O roqueiro vice-presidente de Cristina Kirchner e a gráfica para imprimir notas de dinheiro
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O roqueiro vice-presidente de Cristina Kirchner e a gráfica para imprimir notas de dinheiro

arielpalacios

31 Maio 2014 | 19h07

O vice-presidente é roqueiro amador nas horas vagas e nas horas não tão vagas

No dia 15 de julho Amado Boudou se tornará no primeiro vice-presidente argentino que entrará no edifício dos tribunais no bairro portenho de Retiro para responder a um inquérito na Justiça. A decisão de convocar o vice dapresidente Cristina Kirchner foi anunciada nesta sexta-feira pelo juiz federal Ariel Lijo, que o investiga pela suposta aquisição irregular da empresa gráfica Ciccone, posteriormente rebatizadade Companhia Sul-americana de Valores, em conjunto com um grupo de sócios que teriam agido como testas-de-ferro de Boudou.

Líderes da oposição voltaram a exigir a renúncia de Boudou, que tornou-se o integrante mais impopular do governo Kirchner. No entanto, ontem, antes de partir para El Salvador, em viagem oficial, Boudou declarou que não renunciará a seu cargo de vice. “Sou inocente”, afirmou.

Setores do kirchnerismo admitem – discretamente – que o vice tornou-se um peso morto para a presidente. No entanto, Cristina recusa-se a abandonar o vice. “Ela não deixará Boudou, pois a presidente não dá o braço a torcer. Este vice arrastará Cristina ao fundo do abismo”, disse ao Estado o analista político Jorge Lanata, autor de “10 K, a Década Roubada”, livro que disseca a corrupção do período kirchnerista.

No dia do inquérito o vice terá as funções de presidente em exercício da República, já que Cristina estará fora do país, no Brasil, como convidada especial da reunião dos BRICS.

O “Caso Ciccone” transformou-se no maior escândalo de corrupção do governo Kirchner, provocando, segundo diversas pesquisas, uma queda persistente da popularidadede Cristina desdeque veio à tona semanas após a reeleição presidencial de 2011. Nos últimos três anos, decorrente das investigações sobre a gráfica Ciccone, Boudou – além de tráfico de influências – também tornou-se suspeito de enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro.

A lei argentina determina que o delito de negociações incompatíveis com a função pública implica em uma condenação de dois a seis anos de prisão, além do impedimento total de exercer cargos públicos pelo período de três a dez anos. Na hipótese de levar o vice ao banco dos réus, o juiz Lijo poderia pedir o fim da imunidade de Boudou. Mas, para isso, seria necessário que o Parlamento remova essa proteção de privilégio que o vice-presidente possui pelo cargo que tem.

Na foto acima, há três anos, Boudou faz gestos cômicos para divertir a presidente Cristina durante uma cerimônia na Casa Rosada.

CONDOMÍNIO – O escândalo Ciccone veio à tona em dezembro de 2011, quando investigações jornalísticas, posteriormente aprofundadas pela Justiça, revelaram pistas que indicavam que Boudou teria favorecido o empresário Alejandro Vanderbroele, diretor do fundo holandês “The Old Fund”, a comprar a gráfica, que estava a ponto de falir. Boudou também teria intercedido por intermédio da Receita Federal a salvar a Ciccone do pagamento de pesadas dívidas tributárias.

Depois, Boudou teria favorecido a empresa para conseguir o contrato de impressão de notas de 100 pesos, já que a Casa da Moeda não estava conseguindo abastecer a demanda de notas argentinas gerada pela crescente inflação.

Simultaneamente, Boudou cancelou os planos para a modernização da Casa da Moeda. Em meio ao escândaloa companhiafoi estatizada em 2012.

Vanderbroele é apontado como virtual testa de ferro do vice. No entanto, Boudou nega qualquer espécie de vínculo com o empresário e afirma que nunca o viu. Paradoxalmente, o vice aluga seu apartamento no elitista bairrode PuertoMadero para um sócio de Vanderbroele. O misterioso empresário também pagava o condomínio e a TV a cabo do apartamento de propriedade do vice.

