinguins, 600 mil ovelhas, 15 mil minas explosivas, 3.000 Homo Sapiens civis…e pelo menos 18 bilhões de barris de petróleo

arielpalacios

23 de fevereiro de 2010 | 12h01

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 As ilhas Malvinas, o arquipélago do Atlântico Sul habitado por 3 mil pessoas e 1 milhão de pinguins, com 15 mil minas explosivas deixadas pelos argentinos após sua derrota na guerra pela posse das ilhas em 1982, poderiam estar assentadas sobre reservas de mais de 18 bilhões de barris de petróleo.

 blog1vinhetasmarca1 A presidente Cristina Kirchner obteve nesta segunda-feira em Cancún, México, o respaldo verbal dos presidentes latino-americanos e do Caribe para pedir à Grã-Bretanha a devolução das ilhas Malvinas à Argentina. “Vamos insistir em nossa reivindicação! É imperativo da Constituição Nacional, que indica que é obrigação de todos os governos o caráter imprescritível e irrenunciável da soberania dessas ilhas”, exclamou Cristina Kirchner perante 33 presidentes da região que participaram da reunião de cúpula em Cancún, México.

Mas, enquanto Cristina discursava enfaticamente à beira das cálidas águas do Golfo do México, a milhares de quilômetros dali, no agitado e gélido Atlântico Sul, a 100 quilômetros ao norte das Malvinas, os operários da companhia Desire Petroleum ignoravam os apelos latino-americanos de “soberania regional” pronunciados na riviera mexicana e começavam a exploração do solo marítimo. Ali esperam encontrar petróleo, o pivô da nova crise diplomática e comercial entre Buenos Aires e Londres.

O desolado arquipélago, ocupado pelos argentinos durante 13 anos (entre 1820 e 1833), e em mãos britânicas há 177 anos (desde 1833), é reivindicado como “território argentino” por Buenos Aires. A presidente Cristina quer impedir a exploração petrolífera das ilhas, já que considera que as riquezas naturais do arquipélago “pertencem” à Argentina.

Em Ushuaia, capital da província de Terra do Fogo, sob cuja teórica jurisdição estão as Malvinas, a governadora Fabiana Ríos definiu o clima: “estamos nos sentindo vítimas de um roubo por parte da Grã-Bretanha!”.

Mas, os ilheus – descendentes de ingleses, escoceses e galeses denominados de “kelpers” – que há seis gerações ocupam as Malvinas, consideram que possuem totais direitos de explorar o arquipélago como quiserem. “As perfurações continuarão tal como estavam planejadas. As pressões argentinas não afetarão as operações previstas”, afirmaram representantes do governo local das Malvinas.

Nos anos 90 os kelpers haviam autorizado a exploração petrolífera de sua zona marítima. Mas, até agora, nada havia sido encontrado. No entanto, estimativas atuais indicam que as ilhas estariam sobre uma imensa reserva de petróleo.

Os cálculos sobre as reservas variam desde os mais céticos 8 bilhões de barris, passando pelos 18 bilhões estimados pelos especialistas das empresas envolvidas na exploração; até os otimistas 60 bilhões que os kelpers alegam que existem nos mares ao redor de suas ilhas, volume que transformariam o arquipélago em uma espécie de “Golfo Pérsico do Atlântico Sul”.

Tal magnitude de reservas deixam o governo Kirchner com inveja, já que as reservas no território continental da Argentina (país que em breve perderia sua autossuficiência petrolífera) atualmente são de apenas 2,6 bilhões de barris.

AUTONOMIA – No dia 1 de janeiro de 2009 entrou em vigência uma nova Constituição das Malvinas, designadas de “Falklands” pelos ingleses. Essa Carta Magna reforça a democracia local, fato que preocupa o governo argentino. O temor é que os “kelpers” avancem em direção à autonomia, e, eventualmente, à independência do arquipélago. Atualmente, o arquipélago possui o status de “território d’além-mar” da Grã-Bretanha.

Analistas em Buenos Aires e Londres afirmam que a eventual descoberta de petróleo nas ilhas poderia entusiasmar os kelpers a proclamar sua independência. Dessa forma, as reivindicações argentinas sobre o arquipélago poderiam perder respaldo na ONU.

PORTOS – Há duas semanas a presidente Cristina decretou que cada navio que passe por portos argentinos rumo às Malvinas deverá contar com autorização prévia.

A ideia é impedir que insumos para a extração petrolífera cheguem às ilhas, fato que elevaria os custos da atividade. Mas, especialistas afirmam que apesar disso, a extração nas ilhas será lucrativa sempre que o preço do barril do petróleo seja superior a US$ 25 (atualmente está em US$ 77).

