Breve tour cultural-arquitetônico-político-econômico-social pela Avenida de Mayo
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Breve tour cultural-arquitetônico-político-econômico-social pela Avenida de Mayo

arielpalacios

29 de dezembro de 2010 | 20h26

 

Edifício do “La Prensa”, atualmente a Secretaria de Cultura. Um emblemático edifício da Avenida de Mayo (foto da Wikipedia)

  A avenida de Mayo foi construída em 1894 com a intenção de emular o Champs Élysées de Paris. Mais de um século depois de sua inauguração, é o lugar para ver a pujança econômica que a Argentina teve na virada do século passado, época na qual também era o centro cultural da América Latina.

Atualmente, a avenida, que liga os dois centros do poder no país – a Casa Rosada e o Parlamento – possui vários em péssimo estado de conservação, enquanto que pessoas sem-teto procuram abrigo em cantos de suas fachadas.

Alguns prédios, no entanto, estão sendo reformados, dando à avenida – em alguns pontos – o charme que teve no passado. Esta emblemática via do centro da capital é também um microcosmos que simboliza as crises políticas e econômicas da Argentina nas últimas décadas.

Esta é a via preferida para as manifestações políticas e sociais de todo o leque político argentino. O sentido das manifestações quase sempre ocorre desde a praça do Congresso até a Praça de Mayo (isto é, de oeste para leste). Dificilmente é na direção oposta.

  PRAÇA DE MAYO – Nos primeiros cem anos de vida independente do país a praça foi somente cenário de cerimônias oficiais e plácidos pedestres. Mas, no segundo século transformou-se no centro de manifestações sociais. É o lugar do protesto semanal das Mães e Avós da Praça de Mayo, que pedem pelo paradeiro dos 30 mil desaparecidos da ditadura militar (1976-83).

Veteranos da única guerra perdida pela Argentina no segundo século de existência do país, a das Malvinas (1982), acampam há três anos na praça para exigir maiores pensões.

Veteranos das Malvinas exigem atenção do governo

Ali, em 2001, no meio do caos econômico, a polícia matou 20 pessoas que exigiam a renúncia do presidente Fernando De la Rúa.

Por golpes de Estado ou crises políticas e econômicas, a praça assistiu constante troca de presidentes. Em 1930, um grupo de cadetes comandado pelo general Félix Uriburu atravessou a praça e derrubou o governo do presidente civil Hipólito Yrigoyen. De lá para cá, somente três presidentes eleitos democraticamente conseguiram concluir seus mandatos.

Em 1910, todos os ex-presidentes argentinos ainda vivos estavam presentes nas celebrações do centenário. Nas cerimônias do bicentenário em 2010, evidenciando os profundos antagonismos políticos, nenhum ex-presidente foi convidado pela presidente Cristina Kirchner, exceto o ex-presidente Néstor Kirchner, marido da presidente.

Para detalhes sobre a Casa Rosada e as brasileiras palmeiras que ornamentam a praça, ver uma postagem do ano passado, aqui.

Na esquina da Avenida de Mayo e a rua Bolívar está o edifício do Cabildo, cuja lateral foi derrubada para abrir a avenida.

O edifício do Cabildo foi construído para ser a sede do poder civil colonial. No entanto, sua construção foi prolongada e, em várias ocasiões, suspensa. O edifício original, iniciado em 1635, passou por obras eternas e em 1711 já estava totalmente defasado para sua missão. Um novo prédio foi construído no lugar, que só foi concluído em 1783. Mas, onze anos depois passou por uma reforma. Desta forma, o cabildo só funcionou plenamente como centro do poder civil nesse edifício entre 1794 e 1821, quando foi dissolvido.

Cabildo encolheu. A parte marcada pelo “X” em vermelho – algumas arcadas do lado norte – foi para o beleléu quando a avenida de Mayo foi aberta. A torre do cabildo também sofreu modificações.

  OS JORNAIS DA AVENIDA, O LA PRENSA E CRÍTICA – No primeiro quarteirão da avenida está o luxuoso edifício do jornal “La Prensa”, referência internacional durante décadas. Em 1951 foi confiscado pelo presidente Juan Domingo Perón e entregue a sindicatos. Em 1955 voltou às mãos dos donos, mas entrou em decadência (hoje é a Secretaria de Cultura, cujo edifício pode ser visitado. Para mais detalhes, aqui).

