Argentina, ‘pioneira’ em Halloween na América do Sul: “El Brujo” López Rega
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Argentina, ‘pioneira’ em Halloween na América do Sul: “El Brujo” López Rega

arielpalacios

30 de outubro de 2011 | 00h17

 

Um sinistro “halloween” que durou vários anos: López Rega, El Brujo (O Bruxo) ao lado de Juan Domingo Perón e Maria Estela “Isabelita” Martínez de Perón. Perón voltou do exílio e governo de 19873 a 1974. Isabelita, que era  a vice, assumiu e governou até 1976. López Rega foi o Rasputin argentino na maior parte desse período.

“A História não existe. Somente existem biografias”, disse uma vez Winston Churchill. A frase poderia aplicar-se a um astrólogo que, para a surpresa de todos, modificou os rumos da História argentina: José López Rega, aliás, “El Brujo” (O Bruxo), defunto há 22 anos.

Conhecido como “o Rasputin argentino”, durante grande parte de sua vida López Rega não passou de um obscuro cabo da polícia federal nascido em 1919 cuja única glória pessoal era a de ter sido um ocasional guarda-costas do presidente Juan Domingo Perón em 1951. Anos depois, tentou a sorte como cantor, sem sucesso.

Nos anos 60 mudou de ramo e passou para a astrologia. Ele vivia da publicação de um almanaque que misturava predições com os telefones dos bombeiros e hospitais. Além disso, escrevia livros onde misturava maçonaria com umbanda. Suas obras costumavam permanecer encalhados nas livrarias.

Um dia de 1965 descobriu que María Estela “Isabelita” Martínez de Perón, uma ex-bailarina argentina de cabaré no Panamá, que era a nova esposa do fundador do peronismo, estava em Buenos Aires. Isabelita precisava um grupo de guarda-costas. Seu marido havia ficado em Madri, onde estava exilado.

López Rega procurou Isabelita e a convenceu que seria não somente um excelente guarda-costas, mas também seu secretário pessoal. Rapidamente, também tornou-se no chefe espiritual de Isabelita. Esta, ao voltar a Madri, levou seu “guru” com ela.

Isabelita, que havia sido criada por um padrasto com delírios místicos seguia fervorosamente todas as indicações de López Rega. Em Madri, ele transformou-se na pessoa que controlava o acesso ao líder do peronismo, que embora esclerosado, comandava o maior movimento de massas da América do Sul e planejava seu retorno à Argentina.

“El Brujo” acabou sendo imprescindível para o casal Perón nos seguintes dez anos. Ele impregnou a casa do casal com uma vida onde as cerimônias secretas comandavam suas decisões. Em uma delas, deitou Isabelita em cima do caixão de Evita, a mítica segunda esposa do general. A intenção era que Isabelita (a terceira esposa) “absorvesse” o carismático espírito de Evita.

“Comentava-se que eram amantes”, me disse anos atrás o escritor Tomás Eloy Martínez, que entrevistou Perón em Madri durante seu exílio e viu de perto a influência de López Rega na residência do septuagenário caudilho. “Mas isso nunca aconteceu. Se López Rega tivesse misturado sexo com a política, teria perdido parte de sua influência com Isabelita, que era absolutamente frígida, e desinteressada do sexo”. Além disso, sustentou Martínez, “Perón não teria aceito jamais a suspeita de ser cornudo”.

Em 1973, pressionado nas ruas pela população, pelos sindicatos e os partidos políticos, o regime militar do general Alejandro Lanusse, convocou eleições. Nas urnas venceu o candidato de Perón, Héctor Cámpora. Desde Madri, Perón impôs que seu secretário pessoal e astrólogo fosse ministro.

Eles usam black-tie. O casal Perón com seu mordomo, ministro e astrólogo José “El Brujo” López Rega.

VOLTA PARA BUENOS AIRES – López Rega havia preparado bem seu desembarque no poder: casou sua filha Norma com Raúl Lastiri, um político desconhecido, a quem Perón indicou para a presidência da Câmara de Deputados.

Poucos meses depois, após suspender o exílio de Perón, “El Brujo” articulou a renúncia de Cámpora e seu vice e enviou o presidente do Senado à uma viagem pela África.

Desta forma, Lastiri tornou-se o primeiro na linha de sucessão. No posto de presidente interino, o genro de López Rega que convocou os argentinos às urnas, mais uma vez. Nestas novas eleições foi eleito o próprio Perón.

