Anabolizado funéreo monumento: o mega-mausoléu destinado a Evita Perón
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Anabolizado funéreo monumento: o mega-mausoléu destinado a Evita Perón

arielpalacios

26 de julho de 2011 | 16h52

 

O colosso do Rio da Prata: assim teria sido “El Descamisado”, mega-monumento cancelado em 1955 na primeira vez e em 1976 na segunda (nesta, havia mutado levemente, e seria chamado de “Altar da Pátria”). O presidente Juan Domingo Perón queria construir esse monumento para servir de mausoléu para sua segunda esposa, Evita. Nesta terça-feira comemoram-se os 59 anos da morte da “mãe dos pobres”. Se estivesse viva, Eva Perón teria atualmente 92 anos.

 uarenta e cinco metros mais alto que a Estátua da Liberdade, três vezes maior que o Cristo Redentor. Assim teria sido “El Descamisado”, um anabolizado funéreo monumento que contaria com um total de137 metrosde altura, divididos entre 70 metros da colossal base e 67 metros da estátua que representaria um operário peronista.

Seria uma espécie de “Colosso de Rodes” que em vez de estar à beira do mar Egeu, seria instalado à beira do Rio da Prata. Seu objetivo, que variou ao longo de anos de projetos e idas e vindas, foi o de homenagear com o mais alto monumento do planeta a figura de Eva Perón, esposa dogeneral JuanDomingo Perón, chamada popularmente de “Evita” e reverenciada como a “mãe dos pobres” ou a “Porta-estandarte dos humildes”.

A ideia era não somente homenagear Evita, mas também ser o lugar de descanso de seu sarcófago, feito com 400 quilos de prata.

Seria um misto de pirâmide de Quéops com altura quase equivalente à Catedral de Notre Dame. Tudo isso com um look característico das esculturas fascistas na moda na Europa dos anos 30 e 40.

No entanto, todos os verbos relativos ao “Descamisado” ficaram no condicional. Este monumento começou a ser construído mas nunca passou de suas bases de concreto no bairro da Recoleta, em Buenos Aires.

Vídeo que mostra o projeto do monumental “El Descamisado”. Aqui.

PLANO INICIAL – Tudo começou quando Eva Perón voltou de sua viagem à Europa, onde – em Paris – havia visto o túmulo de Napoleão Bonaparte, no Les Invalides.

“Deverá ser o maior (monumento) do mundo! Terá que ter, como ponto culminante, a figura do Descamisado. E nesse monumento faremos o museu do Peronismo. Ali haverá uma cripta na qual descansarão os restos mortais de um descamisado autêntico, daqueles que caíram nas primeiras jornadas da revolução. E ali também espero descansar quando morrer”. Estas palavras, de Evita, foram dirigidas a Leon Tommasi, escultor italiano que estava instalado na Argentina.

Evita, com este monumento, pretendia homenagear o dia 17 de outubro de 1945, a data peronista por excelência. Nesse dia uma multidão de operários foi à Praça de Mayo dar os vivas a Perón, na época secretário do Trabalho, e pedir sua liberação (o popular coronel havia sido detido pelo regime militar que governava o país – e do qual Perón fazia parte – por medo de seu crescente poder e influência sobre as massas).

Evita ressaltou que a entrada ao grande salão deveria ser baixa, para que a elite, quando ali entrasse, tivesse que baixar a cabeça.

Na época Tommasi estava trabalhando no friso greco-romano da Fundação Evita (o prédio construído para a Fundação transformou-se posteriormente na Faculdade de Engenharia, em San Telmo, na avenida Paseo Colón).

Em dezembro de 1951 Tommasi mostrou para Evita a maquete da obra do Descamisado. “É genial porque é grande e simples”, disse a ‘Mãe dos Pobres’, que estava em seus últimos meses de vida, já que estava sendo corroída pelo câncer.

PLANO POSTERIOR – No dia 4 de julho de 1952 o Congresso Nacional aprovou o milionário projeto. Poucos dias depois, no 26 de julho, ela morreu. A partir dali, eternizar Evita – da forma que fosse – começou a ser uma questão de Estado.

