Borges, o anarquista à moda de Spencer
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Borges, o anarquista à moda de Spencer

arielpalacios

15 de junho de 2011 | 19h44

 

Borges, desenhado pelo genial uruguaio Alberto Breccia

“Sou um anarquista à moda de Spencer” era a forma como o escritor Jorge Luis Borges costuma explicar suas posições políticas, referindo-se a Herbert Spencer, filósofo britânico do século dezenove que pregava uma peculiar forma de “anarquismo individualista”. No entanto, o autor de “O informe de Brodie” começou sua carreira literária flertando com a Revolução Russa, ocorrida quando ele tinha 18 anos. Nos anos seguintes Borges publicou um livro de poemas, “Os ritmos vermelhos”, nos quais faz uma apologia da revolta que pregava a igualdade entre os homens.

Rapidamente desencantado com o socialismo, Borges entusiasmou-se com a União Cívica Radical (UCR), partido argentino que nos anos 20 representava a classe média e era comandada por Hipólito Yrigoyen. “Borges até escreveu um poema, no qual declarava sua admiração pelo líder radical”, afirmou ao Estado Maria Esther Vázquez, escritora, ex-colaboradora e amiga de Borges.

Nos anos 30 Borges escreveu um artigo que causou intensa polêmica, o “Sou Judeu”, no qual criticava o nazismo e o fascismo e defendia os judeus, reivindicando sua contribuição cultural para o mundo. A publicação do texto provocou a ira dos setores nacionalistas e pró-eixo da sociedade argentina, marcada pelo antisemitismo.

Novamente Borges provocaria polêmica a partir de 1946, quando o então coronel – posteriormente general – Juan Domingo Perón chegou ao poder. Considerado representante da oligarquia, Borges foi humilhado publicamente pelo peronismo ao ser removido do posto de bibliotecário municipal para ser colocado no cargo de inspetor de aves vendidas em feiras públicas. Borges pediu demissão, iniciando um confronto com o peronismo que o levaria a cunhar uma frase usada frequentemente na política argentina: “os peronistas não são bons nem ruins… são incorrigíveis”.

A decisão política do governo peronista também teve o efeito de levar Borges à procura de fontes de renda alternativa. Desta forma, começou sua carreira de conferencista.

A escritora Maria Esther Vázquez afirmou ao Estado que durante o período em que foi perseguido pelo peronismo Borges recebeu a proposta de dar aulas em uma universidade dos Estados Unidos. “Mas, era a época do macartismo. E, quando os americanos souberam que ele havia havia escrito poemas elogiando a revolução russa na juventude, o descartaram por comunista”.

Em 1955 Perón foi derrubado por um golpe militar. Meses depois, quando o novo regime precisava um diretor para a Biblioteca Nacional, a mecenas Victoria Ocampo recomendou que Borges fosse colocado no posto. Desta forma, o escritor chegou à centenária instituição que tornou famosa em todo o mundo.

Na mesma época, por uma brincadeira com um amigo, Borges afiliou-se ao Partido Conservador. “Essa inscrição dele no partido não passava de uma forma de Borges dizer que não acreditava na política”, afirmou ao Estado Alejandro Vaccaro, autor de “Georgie 1899-1930”, biografia que disseca a infância e juventude do autor.

Em 1976 Borges foi novamente o foco de polêmica quando participou de um almoço com o novo ditador argentino, o general Jorge Rafael Videla. “Ernesto Sábato também foi ao almoço. O problema de Borges foi que, ao sair, disse que Videla era um cavalheiro. E meses depois foi a uma conferência no Chile, governado pelo ditador Augusto Pinochet”, explica Vaccaro. O próprio Borges explicou na época: “a comenda é do povo chileno, não do general Pinochet”.

“Mas, rapidamente mudou de idéia sobre a ditadura argentina. Ele foi um dos poucos intelectuais que assinaram o primeiro abaixoassinado contra os militares, pedindo o paradeiro de milhares de desaparecidos políticos da ditadura. Além disso, foi um intenso crítico da Guerra das Malvinas, protagonizada pelo regime militar”, diz.

Outro Borges de Breccia

O respaldo inicial à ditadura teria sido o motivo para que a academia sueca negasse a Borges o Nobel de Literatura, que não levou em conta as críticas que fez na sequência contra o regime militar.

Os amigos de Borges sustentam que isso não é um problema: “desta forma, ele está acompanhado por Marcel Proust e James Joyce, que nunca receberam o prêmio”.

Um de seus amigos, Esteban Peicovich, autor de diversas antologias dos “causos” borgianos, disse recentemente que “Borges não era um ‘gorila’ (gíria para designar um fanático anti-peronista) nem era de direita. Ele está por cima de toda as baixezas humanas. É uma das grandes flores da espécie, como Kafka”.

