Argentina, entre a inflação ‘real’ e a ‘oficial’
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Argentina, entre a inflação ‘real’ e a ‘oficial’

arielpalacios

18 de janeiro de 2010 | 10h24

pespscem
Inflação calculada pelos economistas é o dobro do índice do governo. Há sete anos, com a nota acima (com a efígie do general Julio A.Roca), era possível fazer uma excelente compra no supermercado. Hoje, com esta nota compra-se pouca coisa

maomenors

Os argentinos completaram três anos com duas inflações simultâneas e contraditórias. Esta sui generis situação é provocada pela existência de um dueto de índices inflacionários, o “oficial” e o “real”. O primeiro começou a ser elaborado pelo governo do então presidente Néstor Kirchner (2003-2007) e continuou sendo preparado pela administração de sua sucessora – e esposa – Cristina Kirchner. O segundo é um amontoado de cálculos realizados por consultorias econômicas independentes, sem vínculos com o governo. Enquanto que o primeiro, preparado pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), indicou que a inflação de 2009 foi de 7,7%, o segundo é em média – juntando vários cálculos bastante similares – ao redor de 15% a 16%.

O jornal “Crítica” ironizou sobre o índice de inflação do governo Kirchner: “é oficial, embora seu bolso não acredite nisso”.

Segundo a consultoria Economia y Regiones, a alta inflacionária de 2009 é de 16%. A consultoria Estudio Bein e Associados também calculou uma inflação de 16%. A Fundação de Investigações Econômicas Latino-americanas (Fiel) indicou que a inflação teria sido de 17,3%. A Ecolatina, fundada pelo ex-ministro da Economia, Roberto Lavagna, a estima em 15,3%. A Prefinex calcula que teria sido de 14,8%.

Desta forma, os argentinos tiveram no ano passado uma inflação “oficial” que foi apenas a metade da inflação denominada “real”. Nas ruas, os argentinos destacam que a inflação do Indec parece um delírio estatístico, já que os preços dos alimentos, serviços, entre vários outros, não param de subir.

Em dezembro a inflação novamente entrou em ritmo de escalada, devido à recuperação econômica incipiente. O governo afirma que a inflação foi de 0,9%. Mas, os economistas afirmam que foi de 1,8%.

Segundo o Indec, que está sob férrea intervenção desde janeiro de 2007 – poucos meses depois de iniciada a suposta maquiagem do índice – o país acumulou 37,5% de inflação desde 2006.

No entanto, segundo o índice calculado pela equipe de Graciela Bevaqua, uma ex-funcionária do Indec, removida no governo Kirchner por opor-se à camuflagem da inflação, o índice acumulado desde 2006 é de 96,8%. Isto é, duas vezes e meia maior que a inflação estipulada pelo governo Kirchner.

A inflação foi elevada apesar da recessão que assolou o país no ano passado. Segundo Bevacqua, o índice de inflação de 2009 foi demasiado alto para acompanhar uma queda do PIB de 3% a 4% estimada pelos economistas (o governo, neste caso, também apresenta um índice diferente e afirma que o país cresceu 0,9% no ano passado). “Desta forma, tivemos por segundo ano consecutivo um cenário de estagflação”, disse Bevacqua.

A intervenção do Indec implicou na remoção categórica – ou transferência – de técnicos estatísticos que não concordavam com a manipulação do índice de inflação. Diversos funcionários do Indec acusam o polêmico Secretário de Comércio, Guillermo Moreno, de enviar “patotas” (gangues) de caratecas ao próprio prédio do instituto para intimidar os técnicos.

A manipulação do índice foi alvo de críticas de entidades internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, além das associações de consumidores argentinos, organizações empresariais em Buenos Aires e sindicatos. Esquerda e direita criticam a manipulação dos índices.

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Carne, objeto de desejo da imensa maioria dos argentinos (e estrangeiros residentes), cada vez mais proibitiva pela disparada de preços.
O quadro é do holandês Paulus Potter (1625-54). “A pradeira”, de 1652.

O ano 2010 promete mais polêmicas sobre a inflação, já que o governo estima que ela estará ao redor de 6,1%. No entanto, os economistas independentes calculam que estaria entre 18% e 20%.

Nos últimos 40 dias, segundo associações de consumidores e consultorias econômicas, o preço da carne bovina, quitute par excellence da mesa dos argentinos, registrou uma disparada de 20% em seu preço.

Enquanto o preço para ingerir um naco de uma vaca/boi subia de forma considerável, deglutir um frango ficou mais caro ainda. O aumento do quilo da carne de frango foi de 70%. O leite aumentou 12%.

UM MUNDO DE SENSAÇÕES INFLACIONÁRIAS
Uma coisa é a inflação “oficial” e outra a “real”. Mas, além delas está a inflação “percebida”. Isto é, aquilo que a população “sente” que foi o aumento dos preços.
Segundo uma pesquisa da Universidade Torcuato Di Tella, os argentinos “sentiram” a inflação como se ela tivesse sido de 30% em 2009.

A população tende a magnificar a ideia da alta inflacionária, afirmam os especialistas. Mas, de todas formas, a pesquisa mostra que existe uma colossal brecha entre a inflação “oficial” do governo, de 7,7% em 2009 e os 30% “percebidos”.

