“Boudou-gate” cresce e provoca a primeira baixa
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“Boudou-gate” cresce e provoca a primeira baixa

arielpalacios

11 de abril de 2012 | 09h01

 

Amado Boudou, vice-presidente argentino, na 6afeira passada durante uma coletiva de imprensa que não permitiu perguntas dos jornalistas. Monólogo do vice, ex-ministro da Economia,durou 45 minutos.

O “Boudou-gate”, irônica denominação do escândalo de corrupção cujo principal suspeito é o vice-presidente Amado Boudou, provocou nesta terça-feira por efeitos colaterais a primeira baixa nas fileiras do governo com a renúncia do procurador-geral da República, Esteban Righi. O motivo da saída de Righi – um histórico peronista – foi a denúncia feita pelo vice-presidente na sexta-feira passada, quando acusou Righi e seus assessores de terem tentado suborná-lo em 2009. Na ocasião, Boudou, para esquivar explicações sobre seu suposto envolvimento em tráfico de influências, disparou acusações contra a mídia e integrantes da oposição. No entanto, causou surpresa ao atacar diversos aliados do governo, entre eles Righi.

“Meu passado me defende. A esta altura de minha carreira não tenho que me defender do ataque de Boudou”, teria dito Righi, visivelmente ofendido, a um grupo de amigos na segunda-feira à noite. Ontem à tarde, Righi apresentou formalmente sua renúncia à presidente Cristina. Na carta, o ex-procurador indica que as acusações de Boudou são falsas.

O vice é suspeito de tráfico de influências na licitação da Casa da Moeda que favoreceu a empresa Companhia de Valores Sul-americana, a maior gráfica do país especializada na impressão de cédulas de pesos.

O contrato da Casa da Moeda é para imprimir 50% do total das notas de 100 pesos (seriam 600 milhões de notas).

O dono da empresa, Alejandro Vanderbroele, é – segundo sua ex-esposa, Laura Muñoz – testa de ferro de Boudou. O vice-presidente, no entanto, afirmou publicamente que nunca viu Vanderbroele em sua vida. Mas, Muñoz retruca e afirma que seu ex e o vice são amigos de longa data. Por este motivo, o juiz Rafecas também está investigando Boudou por suposta lavagem de dinheiro.

Além disso, a Justiça investiga se Boudou interferiu a favor da suspensão do estado de falência da gráfica quando foi comprada por Vanderbroele.

Na quinta-feira passada o juiz federal Daniel Rafecas ordenou uma blitz no apartamento que Boudou possui no elegante bairro de Puerto Madero. O vice aluga o imóvel para Fabián Carosso Donatiello, sócio e amigo de Vanderbroele. Mas, na hora em que as forças de segurança entraram no apartamento para fazer a blitz, o imóvel estava totalmente vazio, já que o inquilino não visita o país desde o ano passado. No entanto, o juiz verificou que Vanderbroele paga o condomínio e a TV a cabo do apartamento que Boudou aluga para Donatiello.

Além disso, embora o vice diga que não possui vínculo algum com o empresário, Boudou mora em um apartamento em Puerto Madero que – coincidentemente – aluga de outro sócio de Vanderbroele.

Boudou participa de uma cerimônia oficial na Casa Rosada.

Na sexta-feira, perante o crescimento do escândalo, Boudou – “desesperado”, segundo os analistas políticos – convocou uma coletiva de imprensa para explicar sua posição. Mas, em vez de responder as perguntas dos jornalistas, fez um monólogo de 45 minutos ao longo dos quais lançou uma saraivada de acusações contra a oposição e alguns integrantes do próprio governo Kirchner.

Na segunda-feira, perante o crescimento de pedidos da oposição para que Boudou explicasse porque não havia denunciado a suposta tentativa de suborno feita pelos assessores de Righi, o vice-presidente foi aos tribunais apresentar uma denúncia contra o escritório de advogados do ex-procurador.

Segundo o vice, o escritório de advogados de Righi ofereceu fazer lobby para Boudou,para evitar problemas na Justiça (tal como possui agora, com Vanderbroele). Boudou rejeitou a oferta na época. E, coincide, que o promotor que pediu a investigação sobre o vice é Carlos Rívolo, protegido de Righi.

Boudou também acusou o juiz Rafecas, indicando que age como “uma agência de notícias”, filtrando informações à imprensa. Rafecas, até este escândalo, era um dos juízes mais elogiados pelo kirchnerismo.

O analista político e ex-embaixador Jorge Asís, sustenta que em seu “tobogã” de queda de popularidade “a presidente Cristina cometeu três erros gaves em relação a Boudou. O primeiro foi designá-lo vice; o segundo, o de sustentá-lo mesmo quando o escândalo estava crescendo sem parar. O terceiro, o de ter armado uma defesa de seu vice quando já era tarde demais”.

