Buenos Aires e seus “Hard Rock Cafés” peronistas
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Buenos Aires e seus “Hard Rock Cafés” peronistas

arielpalacios

07 de maio de 2011 | 10h12

 

2011: Perón beberica um cafezinho na rua Áustria (foto de Ariel Palacios)

O peronismo, esse complexo e multifacético movimento político que embala de forma intermitente a sociedade argentina há 65 anos, está presente em uma série de bares, cafés e restaurantes na cidade de Buenos Aires. Os peronistas não gostam da comparação, mas os colunistas gastronômicos portenhos indicam que estes estabelecimentos são uma espécie de “Hard Rock Café” do Peronismo, já que suas paredes ostentam fotografias, documentos, posters e objetos do presidente e general Juan Domingo Perón e sua esposa Eva Duarte de Perón, mais conhecida como “Evita”, o casal superstar dessa peculiar ideologia que engloba a esquerda, o centro e a direita.

Estes cafés, decorados com a memorabilia peronista, tornaram-se points de reunião de militantes, integrantes do governo e de curiosos turistas que visitam esses cafés.

O mais recente é o “Perón-Perón restó bar”, inaugurado há um mês e meio, que acumula uma série de objetos dos tempos em que Juan Domingo Perón era vivo, além de Evita. O cliente, enquanto saboreia pratos com nomes relativos ao peronismo (e também com nomes irônicos sobre os inimigos do peronismo), poderá ouvir música lounge, ocasionalmente interrompida por enfáticos discursos de Evita.

O bar – que conta com uma loja de lembranças que incluem estatuetas de Perón e camisetas – também possui elementos alusivos à presidente Cristina Kirchner, a atual peronista no comando do país.

No menu do lugar está o prato de frios “General Pedro Eugenio Aramburu”. O militar, um furibundo anti-peronista, foi o autor do plano de esconder o corpo de Evita em 1955 (além de torturas e massacres de peronistas). Em 1970 o então recém-criado grupo guerrilheiro Montonero – de ideologia cristã-nacionalista-peronista – debutou suas atividades com o sequestro de Aramburu. Dias depois, o fuzilou, transformando-o, segundo a gíria portenha, em um “fiambre”, palavra usada para referir-se ao corpo de um morto (“presunto”, no Brasil).

A barra do “Perón-Perón Restó Bar” exibe profusão de iconografia peronista

O “Perón-Perón” também exibe quadros do emblemático artista plástico dos anos 60 e 70, Ricardo Carpani.

O “Um café com Perón” está na calle Áustria 2601, no bairro da Recoleta. Ao entrar no salão principal o cliente se deparará com a figura do próprio Perón tomando um cafezinho entre uma pausa e outro do exercício do poder. Mas, não se trata de um fantasma de “El Conductor”, e sim, uma estátua em tamanho natural e colorida que surpreende por seu realismo.

O café está decorado com ilustrações da época de Perón e Evita, fotografias e alguns objetos. Uma pequena lojinha vende lembranças do casal mais polêmico da História argentina.

O sobrado onde está o estabelecimento está ao lado da Biblioteca Nacional, em cujo terreno, até 1955, estava o Palácio Unzué, a antiga residência presidencial. O café era a antiga casa dos mordomos do palácio. Essa foi a única construção que permaneceu intacta, já que os militares que derrubaram Perón nos anos 50 ordenaram a destruição do palácio Unzué, já que queriam evitar que se transformasse em ponto de peregrinação da militância peronista, pois ali havia morrido Evita em 1952.

Altar para idolatrar Evita no Perón-Perón, no bairro de Palermo

No entanto, o pioneiro da série de peronistas temáticos foi “El General”, fundado em em 2005 no bairro de Monserrat, em pleno centro portenho. Seguindo a multiplicidade de correntes internas do movimento fundado por Perón, os quatro donos dividiam-se entre duhaldistas e kirchnerinistas

Sobre as divergências internas do Peronismo, o próprio Perón costumava dizer, com ironia, que “nós, peronistas, somos como os gatos… quando ouvem a gente gritando, como se estivéssemos brigando, na verdade estamos nos reproduzindo”.

No entanto, ao contrário da frase de Perón, os sócios – de tendências políticas peronistas irreconciliáveis – separaram-se em meio a violentas brigas e e deixaram o restaurante afundar em um mar de dívidas. Mas, os trabalhadores do estabelecimento formaram uma cooperativa e recriaram o restaurante, atualmente na avenida Belgrano 350.

A entrada do “El General”, na avenida Belgrano, no bairro de Monserrat

O prato principal da casa é o substancial “pastel de papas”, equivalente argentino à torta madalena, prato preferido do general Perón. Outra especialidade é o “bife de chorizo” feito com vinho malbec.

O restaurante é frequentado por líderes sindicais, secretários de Estado e parlamentares, entre outros. Sempre, durante o almoço, o ambiente é embalado pela Marcha Peronista. Nesse momento, todos os convivas levantam de suas cadeiras e entoam a emblemática melodia.

Sobre a barra do “Un café con Perón” uma garrafa do vinho “Justicialista”, que ostenta as efígies de JD.Perón e de E.D.dePerón. Ao fundo, um grupo de peronistas históricos conversam sobre o café e os tempos atuais.

O “Juan Domingo Resto Bar” está na cidade de La Plata, a 57 quilômetros de Buenos Aires. O ponto forte do bar é o jardim, onde está um mural que representa a Praça de Mayo no dia 17 de outubro de 1945, dia em que os trabalhadores foram às ruas pedir a liberação de seu líder.

 Bares e cafés: endereços e telefones

“El General”: avenida Belgrano, 350. Telefone: 4343 7601

“Perón Perón”: rua Carranza 2225. Telefone: 4777 6194 

“Un café com Perón”: calle Áustria, 2601. Telefone: 4802 8010

“Juan Domingo Restó Bar”: calle 58, 823 (entre as ruas 11 e 12). Telefone: ( 0221) 427 0136

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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