Como ser turista em B.Aires e (tentar) não padecer a destreza dos batedores de carteira, caixas eletrônicos problemáticos, dinheiro falso, taxistas espertos e outros percalços
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Como ser turista em B.Aires e (tentar) não padecer a destreza dos batedores de carteira, caixas eletrônicos problemáticos, dinheiro falso, taxistas espertos e outros percalços

arielpalacios

20 de março de 2011 | 23h29

O modus operandi dos batedores de carteira é assaz antigo. A ilustração acima é “Cena de um mercado com roubo”, da pintora parisiense Louise Moillon (1615-1674). Na pintura vemos como no lado direito do quadro uma mulher – batedora de carteiras – age subrepticiamente no meio de um mercado em Paris. Na postagem de hoje não falaremos de Paris, França… mas sim da “Paris da América do Sul”, apelido que outrora ostentava Buenos Aires.

A capital argentina ainda é uma das mais seguras da América Latina. No entanto, a criminalidade aumentou de forma persistente desde a crise de 2001-2002. Além dos denominados “amigos do alheio”, o cotidiano dos argentinos – e dos turistas – é embalado por outros problemas, entre os quais táxis picaretas, problemas constantes nos caixas eletrônicos, greves freqüentes nos aeroportos e a crescente falta de troco nos comércios.

 A cidade é genial… só é preciso estar preparado para algumas circunstâncias.

‘CALLE’ FLORIDA TORNOU-SE PARAÍSO DOS BATEDORES DE CARTEIRA

Decadente desde os anos 90, a “calle” Florida”, o outrora elegante calçadão cêntrico portenho, “point” durante décadas das compras, transformou-se em uma via na qual, além de turistas e trabalhadores dos escritórios do centro, acotovelam-se camelôs, dançarinos de tango que exibem seu virtuosismo aos estrangeiros, “estátuas vivas”, mendigos e músicos (de violinistas a intérpretes da harpa paraguaia, passando pelos bandoneonistas). Este cenário de elevada aglomeração de pedestres – somado ao aumento da criminalidade no país e a crise das forças de segurança – tornou a Florida no paraíso dos batedores de carteiras que aproveitam o grande fluxo de pessoas – especialmente distraídos turistas – para surrupiar dinheiro, joias e documentos dos pedestres. Em média, de 20 a 30 pessoas são roubadas diariamente nessa rua, de acordo com as denúncias feitas à Polícia, que consistiriam em uma pequena parte do total ocorrido.

Cena do filme “Pickpocket”, de Robert Bresson, de 1959. O filme mostra um jovem parisiense – Michel – que mora em um sórdido quarto e começa a entrar na delinquência. Rapidamente, Michel (com personalidade que recorda “Crime e castigo”, de F.Dostoyeviski) transforma-se em um hábil batedor de carteiras. Um filmaço.

Héctor López Moreno, presidente da Associação de Amigos da Calle Florida, lamente: “é uma pena, pois uma pessoa que visita a Argentina, quando volta a seu país, uma de suas principais lembranças será a do roubo que sofreu”.

Os comerciantes da Florida calculam que os batedores estão reunidos em quinze grupos – compostos por um número de integrantes que oscila em média de dois a cinco ladrões – que operam ao longo dos treze quarteirões entre as avenidas de Mayo e Santa Fe. No entanto, o trecho mais visado pelos batedores de carteiras são os cinco quarteirões que estão entre a rua Sarmiento e a avenida Córdoba.

Os batedores de carteiras, além de agir na via pública, também operam dentro de lojas com espaço exíguo na hora que estão cheias de compradores.

Calle Florida: calçadão do centro portenho atrai turistas brasileiros, europeus e americanos. E também os batedores de carteira, que agem com excepcional destreza. Os ladrões não discriminam nacionalidades e também assolam os bolsos de seus compatriotas argentinos.

VÍTIMAS – Uma parte substancial dos turistas provenientes do Brasil que são furtados em Buenos Aires foram vítimas na ‘calle’ Florida, que costuma ficar abarrotada de pedestres entre as 10:00 e as 20:00 horas durante os dias úteis.