No entanto, as ilhas não ficarão bloqueadas pela Argentina, já que somente seu acesso pelo lado oeste do arquipélago tem divisa com o mar territorial argentino. Desta forma, os navios podem aproximar-se das Malvinas pelo norte, leste e sul.

Além disso, embora a passagem pelos portos argentinos implique em eventuais complicações burocráticas ou impedimentos (se os produtos forem considerados “insumos” para a extração petrolífera) as ilhas poderão ser abastecidas como fazem costumeiramente, por intermédio dos portos do Chile, Uruguai e África do Sul, os países mais próximos das ilhas depois da Argentina.

De quebra, os britânicos contam com as bases das ilhas de Ascensão e Tristão da Cunha.

Em Port Stanley, representantes do governo local ressaltaram que os kelpers estão acostumados a viver sob “boicote” argentino desde 1982. “Sobrevivemos até agora sem a Argentina. Podemos continuar assim”, explicaram. Atualmente, 60% da receita das Malvinas provém da pesca.

De quebra, os kelpers não perdem uma oportunidade para criticar a presidente Cristina.

Em um artigo publicado no “Daily Mail”, Lisa Watson, ex-diretora do jornal “Penguin News”, de Port Stanley, capital das ilhas, definiu a Argentina como “o vizinho do Inferno” e ressaltou que os habitantes das Malvinas chamam Cristina Kirchner de “a velha cara de plástico”, em alusão às cirurgias estéticas e as aplicações de botox supostamente realizadas pela presidente argentina.

BLOQUEIO – O analista de geopolítica Claudio Fantini, autor do livro “Os deuses da guerra”, afirmou ao Estado que a medida da presidente Cristina “não se trata de um bloqueio naval”, mas sim, “uma política de complicar a exploração que a Grã-Bretanha pretende fazer sem consultar previamente a Argentina. Esta é a mínima reação que o governo argentino deve ter com a Grã-Bretanha”.

Fantini ressalta que a medida produziria maior efeito se ela fosse acompanhada por decisões similares por parte do Uruguai e o Chile: “se esses dois países tampouco emprestassem seus portos, complicaria as coisas para a Grã-Bretanha”.

O analista não acredita que a eventual descoberta de petróleo levaria os kelpers a aspirar a independência da Grã-Bretanha. “Mas, se isso acontecesse, complicaria tudo para a Argentina”, afirma.

No entanto, o sociólogo Vicente Palermo, autor de “Sal nas feridas”, sobre a Guerra das Malvinas, ressaltou ao Estado que a política “teimosa” do governo e a “cega obsessão de recuperar as ilhas” acaba “reforçando a desconfiança dos kelpers” com a Argentina e complicam a reaproximação com as ilhas.

VÍNCULOS – Antes da guerra de 1982, o vínculo entre o arquipélago e a Argentina era intenso. As ilhas eram abastecidas com gasolina da estatal argentina YPF, jovens kelpers tinham bolsas de estudo para fazer o segundo grau em Buenos Aires, La Plata ou na cidade patagônia de Comodoro Rivadavia.

Além disso, em casos graves de saúde, os kelpers transportavam-se até o continente por via aérea para submeter-se a cirurgias em hospitais argentinos.

No entanto, o conflito bélico criou desconfianças dos kelpers em relação aos argentinos. Simultaneamente, os diversos governos em Buenos Aires desde o fim da guerra fizeram o possível para causar restrições ao abastecimento das ilhas.

“A Argentina possui poucos meios de ação perante esta situação”, declarou o analista geopolítico Jorge Castro. O vice-chanceler Victorio Tacetti também indicou que seria necessário paciência: “nós, argentinos, temos que nos acostumar a pensar a longo prazo. Não podemos esperar ter resultados amanhã ou daqui a dois dias”.

O francês conde de Bougainville fundou o primeiro vilarejo nas 'Malouines'

O francês conde de Bougainville fundou o primeiro vilarejo nas 'Malouines'

QUEM VIU, QUEM BATIZOU, QUEM COLONIZOU, QUEM TOMOU POSSE, QUEM CONQUISTOU:

1520 – O espanhol Esteban Gómez, capitão de um dos navios da frota de Fernão de Magalhães, vê de longe umas ilhas que poderiam ser as Malvinas.

1592 – O inglês John Davis, capitão do Desire, realiza uma suposta observação das ilhas.

1598 – O navegante holandês Sebald van Weerdt avista as ilhas (é a primeira observação confirmada do arquipélago).

1690 – Primeiro desembarque nas ilhas, realizado pelo inglês John Strong, que as batiza de Falklands, em homenagem ao sobrenome do patrocinador de sua expedição.

