Argentina deixa para atrás o “Dólar-Messi” e vai na direção do “Dólar-Baile de Debutantes” (e um dicionário de ‘dolarês’ portenho)
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Argentina deixa para atrás o “Dólar-Messi” e vai na direção do “Dólar-Baile de Debutantes” (e um dicionário de ‘dolarês’ portenho)

Dólar no mercado paralelo na Argentina está na faixa dos 14 pesos e avança persistentemente na direção do patamar dos 15 pesos.

arielpalacios

03 de setembro de 2014 | 15h43

Let’s face the music and dance” era o nome da canção escrita em 1936 por Irving Berling para o filme “Follow the fleet” (mas esta gravura é de um baile de 1875)

“Dólar-Messi”, “Dólar-Tevez” e “Dólar-Mascherano” foram algumas das denominações que o ácido humor portenho utilizou para batizar os diversos pontos da escalada da cotação do dólar no mercado paralelo desde o início do ano. Os apelidos aplicados eram uma alusão aos números das camisetas desses jogadores da seleção (10, 11 e 14 pesos). Mas, perante a persistência da escalada do paralelo, que nesta terça-feira encerrou a jornada em 14,25 pesos, os argentinos já batizaram a próxima etapa: “Dólar-Baile de Debutantes”. Isto é, 15 pesos.

O dólar oficial encerrou a jornada de terça em 8,47 pesos. Desta forma, existe uma brecha cambial de quase 68,2% entre as duas cotações. Economistas na city financeira portenha indicam que o dólar oficial poderia chegar ao Reveillon em uma faixa entre 9,50 e 10 pesos. Os analistas também especulam que o dólar paralelo – também chamado de “blue” – poderia encerrar o ano oscilando entre 18 e 19 pesos.

Por trás desta alta do dólar, além da inflação, estão as incertezas geradas pelo calote parcial dos títulos da dívida pública argentina com credores nos Estados Unidos a patir de julho, junto com o conflito que a presidente Cristina Kirchner deflagrou com os “holdouts”, denominação dos credores que não aderiram às reestruturações feitas em 2005 e 2010 pela administração Kirchner. O presidente da Bolsa de Comércio, Adelmo Gabbi, sustenta que “se as pessoas investem em dólares é porque não confiam no ministro da Economia, Axel Kicillof”.

Segundo o Centro de Implementação de Políticas Públicas (Cippec) a desvalorização do peso desde o início deste ano implicou na alta de 27% dos vencimentos que as províncias argentinas devem enfrentar. A cidade de Buenos Aires tem 98% de sua dívida em dólares, enquanto que na província de Buenos Aires é de 46%.

A falta de dólares está provocando prejuízos no setor automotivo, já que diversas montadoras não estão conseguindo importar a totalidade das peças que precisam por falta de acesso ao dólar. 

IDÍLIO VERDE – A relação de culto da moeda american por parte dos argentinos começou em 1827, quando – depois de fracassar diante de falsificadores na impressão de cédulas made in Argentina – o governo de Buenos Aires encomendou a fabricação de pesos nos EUA. A gráfica contratada pelos argentinos preparou as cédulas de pesos com as legendas em espanhol. Mas na hora de decorar a cédula os donos da gráfica optaram por colocar uma figura conhecida.

Por isso, a efígie, em vez de ser a de um herói da independência argentina, foi a de um americano, George Washington. De quebra, colocaram no meio um canguru (australiano) como ilustração (ora bolas, pelo menos era um bichinho que morava ao sul do Equador, se bem que na Oceania). Desta forma, em seus primórdios os pesos já exibiam certa aspiração – involuntária – de querer ser o dólar.

“O dólar é uma opção da população para defender sua capacidade de poupança”, afirma um veterano doleiro portenho ao Estado. “Para quê vou guardar pesos se estarão valendo menos amanhã?”, pergunta. Terceira geração de doleiros de sua família (suas tias-avós começaram vendendo libras e francos nos anos 50 e passaram aos dólares nos anos 60), explica que “na hora do jantar, nos lares de outras famílias, falava-se de futebol e das fofocas do bairro. Mas em minha casa, quando era criança, o assunto de conversa era o câmbio”.