O consulado do Brasil não recebe denúncias de roubos. No entanto, realiza os trâmites do documento denominado “autorização de retorno ao Brasil” (o “ARB”, de emissão gratuita, utilizado para o retorno ao país) para os casos de roubo ou perda desse documento durante sua estadia na cidade.

Não existem estatísticas diferenciadas sobre passaportes roubados ou perdidos. No entanto, no total, em 2009 o consulado recebeu 1.385 pedidos de ARBs. Em 2010 o volume subiu para 2.800. Em janeiro deste ano o consulado recebeu 394 pedidos, enquanto que em fevereiro chegaram a 173.

O volume de pessoas que perderam seus documentos (muitos dos quais roubados) é pequeno, se comparado ao fluxo estimado de 1 milhão de turistas brasileiros na Argentina para 2011.

CASOS – A mato-grossense Susana Neves, que passeava ontem (quinta-feira) pelo bairro da Recoleta disse ao Estado que esta é a segunda vez que visita a capital argentina. “Desta vez tomei as devidas precauções. Mas, na primeira, ano passado, furtaram minha câmera de fotos, que estava dentro de minha bolsa. Foi na Florida, quando estava olhando uma vitrine. Fiquei com muita raiva e xinguei os argentinos. Mas, depois pensei em todas as vezes que fui roubada no Brasil, e aí passou. Nesta segunda viagem estou alerta para aproveitar esta cidade deliciosa”.

Carlos Fontana, um curitibano que visita Buenos Aires com frequência, também foi alvo dos dedos leves dos batedores portenhos de carteira. “Esbarraram em mim no Caminito. Mas, pediram desculpas com tanta educação que nem desconfiei. Ao sentar em um bar notei que haviam surrupiado o passaporte e dinheiro que tinha no bolso da camisa. Ir na polícia foi perda de tempo. Polícia no Brasil pode ser vagal. Mas na Argentina é muito mais. Foi besteira minha sair com o passaporte na rua. Por sorte tinha o RG no hotel”, afirmou ao Estado.

Outra cena de “Pickpocket”, de 1959.

PONTOS DE ATUAÇÃO – Alguns pontos da cidade muito frequentados por turistas são o paraíso dos batedores de carteiras, entre eles:

– A Rua Florida: entupida em quase todos os horários – e cheia de turistas distraídos – é um prato-cheio para os batedores. Algumas das paralelas da rua Florida tampouco são recomendáveis.

– A Avenida 9 de Julio: a ampla avenida – e seu baixo policiamento – permite uma fuga rápida dos assaltantes.

– O Caminito: as redondezas da famosa rua “colorida” no bairro da Boca (que praticamente é somente frequentada por turistas, já que os próprios portenhos a consideram um mero clichê) também estão cheias de batedores, que conseguem esconder-se facilmente nos cortiços da área.

– Recoleta: o mais elegante bairro de Buenos Aires é alvo da ação dos “moto-chorros” (“moto-bandidos). Atenção para motos nas quais o motorista leva alguém na garupa. A pessoa que vai atrás é quem geralmente arrebata bolsas, relógios ou pacotes dos transeuntes.

Outra modalidade de roubo é o “truque da mostarda”, na qual um ladrão joga com uma bisnaga um pouco de mostarda nas costas ou no braço de alguém, sem que este perceba. Um segundo ladrão, cúmplice, passa ao lado da pessoa e a adverte: “ei, a senhora está com uma mancha de mostarda nas costas”. O ladrão prontifica-se para ajudar e rouba (ou seu colega ladrão) a vítima.

O filme “Nueve reinas” (Nove Rainhas), protagonizado pelo ator Ricardo Darín (no papel de um calejado picareta) exibe uma didática demonstração da ampla variedade de trapaças e roubos exercidos em Buenos Aires.

Aeroporto de Ezeiza. Sua atividade é frequentemente interrompida por bizantinas greves. De quebra, além das paralisações inesperadas e das demoras colossais nos voos, a denominada “máfia de Ezeiza” – grupo dedicado a roubar as malas dos passageiros – sempre pode amargar uma viagem ao chegar a B.Aires.

