A privilegiada Santa Cruz e seus pingüins
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A privilegiada Santa Cruz e seus pingüins

arielpalacios

10 de agosto de 2011 | 10h21

 

A Patagônia no distante século XVI. Neste mapa que não está em posição norte-sul (aparece “deitado”), Tierra del Fuego está à esquerda, enquanto que Santa Cruz está à direita. Ali podemos ver a imagem de dois índios patagones, que, segundo a lenda, eram gigantescos, muito mais altos que os conquistadores europeus. Na realidade, a mítica altura dos índios patagones (na realidade, a outrora vasta tribo tehuelche), não passava de uma espécie de “superfaturamento” dos relatos dos viajantes que visitavam este recôndito pedaço do planeta. Meio milênio depois deste mapa, os superfaturamentos passaram a ser de outro tipo.

 província de Santa Cruz, feudo político do casal Kirchner há duas décadas, está sendo amplamente privilegiada com fundos especiais da presidência da República, segundo indicou um relatório do Instituto de Investigações sobre a Realidade Argentina e Latinoamericana (Ieral) da Fundação Mediterrânea. A instituição, com base em números oficiais, sustenta que a província de Santa Cruz recebeu desde 2003 (ano em que Nestor Kirchner foi eleito presidente) até 2010 fundos para obras públicas com um volume equivalente a 20.893 pesos (US$ 5.071) por cada habitante.

Desta forma, o volume de dinheiro destinado a Santa Cruz é 32 vezes maior que os fundos para obras remetidos pela União à província de Buenos Aires, a maior da Argentina, que recebeu o equivalente a 644,40 pesos (US$ 156,40). O governo silencia sobre a ajuda fornecida à Santa Cruz, que, graças aos royalties pela exploração de gás e petróleo, além do turismo e dos subsídios estatais, conta com a maior renda per capita da Argentina, com US$ 32 mil por santacrucenho.

A província transformou-se no feudo político doex-presidente Kirchner em1991, quando foi eleito governador. Com sua morte, em outubro do ano passado, o controle da política local passou à viúva, apresidente Cristina Kirchner.

Geograficamente, a província de Santa Cruz é a segunda maior da Argentina, com 8,77% do território nacional, atrás da província de Buenos Aires, que representa 11,06%. No entanto, Santa Cruz ocupa o segundo lugar no ranking de menor população, já que em sua árida área concentram-se somente 272 mil habitantes, o equivalente a apenas 0,68% do total da população argentina.

“Nunca antes um presidente argentino beneficioutanto sua própria província com fundos presidenciais como fizeram os Kirchners com Santa Cruz”, afirmou ao EstadoLuis Majul, autor de “O Dono”, best-seller que relata as negociatas dos Kirchner na província.

Pinguins (e um lêmur incluído) maravilhados com grandes riquezas. Os plumíferos ilustrados acima são os piguins de Madagascar, filme que virou série.

PINGUINS E PINGUINEIRA – Antes da chegadade Kirchner à presidência Santa Cruz tinha nulo peso na política argentina. No entanto, nos últimos oito anos transformou-se em um lugar de alta influência, já que os mais importantes ministros do gabinete da presidente Cristina são dessa província ou de outras áreas vizinhas da Patagônia.

Os funcionários patagônios da administração Kirchner são apelidados de “pinguins”, a ave que predomina nas costas do sul da Argentina. O grupo destes funcionários que tomam as principais decisões governamentais é denominado ironicamente de “a pinguineira”.

Outros integrantes do governo Kirchner não nascidos ou criados na Patagônia tentaram nos últimos anos “patagonizar-se”, comprando casas na cidadede El Calafate, na província de Santa Cruz. O vilarejo, a 2800 quilômetrosde Buenos Aires,é o lugar de relax da presidente Cristina, que ali costuma passar seus fins de semana.

Um pouco de arquivo. Os vários casos dos pinguins.

 ais detalhes sobre Santa Cruz, terra de irregularidades

A HIDRELÉTRICA, O AMIGO E O LAGO – O partido Coalizão Cívica, de oposição, denunciou no ano passado que existem irregularidades na indenização de terras que serão alagadas pelo lago de uma hidrelétrica na província de Santa Cruz. Segundo a denúncia, o empresário Lázaro Báez, amigo dos Kirchners (e sócio em diversos empreendimentos) comprou 182 mil hectares de terras que serão alagadas pela represa La Barrancosa.

A Coalizão Cívica ressalta que a empresa de Báez, a Austral Construções, “predomina” no setor de obras públicas em Santa Cruz. Além disso, sustenta que o amigo dos Kirchners sabia “de forma antecipada” qual seria a área alagada.

Além disso, uma estrada inaugurada pela presidente Cristina em El Calafate apresentaria sinais de superfaturamento no asfalto, já que cada quilômetro de asfalto custaria US$ 780 mil. No entanto, por cada quilômetro realizado por outras empresas em diversas províncias argentinas os preços oscilam entre US$ 77 mil (na província de Buenos Aires) e US$ 337 mil (em áreas complexas da província de Mendoza).

Os “superfaturados” índios patagones em gravura do início do século XVII

TERMELÉTRICA SUPERFATURADA – O juiz federal Claudio Bonadío comanda uma investigação sobre as suspeitas de que o governo Kirchner teria permitido superfaturamento na construção da usina termelétrica de carvão de Río Turbio, localizada a 278 quilômetros da capital da provínciade Santa Cruz, Río Gallegos.

Após a contratação das obras, o custo da termelétrica – de 240 megawatts – ficou na faixa de US$ 2,68 bilhões, substancialmente superior ao valor originalmente anunciado no orçamento, de US$ 1,5 bilhão. Segundo especialistas, a usina de Río Turbio custará 300% vezes a mais do que o custo médio internacional de uma obra do gênero. Além disso, custaria 174% a mais do que o volume investido no Chile para uma usina similar, em Puchuncaví.

A denúncia de superfaturamento feita por parlamentares da oposição indica que em Río Turbio a instalação de cada megawatt implicaria em US$ 3,4 milhões. A comparação com Puchuncaví chama a atenção, já que cada megawatt instalado na usina chilena implicou em um desembolso de apenas US$ 1,2 milhão.

FUNDOS, CAPITAL E JUROS – O caso mais famoso de uso irregular de fundos envolvendo Santa Cruz é o dos fundos provinciais que Kirchner, nos anos 90, quando era governador, remeteu a bancos no exterior. No total, Kirchner teria enviado mais de US$ 500 milhões para fora do país, principalmente para a Suíça. Em 2007 Kirchner e Cristina afirmaram que os fundos voltaram ao país.

Mas, lideranças da Oposição afirmam que não há provas consistentes do retorno desse dinheiro. Os opositores também sustentam que os juros acumulados ao longo de vários anos teriam aumentado o volume dos fundos para mais de US$ 1 bilhão. No entanto, o paradeiro desse margem adicional é desconhecido.

TERRENOS E SOBRINHA – Em 2006 os Kirchners compraram da prefeitura de El Calafate – onde governam seus aliados – um terreno de 20 mil metros quadrados, que estava sendo vendido por US$ 34 mil.

Em 2008 os Kirchners revenderam o terreno por US$ 1,65 milhão à uma rede de supermercados. A valorização sem precedentes do terreno despertou a atenção da mídia e da oposição. No entanto, a investigação sobre o caso foi paralisada, já que ficou nas mãos da sobrinha docasal Kirchner, a promotora Natalia Mercado, filha de Alicia Kirchner, ministra da Ação Social, irmã do ex-presidente Néstor Kirchner.

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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