Breve vocabulário kirchnerista
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Breve vocabulário kirchnerista

arielpalacios

25 de maio de 2011 | 14h17

Los Pingüinos. Mas estes (no fotograma acima, do filme “Madagáscar”) são Skipper e seus subordinados. A frase preferida de Skkiper, o pinguim nova-iorquino com um touch mafioso, é “vocês não viram nada ainda…”.

“O pingüim chegou e desceu estilo K neles. Defendeu a transversalidade e, é óbvio, foi respaldado pelos cristinistas”. A frase parece incompreensível, mas não é. Trata-se do “Vocabulário K”, isto é, o peculiar palavreado que surgiu com o governo do ex-presidente Néstor Kirchner, “El Pingüino” (O Pingüim), que tomou posse há exatamente oito anos, no dia 25 de maio de 2003. O vocabulário continuou sua expansão com o governo de sua sucessora, esposa e viúva, Cristina EF de Kirchner.

Na seqüência, uma pequena amostra do universo do vocabulário kirchnerista. 

O Pingüim – Não se trata do Spheniscus Magellanicus, o simpático animalzinho habitué das gélidas praias de Santa Cruz, província no extremo sul da Patagônia. É o apelido de Néstor Kirchner (2003-2007), o primeiro presidente de origem patagônio que a Argentina teve. Ele próprio definia-se – com visível orgulho – como “El Pingüino”. Os caricaturistas exploraram o perfil nasal do presidente, destacando sua semelhança com a ave. Cristina é chamada de “La Pingüina” (a Pingüim-fêmea).

Lúpin, o aviador, quase um clone do ex-presidente argentino. Ou vice-versa. O desenho foi criado nos anos 60, muito antes de Kirchner ficar famoso.

Lúpin – Néstor Kirchner era um desconhecido na esfera nacional até ser candidato presidencial no início de 2003. Na província era chamado pela mídia local de “Lúpin”, nome de um personagem de uma popular tirinha em quadrinhos (interpretava um aviador), com o qual se parecia, pelo narigão e olhos arregalados. Alguns amigos o chamavam com uma verão alterada do nome do personagem: Lupo. Esse é o apelido mais usado em sua própria província natal, Santa Cruz, especialmente por seus contemporâneos.

“Rainha Cristina” – Cristina Fernández de Kirchner, por sua pose de diva, é chamada “La Reina Cristina” (a rainha Cristina), em alusão ao filme protagonizado por Greta Garbo nos anos 30, no qual interpretava a absolutista e vaidosa rainha Cristina da Suécia. Os assessores e biógrafos não-autorizados afirmam que ela adora ser chamada de “rainha”.

Greta Garbo interpreta a rainha Cristina, filha de Gustavo Adolfo. A monarca traiu os luteranos suecos ao fazer sua conversão ao catolicismo, aliando-se com o papado.

A Pingüineira – Refere-se aos mais de 2 mil funcionários (nos mais variados escalões) de origem patagônia que Kirchner e seus ministros (cinco dos primeiros treze ministros provinham dessa região meridional) trouxeram à Buenos Aires. Foi uma nova esfera de poder. O termo também define o círculo íntimo presidencial.

Pingüins “puros” – Aqueles que estão com os Pingüins desde que estes governavam a província de Santa Cruz.  Os “puros” são uma espécie de estirpe superior. O ministro De Vido é pingüim puríssimo. O ministro Amado Boudou, ex-integrante da UceDé (partido que pregava o neo-liberalismo selvagem) é um pinguim recente.

Estilo K – É o estilo de falar sem papas na língua. Bater primeiro para depois negociar. É espontaneamente não-diplomático. Exemplo: logo após assinar um acordo com o FMI, Kirchner referiu-se à diretora-gerente interina do Fundo, Anne Krueger, como “a responsável pela decadência argentina”. Ou, em uma reunião com investidores estrangeiros, afirmar depois do brinde: “vocês ganharam dinheiro demais nos anos 90. Chegou a hora de colaborar com o país”.

O estilo K também é a expressão corporal que Kirchner possuía com outros chefes de Estado: durante uma conversa em Washington ele colocou a mão em uma perna do presidente George W. Bush, que ficou incomodado com o gesto. E, para frisar um ponto sobre o qual discorria, Kirchner apertou a perna de Bush, para evidente desespero do ocupante da Casa Branca. Além disso, Kirchner apoiou a cabeça, em público, no ombro do rei Juan Carlos da Espanha, como se estivesse tirando uma soneca.

Cristina também aplica o “estilo K”, embora diferenciado.

