Perfil de Amado Boudou, o vice roqueiro de Cristina Kirchner (e colecionador de Harleys Davidson) que ficará no comando formal do governo
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Perfil de Amado Boudou, o vice roqueiro de Cristina Kirchner (e colecionador de Harleys Davidson) que ficará no comando formal do governo

arielpalacios

07 de outubro de 2013 | 22h10

O vice-presidente Amado Boudou voltou no sábado à noite às pressas do Brasil, onde estava de visita (em Brasília reuniu-se com os senadores Renan Calheiros e José Sarney). Boudou assumiu nesta segunda-feira a presidência da República durante o período de licença médica da presidente Cristina Kirchner. Mas Boudou não conta com o respaldo de boa parte do gabinete de ministros e não é bem visto pelo próprio filho da presidente Cristina, Máximo Kirchner. Na foto acima, há dois anos, Boudou faz gestos cômicos para divertir a presidente Cristina durante uma cerimônia na Casa Rosada.

“Este é um governo muito ‘rock and roll’, pois tem esse espírito de atrever-se a mudar as coisas que não gosta”. Com estas palavras, o roqueiro amador Amado Boudou, pontificava em meados de 2011 à edição argentina da revista “Rolling Stone” sobre a essência da administração da presidente Cristina Kirchner. Boudou, além de dedicado DJ e guitarrista, também ocupava na época da entrevista o posto de ministro da Economia da Argentina. Poucos meses depois seria o novo vice-presidente da República.

Boudou, que aprecia ternos bem-cortados e mantém uma cabeleira cuidadosamente décontracté, é também colecionador de canetas-tinteiro. Além disso, possui várias motos Harley Davidson, sobre as quais é ocasionalmente visto montado nas ruas do elitista e moderno bairro de Puerto Madero. O outfit que nunca falta quando usa esse transporte é uma jaqueta curta de couro preto, ad hoc com o estilo desse vintage veículo da outrora juventude transviada.

Chamado de “Aimée” (Amado em francês) pela família e amigos, estudou no balneário de Mar del Plata, onde formou-se em Economia. “Já era um playboy na época”, ilustrou ao Estado uma ex-colega de faculdade. Ela formou-se rápido. Mas Boudou levou vários anos a mais. “Ele estava ocupado com sua militância política na centro-direita e na organização de festas no curso”, avalia.

Boudou ganhou espaço de poder dentro do governo Kirchner quando, em 2008, no comando do sistema previdenciário, propôs ao casal presidencial a ousada jogada da reestatização das aposentadorias.

Os Kirchners aprovaram a ideia, que permitiu que o governo contasse com uma caixa de US$ 25 bilhões extras, destinados a fazer política.

Um ano depois, Cristina colocava “aquele jovem estupendo” – segundo suas palavras – no comando da pasta da Economia. No entanto, enquanto Néstor Kirchner esteve vivo, Boudou tinha pouco peso, já que o virtual ministro era o próprio ex-presidente. Mas, com a morte de Kirchner em outubro de 2010, aumentou rapidamente a influência de Boudou, que tece longas apologias à sua chefe em cada discurso.

Boudou era fã declarado de Alvaro Alsogaray, o emblema do neoliberalismo argentino, de deixar os Chicago Boys como militantes estatizantes. Alsogaray, na foto acima, foi o fundador da Ucedé, partido de direita no qual Boudou militou durante longo tempo.

NEOLIBERAL ADAPTADO – O crescimento de Boudou no governo irritou a ala tradicional do Partido Justicialista (Peronista), movimento político fundado pelo general Juan Domingo Perón em 1946. Motivos existem de sobra, já que o bem-apessoado ministro – um recém-chegado no estatizante peronismo – foi durante a maior parte de sua vida um militante da União de Centro Democrático (Ucedé), partido de direita que durante décadas foi o principal reduto do neo-liberalismo argentino.

Além disso, foi professor da Universidade do Centro de Estudos Macroeconômicos Argentinos (Ucema), que serviu de “think tank” para as privatizações do governo de Carlos Menem nos anos 90.

No entanto, na década passada converteu-se ao “nacionalismo popular”. Paradoxalmente, tuiteia desde um importado IPhone sobre a defesa da indústria nacional.

“Aimé” demonstra incondicional lealdade a Cristina. Essa característica é sua vantagem, sustentam os analistas, que destacam que a presidente buscava evitar um remake das dores de cabeça que teve com seu anterior vice, o rebelde Julio Cobos, que rachou com a presidente em julho de 2008, causando a pior crise política da administração Kirchner.

BABY FACE – Um ser desprezível. Um homem miserável”. Esta é a definição que um outrora poderoso ex-ministro do casal Kirchner pronunciada em conversa em estrito off com o Estado sobre o vice-presidente Boudou. O ex-ministro faz uma pausa, dá um gole no nespresso arpegio que prepara para si próprio e o entrevistador e acrescenta outra característica sobre o vice: “é um capacho”.

Depois, olha pela janela do apartamento de luxo de um amigo onde está hospedado e aponta para outro prédio de luxo de Puerto Madero: “o Boudou mora logo ali”.

Segundo o ex-ministro, a presidente Cristina já havia sido alertada para que não designasse Boudou, em 2009, como novo ministro da Economia. “Mas, Cristina, quando é criticada, se aferra mais em suas posições, mesmo que esteja enganada. E colocou Boudou como ministro. A mesma coisa ocorreu quando o designou vice”.

