Borges e seus dois túmulos, os dois casamentos e o cônsul paraguaio que não era cônsul, sequer paraguaio
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Borges e seus dois túmulos, os dois casamentos e o cônsul paraguaio que não era cônsul, sequer paraguaio

arielpalacios

17 de junho de 2011 | 00h11

Jorge Luis Borges e María Kodama durante uma viagem no início dos anos 70.  Nesta semana completaram-se 25 anos da morto do escritor na cidade de Genebra, Suíça, no dia 14 de junho de 1986. Esta postagem é parte da “Semana Borgiana” de nosso blog.

O lugar do derradeiro descanso do escritor argentino Jorge Luis Borges foi objeto de intensa polêmica ao longo do último quarto de século. A discussão começou meses antes da morte do escritor – que estava com um câncer terminal – quando seus amigos descobriram que sua secretária, Maria Kodama, havia levado Borges embora da Argentina e casado com ele por procuração por intermédio de Gustavo Grament Berres, que apresentava-se como cônsul paraguaio em Genebra.

A saída de Buenos Aires foi às pressas, e Borges mal pode se despedir de seus amigos, de quem Kodama já o estava isolando nos últimos meses.

O suposto cônsul registrou o casamento no desconhecido vilarejo de Colonia Rojas Silva, Paraguai. Mas, a trama tornou-se intrincadamente borgiana quando jornalistas argentinos que investigavam o misterioso casamento descobriram que o nome original do ex-cônsul era Benjamin Levi Avzarradel. Ele teria nascido na Argentina, mas havia sido adotado por um casal de uruguaios na tardia idade de 29 anos.

Para complicar, o governo paraguaio não reconhecia Grament Berres nem como cônsul nem como cidadão paraguaio. “É uma coisa estranha…Kodama apresenta-se atualmente, para qualquer tipo de documentação, como ‘solteira’ e não como viúva”, afirmou Alejandro Vaccaro, biógrafo de Borges e presidente da Sociedade Argentina de Escritores, enquanto – sentado em um café no bairro da Recoleta – levantava na minha frente uma sobrancelha em sinal de sutil desconfiança sobre a ex-aluna do escritor.

Mas apesar de casados, no testamento Borges definia Kodama somente como “a boa amiga”.

Antes de morrer, o escritor preparou um novo testamento, modificando radicalmente o anterior. Na versão antiga, Borges que não teve filhos, deixava quase tudo à sua irmã e sobrinhos e a Fani Uveda, sua fiel governanta durante quatro décadas. Na nova versão, Kodama transformou-se na única herdeira, a quem foi destinada todo o dinheiro, direitos de autor, objetos de arte e manuscritos. 

Sobre as supostas irregularidades do casamento Borges-Kodama há um interessante artigo publicado pelo jornalista argentino Juan Gasparini, que reside na Suíça desde os tempos da ditadura argentina. O artigo, aqui.

Os falecidos ditadores Stroessner e Franco. No meio, Gramont Berres. Ou, Benjamin Levi Avzarradel

CASAMENTO – As suspeitas sobre o casamento dos dois aumentam quando se conhece o passado do cônsul. Gramont Berres sustenta que foi designado embaixador especial pelo ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner em 1983. No entanto, não possui qualquer documentação que prove que teve formalmente esse cargo.

Em 1991 foi detido nos EUA acusado de falsificação de documentos, e, à pedido da Suíça, foi extraditado para ali. O governo paraguaio sustenta que o problema não é com ele, já que não reconhece Grament Berres nem como cônsul nem como cidadão. No entanto, ao cônsul não lhe faltam fotos em roupas de gala com o ex-ditador Stroessner e o falecido caudilho espanhol Francisco Franco.

Gramont Berres voltou às páginas dos jornais ao longo da última meia década. Não em Buenos Aires ou Genebra, mas sim em Assunção, Paraguai, onde o governo do país o acusa de ter vendido no Velho Continente títulos da dívida nacional emitidos de forma fraudulenta. O Paraguai rechaça usar os cofres públicos para pagar uma dívida de US$ 85 milhões contraída por Gramont Berres. O caso foi levado à Justiça internacional e ainda percorre os tribunais europeus.

