Cem anos de Adolfo Bioy Casares (e partes de 3 entrevistas sobre gastronomia, clones, hologramas e mulheres com o último gentleman da literatura argentina)
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Cem anos de Adolfo Bioy Casares (e partes de 3 entrevistas sobre gastronomia, clones, hologramas e mulheres com o último gentleman da literatura argentina)

Adolfo Bioy Casares estaria assoprando hoje 100 velinhas. Mas, infelizmente, nos deixou em 1999. Sua obra inspirou filmes como "O ano passado em Marienbad", de Alain Resnais, e seriados como "Lost". Sua parceria em diversos livros com Jorge Luis Borges foi uma das mais frutíferas da História da Literatura.

arielpalacios

15 de setembro de 2014 | 12h26

Adolfo Bioy Casares estaria assoprando hoje 100 velinhas. Mas, infelizmente, nos deixou em 1999. Sua obra inspirou filmes como “O ano passado em Marienbad”, de Alain Resnais, e seriados como “Lost”.  Sua parceria em diversos livros com Jorge Luis Borges foi uma das mais frutíferas da História da Literatura.

Nesta segunda-feira dia 15 de setembro os argentinos homenagearão o escritor Adolfo Bioy Casares em diversas cerimônias em todo o país, de forma a recordar o centenário de seu nascimento. Entre as principais, o autor de “Diário da Guerra do Porco” está sendo o foco de lançamentos de edições de bolso da maior parte de seus livros. O público também conta com suas “Obras Completas”, reunidas pela editora Emecé.

Além disso, a obra de Bioy Casares está sendo debatida desde esta semana, até segunda-feira, em diversas jornadas de conferências na Biblioteca Nacional de Buenos Aires que reúnem os principais intelectuais da área literária argentina.

Além da obra literária de Bioy Casares, o escritor também será homenageado por seus trabalhos fotográficos com uma exposição no Centro Cultural San Martín, a partir do dia 28 deste mês, que mostrará uma faceta quase desconhecida do autor, a de fotógrafo. Nesta atividade Bioy Casares, além de retratar a família, fez fotos da nata cultural portenha durante décadas.

Os livros de Bioy Casares – um portenho do bairro da Recoleta – também podem ser encontrados nas centenas de sebos espalhados pelos bairros de Buenos Aires. No entanto, os livreiros duvidam em qual estantes colocar seus livros, já que conta com obras policiais e de realismo fantástico, além dos diários. Eventualmente ele também aparece na seção de “Ficção Científica”.

Em 1990, Horacio Moreno, presidente do Círculo Argentino de Ficção-Científica e Fantasia, deu a Bioy Casares o prêmio à trajetória. O autor de “A invenção de Morel”, uma obra premonitória nos anos 40 sobre as projeções holográficas”, que nunca havia se auto-rotulado, agradeceu rindo: “obrigado, há 60 anos eu suspeitava que estava fazendo ficção-científica”.

Bioy e Borges…Biorges. Os dois fizeram, desfrutando – e muito – um trabalho conjunto deixando seus egos de lado. Não tentaram impor um ao outro suas ideias e palavras. Foi uma dupla simbiótica, que foi mais além da colaboração, já que Bustos Domecq tinha um estilo diferente ao dos dois escritores de carne e osso. Honorio Bustos Domecq surgiu primeiro como F.Bustos, nome com o qual Borges publicou a primeira história de ficção de sua carreira, “O homem da esquina rosada”. Quando apareceu a parceria entre Borges e Bioy Casares o nome do escritor-fantasma foi trocado para Honorio Bustos Domecq. Bustos era o sobrenome de um bisavô de Borges, enquanto que Domecq era o bisavô de Bioy. H. Bustos Domecq começou sua carreira com “Seis problemas para Isidro Parodi”, de 1942. Em 1946 lançaram “Duas fantasias memoráveis”. Bustos Domecq se tornou um “autor” de sucesso. A Argentina pensava que existia de verdade e chegaram a lhe oferecer prêmios literários. Mas H. Bustos Domecq nunca aparecia para receber as honras. Borges e Bioy Casares davam gargalhadas. De quebra, também criaram um segundo autor-fantasma, Benito Suárez Lynch (também utilizando os sobrenomes de outros antepassados de Borges e Bioy). Com este pseudônimo publicaram “Um modelo para a morte”.

