“Amigopólio”, publicidade e congelamento
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“Amigopólio”, publicidade e congelamento

arielpalacios

12 de maio de 2013 | 21h32

Governo Kirchner mantém uma sessão de pugilato com jornais não alinhados há meia década. O rival neste ringue – que está mais pra telecatch – é o Clarín. Acima, o violoncelista Paul Casals lê em 1966 notícias sobre boxe durante o café da manhã em Puerto Rico, onde estava fazendo um tour.

O governo da presidente Cristina Kirchner implementou em fevereiro um congelamento de preços de produtos que foi acompanhado por uma proibição às redes de supermercados e lojas de eletrodomésticos de publicar anúncios com ofertas nos jornais e canais de televisão da cidade de Buenos Aires e da Grande Buenos Aires. No entanto, desde ontem (domingo), a proibição não está sendo mais aplicada para os meios de comunicação.

Ou, quase todos os meios de comunicação. Ficam de fora desta suspensão da proibição os jornais “Clarín”, “La Nación” e “Perfil”. Coincidentemente, estes três periódicos possuem tons críticos com a administração Kirchner. Um deles, o “Clarín”, é considerado “inimigo mortal” pela presidente Cristina.

Os outros meios de comunicação, a grande maioria aliados do governo Kirchner, são ironicamente denominados de “amigopólio” pela oposição, já que constituem em conjunto um grande grupo de mídia, que possui a maioria dos canais e estações de rádio da Argentina. Estes meios foram favorecidos neste fim de semana com a suspensão sobre a proibição de publicidade.

A proibição sobre a publicidade, imposta em fevereiro, não foi escrita, já que o autor da medida, o secretário de comércio interior, Guillermo Moreno (o braço-direito da presidente Cristina na área de medidas sobre a inflação) costuma telefonar pessoalmente aos grandes empresários para avisá-los sobre suas novas medidas, por intermédio de ordens verbais.

O argumento de Moreno era que “se os preços estão congelados, não faz falta publicidade para vender mais”. Mas os líderes da oposição contra-argumentaram, afirmando na época que o governo estava implementando uma forma adicional para “estrangular” a mídia não-alinhada com a administração Kirchner.

Desta forma, nos últimos três meses e meio os consumidores portenhos e da Grande Buenos Aires não tiveram acesso às informações sobre os preços dos produtos. Além disso, as empresas jornalísticas ficaram sem uma de suas principais fontes de renda, os anúncios das grandes redes de supermercados.

O Grupo Clarín, com esta medida, perdeu em média mensalmente US$ 5 milhões em faturamento.

Enquanto que em janeiro deste ano (antes do congelamento de preços, aplicado desde o dia 1 de fevereiro) o “Clarín” contou com 264 de páginas com publicidade de supermercados e lojas de eletrodomésticos, em fevereiro o volume havia despencado para 61 páginas.

Estimativas divulgadas pela Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) indicaram que a proibição sobre a publicação de publicidade de supermercados provocou uma queda de quase 20% nas receitas dos jornais portenhos.

“Isto, em pouco tempo, poderia comprometer a viabilidade destes meios de comunicação”, me disse em abril uma alta fonte de um dos principais matutinos portenhos. “Nos próximos meses, o prejuízo poderia ser equivalente a US$ 80 milhões”, explicou a fonte.

O “Clarín” – o jornal de maior tiragem da Argentina – também foi excluído há pouco tempo da publicidade da maior empresa petrolífera do país, a YPF, expropriada pelo governo Kirchner há quase um ano.

Os analistas destacam que a proibição para os supermercados e lojas de eletrodomésticos de colocar publicidade nos jornais críticos com o governo é uma espécie de mecanismo de censura indireta, já que desfinancia as empresas de mídia, fato que, por tabela, poderia afetar a liberdade de expressão.

Enquanto os meios de comunicação críticos do governo sofrem pressões, diversos empresários aliados da administração Kirchner começaram a comprar canais de TV, jornais e rádios. Representantes da oposição afirmam que o governo está fortalecendo sua própria estrutura de comunicação com os empresários aliados e o sistema estatal de imprensa, que inclui a TV Pública e a Telam (a maior agência de notícias do país e a Rádio Nacional). Com ironia, denominam o conjunto destes grupos amigáveis de “o amigopólio”. Acima, a presidente Cristina em um discurso em rede nacional de TV no ano passado.

