16 anos de investigações sobre 6.500 toneladas de armas contrabandeadas, 3 anos de julgamento oral e público, 18 acusados, 384 testemunhas, vários mortos e “suicidados”. E nenhum culpado (o escândalo do contrabando de armas e Menem)
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16 anos de investigações sobre 6.500 toneladas de armas contrabandeadas, 3 anos de julgamento oral e público, 18 acusados, 384 testemunhas, vários mortos e “suicidados”. E nenhum culpado (o escândalo do contrabando de armas e Menem)

arielpalacios

14 Setembro 2011 | 23h30

Menem era acusado de contrabandear 6.500 toneladas de canhões, fuzis e munição. E de estar por trás da explosão de um arsenal. E de ter recebido propinas. Ficou livre.

 Nesta terça-feira no final da tarde o ex-presidente Carlos Menem sorria placidamente. Sentado na sala dos tribunais do bairro de Retiro,em Buenos Aires,“El Turco”, como é conhecido popularmente, aguardava a sentença do tribunal sobre as acusações de ter realizado contrabando de armas para a Croácia e o Equador entre 1991 e 1994 (canhões, fuzis, foguetes anti-tanques e munições).

O ex-presidente, de 81 anos parecia confiante de que seu futuro não seria na prisão, mas sim, em liberdade. Minutos depois, o sorriso de Menem ampliou-se discretamente. O tribunal havia anunciado que o considerava inocente.

“El Turco” levantou a sobrancelha esquerda, em sinal aparente de “eu sabia que tudo ia dar certo” e recebeu os cumprimentos das pessoas que estavam sentadas a seu lado.

Desta forma – apesar de todo o material que comprovava a existência do contrabando de armas, do pagamento de propinas e da origem proposital da explosão na cidade cordobesa de Rio Terceiro, que arrasou a Fabricaciones Militares – encerrava-se um dos maiores escândalos de corrupção da História da Argentina. Também foram comprovadas as transferências irregulares de dezenas de milhões de dólares por intermédio do Banco Montevideo e do Exterbanca, além do desembarque e utilização do armamento contrabandeado na Croácia e no Equador.

O tribunal aceitava como verdadeiras todas as provas. No entanto, não encontrou os culpados. Todos os 18 acusados foram declarados inocentes.

O promotor Mariano Borinsky estava estupefato: “não consigo entender de onde saiu esta sentença! Por acaso estive em outro julgamento e não percebi? Sei que podem existir nuances nas sentenças de um tribunal… mas isto aqui foi um abismo. Jamais vi algo assim em toda minha vida!”

Dos três juízes do tribunal que julgou Menem, dois votaram a favor de sua absolvição. Coincidentemente, os dois juízes que favoreceram Menem foram designados no último ano e meio pela presidente Cristina Kirchner (mais detalhes sobre essa peculiaridade, aqui).

Os juízes anunciaram que os fundamentos da decisão do tribunal somente serão divulgados daqui a 40 dias úteis. Isto é, logo depois das eleições presidenciais do dia 23 de outubro.

A deputada da oposição Margarita Stolbitzer emitiu uma observação irônica: “na hora em que Menem tornou-se kirchnerista, a Justiça o absolveu…”

Os envios de armas – um total de 6.500 toneladas remetidas em dez remessas confirmadas (suspeita-se que podem ter ocorrido remessas ainda não descobertas) – foram realizados entre 1991 e1995. A estimativa é que o Estado argentino teve um prejuízo de mais de US$ 180 milhões com o contrabando das armas. As armas foram vendidas de forma clandestina para a Croácia e o Equador.

Um total de 384 testemunhas foram convocadas para prestar depoimento sobre o caso. Esta também foi a primeira vez que um ex-presidente eleito democráticamente passou por um julgamento oral e público neste país.

Na maior parte das sessões Menem evitou comparecer ao julgamento “por problemas de saúde”.

ESCÂNDALO – O escândalo veio à tona quando militares equatorianos reclamaram que as munições e fuzis enviadas pelos argentinos não funcionavam. Na época, o Equador estava em guerra com o Peru pela disputa da Cordilheira do Cóndor.