O ex-integrante do governo descarta categoricamente os rumores que haviam surgido em 2010 e 2011 que indicavam que Boudou seria amante da presidente. “Não, de forma alguma. Tenho certeza de que entre os dois não ocorria nada”, sustenta. Segundo ele, a troca de elogios entre Cristina e Boudou que havia suscitado os boatos “eram meros galanteios. Nada além disso”.

Velhos integrantes do governo irritam-se com os comentários da presidente sobre Boudou, denominado de “o baby face” do gabinete. “Ele tem 48 anos. Mas parece bem menos, reconheço”, disse Cristina em 2011 durante um discurso em rede nacional de TV antes das eleições, enquanto sorria olhando para seu futuro vice. O ciúme dos outros ministros foi evidente durante a cerimônia. Boudou abriu um sorriso de orelha à orelha.

Boudou e sua então namorada. A jovem jornalista, que tinha metade de sua idade, tasca um supimpa beijo de língua no economista ex-neoliberal aggiornado em nacional-popular.

Atualmente com 50 anos, este economista com physique du rôle de galã, namorou desde os tempos de ministro até pouco tempo atrás a jovem e a ruiva jornalista Agustina Kampfer. O casal ficou conhecido por dar cinematográficos beijos em festas de amigos. Depois da posse do namorado como vice, Agustina foi ironicamente batizada pela mídia crítica do governo como “a vice-primeira-dama”.

Coincidentemente, entre seu começo de namoro com Boudou e 2011 Agustina passou de ser uma simples repórter de rua do canal C5N a transformar-se em apresentadora do telejornal do canal CN23. De quebra, em dezembro de 2011 lançou uma revista que mistura rock e política, a “Minga”, que conta com amplo respaldo da publicidade oficial do kirchnerismo.

A jornalista também usava o twitter para tercer elogios sobre o namorado. Em 2012, tuitou: “Amado me liga mil vezes por dia”. Mas, quando Cristina Kirchner teve que tomar licença no início do ano passado, seu então namorado teve que cancelar as férias e assumir o posto interino de presidente. Agustina logo reclamou pela rede de micro-bloggings: “vou pedir asilo aos amigos com chácaras”.

BOUDOU-GATE – Em dezembro de 2011, durante a posse, Boudou foi apontado como o virtual sucessor de Cristina Kirchner, já que a presidente, que foi reeleita, não poderia disputar em 2015 uma segunda reeleição consecutiva. Na época, o governo preparava Boudou para assumir a presidência do Partido Justicialista (Peronista), vaga desde a morte de Kirchner em outubro de 2010.

No entanto, em fevereiro de 2012 a estrela do vice começou a apagar, já que foi denunciado por suposto tráfico de influências na licitação da Casa da Moeda que favoreceu a empresa Companhia de Valores Sul-americana, a maior gráfica do país especializada na impressão de cédulas de pesos.

O dono da empresa, Alejandro Vanderbroele, é – segundo sua ex-esposa, Laura Muñoz – testa de ferro de Boudou. O vice-presidente, no entanto, afirmou publicamente que nunca viu Vanderbroele em sua vida.

Pouco deppois o juiz federal Daniel Rafecas ordenou uma blitz no apartamento que Boudou possui no elegante bairro de Puerto Madero. Nunca antes na História do país um imóvel de um vice-presidente havia sido alvo de uma blitz.

Enquanto o irônico humor portenho rapidamente batizava o escândalo de “Boudou-gate”, a imagem do vice despencava, levando consigo a aprovação popular de Cristina.

O juiz verificou que Vanderbroele paga o condomínio e a TV a cabo do apartamento que Boudou aluga para Fabián Donatiello (que por seu lado, é sócio de Vanderbroele). Para complicar, embora o vice diga que não possui vínculo algum com o empresário, Boudou mora em um apartamento em Puerto Madero que aluga de outro sócio de Vanderbroele.

Boudou toca sua guitarra elétrica em show de rock mix de comício

BOUDOU E VUDU – Amado Boudou transformou-se no primeiro político argentino a contar com um bonequinho oficial de vudu, o pequeno fetiche que os seguidores dessa religião haitiana acreditam que está vinculado ao espírito de uma pessoa determinada. Neste caso, é um bonequinho de pano chamado “Amado Vudu”, como trocadilho com o nome do vice.

Os designers do boneco – lançado em dezembro de 2011 – negaram ao Estado qualquer intenção política e afirmam que não passa de um jogo cuja ideia central é a de “espetar” desejos positivos em Boudou. Por esse motivo o kit vem com um grupo de alfinetes.

Por exemplo: o comprador do boneco – que foi fabricado em tiragem limitada – pode espetar o vice-presidente com um pedido do tipo: “Boudou, quero o fim da corrpução”. Ou ainda, “Boudou, desejo o fim da inflação”.

O kit de “Amado Vudu” conta com uma faixa de vice-presidente (que, na realidade, não existe na vida real), além de uma guitarrinha elétrrica de plástico. O kit também traz uma motocicletinha de plástico. Nem bem o boneco foi lançado, sua namorada na época conseguiu um exemplar e deu de presente para o Boudou de carne e osso. O vice – famoso por ser vaidoso – adorou a idéia de um brinquedo inspirado nele.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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