Atentado contra a AMIA: 20 anos sem Justiça
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Atentado contra a AMIA: 20 anos sem Justiça

arielpalacios

20 Julho 2014 | 20h05

 

O antigo prédio da AMIA, arrasado por uma bomba às 9:53 da manhã do dia 18 de julho de 1994. O prédio estava na rua Pasteur, no “Once”, denominação dessa área do bairro de Balvanera.

A FILHA DE SOBREVIVENTES DO HOLOCAUSTO QUE SOBREVIVEU AO ATENTADO CONTRA A AMIA

Anita Weinstein sobreviveu ao atentado contra a AMIA em 1994. Meio século antes seus pais haviam sobrevivido ao Holocausto judeu na Europa ocupada pelo Terceiro Reich. Diretora do Centro de Informação sobre Judaísmo Marc Turkow, Anita declarou em entrevista ao Estado que seus pais lhe transmitiram uma mensagem de otimismo “que continuou vigente depois do atentado. Deles aprendi que temos que lutar, não ficar no papel de vítima, paralisada”.

Estado – Como foi sua rotina naquela manhã do atentado?

Anita – Trabalhava em um prédio da AMIA que estava a três quadras de distância da sede da entidade. Minha rotina era ir ali cedo, reunir-me com minha secretária Mirta Strier (42 anos) e depois ir na sede da AMIA. Naquela época preparava as atividades do centenário da instituição. Quando entramos no prédio a conversa de todos era a final da Copa do Mundo que tinha ocorrido na véspera, domingo, quando o Brasil ganhou. Subimos ao segundo andar, onde era meu novo escritório, de frente para a rua. Vi o Buby (apelido de Naon Bernard Mirochnik, de 62 anos), que era o garçom, e com um gesto pedi dois cafés. Aí lembrei que tinha que perguntar uma coisa ao Miguel Salem, que estava no mesmo andar, mas no fundo. Quando estava falando com ele houve um barulho. Todo o prédio se mexeu. Tudo ficou escuro. Não tinha ideia do que estava acontecendo. Não podia respirar pela poeira. Quando consegui sair, pelos fundos, passando ao terreno de outros prédios, tomei consciência da magnitude da destruição, quando vi outros edifícios também atingidos pela explosão. E os gritos. Quem estava na parte da frente do prédio, onde eu estivera minutos antes, havia morrido com a explosão.

Estado – Qual foi sua reação após a explosão?

Anita – Queria remover os escombros para buscar os soterradas. Mas viram que havia estado dentro do prédio destruído e me pediram para descansar. Pude avisar meu marido que estava viva. Os celulares eram raros na época. Os telefones da área estavam quebrados ou colapsados. Pouco depois eu já estava formando uma base de dados, e começamos a informar onde estavam os sobreviventes. Não podia me deter. Não ia me deixar vencer pelos autores do atentado. O corpo de Mirta foi encontrado dias depois. Ela tinha três filhinhos. O corpo de Buby também foi encontrado.

Anita Weinstein sobrevivente do atentado contra a AMIA: “não vou deixar me vencer pelos autores do atentado”

Estado – Teme que ocorra um novo atentado desse estilo em Buenos Aires?

Anita – É uma pergunta muito difícil de responder em um mundo com tantas convulsões. Mimha esperança é que não ocorra. Gostaria que, depois do atentado contra a Embaixada de Israel a AMIA o governo tivesse desenvolvido um sistema de alerta e detecção de perigos. Mas, passaram 20 anos e os culpados estão soltos por aí. E as instituições judaicas ainda devem viver com as barreiras nas calçadas…

Estado – É a segunda geração de sua família que sobrevive ao ódio…

Anita – Meus pais moravam na Polônia no vilarejo de W?odawa quando chegaram as tropas de Hilter, instalando o Shoa (Holocausto). Meu pai foi levado ao campo de concentração de Sobibor mas fugiu em 1943 e sobreviveu escondendo-se nos bosques. Minha mãe e seu irmão sobreviveram porque um lavrador polonês teve a grandeza humana de escondê-los quase três anos em seu celeiro, correndo o risco de ser descoberto e fuzilado pelos nazistas. Após o fim da guerra migraram para a Bolívia e depois para a Argentina. Minha mãe, quando soube da explosão da AMIA, foi me buscar (seu pai havia falecido anos antes). Ao ver-me, me disse “nunca imaginei que eu, uma sobrevivente, teria uma filha que também seria uma sobrevivente…”

20 ANOS SEM JUSTIÇA

Lideranças da comunidade judaica argentina e parentes das vítimas do atentado contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) exigiram na sexta-feira o julgamento à revelia dos cidadãos iranianos acusados pela Justiça argentina de terem organizado e ordenado o ataque terrorista que em 1994 matou 85 pessoas e feriu e mutilou outras 300 na área do “Once”, denominação informal de uma área do bairro portenho de Balvanera. Os responsáveis pelo atentado – o maior ataque terrorista da História da América Latina – continuam livres.