O vice-presidente Boudou, segundo uma pesquisa elaborada pela consultoria Isonomia, está com a credibilidade arrasada: somente 15,4% dos entrevistados consideram que é totalmente inocente deste escândalo de corrupção.

O ataque a Righi feito por Boudou – que os peronistas tradicionalistas encaram como um ex-neoliberal arrivista no peronismo – foi criticado pelo filósofo Ricardo Foster, um dos líderes do Carta Abierta, grupo de intelectuais ultra-kirchneristas. “Tenho muito respeito por Righi e pelo juiz Rafecas”, disse Foster. “A Justiça seguirá seu caminho, independentemente do que o vice diga”, afirmou o filósofo, em uma inédita crítica a Boudou.

Setores da oposição pedem o julgamento político do vice. Além disso, dentro do próprio governo, um grupo quer que Boudou renuncie, enquanto outros setores consideram que isso implicaria em um imenso custo político. Em off, um alto ex-ministro do ex-presidente Nestor Kirchner afirmou ao Estado que “Cristina não removerá Boudou. Não somente porque isso implicaria em um custo político que ela não quer enfrentar. Mas, principalmente por teimosia. Ela quis colocar Boudou no posto de vice-presidente e não atura que alguém possa lhe recomendar o contrário”.

Na quarta-feira à noite a presidente Cristina Kirchner definiu que o novo procurador-geral da República será Daniel Reposo, homem que colaborou com Boudou em 2009 quando o então economista era o diretor da ANSES, o sistema previdenciário argentino.

No entanto, a designação de Reposo dependerá do Parlamento. Mas, ali o governo possui uma confortável maioria.

Esteban “Bebe” Righi, peronista militante há cinco décadas, renunciou por causa de Boudou, peronista há meia década.

1973, a “Primavera Peronista”: Esteban “Bebê” Righi, na extrema direita da foto. A seu lado, o então presidente Héctor Cámpora.

RIGHI, HISTÓRICO DA ESQUERDA PERONISTA – Esteban “Bebê” Righi – militante do partido peronista há meio século – foi ministro do interior durante os três meses de governo do presidente Héctor Cámpora, em 1973, quando centenas de prisioneiros políticos, entre os quais dezenas de montoneros, foram colocados em liberdade. O período, conhecido como a “primavera peronista”, é admirado pelos atuais integrantes do governo, a maioria dos quais eram jovens militantes nos anos 70, tal como a própria presidente Cristina Kirchner.

Righi, na época, tinha 35 anos. Sua juventude e sua cara arredondada valheram-lhe o apelido de “Bebê”.

Em 2005 o então presidente Nestor Kirchner designou Righi para o posto de procurador-geral da república. O experiente advogado deixou seu escritório, administrado por sua mulher e filho, que continuou com uma carteira de clientes que incluem o ministro do Planejamento Julio De Vido, o secretário de Comércio Interior Guillermo Moreno e o ministro do Trabalho, Carlos Tomada.

No novo posto, Righi foi útil ao governo, arquivando uma série de denúncias de casos de corrupção da Era Kirchner.

 

“Bebê” Righi, recentemente, quando ainda era procurador-geral da República. Righi, com 50 anos de militância peronista, renunciou por causa de Boudou, que está no peronismo há pouco mais de meia década.

ROCK, I PHONE & NACIONAL y POPULAR – Boudou costuma exibir seus dotes de roqueiro amador tocando a guitarra elétrica em cerimônias do governo e comícios. O vice não conta com o respaldo de diversos setores internos do governo, especialmente os peronistas tradicionais, que consideram que Boudou tem um passado “excessivamente neoliberal”. Esses setores encaram o vice como um “arrivista” no estatizante kirchnerismo.

O vice coleciona canetas-tinteiro e motos Harley Davidson (obviamente, importadas). E é um fã dos eletrônicos feitos no exterior. No entanto, o vice faz pose de defensor do “nac y pop” (nacional y popular), denominação da política protecionista do kirchnerismo e de defesa da produção nacional.

Paradoxalmente, na semana passada Boudou protagonizou uma curiosa cena quando, pela rede de micro-bloggings Twitter defendeu a indústria nacional…desde um IPhone importado.

O comportamento de Boudou, definido como “fútil” pelos analistas políticos, parece ter preocupado a própria presidente Cristina. Em dezembro passado, antes de iniciar uma breve licença médica, interrompeu um discurso na Casa Rosada para virar para Boudou – que ficaria na presidência interina do país – e fazer um alerta: “vê lá o que vai fazer, hein? E isto que eu disse não é brincadeira!”

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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