It’s the economy, Penguin! Economia “K” é a expressão usada para a política econômica do casal Kirchner

Economia K – Termo que define medidas que misturam pragmatismo a curto prazo com tons keynesianos embalados por políticas neo-liberais camufladas (ou nem tanto). A coisa parece esquizofrênica, mas essa é a marca do Peronismo. Segundo uns, “flexibilidade”. Segundo outros, “oportunismo”. O termo “empresariado K” define os industriais que respaldam sua política econômica.

Os Cristinos/ Os Cristinistas – Seguidores da ex-senadora e ex-primeira-dama Cristina Fernández de Kirchner, atual presidente. Ela montou um grupo de políticos e assessores que rendem primeiro lealdade à ela, depois a Kirchner. As filerias dos cristinistas são compostas basicamente por jovens ministros, secretários e diretores que prosperaram (profissionalmente, por um lado, e econômicamente por outro) desde a posse de Cristina. Na lista dos Cristinistas, por exemplo, está o ministro da Economia, Amado Boudou. Também o secretário de Meios de Comunicação, Juan Abal Medida. 

Transversalidade – Sistema supra-partidário criado pelo Pingüim no final de 2003, que apesar de pertencer ao Partido Justiacialista (Peronista), não possuía seu total controle. Para conseguir uma base política sustentável, Kirchner criou uma sub-legenda peronista, a Frente pela Vitória (FpV), além de buscar apoio fora do Peronismo. Por isso, foi atrás de lideranças políticas secundárias de outros partidos. Desta forma, sua estratégia era “transversal”, ou seja, cooptar prefeitos, deputados, governadores de outros partidos, fazendo alianças individuais, sem conversar diretamente com as lideranças máximas desses grupos políticos. Tentou isso no começo do governo e não deu certo. Finalmente, já na administração de Cristina Kirchner, o governo conseguiu atrair diversos setores e lideranças políticas dos mais diversos quilates, indo desde o neo-liberal Carlos Menem, que disputará daqui a poucos dias sua reeleição como senador na província de La Rioja sob a proteção do governo Kirchner, a Martín Sabatella, prefeito de Morón, de centro-esquerda.

Um dos pingüins de Madagascar ensaia primeiros passos como repórter

El Monopólio – O termo monopólio provém do grego “monos” (um) e “polein” (vender) e indica uma situação de privilégio na qual uma empresa ou o Estado possuem o controle total do mercado. Para que um monopólio exista, a condição necessária é que no mercado em questão não existam produtos substitutos e que o único produto disponível é aquele produzido pelo monopólio. No entanto, o termo – embora com licença poética, segundo uns (ou, segundo outros, pela falta de conhecimento adequado da palavra em questão) é aplicado pelo governo Kirchner para referir-se ao Grupo Clarín (o maior grupo de mídia do país, entre vários outros grupos existentes no país, vários dos quais, alinhados com o governo). O Clarín, aliado do governo entre 2003 e 2008 (favorecido no último dia de administração de Nestor Kirchner com a concessão da fusão das duas maiores empresas de TV a cabo do país), é, há três anos, o meio de comunicação mais crítico do governo Kirchner. O “La Nación” também é critico. Do lado do governo, além da própria agência estatal de notícias Telam (a maior do país, embora não monopólica), está a estatal Rádio Nacional, e os meios de comunicação privados Página 12, Tiempo Argentino, El Argentino, Sur, a revista Veintitrés, a revista Newsweek, a revista Debates, El Guardián, o canal C5N, o canal CN23, Crônica TV, canal Nueve, entre outros. A oposição afirma que, enquanto os Kirchners referem-se ao “monopólio”, o governo desfruta dos favores jornalísticos do “amigopólio”.

“Es too much” – “Isso é demais” (não no sentido de “supimpa”, mas sim, no sentido de “é demasiado” ou “excessivo”). Expressão que mistura espanhol com inglês usada pela presidente Cristina para reclamar de alguma coisa. Exemplo breve: “Ah, esto es too much!”. Pronúncia da presidente: “tchúmách”

Louis Vuitton Versace foi a marca no período menemista, já que o então presidente Carlos Menem apreciava as sedas multicoloridas do estilista italiano que passou desta para melhor um dia de fúria passional em Miami. Mas, durante o período kirchnerista, a marca – especificamente, com Cristina Kirchner (não Néstor) – passou a ser a francesa Louis Vuitton. 

Skipper fala em um celular (?) enquanto organiza as próximas ações do grupo

Ministro-celular Alusão ao Ministro de Planejamento e Obras, Julio De Vido, pela suposta cobrança de 15% de propinas. O apelido provém do prefixo “15” dos telefones celulares na Argentina, e por tabela, referência à hipotética comissão de 15% que diversos ministros cobravam de empresários no início do governo Kirchner. O termo, embora ainda seja usado, ficou defasado, já que desde 2009, talvez devido à inflação, a cobrança das propinas subiu no governo federal para 20%, segundo uma pesquisa feita na época pela consultoria KPMG.