Parlamentares dos partidos Proposta Republicana (PRO) e União Cívica Radical (UCR), de oposição, anunciaram que apresentarão projetos de lei para modificar um artigo do Código de Processo Penal, de forma a permitir a realização de um processo à revelia. Neste caso, o plano é seguir o Estatuto de Roma e a Convenção sobre a Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e contra a Humanidade e fazer o julgamento à revelia quando transcorrem dois anos da ordem de detenção.

Segundo a Justiça argentina, o ataque foi organizado em conjunto com o Hizbollah e uma conexão argentina.

A Argentina pediu em 2007 à Interpol a captura de cinco iranianos, que em 1994 ocupavam altos postos no governo do presidente Akbar Rafsanjani, entre eles Ahmad Vahidi, que em 1994 era o comandante da Força Quds. Posteriormente Vahidi foi ministro da Defesa no governo de Mahmoud Ahmadinejad.

No entanto, em janeiro de 2013, depois de seis meses de negociações secretas a Casa Rosada anunciou um acordo com o Irã para criar uma “comissão da verdade” conjunta para investigar o atentado. Em fevereiro do ano passado a presidente Cristina Kirchner conseguiu aprovar o acordo graças à maioria que possui no Congresso Nacional. No entanto, apesar da ratificação do acordo pelo lado argentino, o Parlamento em Teerã nunca aprovou o pacto.

A comunidade judaica e partidos da oposição criticaram o pacto, sustentando que implicaria em um retrocesso para as investigações. Além disso, acusaram o governo Kirchner de ignorar as decisões da Justiça em Buenos Aires. Ontem, Luis Czyzewensky, pai de uma jovem que morreu no atentado, durante um discurso na cerimônia sustentou que “as determinações da Justiça argentina devem ser cumpridas e não negociadas”.

O vice-presidente da AMIA, Ralph Thomas Saieg, exigiu ontem que o Parlamento revogue o acordo e que o governo Kirchner “tome ações para reclamar justiça no máximo nível internacional”.

Saieg também ressaltou que o governo Kirchner atarefa-se em pedir respaldos internacionais para reivindicar as ilhas Malvinas ou para solicitar apoio no conflito que a Casa Rosada mantém com os credores da dívida pública. No entanto, o governo Kirchner não pede o respaldo internacional para avançar no julgamento dos culpados do ataque à AMIA.

A cerimônia foi encerrada com uma mensagem do papa Francisco gravada em um vídeo, no qual o sumo pontífice sustenta que o atentado “foi uma tragédia, uma loucura”. Segundo o papa “o terrorismo é uma loucura, que só sabe matar, não sabe construir. Só destrói!”

AUSENTE – A presidente Cristina Kirchner, por terceiro ano consecutivo, não participou das cerimônias em memória aos mortos, sequer enviou uma mensagem de apoio. Cristina, que usa as redes sociais com frequência, especialmente o Twitter, tampouco havia recorrido nesta manhã de sexta-feira à rede de micro-bloggings para expressar seu pesar pelos 85 mortos no atentado.

O chefe do gabinete de ministros, Jorge Capitanich, sustentou que a presidente Cristina não participou da cerimônia “porque hoje recebe o presidente da China que é um fato relevante na política internacional”.

A presidente Cristina encontrou o presidente chinês na tarde da sexta.

ALVO – Nos anos 90 a Argentina era considerada um alvo fácil para um ataque terrorista, devido à baixa vigilância de suas fronteiras. Além disso, era um alvo interessante para o terrorismo fundamentalista, já que possui a maior comunidade judaica da América Latina, estimada entre 250 mil e 500 mil pessoas. Em 1992, dois anos antes do atentado contra a AMIA, um carro-bomba arrasou a sede da Embaixada de Israel em Buenos Aires, no bairro de Retiro. O ataque matou 29 pessoas e feriu outras 250, várias das quais estavam na escola primária e no asilo de idosos na calçada da frente.

‘VÍTIMAS DA AMIA SÃO CONSIDERADOS MORTOS DE SEGUNDA CATEGORIA’

O escritor e jornalista Hernán Dobry, autor de “Rabinos nas Malvinas”, investigação sobre as torturas que os oficiais argentinos aplicaram contra soldados judeus compatriotas durante a guerra, disse ao Estado que “a triste realidade é que na Argentina está considerado que o atentado contra a AMIA é um assunto dos judeus. “Há pouco tempo o então chefe do bloco kirchnerista no senado, Miguel Angel Pichetto, declarou que no ataque à AMIA haviam morrido ‘argentinos-argentinos e argentinos-judeus’…”, ilustra.

“O governo Kirchner, que colocou um feriado para recordar o dia do golpe militar de 1976, não dedica sequer um dia oficial – mesmo sem ser feriado – para a data do atentado, que foi o maior da História da Argentina e de toda a América Latina”.

