Breve amostra de epítetos e ofensas ad hoc para pronunciar em estádios argentinos
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Breve amostra de epítetos e ofensas ad hoc para pronunciar em estádios argentinos

arielpalacios

11 Maio 2014 | 21h14

Torcedores do San Lorenzo explicitam suas especulações sobre profissão sexual da mãe do árbitro e indicam que sodomizariam alguns dos jogadores com rendimento aquém do exigido. O mundo dos impropérios é amplo.

Nesta 4afeira dia 14 de maio, a partir das 18:30 horas, na Livraria da Vila, na Alameda Lorena número 1.731, nos Jardins, em São Paulo, o Guga Chacra e eu lançaremos nosso livro “Os Hermanos e nós”. A obra trata do futebol argentino, passando por sua História, o comportamento das torcidas, os clubes, estádios, a gastronomia futebolística, superstições, o esporte e o poder, o futebol gay, a controvertida Copa de 1978, a relação futebolística com o Brasil (e as lendas urbanas sobre o assunto), além de um glossário sobre epítetos ad hoc para pronunciar nos estádios argentinos. Estão todos convidados!

Aqui, modo de hors d’oeuvre, um trecho do livro:

As variadas formas verbais para ofender/insultar/irritar alguém na sociedade argentina podem ser vistas de forma concentrada durante a horas transcorridas durante a chegada a um estádio de futebol, ao longo do jogo (intervalo incluído) e na saída do recinto esportivo enquanto os torcedores partem de volta para casa. Os epítetos também podem ser pronunciados nas escalas ocasionais no meio do caminho de volta ao aconchego do lar nas quais os torcedores protagonizam cenas de pugilato ou telecatch com representantes de outros times (estas, evidentemente, incluindo também depredação de patrimônio público ou privado no meio do caminho).

Aqui colocamos uma breve antologia das expressões utilizadas:

La concha de tu madre: “Concha” é a palava, na gíria local, para referir-se à vagina de forma chula. “Madre” é a mãe. Portanto, a pessoa que profere esta frase refere-se à vagina da progenitora de outrem. Quase sempre é acompanhado, no início, do verbo “andar”. A frase, desta forma, seria “andá a la concha de tu madre” (vá para a vagina de tua mãe). No entanto, em vez desta opção imperativa, também pode ser usada uma variante inquisitiva de tom convidativo, que é a “porqué no te vas a la concha de tu madre” (porque é que você não vai à vagina de sua mãe?). E, como reforço não-obrigatório, poderia ser ampliada com a inclusão do insulto “boludo”, desta forma: “porqué no te vas a la concha de tu madre, boludo?”.

La concha de tu hermana: A mesma utilização do verbete acima. No entanto, muda a protagonista e dona da vagina, que passa a ser a irmã. Ocasionalmente pode ser citada a “abuela” (avó).

Forro: Esta palavra era a princípio uma gíria argentina para designar o preservativo. No entanto, começou a ser usada como um peculiar insulto, indicando que alguém equivale a um preservativo (algo estranho, pois o preservativo é um elemento útil). Uma versão mais específica pode ser “forro pinchado” (preservativo furado, expressão que aí sim, indica que alguém é um fracasso).

Insultos na História: “Carlos I insultado por soldados de Cromwell”, quadro de Hippolyte Delaroche, mostra o monarca inglês Carlos I Stuart sendo xingado por soldados vitoriosos da Segunda Guerra Civil inglesa. Na sequência o ex-rei foi executado. O rei perdeu a cabeça em 1649. O quadro foi pintado em 1836. 

Hijo de puta: Forma usada para explicitar o desagrado com alguém que é má pessoa. Esta é a versão em espanhol do clássico mundial no qual afirma-se que o interlocutor (ou a pessoa citada na conversa) tem uma mãe dedicada à atividade sexual paga. Mas, na Argentina estão as peculiares versões que pretendem intensificar o epíteto. Uma delas é “hijo de mil putas” (filho de mil putas), uma condição impossível, pois a pessoa seria filho de múltiplas mães. No entanto, é uma licença poética permitida aos epítetos.

Andate a la puta que te parió: Com esta expressão a pessoa expressa ao interlocutor que vá procurar sua mãe, senhora de profissão sexual, que lhe deu a luz. O equivalente em português ao “vá à puta que te pariu”. Mas, a tradição argentina é rica em reforços. Portanto, esta expressão pode ser potencializada com um aditivo, como “boludo de mierda”. Logo, a expressão fica ampliada para “andate a la puta que te parió, boludo de mierda”.

Acima, cena do filme “O segredo de teus olhos”, de Juan José Campanella, na qual um dos principais personagens indica ao protagonismo que um homem pode mudar de nacionalidade, religião, de mulher…mas não muda de time de futebol.

Le vamos a romper el orto: Uma expressão que indica o desejo de sodomia com outrem. Neste caso, ativamente. Seria o equivalente a “vamos a quebrar os ânus deles” (implicitamente com o membro viril, e não com o uso de elementos artificais de penetração). Paradoxalmente, os torcedores que proferem esta expressão se vangloriam de sua heterosexualidade (e também costumam ser homofóbicos), embora neste comentário ofensivo explicitem a realização de um coito anal com o rival/inimigo. Sigmund Freud, se estivesse vivo, faria a festa nos estádios em todo o planeta.

Sigmund Freud, escrevendo. O mestre teria tido farto material de análise com as torcidas de futebol.

E aqui, o convite para o lançamento do livro nesta quarta-feira em São Paulo: 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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