A providencial arvorezinha dos motéis portenhos
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A providencial arvorezinha dos motéis portenhos

arielpalacios

12 de abril de 2010 | 22h50

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blog1hand-prawo2“Telo”, no “lunfardo” (gíria) portenho, significa “motel”.  É o “vesre” de “hotel” (“vesre”, no lunfardo, é a forma de inverter uma palavra, embora nem sempre invertida de forma rigorosa).

A forma oficial para referir-se aos motéis é a de “hoteles alojamiento” (hotéis alojamento, literalmente) ou “albergue transitorio” (pela transitoriedade da estadia no estabelecimento).

Em Buenos Aires os motéis costumam ser “urbanos”, isto é, estão mais concentrados no centro da cidade e nos bairros residenciais do que na periferia ou nas estradas que saem da cidade, como costuma ser primordialmente no Brasil. Por esse motivo, os motéis são geralmente “verticais”, isto é, prédios de vários andares.

Esses edifícios convivem com prédios vizinhos residenciais ou de escritórios.

Segundo a Câmara de Proprietários de Alojamentos (CAPRAL), entidade que reúne os motéis portenhos, existem 176 estabelecimentos do gênero só na capital argentina.

Ocasionalmente, os moradores desses prédios – dependendo da largura das paredes que separam as construções – podem perceber determinados gemidos, expressões de estímulo, entre outros sons, provenientes do estabelecimento destinado à atividade sexual.

O formato de motéis verticais nas transitadas ruas portenhas requereu uma forma pitoresca e naif de ocultar a entrada nesses estabelecimentos (grande parte da clientela dos motéis é pedestre, pois vastos setores da classe média portenha, ao contrário da brasileira, não possuem automóveis, seguindo o estilo de vida europeu).

No caso do Brasil, os clientes ingressam nos motéis dentro de seus carros. Somente a pessoa da recepção os vê.

No entanto, nos motéis portenhos, o casal vem caminhando pela rua e, para dissimular a entrada, repentinamente ingressa no estabelecimento.

Para ter uma entrada minimamente “discreta” e não tão acelerada, os motéis portenhos contam com providenciais arvorezinhas instaladas na frente das portas dos estabelecimentos (cobrindo, evidentemente, uns metros mais do que a largura da porta).

Os arbustos – parte indefectível do conjunto arquitetônico dos motéis portenhos – tentam ocultar da vista dos carros que passam pela rua (ou dos pedestres da calçada da frente) a entrada pretensamente sigilosa do casal.

No outono esta proteção – por causa do efeito climático desfolhante dessa estação do ano – fica parcialmente reduzida.

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Motel da rua J.María Gutiérrez com os arbustos densos que protegem a entrada dos clientes

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Motel da rua Azcuénaga e seu providencial arbusto, no bairro da Recoleta

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Vista de outro motel da rua Azcuénaga desde os fundos do cemitério da Recoleta. Neste caso, com arbusto já afetado pela intempérie do outono. Diversos motéis localizam-se na parte posterior do cemitério da Recoleta, na rua Azcuénaga. As janelas dos estabelecimentos tem vista para as imponentes cúpulas dos mausoléus dessa histórica “cidade dos mortos”.

 copia3 de mao4TERMOS AFINS A MOTÉIS

BULO: Equivalente a uma garçonnière. Apartamento de pessoa solteira (ou casada com tempo para aventuras extramatrimoniais) primordialmente destinado para a atividade sexual (mais do que para moradia). “Bulo” provém de uma palavra do lunfardo mais utilizada no passado (e nos tangos): “bulín”.

Bulín, por seu lado, provém do francês “boulin”, que designa o buraco ou marquise nas paredes onde as pombas fazem ninhos e o lugar onde também acasalam. A palavra é praticamente desconhecida da maioria dos franceses, a não ser os columbófilos.

AMUEBLADO: Literalmente, “mobiliado”. Palavra usada mais na primeira metade do século XX para referir-se a uma espécie prototípica de motéis. Isto é, eram apartamentos discretíssimamente alugados por hora para casais. Uma espécie de motéis em sua mínima expressão. Os amueblados também eram chamados de “muebles”

PISITO: Diminutivo de “piso” (andar). Usado como equivalente à garçonnière ou o apartamento de uma trabalhadora do sexo autônoma.

 

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Interlúdio renascentista: “Venus e Marte”. De Sandro Botticelli, para ilustrar o momento após o sexo das duas figuras olímpicas. Ao redor de 1483. Está na National Gallery, em Londres.

blog1anotacaostylus3GLOSSÁRIO SEXUAL

COGER: Verbo que indica o ato sexual completo. O verbo, na Espanha e outros países de idioma castelhano o verbo é primordialmente utilizado para “pegar” ou “colher” (como “colher algo do chão”). Isto é, uma pessoa poder referir-se a “coger el autobús (ônibus), para explicar que poder “pegar o ônibus”. Na Argentina, equivaleria a dizer que teria um coito com o veiculo de transporte coletivo (e não dentro de tal veículo). No entanto, não é uma forma polida de referir-se ao ato sexual. 

