“Boludo”, o impropério par excellence da Argentina
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“Boludo”, o impropério par excellence da Argentina

arielpalacios

23 de julho de 2009 | 08h00

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Gesto para indicar que alguém é ‘Boludo’: mão entreaberta, emulando o formato de uma tulipa (dedos separados, pontas para cima). O gesto deve ser realizado com a mão na altura do peito. O movimento deve ser lento. No sentido vertical, começando de baixo para cima. Repetir movimento para baixo. Percurso médio de 5 a 10 centímetros. Caso queira indicar que o boludo em questão é um considerável boludo, o gesto deve implicar em um aumento da distância do percurso vertical da mão. Quanto maior o percurso, mais o gesto adquire intensificação semântica. No entanto, é preciso destacar que atualmente o gesto é escassamente utilizado (somente os preciosistas desse conceito o praticam). A expressão oral é a predominante. O gesto também aplica-se a um congênero do boludo, o ‘hincha-pelotas’, isto é, aquele que esgota a paciência de outrem

hand33“Boludo” é o impropério argentino par excellence, que indica o ‘idiota’, ‘imbecil’, ‘tonto’, ‘panaca’. A expressão-insulto – a preferida neste país – designa aquele que possui “bolas” (testículos) grandes. No entanto, não se trata de uma explicação anatômica, mas sim, uma referência à substancial falta de inteligência da pessoa insultada. Em diversas culturas, expressões similares eram utilizadas para referir-se a algum panaca sideral. É o caso dos italianos, que utilizam há séculos a expressão ‘coglione’ (etimologia e uso desta expressão tão típica da península, neste artigo do wikipedia: http://it.wikipedia.org/wiki/Coglione ). Em ambos casos, os termos servem para indicar com ironia que alguém possui os testículos tão grandes que não pode mover-se de forma normal. Uma forma elíptica para explicar que alguém não pensa – ou age – de forma sensata.

Uma corrente, atualmente desprestigiada no mundo acadêmico, indicava décadas atrás que a etimologia de “boludo” provinha das ‘boleadoras’, a tradicional arma dos índios dos Pampas (e posteriormente dos gauchos), feita por uma corda em cujas pontas eram colocadas duas bolas (quando eram arremessadas, as boleadoras pegavam um animal pelas patas – ou o pescoço – derrubando-o).
Isto é, era ‘boludo’ quem era pego – ou ficava tonto – pela ação das boleadoras.

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Boleadoras argentinas expostas no museu Lyndon Baines Johnson em Austin, Texas

De todas formas, ‘boludo’ sempre indicou o ‘imbecil’.
Por esse motivo, “Boludazo” não indica uma condição escrotal de dimensões superlativas, mas sim aquele que supera a condição standard de boludo. Um ‘boludão’, se pudéssemos ter essa liberdade poética.

A expressão “boludo” expandiu-se mais além das fronteiras da cidade de Buenos Aires e espalhou-se para o resto da Argentina, além de ter atravessado há décadas o rio da Prata, para instalar-se também no Uruguai. Boludo, por este motivo, é atualmente um insulto do Rio da Prata, que trascende fronteiras.

O uso do “boludo”, por parte de estrangeiros, no entanto, deve ser usado com parcimônia até que a pessoa consiga um completo domínio do termo, para poder utilizá-lo em sua plenitude, sem que pareça forçado ou artificial.
“Não existe ninguém mais boludo do que esses estrangeiros que, para imitar os argentinos, ficam dizendo ‘che’ e ‘boludo'” indica “Puto el que lee – Diccionario Argentino de insultos, injurias e impropérios”, pequena mas excelsa obra sobre os insultos aplicados costumeiramente no território argentino.

Pronúncia de Boludo, neste site:
http://www.forvo.com/word/boludo/

O “BOLUDO” COMO SAUDAÇÃO E ASPAS
“Boludo” é um insulto, se utilizado com o devido tom e intensidade vocal.
Mas, desde os anos 80 também pode ser usado como parte da saudação entre pessoas conhecidas.

Exemplo: “Que tal, boludo?” (e aí, boludo?). Ou ainda: “Boludo/a, onde é que a gente vai jantar hoje?”.

Transformou-se, para certos casos, em um equivalente ao “cara” no Brasil. “E aí, cara, gostou da lasanha?” (Y, boludo, te gustó la lasaña?)

