Brasileiros votarão para presidente em Buenos Aires (e as conexões portenhas de Dilma Rousseff e José Serra)
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Brasileiros votarão para presidente em Buenos Aires (e as conexões portenhas de Dilma Rousseff e José Serra)

arielpalacios

29 de setembro de 2010 | 22h13

Mafalda, a irônica menina-filósofa do cartunista argentino Quino

 3.877 cidadãos brasileiros estão registrados no consulado do Brasil na capital argentina para votar neste domingo no primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras. Esse número torna Buenos Aires na cidade sul-americana fora do Brasil com o maior volume de eleitores brasileiros registrados.

A votação em Buenos Aires será realizada no edifício administrativo da Embaixada do Brasil, no bairro de Retiro. As autoridades consulares instalarão ali dez urnas. As cidades de Mendoza e Córdoba – as outras duas únicas que possuem consulados – contarão com uma urna eletrônica cada uma.

A cônsul-geral do Brasil em Buenos Aires, embaixadora Gladys Ann Garry Facó, explicou que os brasileiros em trânsito não poderão votar. Segundo ela, estas pessoas terão 60 dias para justificar.

Para votar, os eleitores brasileiros deverão estar previamente registrados no consulado em Buenos Aires. Além disso, terão que apresentar o título de eleitor, acompanhado de um documento brasileiro ou argentino que conte com foto. A votação em Buenos Aires será realizada das 8:00 às 17:00 horas (o horário de B.Aires é atualmente o mesmo de Brasília).

O consulado do Brasil em B.Aires está na rua Carlos Pellegrini, número 1363, 5 andar (a Carlos Pellegrini é a lateral oeste da avenida 9 de Julio)

Para ver o site do consulado (e para tirar dúvidas sobre a votação), clique aqui.

Mas, a votação será do outro lado da 9 de Julio, do lado oeste da avenida, na rua Cerrito, 1350, no edifício da Embaixada do Brasil.

 RESIDENTES – Diversas estimativas extraoficiais indicam que o total de brasileiros (entre legais e ilegais) residentes na Argentina seria de 37 mil. Destes, ao redor de 10 mil a 13 mil morariam na região de Buenos Aires e dos municípios da Grande Buenos Aires. Boa parte dos brasileiros que residem no país estariam na área da fronteira com o Brasil.

 CRESCIMENTO – O número de eleitores brasileiros registrados na capital argentina cresceu de forma persistente desde a eleições nos anos 90.

1998 – De um total de 791 pessoas cadastradas, votaram 434. O então presidente Fernando Henrique Cardoso, que disputava a reeleição, conseguiu 308 votos. Em segundo lugar ficou Luis Inácio Lula da Silva, que obteve 87 votos.

2002 – Nesse ano 859 brasileiros cadastraram-se para votar nas eleições presidenciais. Mas, somente 518 eleitores votaram. Lula teve 289 votos. Serra conseguiu 164 votos.

2006 – Nessa última eleição, do total de 1.395 eleitores brasileiros cadastrados em Buenos Aires, 1.001 compareceram às urnas.

Desses, 447 votaram na reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os candidatos da oposição, somados, reuniram 493 votos. Destes 366 votaram em Geraldo Alckmin; outros 79 votaram em Heloísa Helena, enquanto que Cristovam Buarque conseguiu 48 votos. Os restantes votos distribuíram-se entre Ana Maria Rangel (15 votos), José Maria Eymael (3), Rui Pimenta (2), Luciano Bivar (1). Os restantes votos foram 19 brancos e 21 nulos.

 

Quino ironiza sobre as indefinições e angústias que tomam conta de um eleitor na hora de definir o voto entre candidatos disponíveis (em muitas – ou em todas  – partes do mundo). Nesta tirinha, Mafalda exaspera-se com o relato que Libertad faz sobre a depressão de seu pai com as opções eleitorais que dispunha. O diálogo é este:

Mafalda: E teu pai, Libertad, em quem ele pensa votar nas próximas eleições?

Libertad: Nem fala…ele anda com uma cara, coitado!

Mafalda: Ah, ainda não se decidiu por um candidato?

Libertad: Sim, decidiu, e anda com uma cara, coitado!

Mafalda: Mas por que? Pensa que esse candidato vai perder?

