A interrupção de um jogo de xadrez e o ‘Nuevo Periodismo’
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A interrupção de um jogo de xadrez e o ‘Nuevo Periodismo’

arielpalacios

22 de agosto de 2010 | 17h22

 chess

O jornalista argentino Rodolfo Walsh jogava placidamente xadrez quando uma informação interrompeu seu jogo, mudando a História do jornalismo argentino. Walsh, que  é um  marco no jornalismo investigativo argentino, poderá ser lido a partir do final de setembro pelos brasileiros graças ao lançamento no Brasil, pela primeira vez, dos livros “Operação Massacre”(Companhia das Letras)  e “Essa mulher e outros contos” (Editora 34).

blog1dedo2bNo final do ano de 1956 Rodolfo Walsh estava jogando xadrez em um café na cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires. Naquele bar – afirmaria tempos depois o próprio Walsh – falava-se mais nos enxadrista Paul Keres e Aron Nimzovitch do que sobre o general Pedro Aramburu ou o almirante Isaac Rojas – autores do golpe militar contra o presidente Juan Domingo Perón um ano antes – e a única manobra militar que tinha alguma fama no recinto era o “ataque baioneta” de Carl Schlechter na abertura siciliana, uma modalidade no tabuleiro de xadrez. Mas, inesperadamente, quando todos estavam concentrados nas jogadas, um dos habitués disparou uma informação lacônica: “há um fuzilado que está vivo”.

O vivo que deveria estar morto era uma das pessoas fuziladas de forma clandestina (e sem julgamento prévio) em junho daquele ano no lixão de León Suárez, um município da Grande Buenos Aires. Ali, dezenas de militares e civis peronistas – liderados pelos generais Juan José Valle e Raúl Tanco na fracassada rebelião contra o governo militar – haviam sido massacrados. No entanto, alguns deles – embora gravemente feridos – haviam sobrevivido e estavam escondidos.

Nunca antes uma interrupção em um jogo de xadrez teve tal repercussão para a História do jornalismo argentino. Walsh deixou os peões e o rei de lado e investigou os massacres.

As detalhadas reportagens, que tiveram grande impacto na opinião pública e desacreditaram os militares envolvidos no massacre, foram publicadas no jornal “Mayoría”. Na sequência, as matérias foram compiladas em formato de novela e publicadas como livro com o título de “Operação Massacre”. O subtítulo que Walsh colocou foi: “Um processo que não foi clausurado”.

A obra, que aplica procedimentos do gênero novela ao relato de fatos verdadeiros, antecipando em vários anos ao “New Journalism” (um dos marcos do Novo Jornalismo, ‘A sangue frio’, de Truman Capote, é de 1966) foi uma das primeiras novelas de “não-ficção” em castelhano. O estilo de Walsh, que já tinha vasta experiência no jornalismo policial, marcou gerações de jornalistas argentinos.

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Walsh nasceu em 1927 no vilarejo de Lamarque, no município de Choele Choel, província de Río Negro, Argentina. Ele morreu em março de 1977.

blog1dedo4cEm 1959 Walsh foi para Cuba, onde havia triunfado a revolução de Fidel Castro. Ali, entrou para a recém-criada agência de notícias “Prensa Latina”, da qual também participou o escritor colombiano e posterior Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez. No entanto, poucos anos depois Walsh retorna a seu país.

Em 1966 escreve o conto “Essa mulher”. O relato, que tem como epicentro o cadáver embalsamado da mítica Evita Perón (sem citá-la, no entanto), é uma conversa entre o jornalista e um coronel que está por trás do sequestro do corpo da “mãe dos pobres”.

Em 1970 Walsh começa sua atividade política de resistência aos governos militares junto com a organização guerrilheira cristã-nacionalista “Montoneros”. Seu nome de guerra tinha um toque irônico, “Professor Neurus”, em alusão ao desenho animado de mesmo nome, um cientista maluco que utilizava óculos de grossas lentes como ele.

Com o início da última ditadura, iniciada em 1976, Walsh criou uma rede de informação que operava de forma secreta, a Agência de Notícias Clandestina (Ancla). No dia 25 de março de 1977 Walsh colocou nas caixas de correio na área do Congresso Nacional os envelopes que continham sua “Carta aberta de um escritor à Junta Militar”, enviada às principais redações do país, na qual denunciava os assassinatos de milhares de civis e a criação de campos clandestinos de detenção e tortura.

