Argentina vence “Quarta Guerra Suína”
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Argentina vence “Quarta Guerra Suína”

arielpalacios

17 de março de 2012 | 13h04

 

Litografia francesa de 1914 com ironia sobre os ‘suinizados’ soldados prussianos

O governo da presidente Cristina Kirchner arrancou do Brasil um compromisso para limitar a entrada de carne suína brasileira no mercado argentino. Desta forma, os exportadores brasileiros terão que aceitar a imposição de cotas exigidas pela administração Kirchner, que oscilariam entre 3 mil e 3,5 mil toneladas por mês. A decisão sobre as cotas – medida que viola o espírito de livre comércio do Mercosul – foi o resultado das negociações realizadas na sexta-feira entre o ministro da Agricultura do Brasil, Jorge Mendes Ribeiro, e seu colega argentino, Norberto Yahuar.

Os produtos suínos Made in Brazil estavam há meses na mira do governo Kirchner, que em fevereiro bloqueou praticamente todas as exportações brasileiras do setor. Esta é a “Quarta Guerra Suína” surgida entre os dois países nos últimos 17 anos. Em todos estes conflitos, desde os tempos do ex-presidente Carlos Menem (1989-99), a Argentina sempre venceu a queda de braço.

Em uma coletiva para os correspondentes brasileiros na Embaixada do Brasil, o ministro Ribeiro afirmou que a cota, que será definida na semana que vem entre ambos governos, “estaria entre 3 mil e 3,5 mil toneladas mensais”.

Nestas conversas, técnicos dos dois países também definirão o prazo que o acordo bilateral terá. “Estou extremamente feliz”, destacou Ribeiro sobre os resultados obtidos em Buenos Aires.

Segundo o ministro, que retorna neste sábado ao Brasil, em fevereiro, por causa das barreiras argentinas, somente haviam entrado no mercado argentino 400 toneladas de cane suína Made in Brazil. “E, passar de 400 toneladas para uma garantia de 3 mil, é muito bom”, alegou sorridente.

Ribeiro afirma que confia que o governo argentino não tentará reduzir a cota de 3 mil toneladas. “Percebi que o mercado interno da Argentina precisa dessa quantia”, indicou.

Apesar das alegações do governo Kirchner sobre uma “avalanche” de produtos brasileiros, a balança comercial na área agrícola é amplamente favorável para a Argentina, que exporta para o Brasil US$ 4 bilhões. Na contra-mão, o Brasil somente vende US$ 710 milhões em produtos agropecuários para o mercado argentino.

O governo da presidente Cristina Kirchner começou a brecar a entrada da carne suína brasileira em janeiro, especialmente a polpa. As barreiras estão provocando falta de produtos suínos nas gôndolas dos supermercados argentinos. Do total utilizado pela indústria alimentícia argentina, 40% da polpa é Made in Brazil.

Ribeiro e Yahuar. Em clima shakespereano de All’s Well That Ends Well (Tudo está bem quando termina bem) o ministro argentino recebeu do brasileiro uma camiseta do Grêmio de Porto Alegre, time para qual Ribeiro torce. Os derrotados deste armistício suíno são os produtores brasileiros. Foto do Ministério da Agricultura da Argentina.

PORCODUTO – Os produtores argentinos alegam que a Argentina padece uma “invasão”, “avalanche” ou “inundação” de derivados suínos provenientes do outro lado da fronteira. “Isto é um ‘chancho-ducto’ (porcoduto) que favorece a entrada da carne suína brasileira”, afirmam os argentinos da Federação Agrária, uma combativa associação agropecuária famosa por suas eficazes mobilizações, que incluem piquetes nas estradas.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), as medidas argentinas que restringem a entrada de carne suína brasileira levaram em fevereiro a uma queda de 84,9% em volume em comparação com o mesmo mês de 2011, já que foram embarcadas apenas 478 toneladas. A queda da receita foi 84,1%, passando de US$ 9,5 milhões para US$ 1,51 milhão.