Libertad: Não, ele pensa que vai ganhar… e anda com uma cara, coitado!

Mafalda: Não entendo teu pai, Libertad: ele sabe em que votará nas próximas eleições, e pensa que esse candidato vai ganhar … e não está contente?

Libertad: Não. E anda com uma cara, coitado!

Mafalda: Mas, por que? Por acaso ele acha que não deixarão que seu candidato governe?

Libertad: Às vezes ele acha isso, e aí anda com uma cara, coitado! Mas outras vezes acha que sim, vão deixá-lo governar. E também fica com uma cara, coitado!

Mafalda (exasperada): Mas que encheção! Se tanto esse candidato incomoda, porque diabos não pensou em votar em quaquer dos outros candidatos!

Libertad: Ele pensou nisso. E ficou com uma cara, coitado!

 PIT-STOP PORTENHO – Os candidatos Dilma Rousseff e José Serra possuem um ponto comum sui generis na História das eleições presidenciais brasileiras. Pela primeira vez, os dois candidatos melhor posicionados nas pesquisas de opinião pública são filhos de imigrantes estrangeiros. Nunca antes isso havia ocorrido (por exemplo, FHC é filho de uma família de longa data no Rio de Janeiro, enquanto que a família de Lula morou no interior do Brasil por várias gerações).

Além deste ponto comum, Dilma e Serra possuem em seus currículos familiares uma “conexão portenha”. Ou melhor, um pit-stop portenho em ambas famílias.

FUGINDO DO CALOR SOTEROPOLITANO, RUMO À B.AIRES – O pai da candidata petista, ????? ?????, isto é, Pétar Russév,  nasceu na cidade de Gábrovo, Bulgária, em 1900. Em 1929 deixou seu país e migrou para o Brasil. A primeira parada foi em Salvador, Bahia. Mas, o calor na cidade foi demais para este cidadão nascido nos Bálcãs. Desta forma, decidiu fazer as malas novamente e partiu rumo ao sul. Russév desembarcou em Buenos Aires, Argentina, que vivia na época seus anos dourados (e onde o clima era mais frio). Ali, este inquieto búlgaro ficou alguns anos. Mas, após um período de bons negócios na capital argentina, decidiu fazer as malas mais uma vez e abandonou a “Rainha do Prata” (um dos apelidos de B.Aires). Russév partiu para São Paulo, instalando-se definitivamente no Brasil. Anos depois conceberia em Belo Horizonte a futura candidata petista. Nesta segunda etapa brasileira ele mudou seu nome para Pedro e o sobrenome para Rousseff, formato que repassaria aos filhos, entre eles, Dilma.

UMA ‘ABUELA-NONNA’ ARGENTINA – No caso do candidato tucano, a conexão portenha vem pelo lado materno, já que seu avô Steffano Chirico partiu da Itália pouco antes da Primeira Guerra Mundial e migrou para a Argentina, que na época prometia ser uma potência na América do Sul e despontava como o “celeiro do mundo”. Em Buenos Aires casou-se com uma jovem portenha, Carmela, filha de imigrantes italianos. Anos depois, a argentina que no futuro seria avó de José Serra e seu marido partiram de Buenos Aires rumo a São Paulo. A filha deste casal conheceria – e casaria-se – com o italiano Francesco Serra. E assim, na Mooca, longe dos primos argentinos, nasceu José. 

O humor ácido de Quino, na versão completa desta tirinha de meados dos anos 60, da qual havíamos colocado apenas o primeiro quadrinho lá no começo desta postagem.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra ).

passaro4Acompanhe-nos no Twitter, aqui.

blog1vinhetalendonewsstand4…E leia os supimpas blogs dos correspondentes internacionais do Estadão:

……………………………………………………………………………………………………
Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país, não serão publicados. Tampouco serão publicados ataques pessoais aos envolvidos na preparação do blog (sequer ataques entre os leitores) nem ocuparemos espaço com observações ortográficas relativas aos comentários dos participantes. Propaganda eleitoral ou partidária também será eliminada dos comentários. Os comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagem serão eliminados. Além disso, não publicaremos palavras chulas ou expressões de baixo calão (a não ser por questões etimológicas, como background antropológico).

…………………………………………………………………………………………………..

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.