A ária operística que virou hino da bandeira argentina
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A ária operística que virou hino da bandeira argentina

arielpalacios

19 de junho de 2012 | 23h34

Héctor Panizza, o compositor da ópera “Aurora”. Uma ária desta peça transformou-se no Hino da Bandeira argentino. Nesta 4afeira, dia 20 de junho, dia da morte de Manuel Belgrano,  criador da bandeira, a Argentina celebra o “dia da bandeira”. E tiramos o chapéu para Panizza, criador de uma bela ária.

A ópera “Aurora” foi encomendada pelo governo da Argentina para embalar a primeira temporada do Teatro Colón, inaugurado em 1908. Esta obra, do compositor argentino Héctor Pannizza (filho de imigrantes italianos), era cantada originalmente em italiano, com libreto do italiano Luigi Illica (que havia sido o supimpa autor dos libretos das óperas La Bohème e Madame Butterfly, de Giacomo Puccini).

O argentino Héctor Cipriano Quesada trabalhou com Illica para dar ao italiano o background histórico-social-cultural necessário para escrever o libreto que transcorria na Argentina dos tempos da Revolução de Mayo de 1810.

A ópera foi encomendada com o objetivo de ressaltar os ideais patrióticos para as celebrações do centenário da Revolução de Mayo, que seriam em 1910. A canção é um poema às cores da bandeira: azul-celeste, branco e azul-celeste. E o sol no meio.

TRAMA ÉPICA – O protagonista da trama da ópera é o patriota argentino Mariano. O jovem, que sonha com a independência do lugar onde nasceu, está apaixonado por Aurora, filha de Don Ignácio de la Puente, líder dos espanhóis que controlavam a cidade de Córdoba, antes da independência do país. “Em Buenos Aires está içado um estandarte rebelde e indigno”, vocifera De la Puente, que promete que afogará os rebeldes – tal como frangos ao molho pardo – “em seu próprio sangue”.

A trama transcorre em boa parte no mosteiro da Companhia de Jesus nessa cidade no centro da Argentina. Buenos Aires, na ópera, já está em plena revolução. Enquanto isso, os espanhóis ainda controlam Córdoba.

A ópera, em ritmo épico, é embalada por várias idas e vindas, incluindo as dúvidas de Mariano sobre apaixonar-se pela filha de um inimigo ou deixar o amor de lado e dedicar-se à revolução. Tudo isso, junto com a prisão do patriota supracitado, acusado de espionagem pelos ibéricos colonizadores. De la Puente não se sensibiliza pela paixão de sua filha por Mariano. “Antes de ser pai, sou soldado”, vocifera mais uma vez, deixando claro que sua filha jamais casará com Mariano, o qual pretende fuzilar no dia seguinte.

Mas, o casal consegue fugir. No entanto, aí vem o trágico desenlace: durante a fuga no meio da madrugada, ela é atingida por uma bala espanhola.

Aurora, deitada no chão, se esvai em sangue, enquanto vê a aurora do dia. Aí, diz: “olhai…é a aurora. Deus escreve no céu com o sol…e na terra, com o sangue”.

E – como era de se esperar – Aurora morre nos braços de Mariano. Logo no dia da vitória patriota.

É uma bela ópera. E dá para deixar de lado alguns erros crassos, como o fato de que os jesuítas – que na obra ajudam Mariano – haviam sido enxotados pela coroa espanhola no século anterior…e a bandeira argentina, que aparece como protagonista não-humana da ópera, só foi criada dois anos depois da Revolução de Mayo, em 1812. Mas, enfim, é a licença poética.

A ÁRIA QUE VIROU HINO – A estreia, com grande sucesso, ocorreu no dia 5 de setembro de 1908. Mas, a ópera Aurora só foi traduzida em 1943. Integrantes do governo gostaram da ária “Alta no céu” – também conhecida como “Canção da bandeira” – e decidiram – por decreto que seria o hino da bandeira.

A nova versão, espanholizada, debutou no dia 9 de julho de 1945. O presidente de plantão, o general Edelmiro Farrell, perdeu a pose de caserna e aplaudiu freneticamente.

O “Saludo a la bandera” (Saudação à bandeira) é cantado todas as manhãs pelas crianças nas escolas do primeiro grau.

TEXTO

O texto italiano original era este:

Alta pel cielo, un’aquila guerriera,

ardita s’erge in volo trionfale.

Ha un’ala azzurra, del color del mare,

ha un’ala azzurra, del color del cielo.

Così nell’alta aurora irradiale,

il rostro d’or punta di freccia appare,

porpora il teso collo e forma stelo,

l’ali son drappo e l’aquila è bandiera.

È la bandiera del Paese mio,

nata dal sole; e ce l’ha data Iddio!

E a versão em espanhol (com vários erros perdoados por licença poética):

Alta en el cielo un aguila guerrera,

audaz se eleva a vuelo triunfal;

azul un ala del color del cielo,

azul un ala del color del mar.

Así en la alta aurora irradial,

punta de flecha el áureo rostro imita,

y forma estela al purpurado cuello.

El ala es paño, el águila es bandera.

Es la bandera de la patria mía,

del sol nacida, que me ha dado Dios;

es la bandera de la patria mía,

del sol nacida, que me ha dado Dios;

es la bandera de la patria mía,

del sol nacida que me ha dado Dios.

 E aqui, algumas interpretações da ária mais famosa de “Aurora”:

A versão original com o tenor que a estreou, Amadeo Bassi


 
Aqui, a versão com o tenor argentino Dario Volonté, no teatro Colón:

E esta, com o genial tenor argentino José Cura, em uma apresentação em Praga

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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