Primeiro, Evita foi embalsamada. Mas isso não era suficiente. Os parlamentares peronistas perceberam que o colossal monumento ao Descamisado, inicialmente dedicado ao descamisado desconhecido, teria que transformar-se em um mausoléu dedicado a Evita.

De quebra, o Congresso Nacional determinou que na praça principal de cada província deveria ser instalada uma réplica pequena do monumento ao Descamisado-Evita

O plano foi adaptado e chegou-se à conclusão que o sarcófago de Evita – que seria feitode prata– seria aberto uma vez por ano. Nessa ocasião, o povo poderia ver o corpo embalsamado de Evita, coberto por um vidro.

A estátua do descamisado, no alto do monumento, teria 67 metros de altura e seria coberto de cobre. A estátua mostra um homem com a camisa aberta, em tom de desafio e os punhos fechados e apertados, em uma pose que indica que está alerta. É bastante caucasiano.

No dia 30 de abril de 1955 as imensas bases de cimento estavam colocadas. Perón, em uma cerimônia, deu início à construção da imensa obra.

Vista da paisagem idealizada da instalação do Descamisado, na Recoleta. Do lado esquerdo da foto, o edifício do Automóvil Club, sobre a avenida Libertador. Do lado direito, a faculdade de Direito, sobre a avenida Figueroa Alcorta.

Evita, em imagem idealizada, ostenta o escudo do Partido Peronista

LUGAR – O monumento seria construído em uma parte do Parque Thays entre a avenida Libertador, a avenida Figueroa Alcorta e as ruas Tagle e Libres del Sur.

O lugar escolhido para a instalação do monumento tinha vários motivos. O mais simples, era o de ser uma das poucas áreas livres na área central de Buenos Aires.

Outro fator era o de estar a três quarteirões de distância da residência presidencial, o Palácio Unzué (a residência oficial atual, a quinta de Olivos, só começou a ser usada intensamente pelos presidentes argentinos posteriormente, já que o palácio foi destruído pela ‘Revolução Libertadora’, que derrubou Perón em 1955).

O motivo da destruição do luxuoso palácio, que havia pertencido à uma aristocrática família – os Unzué – era o de evitar que se transformasse em ponto de peregrinação de simpatizantes peronistas, pois essa residência havia sido habitada por Perón e Evita Perón.

 

Estátua monumental de Evita que foi colocada na frente da Fundação Evita, no Paseo Colón, no bairro de San Telmo. A estátua foi removida em 1955

GOLPE E QUEDA – Em setembro de 1955, os planos de Perón foram interrompidos. O general e presidente, derrubado por militares opositores, teve que fugir para o exílio. Ao voltar, 18 anos depois, Perón estava sendo altamente influenciado por José López Rega, figura que foi definida como “o Rasputin argentino” e que tem a ver com a segunda fase de “El Descamisado”.

Perón saiu formalmente do cenário político pouco depois de voltar à Argentina e ao poder. No dia 1 de julho de 1974,o general e presidente faleceu. Seu lugar seria ocupado por sua vice-presidente (e última esposa), María Estela Martínez de Perón, mais conhecida pelo apelido de “Isabelita”, denominação que usava quando era bailarina de um cabaré no Panamá, onde Perón a viu (mais tarde, tentaria explicar que era integrante de um grupo de danças folclóricas argentinas que estava em tour pela América Central na época em que conheceu o exilado general).

O caixão de prata de Evita. O caríssimo ataúde foi destruído depois da queda de Perón em 1955

ETERNIDADE COMPLICADA – Se existe um casal pode ter a denominação de “dupla dinâmica” na História da Argentina, esse foi o dueto matrimonial composto por Perón e Evita.

Ele era “el primer trabajador” (o primeiro trabalhador) ou “el general”. Ela, a “mãe dos pobres”, “protetora dos descamisados”, ou, simplesmente, no diminutivo “Evita”.

Ela faleceu em 1952. Ele, em 1974. Durante o tempo – breves sete anos – em que estiveram juntos revolucionaram a forma de fazer política neste país.