1763 – Franceses do porto de Saint-Malo, comandados pelo conde de Bougainville, desembarcam nas ilhas e as denominam “Malouines”. Um ano depois, estabelecem uma colônia. Fundam o vilarejo de Port Louis.

1765 – Do outro lado das ilhas, os britânicos também se instalam. 

1767 – Os franceses fazem um acordo com a Espanha e deixam as ilhas

1769-1790 – Inglaterra e Espanha disputam as ilhas. Os ingleses decidem partir

1811 – No meio das lutas de independência na América do Sul, os espanhóis partem e abandonam as ilhas, que ficam totalmente abandonadas durante quase uma década.

1820 – Buenos Aires envia um mercenário dos EUA reocupar as ilhas em nome do novo governo independente. Mas, a ocupação das ilhas, na prática, só começou em 1827, quando Buenos Aires enviou colonos. A anteriormente francesa Port Louis é rebatizada como Puerto Soledad.

1833 – Um navio britânico, a fragata Clio, expulsa os argentinos. A Grã-Bretanha coloniza as ilhas com escoceses, galeses e irlandeses. Puerto Soledad transforma-se em “Puerto Stanley”.

1966 – O grupo nacionalista argentino sequestra um DC4, pousa nas Malvinas e declara a reconquista das ilhas. O grupo é imediatamente desarmado pelas autoridades britânicas

1982 – No dia 2 de abril, tropas argentinas desembarcam por ordem do ditador Leopoldo Galtieri nas ilhas. No primeiro dia Galtieri rebatiza Port Stanley de Puerto Soledad, o nome original do vilarejo. No segundo dia muda de ideia e o re-re-batiza de Puerto Rivero. No terceiro dia, mais uma vez muda de ideia e re-re-re-batiza o aglomerado urbano de Puerto Argentino.
Mas, as forças argentinas – basicamente compostas por recrutas do serviço militar, sem equipamento adequado para a guerra no frio – são derrotadas pelas tropas enviadas pela primeira-ministra britânica Margareth Thatcher.
No dia 14 de junho, o general Menéndez, assina a rendição das forças argentinas.
Diversas denúncias feitas por ex-combatentes ao longo de 2007 e 2008 indicaram que oficiais argentinos, que haviam participado da repressão no continente durante a Ditadura, aplicaram torturas em seus próprios soldados durante a Guerra das Malvinas. Uma das modalidades era o ‘estacamiento’, isto é, amarrar com estacas um soldado sobre o solo gelado, e deixá-lo ali durante um dia inteiro.

1989 – Carlos Menem toma posse da presidência da República prometendo reconquistas as Malvinas “a ferro e fogo”. Logo depois, muda de ideia começa a “política de sedução”, uma forma sutil de aproximar-se da Grã-Bretanha, sem declarações de agressividade.

1995 a 1999 – A “política de sedução” inclui o envio de bichinhos de pelúcia da Argentina para os 3 mil habitantes das ilhas e vídeos de desenhos animados que inspirem, segundo o chanceler Guido Di Tella, “os valores da amizade”. Os kelpers enviam os bichos de pelúcia e os vídeos às crianças órfãs da guerra da Bósnia.

1999 – Depois de 17 anos de proibição, Londres permite que argentinos possam visitar as ilhas.

2007 – O presidente Néstor Kirchner lança ofensiva diplomática e comercial agressiva para reaver as Malvinas.

2009 – Crise diplomática retorna com inicio das explorações petrolíferas realizadas por empresas britânicas nas Malvinas. 

ESTATÍSTICAS DA GUERRA

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Ditador LF Galtieri, conhecido por seu intenso approach ao scotch

Duração do conflito bélico: 74 dias (dos quais 33 dias de combate em terra)
Argentinos mortos em combate: 649
Feridos argentinos: 1.068
Prisioneiros argentinos: 11.313 

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Britânicos mortos em combate: 258
Feridos britânicos: 777
Prisioneiros britânicos: 59

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Kelpers mortos durante os combates: 3 (morreram nos últimos dias da guerra por causa de bombardeios britânicos a Port Stanley)

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– 40% das cirurgias realizadas pelos médicos britânicos durante a guerra foram feitas em soldados argentinos.

 SUICÍDIOS
Os centros de veteranos indicam que desde o fim da guerra, mais de 450 ex-soldados suicidaram-se por estarem mergulhados em profundo estado de depressão.
Esse número é superior ao de soldados mortos em batalhas nas ilhas, que foram um total de 326; outros 323 morreram quando um submarino britânico torpedeou o cruzador General Belgrano.

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