UMA DUPLA REALÍSTICAMENTE FANTÁSTICA 

A interação literária e a forte amizade entre Adolfo Bioy Casares e Jorges Luis Borges foi tão intensa que nos anos 60, o crítico Emir Rodríguez Monegal o definiu carinhosamente de “Biorges”. Este vínculo, que geraria a camaradagem mais frutífera da literatura argentina, iniciou por motivos prosaicos em uma reunião na casa de Victoria Ocampo, a dublê de Gertrude Stein da Argentina do anos 30, 40 e 50 e cunhada de Bioy, que estava casado com sua irmã Silvina. Bioy havia ido à mansão de Victoria para esquivar posteriores repreensões da cunhada, que recebia um escritor estrangeiro com um coquetel.

Por acaso, Bioy – que tinha 25 anos – sentou-se ao lado de Jorge Luis Borges, de 40. “No meio da festa começamos a conversar animadamente. Victoria nos interrompeu: ‘não sejam uns merdas. Falem com o convidado’. Borges levantou-se assustado e derrubou um abajur. Foi um opróbrio. Ele continuou falando comigo e ficamos amigos para toda a vida”, contou Bioy em entrevista ao Estado em 1996.

O vínculo literário começou na sequência, quando o jovem Bioy, integrante de uma família de empresários do setor de laticínios, foi contratado pelos próprios parentes para escrever um folheto cultural “e comercial” sobre o iogurte. “Chamei Borges e ficamos dias na fazenda pensando no folheto. Mais do que trabalhar no tema, acabávamos criando personagens. Assim escrevemos “Seis Problemas para Don Isidro Parodi”. Queríamos escrever contos onde houvesse um enigma e uma solução clara. Mas fazíamos brincadeiras e nos perdíamos nelas. “Que faremos com este personagem?”, perguntávamos rindo.

A obra detetivesca que escreveram em conjunto foi feita com o pseudônimo de Honorio Bustos Domeq. Mas, mantiveram em segredo a paternidade da obra durante anos, divertindo-se confidencialmente quando os amigos lhes comentavam a peculiar obra desse autor que nunca aparecia em público.

Ao contrário do espartano Borges, que era um potencial calvinista e tímido com as mulheres, Bioy, um milionário que vestia-se como lorde britânico, mantinha tórridos affaires com as sobrinhas de sua mulher e amigas. Apesar dessas diferenças mantiveram uma sólida amizade e cumplicidade literária, com declarações mútuas de admiração.

Borges colocou Bioy como um dos protagonistas de seu conto “Tlön, Uqbar e Orbis Tertius”. Bioy também fez do amigo um personagem, ao descrevê-lo em “Borges”, um diário anotado praticamente cada noite, ao longo de 40 anos, de 1650 páginas de suas conversas, suas parcerias literárias, os jantares quase diários que tinha com seu amigo em seu elegante apartamento da rua Posadas. No livro Bioy cita frases de Borges sobre a política nacional (“Boa parte da História argentina ocorreu entre gângsters”) ou religião e filosofia “Cristo não era um cavalheiro como Sócrates. Cristo tinha algum talento literário, shakespereano, um político que buscava compaixão, com seu efeito teatral, falsamente grandioso, de ‘perdoa-lhes, não sabem o que fazem’”.

Esse diário também inclui, ocasionalmente, o olhar de Silvina Ocampo, mulher de Bioy, que volta e meio age como observadora dos dois amigos. “Durante uma época você gostou de coisas piegas. Talvez por fidelidade a essa época você mantém a admiração por Ibsen”, disse Silvina a Borges durante um jantar entre os três.

Borges morreu em 1986. Bioy, em 1999. Em seus últimos anos o autor de “A invenção de Morel” foi se parecendo cada vez mais ao escritor de “O Aleph”, pois passou a usar uma bengala, fragilizou-se com a morte de seus seres queridos (sua filha e sua mulher), além do desejo de viver muito mais.

