Amado Boudou – roqueiro amador, DJ e vice-presidente de Cristina Kirchner – irá a julgamento oral e público
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Amado Boudou – roqueiro amador, DJ e vice-presidente de Cristina Kirchner – irá a julgamento oral e público

arielpalacios

12 de dezembro de 2014 | 19h16

Boudou, o vice roqueiro e DJ de Cristina Kirchner, imita o Topo Gigio em uma cerimônia oficial. Eram os tempos em que era o virtual delfim da presidente argentina.

Boudou, o vice roqueiro e DJ de Cristina Kirchner, imita o Topo Gigio em uma cerimônia oficial. Eram os tempos em que era o virtual delfim da presidente argentina.

blog1dedo4O vice-presidente argentino Amado Boudou irá a julgamento oral e público pelo delito de falsificação de documentos de compra de um automóvel de luxo nos anos 90. Boudou, convocado na quinta-feira para julgamento pelo juiz federal Claudio Bonadío, se tornará o primeiro vice-presidente em exercício do cargo da História da Argentina a sentar no banco dos réus. O vice alega que é “inocente” e que é vítima de “fuzilamento midiático” dos “inimigos” do governo da presidente Cristina Kirchner. Os partidos de oposição exigem a licença ou renúncia de Boudou No entanto, nos últimos meses o vice afirmou em diversas ocasiões que não deixará seu cargo.

O código penal determina uma pena de um a seis anos de prisão por falsificação de documentos, popularmente chamados de “documentos truchos” (papelada picareta, na gíria portenha). Boudou conta com imunidade devido a seu cargo. Mas, o mandato do vice conclui no dia 10 de dezembro do ano que vem, quando encerra-se o governo da presidente Cristina. A partir dali Boudou ficaria sem proteção.

Analistas indicam que o julgamento deverá demorar meses em iniciar.

Desde que sua situação judiciária ficou mais complicada por outras investigações sobre irregularidades, enriquecimento ilícito e corrupção, governadores e parlamentares do próprio kirchnerismo não o convidam mais para os comícios, que o vice outrora costumava embalar com sua guitarra elétrica em breves recitais de rock. Os políticos kirchneristas também evitam o desgaste político de aparecer nas fotos ao lado de Boudou, a figura mais impopular do governo da presidente Cristina Kirchner.

Uma das líderes da oposição, a deputada Elisa Carrió, da Coalizão Cívica, celebrou ontem a decisão do juiz Bonadío. Carrió, em referência ao engavetamento de diversos processos contra os integrantes do governo Kirchner nos últimos anos, sustentou que “está chegando no final um período de uma Justiça oportunista e obediente aos governos de plantão”.

Até o momento a presidente não abandonou seu vice. Segundo analistas políticos, Cristina preferiria os custos do respaldo a seu problemático vice do que recuar e dar o braço a torcer.

Boudou também está sendo processado desde junho pelo juiz federal Ariel Lijo, que considera que em 2010, quando era ministro da Economia, Boudou aceitou 70% das ações da gráfica Ciccone como suborno para conseguir uma anistia pelas dívidas que a empresa tinha com o Fisco. O então ministro teria colocado o empresário Alejandro Vanderbroele como seu testa-de-ferro na Ciccone. Imediatamente Boudou ordenou o cancelamento das compras de maquinaria nova para a Casa da Moeda, que teria possibilitado o aumento da capacidade de impressão de cédulas. Sem poder atender a demanda crescente de dinheiro devido à escalada da inflação, o governo contratou a Ciccone para terceirizar a impressão de notas de 100 pesos.

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CARRO E EX-MULHER – Boudou comprou um carro Honda CRX conversível em 1993, quando estava casado com Daniela Andriuolo, uma ex-professora de aeróbica que havia conhecido em seus tempos de DJ em festas no balneário de Mar del Plata. No entanto, Boudou teria forjado os documentos – incluindo carimbos e assinaturas – colocando a data da compra em outubro de 1992, de forma a indicar que o veículo era posse sua antes de compartilhar bens com sua mulher por intermédio do casamento, e assim, evitar a divisão desse bem durante o processo de divórcio.

Mas, segundo apurações da imprensa portenha, em outubro de 1992 o carro importando ainda estava em um navio proveniente do Japão rumo ao porto de Buenos Aires.

Além disso, os endereços residenciais de Boudou que aparecem nas diversas renovações dos documentos são inexistentes. Um desse endereços fictícios estava localizado no meio de uma duna em uma praia na província de Buenos Aires.

O vice afirma que o despachante é o culpado das irregularidades nos documentos do veículo.

Amado Boudou dá palinha roqueira com sua guitarra elétrica em evento kirchnerista.

Nos tempos de glória Amado Boudou dava palhinha roqueira com sua guitarra elétrica em eventos kirchneristas. Mas, nos últimos dois anos o vice não foi mais chamado para exibir os dotes musicais.

O ROQUEIRO VICE-PRESIDENTE DE CRISTINA KIRCHNER

Dono de uma cabeleira cuidadosamente descuidada, apreciador de ternos bem-cortados, o vice-presidente Amado Boudou é ocasionalmente visto montado nas ruas de Puerto Madero sobre alguma de suas diversas importadas motos Harley-Davidson. Desde esse elitista bairro Boudou envia tuítes em defesa dos “pobres” e da “indústria nacional”.

Roqueiro amador Boudou gosta de fazer comparações com esse estilo musical e a forma da presidente Cristina Kirchner fazer política: “este é um governo muito rock ‘n roll, pois tem esse espírito de atrever-se a mudar as coisas que não gosta”.

Boudou seduziu o casal Kirchner quando, em 2008, no comando do sistema previdenciário, propôs ao governo a reestatização das aposentadorias. Em 2009 Cristina, que definia Boudou como “aquele jovem estupendo”, o designou ministro da economia.

A ala tradicional do estatizante peronismo ficou melindrada com a ascensão de Boudou, um ex-militante da União de Centro Democrático, a “UceDé”, principal reduto do neoliberalismo nativo nos anos 80 e 90. Mas, quando os Kirchners chegaram ao poder Boudou converteu-se rapidamente ao “nacionalismo popular” e às medida protecionistas, deixando de lado a doutrina dos Chicago Boys que havia defendido até a época.

Em 2010 o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) – que preparava-se para disputar a presidência nas eleições de 2011 – morreu inesperadamente de um fulminante ataque cardíaco. Sem o marido para realizar uma alternância no cargo, Cristina teve que candidatar-se à reeleição. Para colega de chapa escolheu Boudou, que começou a ser preparado para ser virtual herdeiro e sucessor em 2015.

No entanto, sua ascendente carreira começou a afundar com o surgimento de denúncias do caso Ciccone. A partir dali, o vice – que não conta com força política própria – deixou de ser cotado para a sucessão e transformou-se em um peso morto.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

No mesmo ano recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

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