Voltando à Buenos Aires: a possibilidade de que o casamento de Borges e Kodama tenha sido falso soma-se à possibilidade de que possa ser anulado: o escritor casou-se nos final dos anos 60 com Elsa Astete. O casamento durou três penosos anos, e, como até fins dos anos 80 o divórcio não existia na Argentina (foi aprovado pelo Parlamento argentino em 1987, um ano após sua morte), Borges somente pode obter a separação de corpos e bens.

Este é um link para uma matéria do jornalista Jorge Camarassa sobre Astete, aqui.

Uma cópia da polêmica certidão de casamento feita no interior do Paraguai

Elsa nada pode opinar sobre isso entre o final dos anos 90 e a virada do século, já que estava esclerosada, internada em um asilo. Ou seja: o casamento com Kodama não é reconhecido pela lei argentina, e dependendo da veracidade do casamento via Gramont Berres, correria o risco de tampouco ser reconhecido pela lei do Paraguai e Suíça.

Se por acaso Borges e sua ex-aluna nunca se casaram (ou se o casamento não é válido), que direito teria Kodama de decidir o enterro em Genebra e insistir na permanência do autor de “O Aleph” nessa cidade?

Neste último quarto de século os “direitos” de Kodama sobre Borges foram discutidos em todos os aspectos, mesmo o da vida íntima. Segundo diversas testemunhas, Kodama nunca viveu na mesma casa de Borges em Buenos Aires, e nas inúmeras viagens que realizavam, sempre dormiam em quartos separados. Uma dedução generalizada é que Borges, sozinho e com medo de morrer dependendo de outros para suas necessidades mais básicas, aceitava tudo o que Kodama lhe impunha.

Túmulo de Borges em Genebra, Suíça. A lápide ostenta uma parafernália de símbolos, tal como uma nave viking, guerreiros com lanças, uma cruz de Gales, seu nome completo, além de uma legenda em anglo-saxão. Segundo me disse Maria Ester Vázquez, amiga e biógrafa de Borges, a legenda do túmulo genebrino And ne forhtedon na” (“E não deverias temer”) é uma fútil recomendação para alguém como Borges”. Segundo ela, o desejo do escritor, expresso em seus versos “Só peço as duas abstratas datas e o esquecimento”, não foi levado em conta. “É uma lápide curiosa e complicada. A única coisa que falta ali…é uma frase da Mafalda!”, dispara com ironia.

MORTE – No dia 14 de junho de 1986, em Genebra, Borges faleceu de um câncer no fígado. Por determinação de Kodama o escritor foi enterrado no cemitério de Plainpalais, na vizinhança dos túmulos do líder presbiteriano João Calvino e do filósofo Erasmo de Rotterdam (décadas depois, ali seria a morada eterna do diplomata brasileiro Sergio Vieira de Melo). No entanto, Borges nunca escreveu uma linha que ratificasse um hipotético desejo de ali ser enterrado.

Durante as duas e meia últimas décadas os amigos de Borges, em uníssono, afirmam que Georgie – como o chamavam carinhosamente – queria ser enterrado em Buenos Aires, mais especificamente, no histórico cemitério da Recoleta, no mausoléu de sua família.

“Borges nunca quis ser enterrado fora de Buenos Aires”, me disse em entrevista em 1999 o escritor Adolfo Bioy Casaras, seu amigo por meio século.

Fani Uveda, empregada dos Borges durante décadas, concordou com Bioy em uma conversa comigo em 2005, poucos meses antes de morrer. “O senhor Borges queria ser enterrado na Recoleta”, disse.

Além dos amigos, os acadêmicos destacam que Borges, em vários de seus poemas deixou claro que pretendia passar o repouso eterno na Recoleta. Os especialistas citam o poema “O Fazedor”, no qual Borges refere-se a seu futuro descanso em Buenos Aires: “Quando eu esteja guardado na Recoleta / em uma casa cor de cimento”. Em “Fervor de Buenos Aires”, Borges indica: “Estas coisas pensei sobre a Recoleta / o lugar de minhas cinzas”.

Outro fator que reforça a teoria de que Borges pretendia ser enterrado na Argentina é que em 1982 deu uma procuração à sua amiga Sara Kriner para proceder com sua cremação após sua morte. Um ano antes de morrer Borges chamou o zelador do cemitério para que lhe fizesse um orçamento para preparar o mausoléu na Recoleta para um lugar para suas cinzas.

Kodama defende-se afirmando que Borges, antes de morrer, expressou que desejava ser enterrado “na neutra Suíça”.