No entanto, apesar de terem provocado mudanças radicais na Argentina – e uma mitologia que ainda influencia a política atual – os dois maiores mitos do poder neste país repousam separados. Evita está no aristocrático cemitério da Recoleta, enquanto que Perón – que descansava a 40 quarteirões dali, no modesto cemitério da Chacarita, a poucos metros de outro mito popular, Carlos Gardel – agora está em um mausoléu inaugurado há poucos anos na chácara de San Vicente, na Grande Buenos Aires.

Os corpos de Evita e de Perón não tiveram um post-mortem plácido. Evita, a primeira a ir para o além, passou por um rigoroso embalsamamento entre 1952 e 1955. Nesse ano, seu viúvo foi derrubado por um golpe militar de direita.

O corpo de Evita – um troféu – foi seqüestrado pelos militares. Diversos oficiais violaram o corpo embalsamado, a modo de vingança. Depois, decidiram que era melhor escondê-lo longe da Argentina, onde ela era considerada uma “santa” pelos operários. A saída foi enterrá-la em uma igreja em Milão, com um nome falso.

Em 1973, quando estava a ponto de voltar para a Argentina, depois de 18 anos de exílio, Perón fez um acordo com os militares, que devolveram o corpo de Evita.

Mas,o general morreu pouco depois.

Durante dois anos os corpos estiveram repousando em uma sala na residência oficial de Olivos.

José López Rega, um astrólogo conhecido como “El Brujo” (O Bruxo) – e que, de ser o mordomo e secretário do casal Perón no exílio, passou ao cargo de ministro quando voltaram para a Argentina – fazia Isabelita deitava-se em cima do caixão onde estava o corpo de Evita para obter desta os “fluidos energéticos” que lhe proporcionariam o carisma do qual carecia totalmente.

Black-tie: Perón, Isabelita e López Rega.

MAIS UM NOVO PLANO, DE TOM ESOTÉRICO – “El Brujo” recuperou o projeto do “Descamisado” e reconfigurou o monumento, que seria um mega-mausoléu em pleno centro portenho para enterrrar Perón e Evita. A obra seria chamada  de “O Altar da Pátria”.

López Rega acreditava que o corpo de Evita emanava poderes esotéricos. Ele pretendia inaugurar o monumento com caravanas que iriam, de todas as partes da Argentina em direção à Buenos Aires, levando os corpos de outros heróis da História argentina.

Estes heróis, enterrados em cemitérios em várias partes do país, seriam transferidos para o mega-panteão onde passariam por um novo funeral.

López Rega tornou-se o “Rasputin” do último governo de Perón. “El Brujo” foi designado ministro da Ação Social, pasta na qual controlava imensos fundos para assistencialismo e respaldar a estrutura da Triple A, organização de extrema-direita que deu o golpe de misericórdia nas instituições argentinas em meados dos anos 70.

Colocados ao redor do corpo de Evita, segundo López Rega, serviriam para criar um centro-cemitério energético nacional. Diversos historiadores consideram que o próprio López Rega ambicionava um dia ser enterrado ali também.

As britadeiras começaram o trabalho (no mesmo lugar onde estava a base de concreto do “Descamisado”). Mas, o golpe militar de 1976 interrompeu as obras. Desta vez, os projetos do mega-monumento foram definitivamente cancelados. O terreno do “Descamisado” agora são parcialmente ocupados por uma escultura metálica, a “Flor”, além do edifício do estatal canal 7, construído pelos militares na época da Copa do Mundo de 1978.

Mas, as atribulações funéreas continuariam…

Evita, como contamos acima, teve um post-mortem turbulento. Mas, em 1977 finalmente foi colocada no aristocrático cemitério da Recoleta, no pequeno mausoléu de sua família. Ali repousa até hoje. Mas, faz mais sucesso com os turistas estrangeiros do que com os próprios visitantes argentinos.

Perón também teve uma posteridade atribulada: em 1987 um grupo desconhecido arrombou a tumba do general e cortou suas mãos. Desta forma, o corpo de Perón permanece com as extremidades decepadas.