A Argentina não podia vender armas ao Equador, sequer ao Peru, já que era um dos avalistas do acordo de paz assinado entre ambos países em 1942. No caso da Croácia,a Argentina tampouco podia vender armas a esse país, pois estava sob embargo estipulado pela ONU durante a Guerra dos Bálcãs.

Menem, que assinou os decretos, alega que não leu o conteúdo dos documentos de venda secreta no qual colocou a rubrica. No entanto, diversas testemunhas sustentam que – além de ter assinado – Menem sabia de tudo. De quebra, também estava envolvido Emir Yoma, que ainda era seu cunhado (a fa

Em 2001 – um ano e meio depois do fim do governo Menem – ojuiz federal Jorge Urso processou o ex-presidente e o colocou em prisão domiciliar, por considerá-lo chefe de uma “máfia” que havia protagonizado o maior caso de contrabando de canhões, fuzis, foguetes anti-tanques e munições registrado na História argentina.

Cinco meses e meio depois a Corte Suprema (dentro da qual Menem contava com juízes que haviam declarado publicamente sua amizade com o ex-presidente), no meiode grande polêmica, colocou “El Turco” – como Menem era chamado popularmente – em liberdade.

Mas, em 2007 ele foi novamente processado. Em outubro de 2008 começou o julgamento oral e público do ex-presidente e de outros 17 envolvidos.

Nos últimos anos o status de parlamentar propiciava a Menem a imunidade para evitar que, se condenado, fosse enviado à prisão cumprir uma pena que poderia irde 8 a 32 anos de cadeia. Ele só poderia ser preso se o Senado suspendesse sua imunidade.

EX-INIMIGO FAVORECIDO – Analistas consideram que Menem – antigamente “inimigo” do governo e atualmente seu aliado – conseguiu um pacto com a administração Kirchner para que, em troca do voto crucial de “El Turco” no Senado, a Casa Rosada pressionasse os juízes para “aliviar a barra” do ex-presidente.

Coincidentemente, o governo Kirchner, que costuma pronunciar-se sobre qualquer tipo de casos na Justiça, desta vez optou por um peculiar silêncio.

DO CREPÚSCULO AO VOTO CRUCIAL – Menem, até 2009, estava em seu crepúsculo político. Em seu antigo feudo, sua província natal de La Rioja, só possuía a fidelidade de um único prefeito. Na esfera parlamentar, apenas contava com o respaldo de dois deputados (um deles, seu sobrinho), além dele próprio, que é senador.

Mas, naquele ano deixou de ser o arqui-inimigo dapresidente Cristina Kirchner e do ex-presidente NéstorKirchner para transformar-se inesperadamente em seu principal aliado no Senado.

Menem começou favorecendo o governo com sua abstenção na votação na qual a oposição pretendia rejeitar a indicação da nova presidente do Banco Central, Mercedes Marcó del Pont, amiga dapresidente Cristina e heterodoxa economista favorável à intervenção estatal.

Menem, um ortodoxo neo-liberal e integrante da direita do partido peronista (Justicialista), absteve-se de votar, colocando à pique a tentativa dos partidos da oposição de forçar à saída da favorita do governo de seu posto no BC. Esse foi o primeiro dos favoresde Menem ao governo Kirchner.

Desde dezembro de 2009, até a guinada de Menem em fevereiro de 2010, o governo estava em minoria no Parlamento, fato que criava um cenário de fragilidade para o casal Kirchner, que desde 2003 havia desfrutado de hegemonia.

Com a ausência (ou abstenção) do ex-presidente, a oposição corre o risco de derrotas constantes na câmara alta.

Os analistas indicam que Menem, assolado por vários processos na Justiça, teria pactuado com os Kirchners a redução das pressões do governo na Justiça para levar o ex-presidente ao banco dos réus em troca de sua abstenção ou ausência no Senado. No novo mapa de ajustado poder no Senado, o votode Menem passouaser altamente cotado.

Desde o início deste ano Menem declarou várias vezes que Cristina Kirchner era “a melhor presidente da História da Argentina”. O governador de La Rioja, Beder Herrera, um kirchnerista, declarou seu respaldo a Menem. Idem a principal candidata dapresidente Cristina à Câmara de Deputados. Para manter as aparências, a candidatura de Menem é “por fora”. Mas, a estrutura do kirchnerismo na província trabalha ativamente pela eleição de “El Turco”.