Vaccaro não descarta que um dia o corpo de Borges retorne ao país: “talvez ele volte quando a passagem do tempo faça que estas paixões se acalmem. A Argentina tem uma forte tradição de repatriar seus homens célebres, como Carlos Gardel e o general José de San Martín, mortos no exterior”

Túmulo da família Borges na Recoleta. Este lugar foi objeto de diversos poemas de J.L.Borges.

OS INCORRIGÍVEIS E O ENTERRO PORTENHO

“Os peronistas são são bons, nem ruins…são incorrigíveis”. A frase é de Borges, que tinha com os seguidores do general e presidente Juan Domingo Perón uma relação de elevada tensão. Em 1946, para humilhá-lo – e tentar calar sua refinada ironia com o novo governo – os peronistas removeram Borges de seu posto de diretor de biblioteca e o designaram “inspetor de galinhas e ovos” em feiras públicas. Nos anos seguintes, o Peronismo colocou sua irmã e mãe na cadeia.  

Mas, no início de 2007, décadas após esses eventos, um grupo de parlamentares peronistas anunciou que pretendia trazer o corpo do escritor – enterrado em Genebra – para realizar um funeral em Buenos Aires.

 O projeto da deputada María Beatriz Lenz, aliada da peronista presidente Cristina Kirchner, causou intensa polêmica no âmbito acadêmico. O projeto de lei contou na ocasião com o respaldo da Sociedade Argentina de Escritores (Sade), presidida por Alejandro Vaccaro.

Kodama enfureceu-se na ocasião: “ninguém me consultou sobre isso. É uma falta de respeito”.

“Borges é um ícone dos argentinos. Trazer o corpo de Borges é algo que devemos fazer pelos argentinos e também pelo próprio Borges”, afirmou Vaccaro na época. Ele argumenta que o desejo do escritor era ser enterrado na Recoleta, no mausoléu de sua família.

 Para isso, os defensores de um funeral portenho para o escritor citam poemas como “A Recoleta”, onde dizia: “O anterior, escutado, lido, meditado, o realizei na Recoleta, ao lado do próprio lugar onde hão de me enterrar”.

Os peronistas eram incorrigíveis, embora pragmáticos. Os colunistas das páginas culturais destacaram que os peronistas preferiram esquecer as velhas rixas de lado e apostar no colossal business que é ter Borges, ícone da literatura, enterrado em Buenos Aires.

Borges e sua mãe, Leonor, em Londres em 1963. Ela foi seus olhos, secretária e respaldo permanente até sua morte, em meados dos anos 70, aos 99 anos. Kodama entrou no vácuo deixado pela forte personalidade de Leonor Acevedo de Borges.

“SOU UM CALEIDOSCÓPIO” (entrevista que fiz em 1995 com Maria Kodama para o Caderno 2 do Estadão )

Maria Kodama é suave e áspera ao mesmo tempo, um misto de delicadeza do nô e da agressividade do tango. Controlada, com total conhecimento de sua imagem, Kodama evita que se calcule sua idade. Por isso foge de perguntas capciosas como “qual é seu signo no horóscopo chinês?”. Depois de enfrentar as críticas de amigos de Jorge Luis Borges, que a viam como uma aproveitadora por seu casamento com o escritor, muito mais velho do que ela, finalmente conseguiu inaugurar  em Buenos Aires a Fundação Internacional que leva o nome do escritor que nunca recebeu o Nobel.

– Foi difícil conseguir implantar a Fundação? O governo argentino não colaborou…

– Não,  mas eu não pedi nada. É uma questão minha, de princípios. Recebi uma educação japonesa, tenho que lutar para conseguir as coisas. O importante é o esforço pessoal.

– Seu pai era japonês?

– Não falo muito sobre minha família…

– No Brasil a colônia japonesa é a maior do mundo. Gostariam de saber mais sobre a sra., conhecida por ser a única figura da intelectualidade argentina de origem nipônica…

– Hummm…Bem…meu pai era da região de Tóquio. Pensava ir aos EUA depois que seus pais haviam falecido. Um amigo perguntou porque não ia para a Argentina. Ele veio para cá, e em uma reunião conheceu minha mãe. Ela o viu e disse “vou me casar com ele”.

– Em que ano seu pai veio? (tentando descobrir a idade de M.K.)

– Não sei, nem se fala sobre isso.

– Logo em seguida ele se casou com sua mãe?