De quebra, em 2006, o segundo funeral de Perón terminou em tiroteiro entre grupos de sindicalistas rivais. Todos queriam levar o caixão. Mas, como ocorre com todos os caixões, as alças tem número limitado. Perante esse cenário, integrantes do sindicato dos caminhoneiros, do líder da CGT, Hugo Moyano, e a rival União Operária da Construção Civil (Uocra), protagonizaram a troca de tiros e sessão de pancadaria que acabaram com a cerimônia funerária do fundador do Peronismo. A Guarda dos Granaderos, que acompanhava o cortejo, teve que colocar as pressas o caixão de Perón dentro do mausoléu. O sabre do defunto militar, que ia em cima do féretro, apareceu torto, caído no chão. O quepe do general desapareceu no meio do tumulto e da correria.

Quando o plano do mega-mausoléu para Evita foi apresentado em 1952, estava em plena construção o “Valle de los caídos” – uma espécie de monumento funerário de dimensões ciclópeas ao norte de Madri – onde primeiro foi enterrado José Antonio Primo de Rivera, o fundador da Falange Espanhola, partido fascista desse país. Seu colega ideológico e ditador da Espanha, Francisco Franco, responsável pelo início da Guerra Civil que entre 1936 e 1939 arrasou o país e colocou os espanhóis sob o jugo de um regime que durou até 1975, também foi enterrado ali quando morreu.

O regime de Franco teve o explícito respaldo de Evita e de Perón. Na ilustração acima, Evita discursa ao lado do “generalíssimo” espanhol. Na extrema direita, a esposa do caudilho, Carmen Polo, observa. Na visita que fez à Espanha em 1947, Evita forneceu ajuda financeira e alimentícia que permitiu que o regime franquista sobrevivesse em sua fase mais complicada.

Uma gigantesca Evita observará os costumeiramente anti-peronistas portenhos do alto do ministério da Ação Social. Foto de Ariel Palacios.

ESDE O ALTO, EVITA OBSERVARÁ OS PORTENHOS – A cidadede Buenos Aires sempre foi refratária ao casal Juan Domingo Perón e Evita Perón, e consequentemente, ao próprio peronismo. No entanto, os portenhos terão que conviver com uma dupla imagem monumental de Evita, que “observará” os portenhos desde o alto do edifício do ministério de Ação Social, em pleno centro da capital, no meio da avenida 9 de Julio. A presidente Cristina Kirchner, admiradora de Evita – a quem considera um “exemplo a seguir” – preparava-se nesta terça-feira à noite para inaugurar essa obra com uma cerimônia com toda pompa, que seria acompanhada por uma marcha de organizações sociais que portariam tochas.

A hora escolhida para a cerimônia – 20:25 – tinha um motivo especial, já que foi o momento no qual morreu Evita, há 59 anos.

As duas imagens-mural, feitas em ferro pelo escultor Alejandro Marmo, com assistência do artista plástico Daniel Santoro, decorarão o lado norte e sul do edifício de quase 100 metrosde altura. Cada imagem, que pesa 15 toneladas, tem 31 metrosde altura por 24 de largura.

Do lado sul está a imagem oficial de Evita, imortalizada em quadros, selos do correio argentino e a capa de sua autobiografia “A razão de minha vida” (best-seller nos anos peronistas), que a mostra com seu tradicional coque e joias.

Mas, do lado norte, olhando para o Obelisco, está a imagem de Evita desafiante, bramando no microfone em um discurso, em pose que apresidente Cristina Kirchner gosta de imitar nos comícios. Esta segunda imagem será inagurada no dia 22 de agosto.

O lugar da instalação destas imagens tem motivos de sobra, já que nas portas do ministério, em 1951, Evita fez o maior comício da História da Argentina, no qual reuniu 2 milhões de pessoas. Na ocasião, assolada pelo câncer que a mataria poucos meses depois, anunciou que não poderia ser candidata a vice-presidente de seu marido,o general Perón.

Apesar da elevada simbologia política do mural – que poderá ser visto de várias partes do centro portenho – Marmo e Santoro negam que a obrade magnitude monumental possa transformar-se em uma forma de “realismo estatal peronista”.

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alando em defuntos, mais sobre o necrômano assunto em duas postagens dos últimos meses:

Nesta, os mortos bem vivos da política argentina, aqui.

E, nesta outra, o mausoléu de Nestor Kirchner, aqui.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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