A ex-mulher de Vanderbroele sustenta que seu ex-marido e Boudou “são amigos desde a juventude”. O vice sustenta que as acusações não passam de um “ataque midiático mafioso” realizado pelos jornais “Clarín” e “La Nación”.

Em 2013 surgiram novas pistas que indicam que o fundo Old Fund teria recebido fundos de um dos banqueiros preferidos do governo Kirchner, Jorge Brito, do Banco Makro, além do ex-banqueiro Raúl Monetta, aliado do presidente Carlos Menem nos anos 90. Monetta, nos últimos anos, transformou-se em dono de meios de comunicação alinhados com a CasaRosada.

SUÍÇA – A Justiça da Suíça confirmou que o empresário Lázaro Báez, ex-sócio docasal Kirchner emempreendimentos imobiliários, enviou desde o Panamá US$ 22 milhões – por intermédio de sociedades relacionadas com sua família – a contas que possui em bancos suíços. Báez está sendo processado por suposta lavagem de dinheiro.

BOUDOU, O VICE ROQUEIRO DE CRISTINA

Na foto acima o vice-presidente celebra a vitória de uns pilotos em corrida de automóveis

“Este é um governo muito ‘rock and roll’, pois tem esse espírito de atrever-se a mudar as coisas que não gosta”. Com estas palavras, o roqueiro amador Amado Boudou, pontificava em meados de 2011 à edição argentina da revista “Rolling Stone” sobre a essência da administração da presidente Cristina Kirchner. Boudou, além de dedicado DJ e guitarrista, também ocupava na época da entrevista o posto de ministro da Economia da Argentina. Poucos meses depois seria o novo vice-presidente da República.

Boudou, que aprecia ternos bem-cortados e mantém uma cabeleira cuidadosamente décontracté, é também colecionador de canetas-tinteiro. Além disso, possui várias motos Harley Davidson, sobre as quais é ocasionalmente visto montado nas ruas do elitista e moderno bairro de Puerto Madero. O outfit que nunca falta quando usa esse transporte é uma jaqueta curta de couro preto, ad hoc com o estilo desse vintage veículo da outrora juventude transviada.

NEOLIBERAL PERONÍSTICAMENTE AKEYNESIADO – Chamado de “Aimée” (Amado em francês) pela família e amigos, estudou no balneário de Mar del Plata, onde formou-se em Economia. “Já era um playboy na época”, ilustrou ao Estado uma ex-colega de faculdade. Ela formou-se rápido. Mas Boudou levou vários anos a mais. “Ele estava ocupado com sua militância política na centro-direita e na organização de festas no curso”, avalia.

Boudou ganhou espaço de poder dentro do governo Kirchner quando, em 2008, no comando do sistema previdenciário, propôs ao casal presidencial a ousada jogada da reestatização das aposentadorias.

Os Kirchners aprovaram a ideia, que permitiu que o governo contasse com uma caixa de US$ 25 bilhões extras, destinados a fazer política.

Um ano depois, Cristina colocava “aquele jovem estupendo” – segundo suas palavras – no comando da pasta da Economia. No entanto, enquanto Néstor Kirchner esteve vivo, Boudou tinha pouco peso, já que o virtual ministro era o próprio ex-presidente. Mas, com a morte de Kirchner em outubro de 2010, aumentou rapidamente a influência de Boudou, que tece longas apologias à sua chefe em cada discurso.

O crescimento de Boudou no governo irritou a ala tradicional do Partido Justicialista (Peronista), movimento político fundado pelo general Juan Domingo Perón em 1946. Motivos existem de sobra, já que o bem-apessoado ministro – um recém-chegado no estatizante peronismo – foi durante a maior parte de sua vida um militante da União de Centro Democrático (Ucedé), partido de direita que durante décadas foi o principal reduto do neo-liberalismo argentino.

Além disso, foi professor da Universidade do Centro de Estudos Macroeconômicos Argentinos (Ucema), que serviu de “think tank” para as privatizações do governo de Carlos Menem nos anos 90.

No entanto, na década passada converteu-se ao “nacionalismo popular”. Paradoxalmente, tuiteia desde um importado IPhone sobre a defesa da indústria nacional.