Perto dali está a antiga sede do “Crítica”, que chegou à marca de 900 mil exemplares diários em 1926. Pressionado por vários governos, fechou em 1962  (atualmente o edifício pertence à Polícia). A tensão entre mídia e governos permaneceram com o passar das décadas e intensificaram-se nos últimos anos.

Na avenida de Mayo não existe a sede de jornal algum, atualmente.

No primeiro quarteirão, na frente da Secretaria de Cultura, está o “Pasaje Roverano”, uma galeria pitoresca, construída em 1918, que atravessa essa quadra da Av de Mayo até a rua Hipólito Yrigoyen. O prédio era frequentado nos anos 30 pelo autor de “O Pequeno Príncipe”, o francês Antoine de Saint-Exupéry, que na época era piloto dos aviões da Companhia Aérea Nacional.

Salão do Tortoni acolheu parte da intelectualidade portenha e da classe política durante um século e meio (foto da Wikipedia).

  TORTONI, CASTELAR E MAJESTIC – O Café Tortoni, no número 825 da avenida de Mayo, foi o epicentro da intelectualidade argentina durante décadas. Por sua mesas passaram personalidades como o escritor Jorge Luis Borges, o pianista polonês Arthur Rubinstein, além do filósofo espanhol José Ortega y Gasset.

Celebridades também iam ao Hotel Castelar, moradia do poeta espanhol Federico García Lorca durante um ano e meio na década de 30, quando usou a cidade como quartel-general para tours de conferências na região.

Perto dali está o antigo Hotel Majestic, na esquina da avenida de Mayo com a rua Salta. Ali residiu a estrela do balé mundial Vaslav Nijinsky.

Hoje, o Tortoni vive dos turistas estrangeiros, bem como o Castelar. O Majestic tornou-se repartição pública (é um dos edifícios da Receita Federal argentina e está em estado deplorável. Mas, pela fresta da porta, pela av de Mayo, ainda dá para ver o fantástico saguão).

Na esquina da avenida com a rua Salta está o café Iberia, que nos anos 30, quando transcorria a guerra civil espanhola, transformou-se em Buenos Aires no reduto dos republicanos. Coincidentemente, na esquina da frente, onde hoje existe um banco, estava o café Español, que era o bunker de seus inimigos franquistas. Os dois grupos sentavam-se às mesas colocadas nas duas calçadas e, com frequência, após troca de epítetos, protagonizavam brigas com arremessos de cadeiras de um lado a outro da rua Salta.

No número 1265 da avenida de Mayo está o café 36 Billares, aberto 24 horas. Como o nome diz, o estabelecimento possui uma miríade de billares, localizados no subsolo.

Representantes de tribo indígena da província de Formosa acampa na esquina da avenida de Mayo e da avenida 9 de Julio. Eles exigem que o governo leve ao banco dos réus os responsáveis pelo assassinato de indígenas na província de Formosa, controlada por Gildo Insfrán, aliado da presidente Cristina Kirchner. Fazendeiros amigos de Insfrán estariam por trás das mortes. No entanto, o governo está ignorando os pedidos dos indígenas.

 UNIÃO INDUSTRIAL ARGENTINA (UIA) E PASAJE BAROLO – Quando em 1922 a UIA instalou-se no edifício da Avenida de Mayo 1147, o país representava 50% do PIB latino-americano. Um ano depois, a duas quadras dali, o italiano Luigi Barolo, imigrante que ‘havia feito a América’ e tornado-se o maior empresário têxtil da Argentina, inaugurava o Pasaje Barolo, o edifício mais alto da América Latina, com cem metros de altura. O empresário, que tinha nesse edifício a sede de sua empresa, sonhava em enterrar ali o corpo do poeta italiano Dante Alighieri.

Quase um século depois a empresa de Barolo desapareceu e a UIA é atualmente um aglomerado de pequenas e médias empresas que constantemente pedem medidas protecionistas. O PIB argentino representa hoje 10% do total regional.

Para ver mais detalhes sobre o Barolo, uma postagem do ano passado que conta com vários detalhes, aqui.