SOBRE O PERONISMO, BORGES DIXIT:

– Os peronistas são pessoas que se fazem passar por peronistas para tirar vantagem.

– Olhe, eu detesto os comunistas. Mas, eles, pelo menos, possuem uma teoria. No entanto, os peronistas são uns esnobes.

– O peronismo é algo inverossímil.

SOBRE A DEMOCRACIA:

– A democracia é um abuso da estatística…

 

Jorge Luis e Juan Domingo

O DIA EM QUE BORGES ENCONTROU PERÓN

Os encontros inacreditáveis voltam ocasionalmente à moda na literatura e no cinema. No celulóide Sigmund Freud já encontrou Sherlock Holmes, e Indiana Jones deu de cara com A.Hitler.

Mas, mais complicado teria sido juntar dois homens e carne e osso como Borges e o general Juan Domingo Perón, que governou a Argentina entre 1946 e 1955 e novamente entre 1973 e 1974.

Perón destituiu Borges de um cargo secundário em uma biblioteca de bairro em Buenos Aires para colocá-lo como inspetor de galinhas em feiras livres. Borges não representava perigo para o militar, já que nos anos 40 era apenas conhecido por um restrito círculo de leitores. Mas o escritor fazia ácidas críticas aos sistemas ditatoriais em seus textos.

Borges demitiu-se do emprego de inspetor e aí nasceu uma rivalidade que iria até a morte dos dois. O mundialmente famoso escritor sempre comparou Perón a Rosas, um ditador do século XIX.

Os dois nunca se encontraram na vida real. Mas, reuniram-se na literatura. Esse é o caso de “Borges & Perón, entrevista secreta”, do autor uruguaio Enrique Estrázulas, que trata deste imaginário rendez-vous. Na obra, um tranqüilo Borges recebe a notícia inesperada de sua secretária:

“Secretária: Borges…ali fora está o general Perón.

Borges: É uma notícia ruim ou uma piada?

Secretária: É Perón, que pede desculpa por não ter solicitado uma audiência…ele diz que não leve a mal, e se for o caso, volta outro dia.”

No decorrer da obra, escritor e presidente falam sobre a ficção, a política e a relação conflitiva entre os dois.

Na vida real, Borges chegou a dizer que cada vez mais odiava Gardel “porque parecia Perón”. Perón nunca falou publicamente sobre Borges, embora deixasse clara sua opinião sobre o escritor através das ameaças que seus seguidores faziam ao autor de “O Aleph”.

Estrázulas considera que o encontro não seria tão impossível, já que Perón “possuía um alto nível cultural, embora as massas ignorassem isso, ou ele fazia com que elas ignorassem esse detalhe”.

O livro de Estrázulas foi lançado em 1996. A peça de teatro baseada na obra foi aos palcos poucos meses depois, coincidindo com a estréia de “Evita”, de Alan Parker.

…E falando em encontros impossíveis (aí, por um caso de cronologia), um divertido exemplo é o filme “O dia em que Maradona conheceu Gardel”, de 1996. Com o subtítulo de “Uma fábula de heróis”, tratava de um pacto entre o Diabo e o cantor que imortalizou o Tango. Gardel deveria cantar por toda a eternidade para o “Tinhoso”. Para salvar Carlos Gardel, era necessário um mito da mesma magnitude. O escolhido foi alguém que já desceu várias vezes ao Inferno, mas com intenções diferentes às de Dante: Diego Armando Maradona.

 

A literatura e o teatro uniram as duas irreconciliáveis figuras para uma agradável tertúlia. Jean Pierre Noher interpreta o autor de “O Aleph”, enquanto que Victor Laplace faz o papel de “El Conductor”.

RECONHECIMENTO REVOLUCIONÁRIO – E antes que esqueça, é interessante destacar que a esquerda latino-americana está mudando seu ponto de vista sobre Borges.

Um dos emblemas da esquerda revolucionária da região, o líder sandinista Tomás Borge Martinez (fundador, em 1960, com Carlos Fonseca Amador e Silvio Mayorga, da Frente Sandinista de Liberação Nacional da Nicarágua), no ano passado, durante o Foro de São Paulo realizado em Buenos Aires, definiu o escritor Jorge Luis Borges como um dos “gloriosos arquétipos desse extraordinário país (a Argentina), junto com Ernesto Che Guevara, Juan Domingo Perón, Julio Cortazar e Carlos Gardel”.

Foto do Bundesarchiv de Tomas Borge, líder sandinista, revolucionário latino-americano… e admirador de Borges, Jorge Luis.

   

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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