O doleiro sustenta que anos 50 e 60, o dólar era comprado somente por pessoas da classe média alta e alta, que buscavam na moeda americana uma forma de ter reservas de segurança. No entanto, explica que a partir do colapso econômico causado pelo “Rodrigazo” (plano de ajuste econômico de Celestino Rodrigo, ministro da peronista presidente Isabelita Perón) em 1975, com a desvalorização de 201% do peso – o que disparou a inflação de uma forma nunca vista antes na Argentina – os argentinos, da classe operária à alta, perante um panorama de incertezas, passaram a considerar o dólar como o único refúgio seguro. “E aí começou a grande obsessão argentina”, explica.

A obsessão também afetou os integrantes dos governos de plantão. Em junho de 1981, o ministro Lorenzo Sigaut, declarou: “aquele que aposta no dólar, perde”. O dólar era cotado a 4.269 pesos. Em menos de três meses, o dólar estava em 10.000 pesos. A frase de Sigaut tornou-se um exemplo, para os argentinos, de que desconfiar do governo é a melhor forma de sobreviver.

Na foto acima o ministro que cunhou a frase “quem aposta no dólar, perde”. Lorenzo Sigaut pronunciou essa sentença e, celeremente, os argentinos foram atrás da divisa americana.

Alejandro Rebossio, co-autor de “Sou Verde”, livro que disseca a relação dos argentinos com o dólar, disse ao Estado que “no resto do mundo os ricos adquirem dólares e investem nessa moeda. Mas, na Argentina, além dos ricos, a classe média também compra dólares, bem como os operários”. Segundo Rebossio, os argentinos são o povo – depois dos americanos – que mais possuem cash em dólares per capita, em média de US$ 1.300. “A economia argentina não está dolarizada, já que você não paga um café e um sanduíche com dólares no dia a dia. Os argentinos usam os dólares para guardar, já que possuem poucas opções seguras para investir e sabem que mais cedo ou mais tarde sempre ocorrem desvalorizações”.

Uma pesquisa elaborada pela consultoria Polidata sustenta que 72,3% dos argentinos acompanham cotidianamente a cotação do dólar com diversos graus de atenção. Somente 23,7% não se importam com a moeda americana.

“Mesmo que as pessoas não comprem dólares, as pessoas estão informadas sobre ele, pois é uma variável de como está a economia”, explica Rebossio.

BREVE DICIONÁRIO DE ‘DOLARÊS’ PORTENHO

O MÉTIER DO DÓLAR CLANDESTINO:

Arbolito: “Arvorezinha”. Denominação dos cambistas. Antigamente era aplicada apenas às pessoas que ficavam na cêntrica rua Florida vendendo e comprando dólares. Eram chamados assim porque ficavam imóveis, no meio do calçadão, tal como os vasos com arbustos que nos anos 70 existiam nessa via. Atualmente o termo é aplicado para qualquer tipo de doleiro.

Cuevas: Escritórios nos quais trocam-se pequenas e grandes quantias de dólares. Alguns lugares são recônditos. Outros, mais óbvios, estão dissimulados como agências de turismo, brechós e lotéricas.

Delivery de dólar: O serviço feito pelas “cuevas” para a entrega de dólares aos clientes em seus domicílios.

AS COTAÇÕES:

Dólar Baile de Debutantes: Denominação criada de forma antecipada para quando o dólar paralelo chegue à faixa dos 15 pesos.

Dólar Blue: Denominação do paralelo. O nome “Blue” (azul) começou a ser utilizado em 2011. O nome vem de “blue chip”, jargão da operação que pode ser feita pela bolsa de valores para transferir dólares para o exterior. O dólar usado pelos cambistas passou a ser chamado com a mesma cor.

Dólar Messi: Nome que o dólar paralelo recebeu quando chegou aos 10 pesos, em alusão ao número dez que o astro argentino Lionel Messi do Barcelona FC possui em sua camiseta. Essa cotação já é parte do passado, bem como o “Dólar-Tevez”, relativo aos 11 pesos.

A CRUZADA ANTI-DÓLAR

Corralito Verde: Expressão irônica para designar a bateria de restrições aplicadas pela presidente Cristina, que praticamente impedem que os argentinos adquiram a divisa americana de forma legal.

Pesificação: A transformação de dólares para pesos. Os ministros do governo Kirchner afirmam que é preciso “pesificar” a dolarizada economia argentina.

VALORES:

Luca verde: Mil dólares. Uma luca, na gíria portenha, equivale a mil.

Palo verde: Um milhão de dólares. Um “palo” equivale a um milhão.

Para animar a jornada, vamos com Fred Astaire dançando “Let’s face the music and dance”:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

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