Em pouco tempo, “El Brujo” havia deixado de ser um simples guarda-costas. Ele havia passado a ser o onipotente ministro do Bem-Estar Social e a eminência parda do governo.

Simultaneamente, López Rega, integrante da Logia Propaganda Due, mais conhecida como P2, começou a introduzir Licio Gelli, líder da poderosa organização, nos círculos do poder peronista em Buenos Aires. Gelli também tinha conexões intensas com a CIA.

Perón aproximava-se da morte. O poder de “El Brujo” crescia. López Rega não tinha pudor de afirmar aos ministros do gabinete que “Isabelita não existe. É uma criação minha”.

No dia 1 de julho de 1974 Perón teve um ataque cardíaco e morreu. Minutos depois, o médico do general, Jorge Taiana e o ministro da Economia, José Gelbard, viram como López Rega anunciava que ressuscitaria “mi General”. Depois de uma série de gestos “mágicos”, começou a puxar Perón pelos pés, gritando “acorda faraó! Durante cinco mil anos te mantive vivo, e agora tens que despertar”. Após meia hora fazendo passes mágicos, desistiu, alegando que “não havia ambiente para a concentração”.

As picaretagens de López Rega inspiraram Janete Clair para criar o personagem Herculano Quintanilha, figura central da novela “O Astro”, de 1978. Acima, fotograma que mostra Quintanilha vestido ad hoc para interpretar o “bruxo” da novela das oito.

A partir daí, o poder de “El Brujo” cresceu mais: ordenou a depuração dos ministérios, e expandiu a atuação da Tríplice A, organização paramilitar criada por ele que perseguia e matava os integrantes da esquerda peronista. Tornaram-se frequentes os sequestros de políticos e sindicalistas à plena luz do dia. Ao mesmo tempo, estabelecia fortes vínculos com o governo líbio do coronel Muamar Kadafi, que havia tomado o poder apenas 6 anos antes.

Calcula-se que entre 1973 e 1975 a Triplice A foi responsável pela morte confirmada de 418 pessoas, além de ter inaugurado o “desaparecimento” de outras 500 como forma de repressão, modus operandi que seria ampliado pela posterior Ditadura Militar (1976-83). Acreditando que tinha uma missão divina, o próprio “Brujo” definia quem seria assassinado. A Triplice A cometeu mais de 1.500 atos terroristas entre 1973 e 1976.

Nesse intervalo, quis convencer o resto dos argentinos à uma vida mais mística, e ordenou que no elegante Parque Thays fosse erguida uma estranha construção, que o sarcasmo portenho batizou de “o ovo de Ciro”, pois López Rega dizia que dentro do prédio oval havia uma ruína do imperador persa que energizaria o país.

“El Brujo” também recuperou o projeto do “Descamisado” (um “anabolizado” monumento originalmente projetado para servir de mausoléu somente para Evita) e reconfigurou o monumento, que seria um mega-mausoléu em pleno centro portenho para enterrrar Perón e Evita. A obra seria chamada  de “O Altar da Pátria”.

López Rega acreditava que o corpo de Evita emanava poderes esotéricos. Ele pretendia inaugurar o monumento com caravanas que iriam, de todas as partes da Argentina em direção à Buenos Aires,levando os corpos de outros heróis da História argentina.

Estes heróis, enterrados em cemitérios em várias partes do país, seriam transferidos para o mega-panteão onde passariam por um novo funeral.

Colocados ao redor do corpo de Evita, segundo López Rega, serviriam para criar um centro-cemitério energético nacional. Diversos historiadores consideram que o próprio López Rega ambicionava um dia ser enterrado ali também (o mega-mausoléu nunca foi concluído).

No entanto, seu reinado pleno, apesar de intenso, durou pouco: um ano depois, no 27 de junho de 1975, a Confederação Geral do Trabalho (CGT) organizou uma mega-manifestação onde pediu sua renúncia. O próprio setor militar desarmou o perigoso exército paralelo de “El Brujo” (e absorveu vários de seus “técnicos”).

López Rega havia feito bons negócios com Kadafi, o qual visitou na Líbia. Acima, Kadafi, aposentado compulsoriamente da profissão de ditador recentemente (e pouco depois enviado para uma visita a Caronte), ao lado de El Brujo, ex-cantor e ministro de Perón. Abaixo, revista publicada pelo partido peronista que elogiava a aliança Argentina-Líbia na primeira metade dos 70. Kadafi, que sabia como lidar com gregos e troianos, havia também treinado integrantes da guerrilha Montonera. Ao mesmo tempo, forneceu armas a López Rega para liquidar a guerrilha.

