A “Manobra W.Rufus King” aplicada ao “Caso Chávez”
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A “Manobra W.Rufus King” aplicada ao “Caso Chávez”

arielpalacios

09 de janeiro de 2013 | 23h53

William Rufus Devane King: sua posse extraterritorial foi usada como justificativa por uma suprema corte de maioria chavista 

A presidente do Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela, Luisa Estela Morales, justificou nesta quarta-feira a sui generis situação do presidente Hugo R. Chávez, ausente de Caracas nesta quinta-feira dia 10 de janeiro para a posse de seu quarto mandato presidencial. Uma das justificativas é que Chávez foi “reeleito” e não “eleito”, e portanto, há uma continuidade do poder. E desta forma, não precisa estar presente agora ou nos próximos dias. Segundo ela, a posse poderá ser no futuro, quando Chávez possa.

A outra justificativa implicou em arquivar temporariamente as posições anti-americanas (pelo menos, na área discursiva) do chavismo para recorrer a um exemplo yankee para defender um eventual juramento do presidente Chávez no futuro fora da Venezuela (neste caso, perante os juízes do Supremo). Coincidentemente, neste caso, na ilha de Cuba.

“Nos Estados Unidos, por exemplo, poderíamos citar que há muito tempo um governante americano tomou posse fora de seu país, William King, o décimo-terceiro presidente americano William King”, disse a juíza.

No entanto, King não era presidente. Era o vice-presidente. O presidente era Franklin Pierce, que tomou posse normalmente em Washington.

Segundo a juíza, “sequer existe ausência temporária” de Chávez, que desde o dia 11 de dezembro está internado em um hospital em Havana.

WILLIAM KING – Em 1852 o Partido Democrata escolheu William Rufus King para ser o vice na chapa de Frankilin Pierce. A dupla venceu as eleições presidenciais de novembro daquele ano. Mas, os problemas pulmonares de King – que na campanha havia ficado evidentes – agravaram-se. Em dezembro foi descrito por amigos seus como um “esqueleto”. No fim do mês decidiu passar o inverno no clima tropical de Cuba para ver se podia recuperar sua abalada saúde.

Em fevereiro, já em Cuba, King percebeu que não conseguiria enfrentar a viagem até Washington para a posse do dia 4 de março.

O Congresso, informado do agravamento da saúde do vice eleito, tomou uma medida inédita – e jamais repetida – de aprovar uma lei especial, de exceção, que permitiria que King tomasse posse em solo estrangeiro, alegando que o veterano político havia prestado “importantes serviços à pátria”.

A decisão também tinha um quê de compaixão, afirmam historiadores, já que os integrantes do Congresso sabiam que King estava em estado terminal e nunca seria o vice.

Desta forma, King tornou-se a figura de maior hierarquia institucional na História dos EUA a prestar juramento em solo estrangeiro. Mais especificamente, foi em uma fazenda perto de Matanzas, nas proximidade de Havana. O vice não conseguia nem ficar em pé para o juramento.

King continuou piorando e partiu de Cuba rumo aos EUA, mais especificamente, Alabama. Desembarcou em Mobile e chegou a ao vilarejo de Selma no dia 17 de abril de 1853. King morreu um dia depois, aos 67 anos, em sua fazenda.

El Cid, morto, embora cavalgando o fiel Babieca, sai da fortaleza cercada para dar sopapos nos inimigos. Ou, pelo menos fazer de conta que está no comando do ataque ibérico. Neste caso, o que importa é o que parece ser.

MANOBRA EL CID – Segundo a teoria do Supremo venezuelano, sempre que a Assembléia Nacional renove a licença de saúde a Chávez, poderia teoricamente existir um cenário no qual ele poderia permanecer em licença ao longo dos próximos seis anos (isto é, permanecendo na UTI em Havana), disputar a eleição de 2019, e, no caso de ser reeleito, prescindir novamente da – digamos assim – “formalidade” da posse.

Essa eventual manobra, somada aos rumores de que o presidente Chávez poderia estar morto ou em coma (Ariel Sharon, em Israel, esteve em coma grande parte do tempo desde 2006, embora agora esteja em estado semi-vegetal) gera um clima de grande desconfiança, já que não aparece uma imagem pública do líder bolivariano desde o dia 11 de dezembro. De quebra, o governo não fornece detalhes sobre a doença. Os integrantes do gabinete nunca explicaram qual é tipo de câncer e onde está o tumor (ou tumores).

Desta forma, na internet e nas conversas entre os venezuelanos abundam alusões – de forma positiva ou de forma negativa – comparando Chávez a “El Cid”, o medieval super-guerreiro espanhol que morreu em Valência em 1099.

Uma lenda (tardia, surgida bem depois de sua morte) indica que seus aliados preferiram ocultar durante um tempo que El Cid havia partido para o além e colocaram seu cadáver sentado em cima de seu cavalo. Na sequência, o soltaram para colocar em pânico seus inimigos mouros. E, assim morto, ganhou sua última batalha.

Esta versão ficou definitivamente imortalizada no celulóide em “El Cid”, protagonizada por Charlton Heston e Sofia Loren (a atriz italiana está um pitéu neste clássico da Sétima Arte…bom, quando não esteve esplêndida?)

Aqui, a cena na qual El Cid é vestido com a armadura e colocado com barras de ferro firme em sua sela. E, finalmente Babieca – seu cavalo – sai cavalgando para fora dos muros da cidade, levando El Cid na frente de suas tropas, como se estivesse vivo.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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