Segundo Dobry, “o governo atarefou-se para conseguir levar os responsáveis por crimes da ditadura ao bancos dos réus. Mas, no caso da AMIA, não há pressões pelo julgamento dos responsáveis. E, enquanto que as famílias das vítimas da ditadura receberam uma indenização do Estado argentino, os parentes dos mortos da AMIA não receberam um centavo sequer. As vítimas da AMIA são considerados mortos de segunda categoria”.

EX-PRESIDENTES BRASILEIROS PEDEM JULGAMENTO DOS RESPONSÁVEIS PELO ATENTADO CONTRA AMIA

Os ex-presidentes brasileiros Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso condenaram o ataque terrorista contra a AMIA. As mensagens dos dois ex-presidentes brasileiros, que exigiram o julgamento dos responsáveis, foi exibida a um grupo de participantes das diversas cerimônias que entre a quinta-feira e a sexta-feira transcorrem em Buenos Aires em memória das 85 pessoas que morreram no atentado.

“Vocês merecem todo meu respeito. Há 20 aos vocês trabalham para que tamanha agressão à vida não seja esquecida e buscam o apoio de todos os que prezam a democracia. Esse é o caminho para não deixar que se repita essa atrocidade”, afirmou o ex-presidente Lula.

Apesar dos 20 anos transcorridos desde a tragédia, nenhum dos responsáveis foi julgado.

A Justiça argentina acusa um grupo de autoridades iranianas que integravam na época o governo de Teerã de ter feito o atentado contra a AMIA em conjunto com o Hizbollah. As pistas também indicam uma conexão local vinculada à polícia argentina e ex-militares carapintadas, famosos por seu antissemitismo.

“Todo ato de terror é condenável e não pode ser esquecido e deve ser sempre punido. O exemplo de vocês é um exemplo em todas as partes do mundo”, sustentou Lula.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso definiu o ataque terrorista como “um massacre inaceitável” que “não pode voltar a acontecer. Segundo Cardoso, o atentado de 1994 “foi um crime contra a Humanidade”.

O ex-presidente sustentou que “o mundo do futuro requer paz e Justiça. Mas, não haverá paz sem fazer Justiça. É preciso estar sempre alerta. Esperemos que coisas assim não aconteçam mais. Mas, ninguém pode nos dar a certeza de que isso não voltará a acontecer. Por isso, é preciso a atenção permanente de todos os democratas do mundo para que não aceitem a intolerância. Somos todos iguais. Não podemos fazer discriminações, sequer por palavras. Nunca mais aceitaremos violência como a que houve em Buenos Aires no dia 18 de julho de 1994!”. 

Quem foi que colocou a bomba?

Ao longo destes 20 anos surgiram várias hipóteses:

A 1ª, a de que seria um grupo fundamentalista muçulmano.

Neste caso estão as sub-hipóteses de que foram os iranianos, ou os sírios, ou ainda os líbios.

A 2ª hipótese, descartada há bastante tempo, é que foi um atentado nacional com a participação de militares carapintadas, de tradição anti-semita, junto com a má-afamda Polícia Bonaerense, por diversos motivos políticos.

A 3ª hipótese afirma que foram muçulmanos juntos com carapintadas e com uma conexão da Polícia Bonaerense.

Quais os motivos do atentado?

– Segundo a promotoria da Justiça Federal argentina é que foi uma vingança contra o então presidente Carlos Menem, filho de muçulmanos, mas converso ao cristianismo, por ter suspendido convênios nucleares com Irã.

Mas, nos últimos 20 anos surgiram outras hipóteses paralelas, entre elas:

1- Vingança muçulmana (genérica) contra Menem pelo alinhamento com os EUA.

2- Vingança síria contra Menem por ter prometido – e nunca cumprido – promessas de fornecimento de um reator nuclear para a Síria em 1989, em troca de apoio financeiro para sua campanha eleitoral.

3 – Vingança da Líbia, pela promessa nunca cumprida por Menem a Kadafi (em troca de respaldo financeiro para sua campanha presidencial) de fornecer a tecnologia do míssil argentino Condor, desmantelado a pedido dos EUA.

4 – Vingança contra a comunidade judaica argentina pela intervenção israelense no Líbano na época.

Como foi implementado o atentado?

A versão oficial: uma camionete Traffic usada como carro-bomba.

A versão extra-oficial número 1: um contâiner na frente do prédio com uma bomba dentro.

A versão extra-oficial 2: uma bomba colocada dentro do edifício.

A versão extra-oficial 3: uma bomba no contâiner na frente do edifício e outra bomba, dentro de sacos de cimentos, dentro do prédio, que estava em obras.

E a mais estranha de todas, a versão extra-oficial 4: uma bomba colocada no teto do edifício por um helicóptero.

E para encerrar, o “Kaddish”, de Maurice Ravel:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

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