Segundo a pesquisa, a população espera que a inflação deste ano será de 20%.

Isto é, em resumo, inflações de 2009 para todos os gostos
a) a ‘oficial’, de 7,7%;
b) a ‘real’, de uns 15% a 16%;
c)…e a ‘percebida pela população’, de 30%.

ESMOLAS NÃO INDEXADAS
A sra. Marta, uma sem-teto septuagenária que vive em vários pontos (dependendo do dia) ao longo da rua Arenales (entre a avenida Callao e a rua Rodríguez Peña), em plena Recoleta, lamenta: “as pessoas continuam dando moedas como esmola…só que com as moedas a gente hoje em dia não consegue comprar coisa alguma”.

Sempre que passo por ali, ajudo esta senhora com dinheiro ou comida. Se algum turista passar por ali, por favor, dê uma mãozinha para ela também. Aliás, o que não falta em B.Aires são mendigos idosos que precisam ajuda. O número de velhinhos e velhinhas nas ruas mendigando aumentou de forma sideral no último ano e meio.

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Nota de um milhão de pesos emitida no meio da disparada inflacionária de 1981, durante a ditadura militar

FANTASMA
– A inflação é um fantasma que insiste em assombrar os argentinos com persistente frequência. A alta de preços assola o país de forma intermitente há cinco décadas. Mas, a situação complicou-se a partir de 1975, quando foi aplicado um polêmico pacote de medidas econômicas, conhecido como o “Rodrigazo”, durante o governo de Isabelita Perón.

Durante a última Ditadura Militar (1976-83) a inflação disparou em diversas ocasiões.

Mas, o ponto mais dramático ocorreu em 1989, durante o governo do então presidente Raúl Alfonsín, quando a hiper inflação chegou a 4.923,6%. Na época, até o dólar, refúgio preferido dos argentinos para os momentos de crise, sofreu as pressões inflacionárias, embora em menor escala que o peso.

Seu sucessor, Carlos Menem (1989-99) tentou implementar diversas políticas econômicas para debelar a inflação. Mas, as erráticas medidas levaram o país à uma segunda etapa de hiper inflação, de 1.343,9%. Isso levou Menem a implementar uma saída drástica, a criação da Conversibilidade Econômica, que estabeleceu a paridade entre o dólar e o peso.

O sistema amarrou o pouco confiável peso ao dólar americano. Nos seguintes dez anos e meio, a Conversibilidade proporcionou a erradicação da inflação. O país até viveu vários anos sob a marca da deflação.

No entanto, o remédio para a inflação acabou tendo graves efeitos colaterais. Em 2001, o país foi assolado por uma colossal fuga de capitais. Isso, somado à crise social e política levou o governo do presidente Fernando De la Rúa (1999-2001) à renúncia. A conversibilidade não conseguiu sobreviver à crise e foi extinta em janeiro de 2002.

Sem o sistema, o peso desvalorizou-se rapidamente ao longo de 2002. A inflação, durante alguns anos, manteve-se contida por causa da recessão que atingia o país. Mas, com a recuperação da economia, em 2003, a inflação voltou a crescer.

Em 2006, o governo do presidente Néstor Kirchner tentou conter a inflação com o congelamento de preços. Mas, com o fracasso dessa política, em dezembro desse ano iniciou a manipulação de dados. Segundo o governo, em 2006 a inflação foi de 9,8%. Mas, de acordo com Bevacqua, foi um pouco maior, de 10,7%.

No entanto, em 2007 Kirchner optou por intervir o Indec e manipular o índice da inflação de forma mais ampla. Nesse ano, o Indec anunciou um índice de 8,5%. Segundo Bevacqua, a inflação real foi de 25,7%.

Em 2008, a inflação, segundo o Indec, foi menor ainda, de 7,2%. Mas, de acordo com Bevacqua, chegou a 23% (embora alguns economistas digam que chegou a 28%).

“Os Kirchners não conseguem deter a febre da inflação…então, decidiram trocar o termômetro que a mede”, avalia com ironia o historiador e jornalista Jorge Lanata.

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Em 1923, em plena hiper-inflação alemã, cidadão teutônico opta por usar desvalorizadas notas como papel de parede. Valia a pena, já que o papel de parede de verdade era mais caro. Foto do Deutsches Bundesarchiv.

E, para relaxar, “Fiesta”, com o cantor catalão Joan Manoel Serrat, durante os shows que fez em Santiago do Chile em 1969. O link do Youtube: aqui

vinhess

…E um teste aos leitores-comentaristas que conhecem Buenos Aires.
Este portão, a qual edifício histórico na zona do centro pertence? Única dica: o nome do palácio é contraditório com a instituição que o habita há muito mais de meio século (e que tem um salão de baile impressionante).

club

E estes cavalos de bronze? A qual conjunto de esculturas pertence? Em qual praça estão? Dica: estão em uma praça ladeada por uma rua e uma avenida, cada uma com nome de presidente…um desses presidentes era um europeizante personagem do século XIX…o outro presidente, uma lacônica figura do século XX.

cavalos

vinhess

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