– Meu pai era muito boa-pinta. Separaram-se quando era muito pequena. Coisas das paixões fulminantes…

– Quando conheceu Borges?

– O conheci quando criança, desde os 16. Estava no colegial e me dava aulas introdutórias de anglo-saxão. Depois ditava algumas de suas coisas e lia para mim. Era algo na categoria de amiga, de aluna, de discípula. Nunca fui secretária de Borges, como a imprensa insiste em dizer. Depois quando cresci dava aulas de castelhano, ganhava bem e isso me permitia adequar os horários para ter tempo com Borges. Ad honorem, por prazer.

– Seu pai foi uma espécie de mentor intelectual?

– Meu pai era químico, mas me iniciou no amor pela literatura e a música. Borges dizia que meu pai me tinha educado para ele. Quando começamos a viajar, descobri que Borges tinha um conhecimento pictórico enorme. Descrevia as paisagens e fruíamos isso através de uma recordação comum, o que meu pai me havia ensinado e o que Borges havia visto antes da cegueira.

– Seu pai conheceu Borges?

– Quando terminei o colegial quis me levar para o Japão. Não falava o japonês, não queria ir. Borges o convenceu para que me deixasse aqui.

– Borges lhe dava aulas no colegial?

– Era meu professor particular. O conheci por meio de um amigo de meu pai, quando tinha 12 anos. Este senhor pensou que se conhecia alguém como Borges seria importante para minha educação.

– Esta foi a primeira vez que ouviu falar de Borges?

– Quando tinha cinco anos leram para mim “Caesar and Cleopatra”. Gostava de seu amor e paixão. A figura de César era avassaladora, o conquistador, o gênio. Na mesma época me leram um poema de Borges. Era “Two English Poems” . A linha que ficou para sempre é “I am trying to bribe you…”

– …“With danger, with uncertainty, with defeat” (estou tentando te enganar, com perigo, incerteza, com derrota). É meu verso preferido também.

–  (Ri) Impresionou-me como essa pessoa podia ser todo o contrário de César. Um, o conquistador; o outro, oferecendo à mulher amada a incerteza…

– Que dizia Borges de su predileção por este verso?

– Borges tinha ciúmes (ri). Dizia que era apaixonada por César. Não gosto de Bernard Shaw . “Você, María, está paixonada por Shaw”, dizia Borges. “O que a levou a sentir atração por Julio César não foi outra coisa que as palavras de Shaw en J.C”.

– Borges era ciumento?

– Era ciumento à sua forma. Éramos verdadeiros personagens.

– Borges foi o amor de sua vida?

– Creio que sim, ele é a minha vida.

– E a senhora, a dele…

– Não sei, mas suponho que sim. Suponho que essas coisas são eternas.

– Em “Siete Noches”, Borges fala da sonoridade do inglês e cita um verso, “I will love you for ever and a day”. Sente isso?

– “…Para sempre e ainda um dia depois”. Era uma citação de Keats, creio….Sim, é o que sinto.

– Gosta do tango como Borges gostava?

– Não gosto. Borges dizia que eu pertencia a uma geração que não escutava tango. Gosto, como ele, das milongas, pois possuem um ritmo alegre, ágil.

– Rock. O que Borges pensava?

– Gostava dos Beatles e dos Rolling Stones. No Palace de Madrid encontramos Mick Jagger, que se aproximou para lhe dizer que o admirava. “Quem é o senhor?” perguntou Borges. “Sou Mick Jagger”, disse o cantor. “Ah…o dos Rolling Stones”, disse Borges. Jagger quase desmaiou.

– Porque nunca publicou seus próprios relatos e poemas em forma de livro?

– Escrevo contos, publicados em revistas literárias. Livros, ainda não. Mas o farei, quando fique em liberdade.

– E porque nunca publicou livro algum?

– Porque ao estilo japonês, nunca quis publicar durante a vida de Borges. Isso teria produzido un conflito.

– Seus contos são borgianos?

– Quando publiquei meu primeiro conto a reação de Borges foi de encantamento: “Todos esperavam um conto em meu estilo e foi diferente”.

– Enfrentou preconceitos com seu casamento com Borges?

– Não, caso contrário não estaria aqui. Houve reação por parte de senhoras abandonadas, viúvas, deseperadas. Parecia que era a primeira mulher na Argentina que se casava com um homem separado.

