Casa Rosada: mitos, debates cromáticos e superstições
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Casa Rosada: mitos, debates cromáticos e superstições

arielpalacios

31 de julho de 2009 | 15h00

casa rosada
Sinal de pacificação nacional? Nada disso. Cor da Casa Rosada foi puro apreço pela cor da moda

mao5 Os guias turísticos costumam contar o mito de que a cor da Casa Rosada é a união do vermelho e branco, cores respectivamente dos federalistas e dos unitários, dois grupos que protagonizaram as violentas guerras civis argentinas do século XIX. O cor de rosa, segundo esse mito, seria a união de ambas cores, de forma a mostrar a “conciliação nacional”. Mas, a realidade é muito mais prosaica do que o mito.

O lugar passou por várias transformações. Ali, em 1594 foi construída a fortaleza da cidade. Foi denominada de “Fortaleza de San Juan Baltazar de Austria” ou “Castelo de San Miguel”.
Depois, transformou-se na sede administrativa do Vice-reinado do Rio do Prata (e fortaleza, simultaneamente).

fuerte
Ao redor de 1855, quando a fortaleza começou a ser demolida

Em 1820, quatro anos após a independência, o presidente Bernardino Rivadavia ordenou a remoção da ponte levadiça e sua substituição por um pórtico neoclássico.
Na segunda metade do século XIX, sobre os restos da fortaleza foram construídas a Casa Rosada (em sua versão original) e o palácio dos Correios. Edifícios quase gêmeos.

Já consolidada como palácio presidencial, a parte inicial da Casa Rosada uniu-se ao prédio dos Correios para formar o conjunto da Casa Rosada (o arco que serve de portão ao palácio foi construído para unir ambos prédios).

O formato definitivo não foi esse, já que uma ala foi derrubada no início do século XX para que a rua Hipólito Yrigoyen chegasse até o Paseo Colón, a avenida que passa por trás da Casa Rosada. Portanto, o palácio presidencial, na parte da frente, é assimétrico.

1890
Antigo Correio, à esquerda. Casa Rosada original, à direita. Ambos prédios foram construídos sobre os restos da fortaleza

eliminado
Com os dois lados já unidos, a foto mostra Casa Rosada em 1920. Ali ainda aparece a ala que seria derrubada (coloquei um ‘X’ vermelho para indicá-la) em 1930 para continuar a rua que mais tarde seria batizada de Hipólito Yrigoyen

ROSA, PINK…E ATÉ VERDE
O edifício debutou o cor de rosa sob o governo do presidente Domingo Faustino Sarmiento (1868-74).

A pintura foi realizada com cal e gordura, junto com sangue de boi, quadrúpede que abundava (e continua abundando) nos Pampas argentinos.

A explicação mais rigorosa – embora menos mítica – é que o motivo principal para essa tonalidade cromática, sem vínculos com questões políticas, era a de que o cor de rosa era o tom da moda na época na arquitetura italiana, muito apreciada por Sarmiento.

Depois de Sarmiento – durante duas décadas e meia – o palácio presidencial (que ainda estava com seu formato definitivo) passou por várias cores, inclusive – durante um brevíssimo período – o verde escuro, segundo indicou um estudo realizado em 1999 por arquitetos que preparavam o palácio para uma nova reforma. Na primeira década do século XX o edifício já havia consolidado sua cor rosada.

ESTILO
O estilo arquitetônico da Casa Rosada é definido de forma genérica como um “neoclássico eclético italiano”. Não possui um estilo definido, rigoroso, já que foi construída de forma gradual.

SUPERSTIÇÃO
Em 1999, o então presidente Carlos Menem ordenou que a Casa Rosada – que estava desbotada, parecendo um salmão anêmico – fosse pintada.

A cor, comme il faut ao gosto menemista, era rosa pink. Ou rosa chiclete. Mas, Menem só pintou a parede da frente da Casa Rosada, a que dá para o lado da Praça de Mayo. O resto da fachada permaneceu desbotada, isto é, os três lados restantes.

Existem duas teorias sobre esse desleixo cromático-presidencial:

1 – A verba para a pintura total da Casa Rosada desapareceu misteriosamente nos últimos meses do governo Menem.

2 – Em 1990, Menem – que havia tomado posse em julho de 1989 – ordenou que o palácio fosse pintado. Dias depois, com poucas paredes de pátios internos pintados de cor de rosa, suspendeu abruptamente a obra. A explicação oficial: “a cor não era exatamente rosa, e por isso está sendo estudada um tom adequado”.
No entanto, assessores presidenciais sustentam que a paralisação se deveu a que Menem – famoso por ser muito supersticioso – soube de uma velha lenda do palácio que indicava que – coincidência ou não – todos os presidentes que mandaram pintar a totalidade da sede do governo argentino, não concluíram seu governo, fosse por golpes de estado, renúncia ou morte.
Menem só permitiu que a obra continuasse, quase dez anos depois, já diante da inevitabilidade de deixar o cargo. Mas, novamente, por via das dúvidas, pintou só 25% da fachada.

menemal
Alfonsín, que pintou o prédio inteiro, passa a presidência a Menem, que só pintou a parede da frente, por via das dúvidas

A Casa Rosada foi novamente repintada no final do governo de Néstor Kirchner. As obras terminaram no governo de sua esposa, Cristina Kirchner, que completará seu mandato em dezembro de 2011. Todos os lados do palácio presidencial foram pintados desta vez.

FUNDOS
O lado mais imponente da Casa Rosada está nos fundos do edifício. A fachada da frente é menos elaborada que a de trás, além de não ser harmônica. Na parte de trás, pouco vista pelos turistas, há um conjunto escultórico: “As artes e o trabalho coroando a República”.

palmeiras
Presença brasileira no principal ponto das manifestações populares argentinas

FRENTE
Voltando à frente da Casa Rosada, na histórica Praça de Mayo, ponto sine qua non das principais manifestações da cidade, existem oito palmeiras Phoenix Canariensis, provenientes do Rio de Janeiro. Estas altas (cada uma tem 20 metros de comprimento) e sileciosas presenças brasileiras estão no principal cenário da política argentina desde 1888.

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lendfoALGUMAS NOTÍCIAS
Links de jornais argentinos para algumas notícias interessantes.
Esta, no “Crítica”, sobre denúncias de enriquecimento ilícito de Néstor Kirchner:
http://www.criticadigital.com/index.php?secc=nota&nid=27303

E estas duas, que lhe servem de background:

http://www.criticadigital.com/index.php?secc=nota&nid=26363

http://www.criticadigital.com/index.php?secc=nota&nid=26775

E, mudando de assunto, esta matéria do “El País” de Montevidéu, sobre a morte de Washigton ‘Canario’ Luna, um dos músicos mais emblemáticos do carnaval uruguaio.

http://www.elpais.com.uy/090731/ultmo-432961/ultimomomento/el-carnaval-esta-de-luto-murio-washington-canario-luna

Outra, sobre ele, do portenho “La Nación”:

http://www.lanacion.com.ar/nota.asp?nota_id=1157044&pid=6992509&toi=6298

E, neste sábado, celebra-se no norte da Argentina o dia da “Pachamama”, a deusa da terra. O link:
http://www.criticadigital.com/index.php?secc=nota&nid=27305

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