O jornalista argentino Hernán Di Bello me disse que a palavra “boludo” tem amplas funções. “Ela é usada para abrir o fechar uma frase. Por exemplo: “boludo, no sabés el auto que me compré!” (boludo, você não tem ideia do carro que eu comprei!). Ou uma garota falando para outra: “el muchacho que atiende el kiosco de la esquina me encanta, boluda” (adoro o rapaz que trabalha no quiosque da esquina, boluda!).

E, em algumas ocasiões, tem quase a função de aspas, indo no início e no final da frase: “boluda, me compré un vestido negro fantástico, boluda!” (boluda, comprei um vestido preto fantástico, boluda!)

ABREVIAÇÃO
Nos últimos anos, a pressa e a velocidade da sociedade moderna abreviaram a palavra, que é pronunciada com bastante frequência em dois terços do original: “bolú”.
E com um acento adicional no final, para dar a necessária ênfase tônica que os insultos costumam requerer (em todo o planeta).

EXTINTO
Ficou totalmente fora de uso uma expressão que nos anos 70 tentou criar um mix de dois insultos – boludo e estúpido – o “bolúpido”.
O termo extinguiu-se, talvez devido à junção de dois conceitos em uma única palavra, característica pouco frequente no mundo dos epítetos.

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“Che Boludo!”, um dicionário inglês-portenho pouco convencional. O autor é o jornalista americano James Bracken. Em sua obra explica aos estrangeiros que algumas expressões, como ‘Boludo’, podem ter diversos significados, tanto como insulto como termo afetivo. “De acordo com o tom e a frase, pode equivale a ‘estúpido’ ou um termo coloquial ou carinhoso”.

DENOMINAÇÕES JOCOSAS
Denominações jocosas que complementam a frase que inicia “Es un boludo….. (É um boludo…)”:
Es un….
– Boludo atómico: Um boludo de nuclear potência
– Boludo de campeonato: Um boludo digno de particiar de um campeonato de boludos
– Boludo a rayas: Um boludo listrado. Isso indica que boludos, há de todos os tipos e estampas.
– Boludo a quadros: Um boludo xadrez. Idêntica utilização ao boludo de rayas.
– Boludo alegre: O boludo que, com plena consciência de sua condição de boludo, vive feliz. Geralmente, este boludo ri de si próprio.
– Boludo al pedo: O boludo que vive à flatulência (al pedo indica, na gíria portenha, algo ou alguém que está à toa)
– Boludo al trote: Um boludo que caminha acelerado. No sentido de um significativo boludo.

an1MAIS APLICAÇÕES
– Boludez: ‘idiotice’. Mas também pode ser usada para referir-se pacificamente a uma coisa simples.

– Boludear: como verbo. Estuvo boludeando todo el día (esteve boludeando todo o dia), no sentido de não fazer coisa alguna, perdendo tempo.

– Hacerse el boludo: se fazer de boludo. Isto é, fazer-se de tonto.

– Me estás boludeando?: você me está boludeando? Neste sentido significa “está me tentando me sacanear?”

MONOPÓLIO
O “boludo” monopolizou as frases de insulto nas últimas duas décadas, provocando uma perda da riqueza de vocabulário existente no passado recente.
Desta forma, ficaram em relativo desuso expressões como:
– Ganso
– Salame
– Gil
– Papafrita
– Zanahoria
– Zapallo
– Otario
– Nabo
– Mamerto
– Opa (esta, usada com mais frequência no interior)

hanbc2PELOTUDO, O PRIMO DO BOLUDO
O ‘boludo’ possui, como vemos, uma miríade de aplicações. Pode oscilar do insulto ao cumprimento amável. Já o epíteto “pelotudo”, sinônimo de ‘boludo’, possui implicâncias sempre negativas.

Nas últimas duas décadas, o uso cada vez mais amplo do ‘boludo’, e certa perda de potência de seu significado – por causa de sua resemantização – valorizou o ‘pelotudo’.

O “pelotudo” é um equivalente ao boludo, pois refere-se ao tonto e estúpido. Além disso, também origina-se nas referências aos testículos de grandes dimensões.

Embora não conte com acento algum, a palavra, para ter a devida sonoridade, deve ter um ênfase especial na terceira sílaba, o “tu” (tú). Isto é, pronunciar assim: pelodo.

USOS
Uso em espanhol portenho, como insulto afirmativo: “Sos un pelotudo” (Você é um pelotudo).
Mas também pode ser usado, com muita frequência, como interrogativo: “No ves que sos un pelotudo?” (Não vê que você é um pelotudo?).
Atenção: Não necessariamente espera-se uma resposta da pessoa inquirida.