– Nunca sentiu racismo na sociedade argentina?

– Nunca, a primeira vez que o senti isso foi em um escritor que me chamava “a japonesa”. O embaixador do Japão chegou a me perguntar se havia nascido lá. Quem disse isso era uma pessoa com ressentimentos.

– Na cabeceira de Borges estavam Blake, Donne e Kipling. Quem tem em seu criado-mudo?

– Gosto muito de Blake, Donne…

– Qual Donne, o da fase mais erótica ou da religiosa?

– …Ambas. Adoro essa mudança. Gosto da Ilíada, um livro extraordinário com o qual pode-se aprender muitas coisas sobre a conduta humana.

– Como se definiria a si mesma, sra. Kodama?

– Eu não sei como sou. Em geral definimos aos outros. Sou como um caleidoscópio; de acordo com o olho e o desenho interior, vou mudando.

Borges ouve e Kodama lê.

O ETERNO RETORNO DAS REEDIÇÕES (matéria publicada em 1995)

Quase dez anos após a morte de Jorge Luis Borges, a reedição de obras que ele não desejava ver republicadas torna-se realidade. Como Max Brod, amigo de Kafka que trai sua promessa no leito de morte do amigo e postumamente publica a obra do escritor tcheco, Maria Kodama reedita um Borges secreto. A pergunta que paira no âmbito intelectual de Buenos Aires é “até onde é válida a vontade póstuma dos escritores?”.

Primeiro foi a publicação de “El Idioma de los Argentinos”, obra da juventude que Borges havia repudiado. Kodama, sua viúva, autorizou sua reedição. Poucos exemplares da edição original restavam. A fome por esse livro era tanta que poucos repudiaram o ato de Kodama, que ia contra a vontade de Borges.

Depois veio a publicação de “Borges en Revista Multicolor”. A obra recolhe relatos, resenhas e traduções que o autor de “Ficciones” e “El Aleph” escreveu durante sua estadia no suplemento cultural do jornal “Crítica”: a “Revista Multicolor de los Sábados”.

A colaboração borgiana durou pouco mais de um ano, o período de vida da publicação. O jornal exigia qualidade, mas dentro de uma linha editorial que pudesse interessar ao grande público. Borges começou como secretário. Logo chegou a co-diretor. Sua participação é esteticamente antípoda ao resto de sua obra. O jornal era sensacionalista e Borges, que precisava sustentar a família (seu pai havia falecido pouco antes) se dispunha a fazer qualquer coisa. Ele mesmo diria anos depois: “Nunca pensei reunir esses trabalhos em um só volume. Esses artigos iam destinados ao consumo popular através das páginas de “Crítica” e eram tremendamente pitorescos”.

Nessa época Borges era desconhecido da imesa maioria dos leitores argentinos. Só os seus amigos sabiam de seu valor. Quando a revista fechou foi organizado um banquete para comemorar: Borges não teria mais que escrever “lixo”.

O autor de “O Aleph”e “Ficciones”, segundo o jornalista Marcos Mayer, “sempre teve muito presente o marco e o suporte em que publicava. Soube encontrar o tom e imaginar um leitor com o qual podia chegar a sintonizar. Talvez a mesma atitude de seu tão criticado acesso aos meios. Borges amava tanto os livros como para supor que sua paixão por Stevenson ou Chesterton ou Cervantes tinha que ser compartilhada pelos outros”.

Mayer, estudioso do tema borgiano sustenta que “ele não recusava nem aceitava a lógica que lhe ofereciam os diversos meios em que trabalhou. Propunha uma nova versão desse meios para que suas paixões – que supunha universais, sem mais argumentos que suas leituras – encontrassem algum ponto de encontro possível. Para que isto não acontecesse não podia pensar em termos de cultura alta e baixa. Borges soube falar dos paradoxos do pensamento para o sensacionalista e populista jornal “Crítica” e sobre dizeres nos para-choques de caminhões para a elitista ‘Sur”.

A FAVOR

“Inteligência e força”. Assim Maria Kodama, viúva do escritor, define a característica principal dos textos publicados. Mais do que recusa em reeditar, Borges teria sido indiferente com estes livros. Eles circulavam por meio de fotocópias e as manipulações que a crítica fazia com estas obras. No próprio prólogo do livro Kodama sustenta que “alguém que se aproxima a um livro é o suficientemente sensível e inteligente para encontrar seu autor em liberdade. Creio que qualquer leitor, apesar dos defeitos de estilo destas obras – estilo que Borges repudiou depois -, pode sentir a força, a inteligência com que o autor trata estes temas que serão aperfeiçoados, refutados ou aprofundados em sua obra, esculpida ao longo do tempo com uma perfeição incrível”. 