Skipper e seus colegas encontram um tesouro e quase transformam-se em oligarquia.

“La puta oligarquia” – Expressão popularizada pelo líder piqueteiro kirchnerista Luis D’Elía, admirador declarado da revolução iraniana, ao explicar seus sentimentos em relação a parte da sociedade argentina: “odeio os brancos e a puta oligarquia”. Segundo o próprio, o alvo de seu ódio são “todos aqueles que moram ao norte da avenida Santa Fe (ao norte desta avenida há uma mistura de bairros, desde Retiro, passando pela Recoleta e os diversos Palermos, onde concentra-se grande parte das fortunas do país, misturados também com integrantes da classe média). Paradoxalmente, parte do gabinete da presidente Cristina Kirchner reside na elegante avenida Libertador, ao norte da avenida Santa Fe. Outros, no entando, moram (ou possuem apartamentos para siestas) ao sul-sudeste da avenida Santa Fe, no elitista bairro de Puerto Madero. Esse é o caso dos ministros Boudou e de Aníbal Fernández. Além disso, todos os integrantes do gabinete Kirchner, do qual D’Elía é enfático defensor, são brancos. Não há representantes indígenas ou mestiços. A própria presidente Cristina enquadra-se na categoria “branca” (ela é descendente de imigrantes espanhóis, os Fernández, e alemães, os Wilhelm, além de ser a viúva de Néstor Kirchner, neto de um imigrante suíço e uma chilena filha de imigrantes croatas).

METÁFORAS – Além do palavreado “K”, Kirchner – durante seu governo – usava com profusão as metáforas para explicar onde a Argentina estava localizada no meio do território da crise. Enquanto que o ex-presidente Eduardo Duhalde preferia metáforas marítimas como “estamos tirando o navio da tempestade” ou “esquivando os icebergs”, Kirchner preferia referências dantescas: “estamos no inferno”, ou “já conseguimos subir dois degraus desde o inferno”. E, posteriormente, recorrendo novamente ao emblemático bardo italiano Dante Alighieri, “estamos na porta do purgatório”.

 E para encerrar, uma caricatura de um dos comentaristas mais assíduos deste blog, o Glúon, que tempos atrás preparou esta ilustração. Eu estava esperando o momento adequado para posta-la. Ao Glúon, mais uma vez, obrigado pela charge.

 

E, nada a ver com o assunto acima, de Anton Rubinstein, a sonata número 2 para cello, opus 39. Aqui.

De Edward Grieg, a bela “Våren”. Aqui.

E de Alexandre Guilmant, a insólita sinfonia número dois para órgão (!!) e orquestra. Aqui.

E aqui, outro Kirchner. Neste caso, o pintor Ernest Ludwig Kirchner, pintor suíço, que fez este felino entre 1924 e 1926. Nascido em 1880 em Aschaffenburg, foi um expressionista que fundou a sociedade artística Die Brücke (A Ponte). E.Kirchner cometeu suicídio em 1938, quando estava mentalmente perturbado. Néstor e Ernesto não são parentes.

Acima, “Katz”. E o seguinte quadro, “Cavalheiro com cãozinho no colo”.

Aqui, o “Cavaleiro do circo”.

Retrato do artista.

, na catergoria “extra, extra!” ou “parem as rotativas!”, lhes aviso que nosso supimpa colega Luiz “Lucho” Raatz, integrante da emérita editoria da Internacional do Estadão, debutou com seu blog “Nuestra América” para aprofundar as notícias e curiosidades da América Latina.

Bem-vindo Raatz à blogósfera!!!

Hip-hip-hurra!!! Ave, ave, evoé!!!!

O link para esse blog, aqui.

Celebração de arromba toma conta do quartel-general do blog “Os Hermanos” pela chegada do blog-irmão/primo “Nuestra América”. Nossos dois grupos (amadores) de gaita de foles – “Los troesmas de Villa Crespo” e “Los avivados de Balvanera” – entoam, comme il faut, os acordes de “I left my heart in Chascomús” e “Anclao en Tacuarembó”, dois clássicos que costumam embalar as noitadas do QG. Enquanto isso, o deputado Mutatis de Olivera e seu irmão e senador Mutandis de Olivera –velhos oradores deste blog – proferem apologias sobre o desembarque de L.L.Raatz na blogósfera. Na sequência, os dois grupos animam a celebração com uma versão xote-techno de “Trem das onze”.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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