CONGELAMENTO – O governo Kirchner – que paradoxalmente nega a escalada inflacionária alertada por economistas independentes e sindicatos – aplica um polêmico congelamento de preços desde o dia 1 de fevereiro a supermercados e lojas de eletrodomésticos. O congelamento seria inicialmente aplicado até o dia 1 de abril.

Mas, em março o secretário de comércio interior, Guillermo Moreno, decidiu ampliar o congelamento até o dia 1 de junho. Informações extra-oficiais sustentam que Moreno poderia eventualmente anunciar em breve uma nova ampliação do mecanismo de freezer, estendendo o prazo até outubro, coincidindo com as eleições parlamentares desse mês.

Segundo os analistas econômicos, o governo tenta chegar até as eleições sem altas inflacionárias que compliquem a popularidade da presidente Cristina Kirchner, em baixa gradual ao longo do último ano.

No ano passado a inflação oficial foi de 10,8%, embora os economistas indiquem que esse índice foi “maquiado” e que a alta real foi superior a 25%.

Desde abril o governo da presidente Cristina Kirchner aplica o congelamento de preços de combustíveis em todo o país. A princípio, este congelamento ordenado por Moreno terá vigência por seis meses.

Perón, pouco antes de voltar para Buenos Aires, em 1973. Na década e meia anterior havia residido em Madri, onde contou com o recebimento do ditador espanhol, Francisco Franco, generalíssimo da Espanha e “caudillo por la gracia de Dios” (a quem Perón havia apoiado intensamente quando era presidente da Argentina entre 1946 e 1955). Um ano depois Perón morreria em Buenos Aires. Uma semana antes de falecer assinou a Lei do Abastecimento.

ABASTECIMENTO – O governo conta com a “Lei do Abastecimento” para o caso das empresas que não acatem o congelamento. Essa lei foi criada em junho de 1974 pelo então presidente Juan Domingo Perón, que morreu uma semana depois de assinar o decreto.

A norma foi anulada parcialmente pelo presidente Carlos Menem nos anos 90 e foi ressuscitada em 2006 pelo presidente Kirchner. A lei – que até agora não foi aplicada em sua totalidade – prevê penas de prisão de até quatro anos.

A Lei do Abastecimento pode ser aplicada para os bens de primeira necessidade, entre eles, alimentos, medicamentos, além dos próprios combustíveis. Ela permite que o governo confisque mercadorias, coloque executivos na prisão e feche empresas em caso de problemas no abastecimento.

A lei também permite que o governo possa fixar preços e congelá-los. Além disso, concede à Casa Rosada os poderes para obrigar empresas a continuar produzindo uma mercadoria e comercializá-la.

“O AMIGOPÓLIO” – O governo Kirchner costumeiramente afirma que enfrenta um “monopólio midiático”, em alusão ao Grupo Clarín, dono de vários jornais, estações de rádio e canais de TV. Mas, a oposição retruca e sustenta que nos últimos anos o casal Kirchner armou seu próprio “monopólio” de meios de comunicação aliados.

Além do Grupo Szpolski, os Kirchners contam com o respaldo midiático (em maior ou menor intensidade) do jornal “Página 12”, do canal “C5N”, do “Canal 9”, e do canal “Telefé” (o de maior audiência do país).

No caso da Telefé, pertencente à Telefônica da Espanha, contava como colunista com o senador Aníbal Fernández, braço-direito de Cristina na Câmara Alta.

Outro caso é o do canal Nueve, pertencente ao empresário mexicano Remígio González-González, que conta com vários programas de explícito respaldo à administração Kirchner.

Tanto o Telefé como o Nueve não poderia continuar existindo, já que seus donos são estrangeiros, algo que está proibida pela Lei de Mídia. No entanto, o governo Kirchner alega com malabarismos jurídicos que os dois canais são “argentinos”.

Além disso, o governo Kirchner possui uma grande rede estatal nacional de TV e rádio (a TV Pública e a Rádio Nacional, entre outras).

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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