‘BIOY DEU NATURALIDADE AO REALISMO FANTÁSTICO’

A crítica portenha considera a escritora argentina Samanta Schweblin como a “herdeira da literatura de realismo fantástico” de Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Julio Cortázar. No entanto, embora admita que “Borges é alucinante”, não esconde sua preferência: “meu grande amor é Bioy”. Schweblin, autora de “Pássaros na boca”, publicada no Brasil, vencedora do Prêmio Casa de las Américas de 2008 e eleita em 2010 pela revista britânica Granta como uma dos 22 melhores escritores da língua espanhola da nova geração, afirma em entrevista ao Estado que o autor de “A invenção de Morel” é um escritor “visual”: “ele mostra e o leitor conclui e entende. O entendimento não está em todas as páginas. O entendimento está na cabeça do leitor. Por isso Bioy é interativo…”

Estado – Qual foi a influência de Bioy Casares em sua obra¿ E a influência de Bioy em seus contemporâneos e gerações posteriores?

Schweblin – Bioy trouxe uma brisa de ar fresco à literatura argentina. Ele contribuiu com uma voz de narrador. Seu tom, de aparente leviandade, possuem uma forma descontraída e uma simplicidade que enganam. Quando li pela primeira vez suas novelas “Dormir ao sol” e “A invenção de Morel” ou seus contos fantásticos, tinha a impressão constante de que escrever era algo fácil, possível. Nessa época, quando era adolescente, e a gente ainda está tomando coragem perante ao mundo da escritura, entender as possibilidades dessa aparente simplicidade de Bioy foi um disparador. Evidentemente, na hora de tentar reproduzir essa simplicidade entendi a complexidade que isso implicava. Mas já era tarde…eu estava envolvida com isso. Existe algo muito americano em sua pureza de linguagem, sua precisão, seu desprendimento de qualquer dado efêmero. Na hora que a gente vê que a literatura atual foi nesse caminho, dá para ver que Bioy, em sua escritura, foi uma dessas portas para essa outra literatura, americana e anglo-saxã, que tanto influenciou em nossa geração.

Estado – Prefere a literatura fantástica de Bioy? Ou seus contos policiais?

Schweblin – Desfruto de ambos. Mas, se tivesse que escolher, ficaria com seus contos fantásticos, pois são muito particulares. A literatura fantástica ‘rioplatense’(relativa ao rio da Prata, isto é, uruguaia e argentina) é por si só bastante particular. Não trata de monstros, fadas e dragões. São histórias que ocorrem claramente em un mundo real, contemporâneo, possível. Nelas, o fantástico irrompe com muito realismo. Bioy toma esta tradição e lhe concede uma contemporaneidade renovada. Contar as coisas estranhas e impossíveis com a aparente simplicidade e leviandade propiciou a este gênero um tom ainda mais realista e possível..

Estado – O que acha dos diários pessoais de Bioy? A escritura de diários é uma forma de resolver a tensão entre a obra e a vida de um escritor? O estilo muda?

Schweblin – O estilo muda. Mas, nem tanto como poderia ocorrer com outros autores. Acho que isso ocorre porque Bioy em seus diários tem essa voz aparentemente natural que tem em suas narrativas. Seus diários são extraordinários. Quando a gente os lê, podemos deduzir alguns mecanismos de construção de sua ‘cabeça de escritor’. Inclusive, alguns assuntos de seus livros aparecem nos diários de forma diferente, talvez em sua forma original ou primária. Sua figura de gentleman portenho, as relações com seus amigos, suas mulheres, sua mãe. A Argentina social, política e cultural desses anos. E, acima de tudo, o imperdível “Borges” (livro no qual Bioy relata dia a dia seu convívio com o amigo). É um tijolaço de mil e tantas páginas, de notas e notas de Bioy sobre Borges. É tão maravilhoso que a gente vê o Borges como um personagem. E até a gente começa a se perguntar se esse Borges não será a máxima criação de Bioy…