NOTAS FALSAS, CAIXAS ELETRÔNICOS QUE NÃO FUNCIONAM, TAXISTAS “TRUCHOS” E AEROPORTOS EM CONSTANTE COLAPSO EMBALAM COTIDIANO PORTENHO

TÁXIS E TAXISTAS – Existem várias modalidades de táxis em Buenos Aires. Uma delas é a dos rádio-táxis, que propiciam a segurança de que o motorista está em um veículo com licença específica e podem ser contratados para uma viagem por intermédio de um número telefônico (além de ser pego na rua). Outra modalide é a dos autônomos, isto é, motoristas de longa data, donos de seus próprios veículos. Além destes exista a “mandataria”, isto é, uma empresa que aluga táxis por uma jornada para um motorista sem registro na empresa. Geralmente estes motoristas alugam táxis para um dia de biscates e devolvem o veículo à empresa no fim do dia. Neste caso, os riscos de roubos ou irregularidades é maior do que nos outros sistemas.

Entre as irregularidades clássicas estão o troco em dinheiro falso aos passageiros (turistas ou estrangeiros). Outro formato de trapaça é quando o motorista pega rápido a nota entregue pelo passageiro e a troca por uma do mesmo valor, mas falsa, e diz “ei, esta nota é falsa”. O passageiro pega a nota falsa e entrega uma nova nota verdadeira ao motorista.

Outra modalidade é a das viagens mais longas do que as devidas (um circuito mais complexo e comprido do que a viagem prevista) para enganar os passageiros (geralmente turistas estrangeiros e argentinos do interior do país).

Outro risco é que o taxista, com voz camarada, proponha fechar um preço para o trajeto desejado com antecipação.

Muitos taxistas “truchos” (picaretas, na gíria portenha) esquecem de ligar o taxímetro e dizem com tom ingênuo: “ops! Esqueci de ligar o aparelho. Mas, custa X”. O problema é que esse valor “X” costuma ser ser superior à realidade.

DINHEIRO FALSO – Os especialistas e a Polícia Federal estimam que o total de notas falsas equivalem a 3% do total do circulante argentino, isto é, ao redor de 296 milhões de pesos (US$ 78 milhões). Os pontos mais frequentes para que os distribuidores repassem as cédulas falsas são táxis, remises (carros de aluguel), bares e restaurantes. Os argentinos são o alvo cotidiano dos falsificadores locais. No entanto, em temporadas de grandes contingentes de turistas estrangeiros, pouco familiarizados com as notas de pesos, os distribuidores direcionam seus esforços para esse desprevenido público.

Do total de cédulas falsas aprendidas pela Polícia, 60% são imitações das notas de 100 pesos. Outros 18% correspondem a imitações de cédulas de 50 pesos. O surgimento de cédulas falsas também ocorre com relativa frequência em caixas eletrônicos, já que nos bancos não existe um mecanismo que evite totalmente a entrega de notas falsas.

Além da falsificação de pesos argentinos, os falsificadores em Buenos Aires também especializaram-se em dólares. No ano passado a Polícia prendeu um falsário que até havia preparado notas de um milhão de dólares, cédulas que não existem, que repassava para suas vítimas com o argumento de que eram usadas somente para altas operações dentro do terriório dos EUA.

FORÇAS DE SEGURANÇA – Pedir ajuda às forças de segurança em caso de roubo costuma ser frustante, já que uma parte substancial de seus integrantes possuem ventres avantajados (“zapán”, na gíria portenha) que impedem uma assegurada perseguição dos ladrões. Diversas denúncias indicam que integrantes das forças de segurança possuem acordos com batedores de carteira.

AEROPORTOS E MÁFIAS – O aeroporto de Ezeiza, o maior do país, destinado aos voos internacionais, é famoso pela “máfia de Ezeiza”, denominação do grupo de trabalhadores do lugar que dedica-se a roubar (total ou parcialmente) a bagagem dos passageiros. O alvo principal são as maletas de mulheres, já que dali furtam perfumes, cremes, bijouterias e presentes de forma geral. Eles cortam as malas com canivetes ou violam os zípers.