No ano passado o mercado argentino absorveu 42 mil toneladas de carne suína brasileira, pelo total de US$ 129 milhões. No ano 2000, quando a Argentina estava mergulhada em uma recessão que arrastava-se desde 1998 (e que se agravaria na crise de 2001-2002), o Brasil vendeu à Argentina 36,5 mil toneladas do produto.

O presidente da Abipecs, Pedro de Camargo Neto, afirma que a “discriminação que vem sendo praticada pelo país vizinho com a carne suína brasileira torna-se insustentável”.

 

CONFLITOS SUÍNOS – Os produtores argentinos costumam afirmar que desde 1995-1997, quando ocorreu a “Primeira Guerra Suína”, as “invasões” brasileiras destruíram milhares de postos de trabalho do setor na Argentina, acabando com centenas de granjas. Na época, os empresários locais – que acusavam os brasileiros de fornecerem milho subsidiado como alimentos aos suínos – protagonizaram piquetes nas estradas que ligam os dois países, para impedir a entrada do produto proveniente do Brasil.

O conflito suíno persistiu ao longo dos últimos 17 anos. No entanto, teve picos de grande tensão – com ameaças mútuas de retaliações – em 2001, durante o governo do presidente Fernando De la Rúa, quando a “Segunda Guerra Suína” teve como protagonista a então secretária de Indústria, Débora Giorgi, que pregava mais “firmeza” com o Brasil. Nesta ocasião, o argumento em Buenos Aires era que a desvalorização do real, ocorrida dois anos antes, em 1999, havia tornado a carne suína brasileira mais competitiva, criando um cenário “injusto” entre os dois parceiros comerciais.

A “Terceira Guerra Suína” ocorreu em 2004, com o presidente Néstor Kirchner, que alegava que a Argentina precisava reduzir as importações para “recuperar-se” da crise econômica de 2001-2002.

As primeiras escaramuças do atual conflito – a “Quarta Guerra Suína” – começaram há um ano, quando em fevereiro de 2011 os empresários argentinos ameaçaram bloquear a ponte que ligar a argentina Paso de los Libres com a brasileira Uruguaiana, por onde passa a maior parte da carne suína Made in Brazil destinada ao mercado argentino.Em agosto do ano passado, o então ministro argentino, Julián Dominguez, reuniu-se com seu colega brasileiro, Wagner Rossi, para discutir os diferendos suínos. No entanto, não houve avanços na época. 

LEITÕES E CULTURA

A História da Guerra do Porco, que em 1859 quase confrontou os Estados Unidos com a Grã-Bretanha no Canadá. O pivô da guerra que não chegou a começar foi um porco, pertencente a um homem do lado britânico, que ignorou as fronteiras estabelecidas pelos homens e entrou no terreno de um americano para comer suas batatas. O americano correu atrás do porco e o matou com um tiro. O incidente teve um efeito dominó e levou os dois governos a colocar tropas na fronteira. Mas, no fim das contas, deu tudo certo. A única vítima fatal do conflito foi o próprio porco, cujo nome não entrou para a História.

http://en.wikipedia.org/wiki/Pig_War

E ainda relativo a nomes suínos, o Diário de la guerra del cerdo (Diário da guerra do porco), livro de 1969 de Adolfo Bioy Casares que relata uma guerra entre gerações na qual os jovens saem à caça dos “porcos”, denominação que aplicam aos velhos nesta angustiante história do autor de “A invenção de Morel”.

“Porco rosso” (Porco vermelho), um desenho animado japonês – “Kurenai no buta” – de 1992, que conta a história de um piloto italiano da Primeira Guerra Mundial que, por um feitiço, foi transformado em um imenso porco. Anos depois, em 1929, ele se dedica a combater “piratas aéreos” na costa do Adriático. Um interessante filme dieselpunk que é um libelo contra a guerra. O trailer do filme, aqui.

E, em clima de William Shakespeare, pelo que indicam os governos acima citado, a primeira página de uma edição de 1623 de ” Tudo está bem quando termina bem”. Em tempo: esta obra do bardo de Stratford-upon-Avon é vista por alguns especialistas como uma comédia…embora outros literatos considerem que, no fundo, é uma tragédia.

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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