ENTREVISTA: O HOMEM QUE SONHOU COM O HOLOGRAMA – O GENTLEMAN ADOLFO BIOY CASARES 

No começo da década de 90, uma pesquisa indicou que o homem mais sedutor da Argentina não era um modelo, ator ou um esportista. Era um escritor: Adolfo Bioy Casares. Don Juan incorrigível, não somente seduziu dezenas de mulheres da aristocracia e intelectualidade portenha, mas também soube conquistar milhões de leitores em todo o mundo com obras como “Diário da Guerra do Porco” e “O Sonho dos Heróis”. Mas, sua obra mais famosa foi “A Invenção de Morel”, na qual o visionário Bioy Casares – no distante 1940 – imaginou a criação do holograma (o livro teria inspirado o videogame Myst nos anos 90…e na série “Lost”, no quarto episódio da quarta temporada, o personagem Sawyer aparece lendo ‘A Invenção de Morel’).

Há 15 anos, no dia 9 de março de 1999, Bioy Casares – Prêmio Cervantes de 1990 – faleceu em Buenos Aires. No dia seguinte, à tarde, foi realizado seu funeral no cemitério da Recoleta (o qual vejo da janela de minha casa). Naquela manhã, o jornal “Página 12” estampou a manchete: “Morreu o último gentleman da literatura”.

Além dos contos que escreveu sozinho, ele também formou uma brilhante e profícua parceria com outro monstro sagrado da literatura argentina, seu amigo Jorge Luis Borges (com quem começou o dueto escrevendo a quatro mãos um texto de um folheto publicitário sobre iogurtes para a empresa da família de Bioy, a poderosa “La Martona”, de laticínios).

Entre 1995 e 1998 o entrevistei três vezes. Estes são trechos da entrevista com o escritor que fiz para o Estadão em março do ano de 1998.

Estado – O sr. acredita em Deus?

B.C. – Não.

Estado – Há muito tempo? 

B.C. – Desde criança, e graças a um jogo de futebol, com meu amigo Enrique Drago Mitre, que me esclareceu muito sobre o céu e o inferno. Foi assim: quando fiz a primeira comunhão, me confessei diante de um padre que chegou a bispo…foram os dias mais infelizes de minha vida. Se mentir era um pecado imperdoável, eu que mentia, pecava. Temia ir ao inferno, algo que não me agradava. Jogando bola no fundo da casa de meus pais, Drago me disse “acho que você não teria que acreditar nas besteiras dos padres”. Aí percebi que eram besteiras mesmo, não acreditei mais nelas e fui feliz.

Estado – Suas relações com a Igreja foram conturbadas?

B.C. – Quando era criança, um padre me perguntou se havia fornicado. Eu disse que sim, por pensar que “fornicar” era sinônimo de praguejar. O padre me perguntou “mas com homens ou com mulheres?”. E como eu nunca havia praguejado diante de mulheres, respondeu “forniquei com homens, claro!”. Com esse padre terei fama de homossexual….

Estado – Em “A Invenção de Morel”, de 1940, o sr. fala de um invento que seria o equivalente a um projetor de hologramas. Era uma insólita e detalhada descrição de uma ilha habitada por pessoas-hologramas. A ciência sempre atraiu? O que acha da clonagem?

B.C. – Em “Máscaras Venezianas”, publicado nos anos 60, falo sobre os clones. É a história de um homem que se após despedir-se de uma mulher, encontra-se com o clone dela. Ao contrário da maioria, não estou nem espantado nem enfurecido com os experimentos na área. Queria saber porque isso incomoda tantas pessoas. Só estariam nascendo filhos sem a cópula, mais nada. E pelo lado da similitude que a clonação provoca, os irmãos gêmeos também são parecidos…Acho que o repúdio é porque as pessoas têm medo do desconhecido.

Estado – Quais são seus maiores prazeres físicos na vida?

B.C. – O assunto da gastronomia, para mim, é impressionante. O que mais gosto no mundo, em ordem, é isto: primeiro a água, depois o pão, e depois as mulheres. Gosto de tudo isso, e muito!!!

Estado – Uma vez o sr. disse que se considerava um ex-homem, porque já não era sexualmente ativo.