Walsh estava na esquina das avenidas San Juan e Entre Ríos quando um grupo de militares da Escola de Mecânica da Armada (Esma), o maior centro de torturas da capital argentina, controlado pela Marinha, o encontrou. Um dos oficiais, posteriormente relatou: “acabamos com Walsh. O filho da p… se entrincheirou atrás de uma árvore e se defendia com uma 22. O c… com tiros, mas o filho da p-…não caía!”.

Outros relatos indicam que Walsh – à beira da morte, sangrando abundantemente, com o tórax quase partido pelos tiros – foi colocado dentro da viatura militar e levado à Esma. Seu corpo nunca foi encontrado.

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Credencial de jornalista de Rodolfo Walsh

blog1dedo4cO escritor Osvaldo Bayer, autor do prólogo que a edições argentinas de “Operação Massacre” tiveram após a ditadura, afirmou que Walsh “teve um compromisso (político) e o levou até o final”.

“Ele me disse que estava orgulhoso de ser combatente, pouco antes de morrer”, relatou há poucos anos a filha do jornalista, Patricia Walsh, ex-deputada de esquerda.

Em outubro de 2006 doze militares acusados de envolvimento na morte de Walsh foram detidos. Os oficiais estão atualmente sendo julgados pelo assassinato do jornalista.

blog1vinheta62 Aqui, um link com um trecho do filme “La Hora de los Hornos”, do então jovem diretor Fernando ‘Pino’ Solanas. Nesse trecho está o depoimento de um dos sobreviventes dos fuzilamentos de León Suárez, uns anos depois da publicação do livro de Walsh. O link, aqui.

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“Os jogadores de xadrez”. Quadro de Honoré Daumier (1808-18079). Está no museu do Petit-Palais, Paris.

blog1vinheta71ESTILO – O jornalista Rogelio García Lupo – amigo de adolescência, companheiro de militância política na juventude e colega de trabalho de Walsh em Cuba e na Argentina – afirmou ao Estado que seu falecido amigo destaca-se mais de três décadas após sua morte “pela qualidade do texto…e essa é a marca do autor”. García Lupo, de 79 anos, sustenta que “a qualidade estilística de Walsh permanece apesar do tempo transcorrido”.

García Lupo e Walsh divergiam sobre a implementação da revolução à moda cubana na Argentina. “A analogia com nosso país era um erro grave. Isso era um suicídio, e ficou demonstrado. Mas, enfim, eram decisões pessoais”, diz e suspira em sinal de lamento pelo amigo falecido.

“Meses antes de sua morte havíamos perdido contato. Ele o fez por razões de segurança para mim, já que eu não estava implicado com a aventura da guerrilha de montoneros. De vez em quando eu recebia alguma mensagem dele. Fiquei sabendo de seu assassinato uns dias ou semanas depois que havia ocorrido”. 

blog1vinheta71DISFARCE E VERDADE – “O estilo preciso de Walsh fica claro em seu derradeiro texto, o ‘Carta aberta à Junta Militar’ ”, afirma ao Estado o jornalista Carlos Ulanowsky, autor de diversos livros sobre a História do jornalismo argentino, entre eles, o “Parem as rotativas”.

A “carta aberta” inclui uma longa lista dos crimes contra a Humanidade cometidos pela ditadura militar em seu primeiro ano. “Não é panfletário. É um texto de uma densidade informativa impressionante”, afirma.

“A todos nós, jornalistas, nos ensinaram que era preciso trabalhar com a verdade, que esse era o capital principal do jornalismo. No entanto, Walsh, em diversas investigações, disfarçava-se, tal como o alemão Günter Wallraff, que escreveu ‘Cabeça de turco’, diz Ulanowsky.

“Ele não vacilava em ser outro para buscar a verdade. De fato, quando Walsh foi encontrado pelos militares que o assassinaram na rua, ele estava vestido como um ancião, como se tivesse 25 anos a mais…Tenho um grande respeito pela enorme valentia desse cara”.

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blog1anotacaostylus3DETALHES

Sobre o Novo Jornalismo, mais detalhes, aqui.

Sobre Wallraff, mais detalhes, aqui.

E sobre o livro de Wallraff, o “Ganz Unten”, ou “Cabeça de Turco” (nome do livro no Brasil), mais detalhes aqui.

Sobre um dos emblemas do Novo Jornalismo, o artigo “Frank Sinatra está resfriado”, alguns detalhes, aqui.

E aqui, para encerrar, uma entrevista publicada no jornal “El Pais”, de Madri, com o jornalista peruano Julio Villanueva Chang, fundador da revista “Etiqueta Negra”, amigo meu e pessoa com a qual as conversas sempre são saborosas. Aqui.

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O jogo de xadrez, de Charles Bargue (1825-1883)

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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