“Aimé” demonstra incondicional lealdade a Cristina. Essa característica é sua vantagem, sustentam os analistas, que destacam que a presidente buscava evitar um remake das dores de cabeça que teve com seu anterior vice, o rebelde Julio Cobos, que rachou com a presidente em julho de 2008, causando a pior crise política da administração Kirchner.

Boudou era fã declarado de Alvaro Alsogaray, o emblema do neoliberalismo argentino, de deixar os Chicago Boys como militantes estatizantes. Alsogaray, na foto acima, foi o fundador da Ucedé, partido de direita no qual Boudou militou durante longo tempo.

BOUDOU-GATE – Em dezembro de 2011, durante a posse do segundo mandato de Cristina, Boudou foi apontado como o virtual sucessor de sua chefe, já que a presidente, que havia sido reeleita, não poderia disputar em 2015 uma segunda reeleição consecutiva. Na época, o governo preparava Boudou para assumir a presidência do Partido Justicialista (Peronista), vaga desde a morte de Kirchner em outubro de 2010.

No entanto, em fevereiro de 2012 a estrela do vice começou a apagar, já que foi denunciado por suposto tráfico de influências na licitação da Casa da Moeda que favoreceu a empresa Companhia de Valores Sul-americana, a maior gráfica do país especializada na impressão de cédulas de pesos.

O dono da empresa, Alejandro Vanderbroele, é – segundo sua ex-esposa, Laura Muñoz – testa de ferro de Boudou. O vice-presidente, no entanto, afirmou publicamente que nunca viu Vanderbroele em sua vida.

Pouco depois o juiz federal Daniel Rafecas ordenou uma blitz no apartamento que Boudou possui no elegante bairro de Puerto Madero. Nunca antes na História do país um imóvel de um vice-presidente havia sido alvo de uma blitz.

Enquanto o irônico humor portenho rapidamente batizava o escândalo de “Boudou-gate”, a imagem do vice despencava, levando consigo a aprovação popular de Cristina.

O juiz verificou que Vanderbroele paga o condomínio e a TV a cabo do apartamento que Boudou aluga para Fabián Donatiello (que por seu lado, é sócio de Vanderbroele). Para complicar, embora o vice diga que não possui vínculo algum com o empresário, Boudou mora em um apartamento em Puerto Madero que aluga de outro sócio de Vanderbroele.

BABY FACE – “Um ser desprezível. Um homem miserável”. Esta é a definição que um outrora poderoso ex-ministro do casal Kirchner pronunciou em conversa em estrito off com o Estado sobre o vice-presidente Boudou. O ex-ministro faz uma pausa, dá um gole no nespresso arpegio que prepara para si próprio e o entrevistador e acrescenta outra característica sobre o vice: “é um capacho”.

Depois, olha pela janela do apartamento de luxo de um amigo onde está hospedado e aponta para outro prédio de luxo de Puerto Madero: “o Boudou mora logo ali”.

Segundo o ex-ministro, a presidente Cristina já havia sido alertada para que não designasse Boudou, em 2009, como novo ministro da Economia. “Mas, Cristina, quando é criticada, se aferra mais em suas posições, mesmo que esteja enganada. E colocou Boudou como ministro. A mesma coisa ocorreu quando o designou vice”.

O ex-integrante do governo descarta categoricamente os rumores que haviam surgido em 2010 e 2011 que indicavam que Boudou seria amante da presidente. “Não, de forma alguma. Tenho certeza de que entre os dois não ocorria nada”, sustenta. Segundo ele, a troca de elogios entre Cristina e Boudou que havia suscitado os boatos “eram meros galanteios. Nada além disso”.

Velhos integrantes do governo irritam-se com os comentários da presidente sobre Boudou, denominado de “o baby face” do gabinete. “Ele tem 48 anos. Mas parece bem menos, reconheço”, disse Cristina em 2011 durante um discurso em rede nacional de TV antes das eleições, enquanto sorria olhando para seu futuro vice. O ciúme dos outros ministros foi evidente durante a cerimônia. Boudou abriu um sorriso de orelha à orelha.

E para embalar este fim de semana, a ópera I Masnadieri (Os Ladrões), de Giuseppe Verdi, que debutou em 1847:


hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

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