ALGUNS DETALHES:

1 – UM PECULIAR “SUICIDADO”: O CAPITÃO CONTORCIONISTA

A cena poderia ter sido a dos primeiros minutos de qualquer thriller: Uma tranquila manhã na área central de Buenos Aires. A diarista abre a porta do apartamento de seu patrão para mais um dia de limpeza. Apesar de diversas tentativas, a porta não abre. Está fechada com chave, por dentro.A empregada toca a campainha diversas vezes. Desce à rua e chama o patrão pelo telefone público. Ninguém atende. Ela volta como serralheiro, que consegue abrir a porta. A empregada entra, e vê seu patrão – um homem envolvido no tráfico internacional de armas – morto, com um tiro na cabeça. Na sua mão direita, o revólver com o qual se suicidou.

Suicídio? O revólver estava na mão esquerda, mas o capitão-de-navio da reserva Horacio Pedro Estrada, 65 anos, era destro, e não canhoto. Poderia ser a cena de um thriller, mas foi apenas mais um capítulo na complexa trama do escândalo de vendas ilegal de armas da Argentina ao Equador e a Croácia.

Estrada, que fora o encarregado da supervisão do envio das armas à cidade equatoriana de Guayaquil, havia negado comparecer à Justiça. No entanto, o militar havia enviado uma declaração escrita onde admitia sua participação na operação, embora negasse ser o responsável.

Já voltaremos ao capitão Estrada…

Canhão Oto Melara: vários exemplares deste canhão foram enviados da Argentina para a Croácia de forma ilegal.

2 – O ESCÂNDALO DAS ARMAS

A trama começou em 1991 e continuou até 1995, quandoMenem e váriosministros assinaram três decretos presidenciais que autorizavam vendas de armas ao Panamá e à Venezuela.

As armas paraa Venezuela nunca chegaram lá: foram parar na Croácia, país que no meio da Guerra da Ex-Iugoslávia estava sob embargo de armas da ONU. Para complicar, a Argentina participavada missão de paz da ONU na área.

Foram enviadas ao território croata 6.500 toneladas de armas e munições, que incluíram pelo menos 18 canhões Citer de155 milímetros.

E as armas oficialmente vendidas ao Panamá, tampouco chegaram a esse país no istmo americano. Na verdade, o carregamento foi desembarcado no Equador: um total de 5 mil fuzis FAL e 75 toneladas de munições.

O Equador estava em guerra com o Peru pela Cordilheira do Cóndor. Paralelamente,a Argentina era desde 1940, avalista do tratado de Paz entre os dois países. Menem foi criticado pela estranha decisão de ter assinado um decreto de venda de armas ao Panamá, já que desde a invasão norte-americana de 1989, o país não possui forças armadas. De quebra, o Peru havia sido um histórico aliado da Argentina desde os tempos da independência. E além disso, o Peru havia oferecido ajuda (aviões) à Argentina durante a Guerra das Malvinas (1982).

Em 1994, Luis Sarlenga, o interventor da empresa estatal de material bélico da Argentina, a “Fabricaciones Militares”, determinou que o envio clandestino seria feito com armas em uso pelo exército. Esta foi a falha que tornou público o envio ilegal: os equatorianos receberam material defeituoso, e reclamaram, ameaçando processar o Estado argentino.

Com a denúncia pública sobre o envio ilegal das armas, começou uma crise política que foi paliada momentaneamente pela renúncia de vários ministros. Na sequência, a Justiça pediu à Interpol a captura internacional do tenente-coronel Diego Palleros, que agiu como intermediário dos envios de armas, utilizando empresas uruguaias como fachadas.

Palleros foi preso na África do Sul, onde disse que Menem sabia do destino real dos envios de armas e ameaçou contar “tudo o que sabia”. Um mês depois, ocapitão Estrada, sócio de Palleros, foi convocado pela Justiça em Buenos Aires.