B.C. – Já me acostumei a isso…(ri). Mas posso dizer que tenho sido muito feliz quando não estava assim, como agora. E também sou muito feliz agora. Não me faltam mulheres. Me viro.

Estado – O sr. esteve sempre rodeado de mulheres, e inclusive, quando está preparando um novo livro, só pede a opinião do belo sexo…

B.C. – Me sinto mais confortável com uma mulher do que com um homem. Mas não posso esquecer que com Borges me entendia muito bem.

Estado – Como é sua relação com Ernesto Sábato?

B.C. – Nos conhecemos há muitos anos…por isso não acho que pensemos mal um do outro. Mas há muito que nós não vemos.

Estado – Muitos especialistas consideram que o sr. representa a consciência criativa da literatura argentina e Sábato, a consciência crítica.

B.C. – Fico com a consciência criativa…

Estado – Ao contrário de seu amigo Jorge Luis Borges, com quem o sr. é tantas vezes comparado, o sr. trafegou pouco pelo âmbito da poesia. Porquê? 

B.C. – Dei alguns passos nisso. Em algum livro meu há algo de poesia. Sinto que a poesia é a forma mais intensa de exercer a literatura. Mas me vêm à mente histórias, e tenho o compromisso de escrever a história que me veio à mente.

Estado – Mais uma vez, comparando-o a Borges, que nunca escreveu uma novela e sempre dedicou-se a contos, o sr. não foi muito profícuo nos relatos breves…

B.C. – Meu editor francês tem repulsão à publicação de contos. Eu não o entendo. Os editores parecem que não gostam de contos. Parece um gênero maldito. Tenho uma amiga que abomina tanto o gênero que ao comprar um livro, abre para ver se tem um índice. Se houver, ela não compra.

Estado – Costuma ler a si próprio, após a publicação?

B.C. – Não muito. Escrevo porque gosto de escrever e uma vez que terminei o livro que permitiu que essa história possa ser lida, já estou interessado no tema de outro livro.

Estado – Como são seus sonhos, quando dorme?

B.C. – São sonhos com histórias bastante estruturadas, e lembro delas bem, em geral. Poderia contá-los, mas em geral não há nada mais aborrecido do que os sonhos dos outros. Mas tenho sonhos interessantes, também. E esses, os sonho com felicidade. Além disso, eu dirijo um pouco meus sonhos. Por exemplo, quando vejo duas portas, e pressinto que por uma vou sofrer, vou pela outra. Utilizei alguns sonhos para escrever livros espantosos, antes de “A Invenção de Morel”. Não sonho com o Nobel, mas se o ganhar, vou estar contentíssimo…(ri)

Estado – O sr. gosta de prêmios?

B.C. – Os adoro! Por mais que se pense no contrário, eles estimulam a gente. Graças ao Prêmio Cervantes, descobri que as pessoas não são tão invejosas como dizem, mas que elas têm o prazer de compartilhar a alegria comigo. Nas ruas de Madrid, desconhecidos me paravam para me cumprimentar ou me abraçar. Eu era um sul-americano qualquer, mas tinha ganho o Cervantes.

Estado – Falta pouco mais de um ano para o novo milênio. O sr. vai comemorar a entrada no ano 2000 de forma especial? (Bioy Casares morreu nove meses antes daquele Reveillon)

B.C. – Não sei porque teria que ser diferente a qualquer outro dia. E por isso, não vejo o porquê para uma conduta especial. Parece mais uma desculpa para uma grande festa. Mas também me parece uma espécie de alegria falsa. Nem sequer serve para fazer um grande balanço dos eventos da época.

E aqui, algumas definições que Bioy Casares me deu nas duas entrevistas anteriores. Estas conversas, em 1995 e 1997, foram, respectivamente, em seu elegante – e sóbrio – apartamento da ‘calle’ Posadas, e no restaurante Lola, onde costumava almoçar.

EM 1995

O AMIGO BORGES: “Uma das razões para ter tido uma vida feliz é a dele ter sido meu amigo. Todas as noites ele jantava nesta casa”. No entanto, sua relação com a viúva de Borges (falecido em 1986), Maria Kodama, era definida negativamente: “ruim, talvez porque o próprio Borges falava mal dela para mim. Me dizia: ‘quando ela não está comigo desejo que chegue, e quando chega, fico desejando que vá embora’ ”.

