Ego-cartografia: a primeira-dama que virou cidade
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Ego-cartografia: a primeira-dama que virou cidade

arielpalacios

28 de julho de 2009 | 03h00

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Ciudad Evita, culto à personalidade levado ao cartográfico extremo

Neste domingo completaram-se 57 anos da morte de Eva Maria Duarte de Perón, mais conhecida como “Evita” (também chamada como a “Mãe dos Pobres”, segundo os pobres; denominada de “Mãe Espiritual da Pátria” pelo governo peronista e referida como “aquella mujer” – aquela mulher – pelos setores da sociedade que não a apreciavam).

Evita, que morreu aos 33 anos com um câncer de útero após longa agonia, foi a segunda esposa de Juan Domingo Perón, três vezes presidente da Argentina (1946-52, 1952-55, 1973-74). Evita foi crucial no primeiro governo do marido, já que tornou-se uma super-garota propaganda da administração peronista, além de essencial mobilizadora das massas populares.

Nas últimas semanas de vida de Evita, a província de La Pampa – seguindo o culto à personalidade (uma das marcas do governo de Perón) – decidiu homenageá-la com a modificação do nome para “província Eva Perón”.

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Escudo da breve “Província Eva Perón”. Atrás das tocha, o perfil de Evita

Um ano antes a província do Chaco, no norte do país já havia mudado seu nome para “presidente Juan Domingo Perón”.

Evita também transformou-se em nome de cidade. A capital da província de Buenos Aires, La Plata, transformou-se em “Eva Perón” após sua morte. Após a queda de Perón, em 1955, derrubado por um golpe militar, voltou a ser La Plata.

Mas, antes de La Plata, já existia outra homenagem urbana à Mãe dos Pobres: Ciudad Evita.
Foi fundada em 1947, como um distrito dentro do município de La Matanza, na Grande Buenos Aires.

Mas, neste caso, o culto à personalidade foi mais além do nome, já que aplicou-se ao próprio traçado urbano. Isto é, Ciudad Evita, vista de cima, é uma reprodução do perfil de Eva Perón, incluindo seu tradicional coque).
Um exemplo de ego-cartografia. Talvez o único na América do Sul. Pelo menos, por enquanto.

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O mapa mostra o nariz, queixo (mentón) e coque (rodete) da 2a esposa de Perón

Alguns habitantes dessa peculiar cidade – criada para ser um bairro operário modelo – costumam explicar assim em que parte moram, trabalham ou fazem as mais diversas atividades:
– Eu moro no coque.
– Ah, eu moro do outro lado, na ponta do nariz.
– Pois é, minha tia Zoila trabalha perto de você, no queixo.
– Bom, vou no mercado.
– Qual, aquele que está no pescoço?

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Ciudad Evita, em close up

Ciudad Evita, que depois de fundada foi rebatizada sete vezes pelos diversos governos anti-peronistas e peronistas, voltou a ser definitivamente “Ciudad Evita” com a volta da democracia, em 1983.

A cidade que homenageia com nome e traçado urbano a falecida “Mãe dos Pobres” foi declarada Patrimônio Histórico Nacional em 1997. Seus pequenos chalés (com jardins sem muros ou cercas, ao estilo dos EUA), construídos para classe operária, serviram de inspiração para muitos bairros em todo o país. Mas, nas últimas décadas, perdeu muito de seu modesto encanto, pois tornou-se uma área que possui vários dos graves problemas sociais da Grande Buenos Aires.

Ciudad Evita possui 68.650 habitantes. Está entre o município de Ezeiza – onde localiza-se o aeroporto internacional – e a cidade de Buenos Aires. Para quem sai da capital e vai ao aeroporto, esse símbolo de ego-cartografia fica do lado direito (embora não encostado) da autoestrada Tenente General Pistarini.

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Mais uma vista de Ciudad Evita, desta vez pelo Google Earth. Marquei em vermelho as ‘fronteiras’ da cabeça de Eva M.D. de Perón

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Dois momentos diferentes de Evita.

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Neste primeiro, em 1941, muito antes do culto à personalidade (e vários anos antes de conhecer JD Perón), posando como modelo para a revista “Cine Argentino”, com o uniforme do Boca Juniors, ao lado de Bernardo Gandula, jogador argentino que esteve no Vasco dois anos antes desta foto, em 1939.
Gandula, conhecido pelo fair play, costumava pegar a bola quando esta saia do campo para devolvê-la aos jogadores.
Não existiam gandulas naquela época..daí a especulação de que a palavra ‘gandula’ no Brasil provém do sobrenome desse cavalheiro jogador argentino.

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Neste segundo, como a figura mítica do Peronismo, após sua morte.

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Para começar bem o dia, o tango “Decarisimo”, de Astor Piazzolla. Uma homenagem a Julio De Caro, um dos grandes tangueiros do Rio da Prata, que abriu para o tango novos horizontes nos anos 20.
Tal como Carlos Gardel, De Caro nasceu em em um dia 11 de dezembro. E por isso, o dia do tango – na Argentina – é celebrado nessa data.

A primeira versão, com o próprio Piazzolla.
O link do Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=aQitw1eG0fg

E esta segunda versão, com o dueto dissonAnce (Roberto Caberlotto and Gilberto Meneghin), durante uma apresentação em Perugia, Itália
O link:

hand…..E agora, que é de noite, esta versão de Chiqué, tango de Ricardo Luis Brignolo.
O link, com a orquestra Veritango, que reúne vários mestres de diversas gerações:

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