Batalha pela prefeitura de Buenos Aires, parte 1 (os portenhos vão às urnas para definir quem comandará a “rainha do rio da Prata”)
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Batalha pela prefeitura de Buenos Aires, parte 1 (os portenhos vão às urnas para definir quem comandará a “rainha do rio da Prata”)

arielpalacios

10 de julho de 2011 | 08h12

Buenos Aires teve um cotidiano agitado desde sua primeira fundação em 1536 (a segunda foi em 1580 pelo basco Juan de Garay, junto com nove espanhóis e 75 paraguaios.). Do lado esquerdo da gravura, a cidade incipiente, cercada por uma paliçada com a qual os espanhóis tentavam driblar os ataques dos índios querandíes. Em meio ao caos que tomou conta do vilarejo que era sitiado com freqüência, a comida era escassíssima. Uns homens, culpados de roubar comida, foram condenados a morte e enforcados. Os outros integrantes da expedição, famintos, não hesitaram em cortar alguns pedaços dos condenados (que na gravura apearecem sem as pernas). A ilustração é do peculiar aventureiro Ulrich Schmiedel, que acompanhava o conquistador – e fundador de Buenos Aires (da primeira fundação) – Pedro de Mendoza. Mendoza abotoou o paletó de madeira no meio da viagem de volta à Espanha por uma arrasadora sífilis. Schmiedel, que também havia passado pelas costas do Brasil (visita também imortalizada com interessantíssimas gravuras). Schmidel voltou à Alemanha (Sacro Império Romano-Germânico na época) onde morreu em 1579. O livro do aventureiro, com ilustrações e texto sobre sua viagens no Brasil e Argentina chama-se “Wahrhaftige Historien. Einer Wunderbaren Schiffahrt / welche Ulrich Schmiedel von Straubing / von Anno 1534 biß Anno 1554 in Americam oder Neuwewelt / bey Brasilia und Rio della Plata gethan. …”. Ach so! A ilustração é de domínio público, já que Herr Schmiedel morreu há mais de 70 anos…

ATOS, NÚMEROS E PECULIARIDADES DE BUENOS AIRES E DESTA ELEIÇÃO

CANDIDATOS

A cidade conta com 12 candidatos a prefeito. Os principais, de acordo com as pesquisas, são:

Mauricio Macri, do Proposta Republicana (PRO), de centro-direita, de 32% a 40% das intenções de votos.

Daniel Filmus, da sublegenda peronista Frente pela Vitória, de centro-esquerda, oscila entre os 18% e 30% dos votos.

Fernando “Pino” Solanas, do Projeto Sul, de esquerda, de 8% a 14% dos votos.

ELEIÇÕES, CARGOS EM DISPUTA

– Prefeito e vice-prefeito

– Metade das cadeiras de deputados estaduais (a cidade é um distrito federal)

– Representantes das “Comunas” (subdivisões dos bairros da cidade) 

CIDADE DE BUENOS AIRES

– A capital argentina possui 2,89 milhão de habitantes (menos do que tinha em 1945, quando a população era de 3,2 milhões).

– No total, residem na cidade 2,46 milhões de eleitores portenhos.

– A cidade possui 8,6% do total do eleitorado nacional. É o terceiro maior colégio eleitoral depois da província de Buenos Aires (37,3% dos eleitores) e da província de Córdoba (8,7%)

– Buenos Aires caracteriza-se pelo voto anti-peronista.

– Buenos Aires concentra o poder político, empresarial, sindical, além de ser o principal centro cultural do país e o cenário das manifestações sociais.

ois milhões e quatrocentos mil eleitores portenhos – caracterizados por seu voto volátil – irão neste domingo às urnas para definir o futuro governo da cidade de Buenos Aires. A disputa pela prefeitura está sendo protagonizada por quinze candidatos que pretendem administrar a cidade que concentra o poder político, empresarial, financeiro, sindical, além de ser o centro cultural da Argentina e o foco das crônicas manifestações populares.

No campo de guerra portenho confrontam-se o prefeito Maurício Macri, do partido Proposta Republicana (PRO), de centro-direita, que tenta a reeleição e é o favorito nas pesquisas para obter a pole position neste primeiro turno. O ex-presidente do clube Boca Juniors era cotado até o ano passado como um dos principais presidenciáveis da oposição.

No entanto, o PRO, que está centralizado na figura de Macri, arriscava-se a perder a capital argentina caso ele não fosse candidato a um novo mandato. Desta forma, o prefeito adiou por outros quatro anos suas ambições de sair do elegante edifício francês da prefeitura, atravessar a Praça de Mayo e entrar na Casa Rosada para ser o presidente da República. Seu marqueteiro, o equatoriano Jaime Duran Barba, afirma que neste domingo à noite Macri fará “seu primeiro discurso de olho nas presidenciais de 2015”.

Para tentar derrotar Macri a presidente Cristina Kirchner determinou que seu ex-ministro da Educação, o senador Daniel Filmus, seria o candidato da Frente pela Vitória, a sublegenda kirchnerista do Partido Justicialista (Peronista).