SUICÍDIO – Apesar de escrever constantemente, Bioy Casares lia pouco na época, por causa da catarata no olho direito. Além disso, tinha fortes dores nas pernas, como resultado de uma violenta queda há oito anos. As restrições e o mal-estar físico não o faziam pensar na morte: “Nunca pensei em suicidar-me, mas de criança tinha um pouco de simpatia pelo suicídio. Parecia algo nobre. Agora não tenho uma opinião, embora pense que há circunstâncias que levam as pessoas ao suicídio. Mas a morte deve ser infinitamente mais chata que a vida. Queria viver mil anos. Acontece que gosto da vida, e por isso talvez não seja um entusiasta do suicídio. Não sou um entusiasta de estar morto. Não quero que a morte venha”.

UMA PARTE DE BUENOS AIRES: “Quando vinha um estrangeiro que nos parecia inteligente, Borges e eu o levávamos à Ponte Alsina, na zona sul de Buenos Aires. Não havia nada de destaque no lugar. Quando chegávamos no local, o visitante não entendia porque diabos o havíamos levado até ali. Mas Borges e eu gostávamos do lugar…”

EM 1997

FICÇÃO CIENTÍFICA: “A ficção científica é um gênero que nunca me convenceu totalmente. Não pense que estou tão feliz de fazer literatura fantástica. Adoraria escrever livros onde não houvesse nada de fantástico, mas minha mente faz o contrário”, me disse B.C..

Durante a feira do livro de Buenos Aires de 1997 Bioy Casares havia voltado a incorrer no gênero da ficção científica, e lançou “De um mundo a outro”. “A verdade, é que não lembro direito do último livro”, me disse o escritor enquanto cumpria um ritual diário: almoçar seu prato preferido – raviolis francoforti – no restaurante “Lola”, na frente do cemitério da Recoleta.

“Me sinto velho”, explicou. “Pelo menos recordo as linhas gerais. É a história de uma garota astronauta e seu namorado jornalista, que partem em um aparelho que pode voar de um mundo a outro. Seu destino é o décimo mundo de um sistema solar, mas quando vão pelo sétimo acabam caindo. É um mundo onde as pessoas não são descendentes dos macacos, mas dos pássaros, e têm bicos. Ali passam um tempo, e depois retornam, e que tudo termina bem”.

PROCESSO DA ESCRITA: Entre uma garfada e outra, Bioy Casares me explicou que seu processo de escritura começa com uma ideia geral, seguido por um convite a um almoço: “chamo alguma amiga, sempre mulher, para ouvir minha história enquanto comemos. Dependendo da reação, me sinto estimulado a continuar ou deixar. Se for o caso de abandonar o projeto, começo outro logo em seguida. Mas se a reação é positiva, vejo quais são os pontos dessa ideia geral que podem me causar dificuldades e tento solucioná-los. Quando acho que consegui isso, começo a escrever. Geralmente quando chego a esses pontos, percebo que tenho que resolvê-los outra vez…(ri)”.

Bioy Casares confessou que o primeiro parágrafo é o mais difícil. “Tenho a impressão que cada vez que tenho que começar a escrever, começo a aprender a escrever com esse livro…Toda aquela primeira página por diante, conseguir que o primeiro parágrafo seja bem seguido por outro…são dificuldades enormes. Depois aprendo a escrever esse livro, e o ritmo passa a ser mais ou menos regular”.

Sua vida era rotineira, explicou: “acordo, tomo banho, faço a barba e começo a escrever. Noto minha velhice porque as noites parecem cada vez mais curtas. Às vezes acho que é de dia, olho o relógio, e são as cinco da manhã. Sinto um imenso desgosto, fico quieto, tento dormir um pouco mais e às sete saio da cama. Durmo pouco, mas faço a siesta. Escrevo muito, porque além do almoço, não saio. Minha ‘máquina de escrever’ são três canetas ‘Pelikan’, e geralmente busco a que tem tinta (ri)”.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

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