Quatro dias mais tarde, Palleros foi solto pela Justiça sul-africana, que simultaneamente recusou o pedido de extradição feito pela Argentina. No mesmo dia, Estrada apareceu morto. A estranha morte de Estrada foi interpretada como um “sinal” a Palleros, para que este não continuasse falando.

Cogumelo criado pela explosão de Río Tercero

3 – EXPLOSÃO E “ACIDENTES” – Após a revelação do escândalo do contrabando, em 1995, uma explosão destruiu grande parte da fábrica militar de Rio Tercero. A chuva de estilhaços e as granadas espalhadas por toda a cidade e arrasou os bairros vizinhos à fábrica.

A explosão causou a morte de sete pessoas e ferimentos em outras 300, além da evacuação de 19 mil habitantes de Río Tercero e prejuízos de US$ 25 milhões.

Os promotores do julgamento de Menem puderam provar que a explosão foi proposital, destinada ao encobrimento da ausência de armas e pólvora que havia sido contrabandeada para o Equador e a Croácia.

No entanto, a seqüência de mortes não parou com a explosão de Rio Tercero: um ano depois, em 1996, o helicóptero onde viajava o general Juan Andreoli, diretor da Fabricaciones Militares,  espatifou-se ao tentar um pouso de emergência no Campo de Pólo no bairro de Palermo.

O aparelho tentou um um pouso forçado na pista de pólo da região, mas espatifou-se e todos as dez pessoas que nele viajavam faleceram na hora.

No helicóptero também estava o coronel Rodolfo Aguilar, que havia sido convocado como testemunha no processo sobre a venda ilegal de armas. Além deles, no acidente morreu uma cunhada do general Martín Balza, chefe do Estado-Maior do Exército.

Em 1997, duas testemunhas de irregularidades na venda de armas –CarlosAlberto Alonso(encarregado dos controles da Alfândega) e Vicente Bruzza (operário da fábrica militar de Río Tercero que havia denunciado uma ‘maquiagem’ no registro das armas) morreram na mesma semana de estranhos ataques cardíacos.

Na mesma época, faleceu de um derrame cerebral Francisco Callejas, técnico das Fabricações Militares, que havia ido à Croácia para calibrar os canhões (que deveriam ter sido enviados para a Venezuela.

Outro “suicídio”, com um tiro a um metro de distância (!), do banqueiro Mario Perel, envolvido nesse escândalo ( em outros) também marcou os anos 90. Perel teria “falado demais”com deputados da oposição que estavam investigando lavagem de dinheiro e o escândalo das armas.

Mais uma morte sui generis: o da ex-secretária de Emir Yoma, Lourdes di Natale, pouco depois de prestar 12 horas de depoimento. Lourdes, afirma a Polícia, tentou cortar com uma faca sem dentes um cabo de Tv que pendia a maisde 2 metros da janela de seu edifício em Buenos Aires. Resultado: caiu dezenas de metros e morreu ao encontrar-se com o chão.

E finalmente, a morte do capitão Estrada.

4 – SUICÍDIO PECULIAR

As estranhas circunstâncias da morte de Estrada fizeram que a Justiça rotulasse o processo de investigação como “averiguação de suicídio”.

Estrada apareceu morto sentado, com o torso sobre sua escrivaninha, em cima da qual havia um revólver9 milímetros.

Mas essa não era a arma que havia provocado sua morte: o tiro havia sido disparado do revólver calibre 3.80 que estava caído no chão.

Outro ponto que aumentou as suspeitas foi a trajetória que a bala fez na cabeçade Estrada: o tiro foi dado ao lado da orelha esquerda,  perto da nuca, de trás para a frente, e de baixo para cima.

O tiro, feito do lado esquerdo, pareceu mais estranho quando se soube que Estrada não era canhoto. Os conhecidos e amigosde Estradadestacaram que o defunto militar não era “acrobata” ou “contorcionista” para implementar um suicídio com tal esforço de flexibilidade muscular.

Além disso, as duas mãos de Estrada estavam borrifadas de sangue, o que demonstraria que o militar havia disparado a arma com as duas mãos. Uma posição muito incômoda para quem vai se suicidar.

As suspeitas de que Estrada não se matou aumentaram mais pela falta de rastros de pólvora nas mãos, uma evidência que quase nunca falta em quem dispara uma arma.

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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