 

 O edifício Pasaje Barolo,  carregado de simbolismos alusivos à Divina Comédia (foto da Wikipedia).

 PRAÇA DO CONGRESSO – Um dos oito originais que o escultor francês Auguste Rodin fez de “O Pensador” foi instalada em 1907 nessa praça, como símbolo da pujança argentina e da esperança que o Parlamento desse país – que promessa de potência – seria um fórum de debates iluminados. Abandonada e pichada, a estátua permanece ali. Dezenas de sem-teto, vítimas das seis crises econômicas graves desde 1975 dormem ao lado da obra de Rodin.

Como símbolo da falta de poder do Parlamento nas últimas décadas, as manifestações de protesto preferem costumeiramente a Praça de Mayo, pois apresentar demandas perante o Poder Executivo é mais eficaz do que reclamar ao Poder Legislativo.

Paradoxalmente, desde a volta da democracia o Parlamento foi gradualmente afastado das decisões. Nos últimos 27 anos o uso de decretos presidenciais supera amplamente aqueles assinados nos 173 anos prévios de vida independente do país.

Para mais detalhes sobre “O Pensador” que está sentado na Praça do Congresso em Buenos Aires (além de referências sobre a obra de Rodin que existe em B.Aires), visite esta postagem do ano passado aqui.

 

Rodin em Buenos Aires: O Pensador. Ao fundo, o edifício do Congresso Nacional.

Acima, mapa da avenida de Mayo da Wikipedia com várias referências de lugares interessantes.

Embaixo, a avenida de Mayo vista do Google Earth.

 

 E a) de presente de Natal atrasado e … b) para começar o ano novo com ritmo, estas melodias para minhas queridas e queridos comentaristas e leitores: 

“Tinta roja”, interpretado por Aníbal Troilo, aqui.

“Volver”, tango de Carlos Gardel, com letra de Alfredo Le Pera. Versão de 1970 com dois emblemas do bandeonéon: Anibal Troilo e Astor Piazzolla, aqui.

“Que me van a hablar de amor”, com Julio Sosa, aqui.

Uma cantora pouco conhecida no Brasil, Teresa Parodi, que na juventude foi respaldada por Mercedes Sosa. Aqui, ela canta a bela “Carta a la abuela Emilia”, aqui.

E esta gravação ao vivo na Casa Rosada, aqui.

Uma das principais compositoras mulheres do tango, Eladia Blázquez, em “Honrar la vida”, aqui.

E a mesma canção, com Mercedes Sosa, aqui.

E Mercedes de novo com um tango de Eladia Blázquez, “El Corazón al sur”, aqui.

E já que estamos em clima de mudanças, de ano novo, “Todo cambia” (Tudo muda), aqui.

Outra voz do tango, Adriana Varela, intepreta “Como dos extraños”, aqui.

E também com Adriana Varela, “Malena”, aqui.

Ela também interpreta um de meus top five de tangos preferidos, o “Vida Mía”, aqui.

E “Vida Mía” com Dizzy Gillespie e a orquestra de Osvaldo Fresedo, aqui.

Um encontro de talentos colossais: Piazzolla e Osvaldo Pugliese, “La Yumba”, aqui.

Soledad Pastorutti entoa a “Chacarera del milagro”, aqui.

Ah, uma surpresa… “Missão impossível”, do argentino Lalo Schifrin, aqui.

O roqueiro Fito Páez canta “Buenos Aires” na companhia de um habitué de B.Aires, o espanhol Joaquín Sabina, aqui.

E Sabina canta “Hoy puede ser un gran día” (Hoje pode ser um grande dia), com o espanhol mais amado na Argentina, Joan Manuel Serrat, aqui.

E – já me despeço deste ano, inté para todos vocês – neste outro link, Serrat sozinho, imperdível, canta a mesma canção, aqui

 A todos vocês, um fantástico 2011!!!

Um gardeliano sorriso para iniciar o ano (e aproveito e deixo aqui um de meus tangos preferidos de Gardel, “Anclao em Paris”, aqui )... e o brinde!

 

 “Hipp, hipp, hurra! Kunstnerfest på Skagen” (Hipp, hipp, hurra! Artistas celebrando em Skagen, de 1888), quadro do batuta pintor norueguês-dinamarquês Peder Severin Krøyer (1851-1909)

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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