CONTRA

“De forma alguma”. Determinado em defender a vontade do seu grande amigo, o escritor Adolfo Bioy Casares, autor de “La Invención de Morel” e co-autor com Borges de “Seis Problemas para Don Isidoro Parodi” considera que os herdeiros devem respeitar a decisão e não publicá-los sob nenhum ponto de vista e por motivo algum. Para os estudiosos de Historia da Literatura podem ser atrativos. Para o leitor comum, não.

Fani, a fiel criada dos Borges

BENFEITOR SALVA GOVERNANTA DE BORGES DA MISÉRIA (entrevista que fiz em 1999 com Fani Uveda, a governanta da família Borges)

Um pequeno altar, com fotos de Jorge Luis Borges, é a única coisa que restou do autor de “Ficções” a Epifanía Uveda, 77 anos, governanta dos Borges durante mais da metade de sua vida. “Fani”, como era chamada carinhosamente, passou de cuidar dos detalhes mínimos da vida de Borges, a estar sem uma casa própria e na miséria.

Pouco antes de falecer em Genebra, Borges modificou seu testamento. Na versão anterior, Fani herdaria metade de seus bens e ficaria com o famoso apartamento da rua Maipú, onde havia cuidado da mãe de Borges e do próprio durante 40 anos. A outra metade, seria dos sobrinhos de Borges e de Maria Kodama.

Misteriosamente, oito dias antes de morrer, modificou seu testamento, tornando Kodama única herdeira. A ex-aluna e ex-secretária transformada em viúva expulsou a ex-governanta, cobrando-lhe até o condomínio dos cinco meses passados desde a partida para a Suíça. Anos depois, a ponto de ir morar em uma favela, Fani colocou uns sapatinhos da infância de Borges à venda. Um colecionador, Alejandro Vaccaro, soube disso, e se dispôs a ajudá-la: colocou Fani na sede de uma associação vinculada ao Clube Boca Juniors. Ali ela limpa o lugar e tem casa e comida.

Vaccaro fica indignado quando fala sobre o caso: “Kodama foi nojenta com Fani”, disse ao Estado. E especula sobre uma possibilidade: “vou dizer algo que nunca disse. Se Fani tivesse sido um pouco mais inteligente, Borges teria se casado com ela. Como aconteceu com Proust e sua governanta Celeste. Se Fani não tivesse sido a mulher simples e honesta que sempre foi, teria feito isso”.

Na casa decorada com bandeiras do time do Boca, ela falou ao Estado, e sustentou, da mesma forma que Bioy Casares afirmava, que Borges não queria partir para a Suíça com Kodama.

No dia que ia viajar, Fani foi avisá-lo que o carro que ia levá-lo ao aeroporto havia chegado. “Não quero ir, Fani”, disse Borges. “Se eu for, morrerei por lá”. Nesse momento, Fani sustenta que entrou Kodama, que ao ouvi-lo, ameaçou: “eu vou embora e não volto mais”. Assustado, Borges concordou, e foi colocado às pressas dentro do carro. “Foi embora sem me dar adeus. Isso vai me doer por toda a vida”, diz.

Segundo ela, Borges tentou o suicídio um dia que Kodama bateu a porta de casa dizendo que nunca mais o veria. Borges encheu a banheira de água fervendo, e pretendeu matar-se entrando ali. Foi só colocar os pés, e desistiu. “Coitado, ficou cheio de bolhas e sentindo-se ridículo”, diz.

Falando sobre Borges como se estivesse vivo, ela sustenta que “ele se apaixona sempre”. E aproveita para contar uma anedota sobre Borges e as mulheres: “após a cerimônia de casamento com Elsa Astete foram na casa da mãe de Borges. Nessa mesma noite, haviam ocorrido protestos nas ruas da cidade. A mãe pediu que eles ficassem e dormissem ali. Elsa negou-se. Como ia passar sua noite de núpcias na casa da sogra? Ela e Borges discutiram e Elsa foi embora sozinha. Mesmo casado, Borges ficou essa primeira noite na casa da mãe.

  

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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