A presidente mobilizou seu gabinete para respaldar o único candidato com relativas chances que seus aliados possuíam na cidade, caracterizada pelo rechaço à figura da presidente Cristina e seu marido e ex-presidente Nestor Kirchner, falecido no ano passado.

No entanto, ela não se engajou pessoalmente na campanha de Filmus no primeiro turno destas eleições, que está em segundo lugar nas pesquisas. A expectativa é que ocorra um intenso engajamento da presidente no eventual – e quase assegurado – segundo turno.

Além deles, também almeja conquistar o governo da maior cidade do país o cineasta Fernando “Pino” Solanas, do partido de esquerda Projeto Sul. Solanas argumenta que representa o “socialismo verdadeiro”, acusa o governo Kirchner de “falso progressismo”, enquanto que ataca Macri, definindo-o de “direitista”. O cineasta rejeita as pesquisas que o colocam em terceiro lugar e afirma que receberá o “voto silencioso” dos portenhos.

Os restantes 12 candidatos, entre os quais está o ex-prefeito Jorge Telerman, o ex-ministro da Defesa Ricardo López Murphy e o ex-árbitro de futebol Javier Castrilli, constituem – juntos com os indecisos e os que pretendem votar em branco ou anular – em 20% nas pesquisas.

No entanto, os votos destes e de Solanas (caso este não consiga seu desejo de passar para o segundo turno) serão disputados por Macri e Filmus na seguinte etapa eleitoral, que ocorreria no dia 31 de julho.

   

OLÁTIL – Os analistas consideram que eleitorado portenho é extremamente volátil, independente e refratário aos governos federais. Roberto Bacman, diretor da empresa de pesquisa de opinião pública Ceop, admitiu ao Estado: “Buenos Aires é uma cidade muito esquisita”. Além disso, o clientelismo – frequente nas províncias do interior – não tem peso significativo na cidade.

Sobre a marca da volatilidade portenha, um dos principais colunistas políticos do país, Joaquín Morales Sola, do jornal “La Nación”, ressalta que em 1996 e 1999 os portenhos concederam a Fernando De la Rua amplas vitórias nas respectivas eleições para a prefeitura e para a presidência da República. Mas, foram os próprios portenhos que em 2001 – com os panelaços e protestos nas ruas – provocaram a queda de De la Rua.

Perante a hipótese de um segundo turno – que todos os candidatos admitem – o governo Kirchner está colocando grande esforço para vencer na próxima etapa em Buenos Aires, já que uma eventual conquista da prefeitura portenha constituiria em um duro golpe à oposição.

Além disso, uma eventual vitória kirchnerista implicaria uma mudança drástica na história eleitoral portenha, onde o peronismo só ganhou uma eleição, em 1992, quando o governo de Carlos Menem estava em seu apogeu de popularidade. No entanto, os analistas destacam que as eleições portenhas “criam clima mas não antecipam resultado nacional algum”.

ERFIS DOS PRINCIPAIS CANDIDATOS A PREFEITO DA CAPITAL ARGENTINA

MAURÍCIO MACRI – Filho do empresário ítalo-argentino Franco Macri, ícone do capitalismo argentino nos anos 80 e 90, Maurício nasceu em 1959. No início dos anos 90 trabalhou durante um breve período nas empresas do pai, das quais foi afastado – segundo as más línguas – por péssimo desempenho como administrador. Em 1995 independizou-se da figura paterna e foi eleito presidente do Boca Juniors. No comando do time – transformado em uma máquina de marketing esportivo – tornou-se uma figura conhecida do grande público. No final dos anos 90 começou a flertar com a política, aproximando-se do então presidente Carlos Menem (1989-99). Em 2003 criou seu partido, o Compromisso pela Mudança (CpC), que desde 2005 integra a coalizão Proposta Republicana (PRO). Macri define-se de “centro”.

Mas, analistas – além de seus críticos – afirmam que trata-se da “Nova Direita” apresentada com figurino “cool”.

Diversos analistas o indicam como um político “preguiçoso”, já que em diversas ocasiões Macri desinteressou-se do partido, para voltar a ocupar-se tempos depois.

Em 2005 foi eleito deputado, mas quase não apareceu no Parlamento. Após vencer as eleições da prefeitura em junho de 2007, em vez de consolidar-se como líder da oposição, saiu de férias. Os efeitos dessa “preguiça” ficaram evidentes quatro meses depois, nas eleições parlamentares e presidenciais, quando seu partido caiu dos 61,9% dos votos obtidos em junho na cidade de Buenos Aires – seu principal reduto – para somente 12% dos votos portenhos. 

Nas eleições parlamentares de 2009 o PRO somente obteve 30% dos votos na cidade governada por Macri.

Em 2007 foi candidato a prefeito. No confronto contra o candidato do governo Kirchner, Daniel Filmus (no qual votou seu pai, Franco Macri), Maurício venceu com 61% dos votos no segundo turno. Mas, nas eleições parlamentares de 2009 seu partido conseguiu apenas 30% dos votos portenhos.

Em novembro passado, durante sua festa de casamento com a empresária do setor de moda Juliana Awada, Maurício subiu no palco do salão de festas e – vestido com a capa de Freddie Mercuri – fez um cover do líder do Queen. No entanto, a imitação do autor de hits como “We are the champions” foi interrompida quando – com o suor – o bigode postiço que ostentava para emular o cantor deslizou sobre seu lábio superior e rapidamente foi parar em sua garganta interrompendo a interpretação de “Love of my life”. As pessoas presentes afirmam que Macri quase morreu ao engolir e engasgar com o bigode postiço, tornando-se o primeiro político argentino a passar por uma situação de tal categoria.

DANIEL FILMUS – Nascido em 1955, Filmus estudou sociologia e pedagogia na Universidade de Buenos Aires, além de fazer um mestrado na Universidade Federal Fluminense no Rio de Janeiro. Nos anos 70 teve uma breve passagem pela juventude do Partido Comunista. Mas, entre 1989 e 1992 ocupou diversos cargos secundários durante o governo do peronista Carlos Menem, de centro-direita. No entanto, desvinculou-se do menemismo, tornando-se crítico de suas tendências privatizantes. Em 2003 aceitou a oferta do presidente Nestor Kirchner (2003-2007) para ocupar o cargo de ministro da Educação.

Em 2007 Kirchner e sua esposa, Cristina, optaram pela boa imagem de Filmus como ministro para lançá-lo candidato a prefeito da cidade de Buenos Aires, distrito eleitoral costumeiramente refratário ao Partido Justicialista (Peronista).

Durante a campanha, perante as pesquisas que indicavam que seria derrotado por Macri, Filmus apelou a um slogan que os publicitários consideraram “desesperado”: “Vote em Filmus – Nada é impossível”.

Apesar da derrota, seu nome continuou sendo cotado como eventual futuro candidato do governo para a disputa da capital argentina. Em maio passado, a presidente Cristina Kirchner decidiu que dos três candidatos do governo para a cidade, o que melhor despontava nas pesquisas era Filmus. Desta forma descartou o ministro do Trabalho, Carlos Tomada (que tornou-se o vice-prefeito da chapa) e o ministro da Economia, Amado Boudou (que foi colocado como vice na chapa presidencial da própria Cristina Kirchner)

É um dos poucos ex-integrantes do gabinete Kirchner não envolvido em escândalos de corrupção.

FERNANDO SOLANAS – Solanas, que define-se como o “real” representante da esquerda argentina, acusa a presidente Cristina Kirchner de ser uma “falsa” esquerdista e de ser aliada dos capitais estrangeiros, entre os quais companhias telefônicas e mineradoras.

Aos 75 anos, o parlamentar e diretor de filmes cult como “Tangos, o exílio de Gardel”, é o líder do Projeto Sul, partido que reúne representantes da esquerda, de setores do sindicalismo e de organizações de defesa dos Direitos Humanos.

O líder do Projeto Sul propôs “desterrar a pobreza” e “instalar a ética pública no Estado argentino”.

Solanas, casado com a atriz brasileira Ângela Correa, conseguiu 25% dos votos na cidade de Buenos Aires nas eleições parlamentares de 2009, despontando como fenômeno político. Ele já havia sido duas vezes candidato à presidência da Argentina (1995 e 2007), sem no entanto conseguir votos expressivos.

Nos últimos três anos oscilou entre respaldar algumas medidas do governo Kirchner, como a Lei de Mídia, a estatização do sistema previdenciário e da Aerolíneas Argentinas, e criticá-lo em outras, como a reabertura da reestruturação da dívida com os credores privados que estava em estado de calote e na intervenção do Banco Central. “A política de Cristina Kirchner é de super-direita”, dispara Solanas.

PELIDOS DE BUENOS AIRES

A cidade é chamada de diversas formas:

– Baires (aplicada pelos jovens)

– Cidade Autônoma de Buenos Aires (ou a sigla CABA)

– Capital Federal (ou Cap.Fed.)

– A Paris da América do Sul

– A Rainha do Rio da Prata

A cidade foi fundada com o nome de Real de Nuestra Señora Santa Maria del Buen Ayre. Essa havia sido a promessa de Pedro de Mendoza à Padroeira dos Navegantes que estava na Fraternidade dos Marinheiros de Triana, um dos bairros de Sevilha, na Espanha.

“Buen Ayre” era a versão castelhanizada do nome da Virgem de Bonaria, que os padres mercedários veneravam em um santuário em Cagliari, na ilha da Sardenha. Esta virgem, por seu lado, também era venerada em Cádiz, Espanha.

Na segunda fundação a cidade recebeu o nome de “Ciudad de la Trinidad”. Mas o porto (só a área do porto) foi designado “Santa Maria del los Buenos Ayres”. No entanto, este último nome teve mais “punch” entre os portenhos e dali toda  cidade passou a ser Buenos Ayres. E finalmente, Buenos Aires.

 EXTRA! EXTRA!

– BOCA DE URNA

Caras e caros, as primeiras bocas de urna indicam que haverá segundo turno no dia 31 de julho, já que Macri teria oscilado entre 43% e 46% dos votos, enquanto que Filmus ficaria na faixa dos 30% aos 33%. 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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