 

FUGA, KADAFI, CIRURGIAS E PRISÃO – No dia 11 de julho López Rega renunciou. No dia 18 partiu no avião presidencial com o cargo de “representante pessoal” de Isabelita.

Poucos dias depois, desapareceu em Madri. Na Argentina os rumores sobre seu destino eram variados: estaria na Líbia, sob a proteção de Muamar Kadafi ou que estaria nos EUA, graças à CIA. Falava-se que poderia ter feito uma cirurgia plástica (sobre a relação Kadafi-López Rega é interessante destacar que em janeiro de 1974 El Brujo visitou o líbio em Trípoli, com o qual fechou um acordo oficial de troca de petróleo por produtos agrícolas…mas, investigações realizadas poucos anos depois indicaram que López Rega, além de ter recebido comissões adicionais entre US$ 3 milhões e US$ 10 milhões recebeu de Kadafi um carregamento de armas que foram usadas pela Tríplice A. Essas armas posteriormente foram descobertas no arsenal do Ministério de Ação Social. Os guarda-costas de López Rega também receberam treinamento dos assessores do líder líbio).

Em 1983 a polícia argentina descobriu que López Rega estava em Genebra, mas quando a Interpol chegou, “El Brujo” já havia desaparecido. Dali foi para as Bahamas; mais tarde, para Miami. Em março de 1986, foi detido pelo FBI. Extraditado e levado para a Argentina, López Rega começou a sentir os efeitos da diabete, que o deixou quase cego. No hospital, “El Brujo” negava-se a receber transfusões, paranóico de ser assassinado com sangue envenenado.

Três semanas depois da eleição que levaria Carlos Menem à presidência do país, no dia 9 de junho de 1989, López Rega morreu de um enfisema pulmonar, sem chegar a ser condenado pela Justiça.

Ao contrário do que havia tentado fazer com Perón, ninguém tentou revivê-lo. No meio de uma hiperinflação de 4.700% ao mês, e com a iminente passagem do poder do presidente Raúl Alfonsín para Carlos Menem, seu falecimento passou praticamente desapercebido.

Vinte e dois anos após sua morte, e quase trinta e sete de sua queda do governo, já nada resta de sua estrutura de poder: a maior parte de seus colaboradores integraram a repressão durante a Ditadura, e hoje são rechaçados pela maioria da sociedade. Outros conseguiram camuflar relativamente bem seu passado e continuaram operando dentro do peronismo, até os dias de hoje, inclusive, com presença eventual na Casa Rosada.

A filha de “El Brujo”, Norma, ficou viúva de Lastiri e casou-se duas vezes. Em 1997, pediu ao governo uma indenização similar à recebida pelas pessoas que estiveram presas pela Ditadura (US$ 225 mil), alegando que seu pai havia sido “perseguido” pelo regime militar. O pedido virou motivo de piada, e a Justiça o rechaçou.

O feiticeiro mais tristemente conhecido do país quase transformou-se em uma estrela da Broadway quando, depois do sucesso do musical “Evita” de Andrew Lloy Weber, o compositor norte-americano Christopher Moore fuçou no nicho de mercado da História argentina e decidiu em 1999 realizar “Isabelita, The Last Perón” (Isabelita, a última Perón). Na obra, além do fantasma de Evita, López Rega seria um dos principais personagens. Mas o projeto, que até recebeu na época uma proposta para levar a obra ao cinema ficou engavetado.

Nada a ver com El Brujo López Rega, acima a imagem de Juan Sebastián “La Brujita” (A Bruxinha) Verón.

CURIOSIDADE – Poucos anos depois de sua fuga a figura de López Rega inspirou Janete Clair parcialmente para o personagem Herculano Quintanilha, da novela “O Astro”, que era um picareta que dizia que era astrólogo, e que no último capítulo foge do Brasil e vai para uma república bananeira na América Central. Ali transforma-se no astrólogo de um ditador de cabelo tingido de preto como as asas da graúna (tal como Perón fazia na velhice).

E já que estamos em ritmo de Halloween, “Danse macabre”, de Camille Saint-Saëns, aqui.

E a mesma melodia de nosso querido francês com um clip que evoca Tim Burton. Aqui.

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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