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“O pelotudo argentino: manual para identificação e uso”, obra de Mario Kostzer, com prólogo do historiador Felipe Pigna

Os portenhos tabém costumam usar o ‘pelotudo’ para dar ênfase à uma longa expressão. Exemplo: “Mirá, pelotudo, porque no llamás tu hermana para que me c…. la v….. y la ponga en la z…. de la r…. ?” (Olha, pelotudo, porque você não chama tua irmã e etc, etc, e etc?)

Pelotudez: Ato próprio de um pelotudo Assunto ou coisa que carece de importância. “No te preocupes. Es una pelotudez” (Não se preocupe. É uma pelotudice).

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Maradona, ‘boludo’ segundo muitos maradonólogos e críticos seus, além de tecer teorias sobre o futebol, também fez ponderações sobre a expansão dos boludos em todo o planeta

Frase: “Los boludos son como las hormigas, están en todos los lados” (Os boludos são como as formigas, estão em todos os lados). Frase de Diego Armando Maradona, pronunciada nos anos 90.

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O BOLUDO NA MÍDIA
A Cruz Vermelha Argentina também recorreu à emblemática palavra para fazer uma irônica campanha – ‘Ayudar es una boludez’ – com celebridades do cinema, teatro e jornalismo:

Ayudar es una boludez:
http://www.ayudaresunaboludez.org.ar/#/comerciales

A campanha até lançou a canção do boludo:

A campanha também mostrou as formas adequadas de pronunciar o epíteto-preferência-nacional:

E até a atriz China Zorrilla, a grande dama e estrela do teatro e cinema uruguaio-argentino participa:

DIA DO BOLUDO
Em junho um grupo de pessoas convocou, pela Internet, a celebrar o dia do boludo, A campanha indicava que os politicos, empresários e diversos setores da sociedade tratavam boa parte da população como otários, boludos. Portanto, decidiram criar um dia especial para celebrar os boludos.

Este é o link do Dia del Boludo:
http://www.diadelboludo.com/

APOLOGIA DAS ‘MALAS PALABRAS’
E, de brinde, o cartunista Roberto Fontanarrosa, criador do desenho Inodoro Pereyra e Boogie, el aceitoso. Fontanarrosa era um artesão das palavras. No Congresso da Língua realizada em Rosario, há poucos anos, ele faz uma defesa enfática do uso das ‘malas palabras’ (palavrões). A conferência dele é um dos grandes momentos:

Link para Fontanarrosa no Congresso da Língua:

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livrosO PELOTUDO E O HISTORIADOR
E aqui, o prólogo do historiador Felipe Pigna em “El Pelotudo Argentino”, livro de Mario Kostzer

Hay dos cosas infinitas: el universo y la estupidez humana”. Albert Einstein

“Existen dos maneras de ser feliz en esta vida; una es hacerse el idiota, y la otra, serlo.”

Prólogo pelotudo
Escribir un prólogo con el miedo latente de que será considerado una pelotudez es un poco condicionante. Pero asumamos el riesgo. Desde aquel maravilloso ‘Manual de Zonceras Argentinas’, del entrañable don Arturo Jauretche, nos pasaron muchas cosas, y aquellas zonceras, lejos de terminar, se fueron multiplicando, amplificando. Aparecieron nuevas. Algunas muy trágicas, como la que sostenía que “algo habrán hecho” o aquella de “por algo será”. De la mano de la globalización a la Argentina versión Menem-De la Rúa, la pelotudez se adueñó de nuestro país. Los pelotudos se multiplicaron, y se complejizó su clasificación.

La pelotudez general consistió en pensar que el peso argentino se cotizó durante más de diez años más que el dólar, que se puede vivir bien en medio de la destrucción del país, que los Bancos son confiables, que no importa que roben mientras hagan, que el resto del mundo se muere de envidia de nosotros.

Este libro de mario Kostzer lleva un espejo en la tapa, en el cual el primero en mirarse fue el autor de las páginas que siguen a este prólogo y esto le da a este libro seriedad, porque parte de la autocrítica y no de la soberbia. Todos fuimos pelotudos en algún momento de nuestra vida y cada tanto volvemos a sentirnos así, en la medida que estemos atentos a nuestras pelotudeces.

La galería de pelotudos que presenta este libro recorre rigurosamente la sociedad argentina de 2004. Aquí encontrará el lector a muchos de los personajes con los que convive sufridamente todos los días y, si le alcanza el sentido del humor, podrá reconocerse o reconocer actitudes propias en algunos de los especímenes analizados por Kostzer que justifican la genial idea del espejo de tapa.

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Dois boludos morrem pela glória de um terceiro, um pelotudo

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