Os costumeiros atrasos nos voos e as greves repentinas dos cinco rivais sindicatos de aeronáuticos propiciam a ocasião adequada para que as bagagens fiquem longo tempo fora da vista dos passageiros, ao alcance da “máfia”. As companhias aéras, quando recebem as reclamações, costumam desvencilhar-se dos passageiros com a entrega de formulários que dificilmente chegam a resultados práticos.

No aeroporto metropolitano do Aeroparque o volume de roubos de bagagens é menor. Embora seja primordialmente destinado ao voos internos, ali partem alguns voos para o Brasil e Uruguai.

GREVES – O sistema aéreo – especialmente a companhia estatal Aerolíneas Argentinas – é assolado por frequentes paralisações. Além das greves para pedir aumentos salariais, as paralisações também ocorrem por brigas entre sindicatos rivais. Em dezembro uma troca de tapas entre um piloto e um co-piloto da Aerolíneas Argentinas, pertencentes a sindicatos rivais, gerou um piquete de um dos grupos, causando a paralisação de todos os voos em Ezeiza.

CAIXAS ELETRÔNICOS – O sistema de caixas eletrônicos nunca teve grande expansão na Argentina, já que boa parte da população, desconfiada dos bancos (o país sofreu uma miríade de falências repentinas de instituições financeiras, além de vários confiscos bancários ordenados pelos governos de plantão) não está bancarizada. Os constantes conflitos entre bancos e o sindicato dos bancários geram atrasos no abastecimento dos caixas eletrônicos. Os piores dias para retirar cash dos caixas são os fins de semana e feriados.

FALTA DE TROCO – A falta de troco tornou-se uma constante na Argentina, já que por causa da escalada da inflação o governo destina a maior parte da emissão realizada pela Casa da Moeda para as notas de 100 pesos (as de maior valor numérico). Desta forma, cada vez são mais escassas as notas de 2, 5, 10 e 20 pesos. O governo rejeita a ideia de imprimir notas com maior valor numérico. Portanto, a tendência de falta de troco tende a permanecer.

    

Depois de quinze anos residindo como correspondente internacional do Estado na capital argentina me acostumei a driblar (ou, pelo menos, a tentar) os eventuais inconvenientes do cotidiano. Além de enfrentar uma burocracia digna dos livros de Franz Kafka em todo tipo de cenário que envolva as forças de segurança e a defesa do consumidor, é preciso também enfrentar as circunstanciais trapaças. Apesar dos cuidados, fui vítima de várias, entre elas as notas falsas. Em uma ocasião, em um táxi eu explicava para um casal de amigos a quantidade considerável de pesos falsos em circulação. Ao descer, o taxista me deu de troco uma nota, que, duas quadras depois, usei para comprar uma garrafa de água. No entanto, o dono do quiosque pegou a nota, olhou à contraluz e disparou: “mas isto é falso”.

Em outra ocasião recebi, no meio de um bolo de notas, uma cédula que parecia ser uma de 50. No entanto, só a ponta superior direita da nota ostentava esse valor numérico. O resto da nota, escondida no meio das outras, era de uma mera cédula de dois pesos.

Além disso, padeci a “máfia de Ezeiza”, que roubaram minhas malas quatro vezes. Em todas as ocasiões recuperei as malas. No entanto, sabendo que a defesa do consumidor aqui é puramente simbólica, foi à custa de permanecer no aeroporto e tornar-se para os funcionários no mais insuportável dos passageiros. Ajuda muito se você fizer aquela cara enlouquecida de Jack Nicholson em “O iluminado” ou de Antony Hopkins em “O silêncio dos inocentes”.

    

O Consulado do Brasil em Buenos Aires fornece uma detalhada lista de informações aos turistas brasileiros. Aqui.

No meio da lista é muito útil o quesito “Recomendações aos turistas brasileiros”.

Calle Florida, em 1937.

 Cena do filme Pickpocket, aqui.

     

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

passaro4 Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral (ou partidária) e publicidade religiosa também serão eliminadas dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

Tendências: