18 dias de puro tango e um tour gardeliano
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18 dias de puro tango e um tour gardeliano

arielpalacios

17 de agosto de 2009 | 02h21

passos
Segundo Jorge Luis Borges, o tango é uma forma de caminhar pela vida

hands Desde a sexta-feira 14 até o dia 31 de agosto Buenos Aires viverá jornadas intensas de tango. No total, serão 18 dias de tango com mais de 90 concertos, 50 aulas de baile e duas competições de dança nas categorias de salão e cenário.

Até o dia 23 Buenos Aires será embalada pelo XI Festival de Tango (na sequência virá o Campeonato de Baile). O epicentro dos espetáculos é o histórico edifício da Harrod’s, na calle Florida. Música, dança, mas também conferências, documentários, lançamento de livros. A cidade estará imersa em no ritmo imortalizado por Carlos Gardel e Astor Piazzolla.

Link para o festival:
http://www.mundialdetango.gob.ar/home09/web/es/index.html

O Festival começou neste ano com a Orquestra Típica El Porvenir, grupo musical composto por 60 músicos das orquestras infantis das areas favelizadas dos bairros de Villa Lugano e o Baixo Flores, além da favela Villa 31.

Ao longo desta semana dançarão figuras como Carlos Copes e Iñaki Urlezeaga, cantará Elena Roger (uma argentina que fez sucesso em Londres com a montagem britânica de “Evita” e que agora está em B.Aires com “Piaf”) e interpretarão tangos personalidades de alto calibre como Rodolfo Mederos e Chico Novarro, entre outros.

2008
O campeonato do ano passado foi eletrizante. Na foto, o casal vencedor na categoria “Tango Cenário”: Melany Celati e José Fernández

Outras estrelas: Leopoldo Federico e sua orquestra a cantora Susana ‘la tana’ Rinaldi, o Sexteto Mayor.

O festival pretende também recuperar velhos tangos esquecidos e também dar oportunidades às novas tendências desse gênero musical do Rio da Prata.

Na sequência do Festival de Tango começará o Campeonato Mundial de Dança, que será encerrado no dia 31. Mais de 400 casais – de todas as partes do planeta – foram selecionados.

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“En tus brazos”, uma animação francesa sobre o tango. O link para o desenho:
http://www.entusbrazos.fr/

E, para quem quiser aprofundar a semana do tango, aqui embaixo segue um tour gardeliano de Buenos Aires.

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Gardel, em um dos diversos filmes que rodou para a Paramount

TOUR GARDELIANO
handbsd Uruguaio de Tacuarembó? Francês de Toulouse? Os argentinos não se preocupam muito com o lugar de nascimento de Carlos Gardel (embora a maioria acredite que nasceu na França e descartem a teoria uruguaia). Todos admitem que o cantor que fez o tango famoso em todo o planeta não nasceu em Buenos Aires. Mas, da mesma forma que Carmem Miranda, nascida em Portugal, agiu em relação ao Brasil, Gardel fez de seu país de adoção sua pátria. De quebra, ele declarou seu amor à cidade em uma miríade de tangos, desde o clássico “Mi Buenos Aires querido” até o “Anclao em Paris”, no qual relata a vida de um portenho em Paris que olhando os boulevards sente uma profunda saudade das ruas de Buenos Aires.

Link do Youtube para Anclao en Paris:

O que está fora de discussão é que Gardel – francês ou uruguaio – cresceu no portenho bairro do Abasto, próximo do centro de Buenos Aires.
Ali, segundo as boas línguas, ele teria sido um garoto prestativo, preocupado com a mãe viúva. Essa versão indica que teria trabalhado como ajudante no mercado de alimentos do Abasto, carregando caixas de legumes e frutas.
Mas, a más línguas sustentam que o garoto teria, na verdade, sido um ladrãozinho que batia carteiras. O velho mercado onde Gardel realizava indefinidos afazeres em seus tempos de teenager, foi substituído nos anos 30 por outro, um marco da arquitetura portenha. E, esse edifício, nos anos 90 foi transformado em um shopping center. O antigo Mercado del Abasto é hoje o Shopping do Abasto, sobre a Avenida Corrientes, número 3247.

O bairro tenta manter uma imagem “gardeliana”, embora já diste muito de ter as características dos tempos de Gardel. Hoje em dia, a maior parte do bairro engloba uma substancial comunidade peruana, além de concentrar grande parte dos judeus ortodoxos de Buenos Aires.
Ali perto, na rua Jean Jaurés, número 735, Gardel morou com sua mãe entre 1927 e 1933. O casarão, abandonado durante décadas, foi tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional e transformado no Museu Carlos Gardel, que além de objetos que o cantor utilizou, realiza exposições sobre sua vida e obra (e do tango, de forma geral).

Na vizinhança também está o “Pasaje” (Beco) Carlos Gardel, onde estava o restaurante “Chanta Cuatro”, onde o cantor costumava reunir-se com seus amigos para comer (ele era bom garfo) e cantar tangos e milongas. Hoje, no mesmo lugar, está a “Esquina Carlos Gardel”. No beco também está uma estátua do cantor, inaugurada há três anos.

estatua
Gardel na frente do Abasto. ‘Carlitos’ cresceu nesse bairro (hoje, aliás, um bairro com um interessantíssimo mix: judeus ortodoxos e imigrantes peruanos

No centro da cidade está o Café Tortoni, na Avenida de Mayo 825, do qual Gardel era habitué. Ali, cantando tangos, homenageou o escritor italiano Luigi Pirandello. Gardel também era um habitué do Palais de Glace, um salão de baile (hoje transformado em museu) em plena Recoleta, na rua Posadas 1725. Ele nunca cantou ali. Mas, o Palais foi o cenário de uma briga que resultou em um tiro que colocou uma bala em um dos pulmões de Gardel.

Anos depois, em 1935, essa bala seria reencontrada na autópsia realizada em Medellín, após o acidente de avião que causou a morte de Gardel. Uma das especulações surgidas na época – e e que ainda tem vários seguidores – é que dentro do avião no qual Gardel partia da Colômbia, houve uma violenta discussão, com troca de tiros. O caos teria causado o desvio do avião da pista, e sua posterior colisão com outro aparelho.

Outro ponto do tour gardeliano é o Hipódromo de Palermo, ao qual dedicou vários tangos (um dos versos diz “Palermo, me tenés loco y enfermo”, ou, “Palermo, vocês me deixa louco e doente”, em alusão ao vício do cantor de apostar nas corridas de cavalo). Ele também dedicou tangos aos jóckeis, especialmente a seu amigo Irineo Leguizamo, que galopava o cavalo de Gardel, “Lunático”.

Link do Youtube para ver Gardel cantando “Por una cabeza”, un tango de conteúdo hípico-amoroso:
http://www.youtube.com/watch?v=xG_ilGAPhzk

O MITO DE CORRIENTES, 348
Um endereço gardeliano, no entanto, não passa de mito, especialmente para aqueles que não residem em Buenos Aires. O famoso “Corrientes, 348”, é apenas um endereço poético.

A letra refere-se a uma garçonnière em pleno centro:
Corrientes, 3-4-8, segundo piso ascensor.
No hay porteros, ni vecinos.
Adentro, cocktail y amor…

Gardel nunca morou na avenida Corrientes, número 348, nem teve uma garçonnière, tal como indica a letra do tango de “A media luz” (A meia luz, ou, Na penumbra), pelo menos nesse endereço.
Atualmente o endereço é um prosaico estacionamento.

O tango, de 1925, tem música de Edgardo Donatto e letra de Carlos Lenzi.

Ada Lenzi, filha de Carlos Lenzi, explica que nem seu pai nem seu colega sabiam o que existia na Corrientes 348. Sequer sabiam se esse número por acaso existia nessa avenida. Eles fizeram o tango uma noite em Montevidéu, e colocaram esse número por mero acaso de rima.

Na mesma letra existe outra referência, “Juncal 1224”. Mas, não se trata de um endereço. Era um número telefônico. “Juncal”, neste caso, correspondia ao prefixo telefônico.

Esse trecho é assim (e refere-se a um prostíbulo de luxo):
Juncal 12-24
Telefoneá sin temor;
de tarde, té con masitas,
de noche, tango y cantar;
los domingos, té danzante,
los lunes, desolación.

Este é o link do Youtube com Gardel cantando “A media luz”:

Após sua morte trágica em Medellín, o corpo de Gardel foi levado à Buenos Aires, onde foi velado no “Luna Park” (uma espécie de mini-estádio coberto, onde realizavam-se disputas de boxe, ciclismo e shows musicais), que ainda hoje está na esquina das ruas Corrientes e Bouchard, em pleno centro da cidade.

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Estátua de Gardel no cemitério de La Chacarita. ‘El bronce que sonríe’ é um dos apelidos de Gardel, isto é, “O bronze (pela estátua) que sorri”

Dali, Gardel foi transportado, acompanhado por centenas de milhares de pessoas, até o cemitério de La Chacarita, no bairro homônimo, onde repousa pela eternidade. O mausoléu é vigiado por uma estátua do cantor, que sempre conta com flores frescas a seus pés, especialmente cravos. De quebra, com frequência (mas não sempre, ao contrário do que diz o mito) um fã coloca um cigarro aceso entre os dedos de uma das mãos. O dia 24 de junho, data de sua morte, é um evento que reúne admiradores de todo o planeta em La Chacarita.

GASTRONOMIA GARDELIANA
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Gardel nos tempos em que estava ‘rellenito’ (gorduchinho)

Gardel – que durante breve tempo chegou a pesar 118 quilos – oscilava de peso com muita frequência. Por questões artísticas, policiava-se, e tentava manter-se dentro do peso aceitável para exibir uma figura elegante. A maior parte dos restaurantes que Gardel frequentava fecharam ou transformaram-se radicalmente, não mantendo as características nem os menus dos tempos de Gardel.

Mas, o turista que deseje seguir os passos da gastronomia gardeliana, poderá pedir, em outros restaurantes, os pratos que deliciavam o cantor. Entre os quitutes preferidos estavam os raviólis com recheio de carne de vitela, risoto com funghi e açafrão, além do “puchero criollo”, o mais típico cozido da Argentina.

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Gardel em filme com uma de suas parceiras preferidas, Rosita Moreno

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