COGIDA: “Uma cogida”. O coito.

GARCHAR: Verbo que designa o ato de copular. No entanto, é uma forma chula. “Coger”, perto de “garchar”, acaba parecendo uma forma elegante…

GARCHE: A cópula, expressada sem elegância

EMPOMAR: Verbo que refere-se a “pomo”, isto é, o equivalente a “bisnaga” Ergo, indica o membro viril. Desta forma, “empomar” é o verbo utilizado para referir-se à penetração.

TRANSAR: O verbo foi recolhido pelos turistas argentinos que foram ao Brasil nos anos 80. Mas, em vez de referir-se ao coito em si, na Argentina, esta gíria utiliza-se de forma adulterada. Neste contexto de readaptação do verbo, transar aqui refere-se aos beijos e carícias. Preliminares sexuais com abundante produção hormonal mas sem a cópula em si.

FRANELEO: Uma versão local da “transa” (isto é, a “transa” em sua versão adaptada). “Franela” é “flanela”, pano utilizado para passar – e esfregar – sobre um automóvel ou um móvel. No contexto sexual, uma “franela” seria o ato intenso de fricção de epidermes de duas pessoas.

VACUNAR: Vacinar. Refere-se ao ato de penetrar alguém.

ACABAR: Cuidado ao utilizar esse verbo na Argentina, já que é um sinônimo frequente de “ejacular”. Ou, no caso das mulheres, de chegar ao orgasmo. Para indicar o “acabar” nosso é mais adequado a utilização de “terminar”. Ou “concluir”.

TUJE: Proveniente do antigo yiddish “tuches”, utilizado com frequência na Argentina para indicar os glúteos. Traseiro. Bumbum.

VERSO: Galanteio semi-picareta. Afirmação – ou conjunto de afirmações – geralmente sem base concreta (“se você quiser conhecer meu iate…”) destinados a conseguir a conquista-sedução de alguém.

VERSERO/A: O/A praticante do ‘verso’.

TRAMPA: Literalmente, “trapaça”. Quando uma pessoa está “de trampa” é que está casada mas está tendo (ou tentando) ter um encontro sexual com outra pessoa que não é a cônjuge.

PIRATA: Aquele que pratica a ‘trampa’.

CABARULO: Refere-se aos cabarés, palavra em Buenos Aires aplicado para casas de strip-tease e também, ocasionalmente, para bordéis.

PRIVADO: Prostíbulo instalado em um apartamento.

CAFISHIO: O gigolô.

TRAVIESSA: Literalmente, “travessa”. Mas refere-se ao ‘travesti’.

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Ipomoea batatas. A batata doce original. Na Argentina, alusões a este tubérculo podem referir-se ao ato de penetrar

blogvinhetalendo-job-vernet2GLOSSÁRIO DE SEXO E ALIMENTOS

Tal como em diversas partes do planeta as referências aos alimentos – de preferência tubérculos, legumes e cereais falofórmicos – são amplamente usadas para designar o membro viril. 

ENTERRAR LA BATATA: A ‘batata’ desta frase refere-se à ‘batata-doce’. A nossa batata em português é “la papa” em espanhol. Mas, em ‘lunfardo’ a batata indica o membro viril. Logo, neste contexto, com alusões à atividade da lavoura, ‘enterrar la batata’ (enterrar a batata-doce) significa, em tradução figurativa, penetrar alguém. Não se usa “enterrar la papa” (isto é, nossa batata, em português). Talvez porque até poderia causar confusão com o termo ‘papa’, isto é, o Sumo Pontífice (e, já que estamos aqui, Pontífice vem do latim ‘Pontifex’, o “construtor de pontes”).

MOJAR LA CHAUCHA: Molhar a vagem. Similar para ‘enterrar la batata’.

MOJAR LA VAINILLA: Molhar a baunilha, isto é, o biscoito champagne. Na Argentina, um dos hits do lanche da tarde, décadas atrás, era o do café com leite (ou chá) com as ‘vainillas’ (biscoito-champange). No fim das contas, a expressão é similar a “enterrar la batata”.

ES UN BOMBÓN: É um bombom. Elogio que indica que alguém é bonito/a. Majoritariamente usado por mulheres (ou homens) para referir-se a homens. 

ES UN CHURRO: É um churro. Igual ao bombón. Mas, a expressão é um pouco mais antiga.

QUE LOMO!: “Que lombo!”. Elogio carnívoro ao físico de alguém. Usado tanto por mulheres como por homens.

QUE PAN DULCE: “Que panettone!”. Elogio aos glúteos femininos.

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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