Centrais sindicais entram em greve geral para protestar contra política econômica de Cristina Kirchner
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Centrais sindicais entram em greve geral para protestar contra política econômica de Cristina Kirchner

arielpalacios

10 de abril de 2014 | 07h25

Líderes sindicais afirmam que a presidente Cristina E.F de Kirchner afastou-se dos trabalhadores e que “traiu” os “ideais peronistas”

Três das cinco centrais sindicais argentinas protagonizam desde hoje de madrugada uma greve geral de 24 horas em protesto contra a política econômica do governo de Cristina Kirchner. Os sindicalistas acusam a presidente de “trair os ideais peronistas” e de implementar um “ajuste econômico” que está provocando uma crescente perda do poder aquisitivo dos trabalhadores. “As pessoas não trabalharão nesta jornada porque estão com muita raiva”, afirmou desafiante o secretário-geral da Confederação Geral do Trablho “rebelde”, o caminhoneiro Hugo Moyano, que afirmou que a paralisação será “maciça”.

Esta é a primeira vez que uma greve geral tem a coordenação conjunta da CGT “rebelde”, a CGT “Azul e Celeste”, liderada pelo sindicalista de bares e restaurantes, Luis Barrionuevo (que conta com o respaldo de parlamentares e governadores do peronismo dissidente) e a Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), chefiada pelo funcionário público Pablo Micheli. Segundo Moyano, “esta será uma greve que ficará na História da Argentina”.

Hugo Moyano abraça Néstor Kirchner. O caminhoneiro, famoso por sua truculência, foi considerado a “patrulha de choque” do kirchnerismo. Mas, após a morte de Kirchner em 2010, a relação com o governo de Cristina esfriou até o rompimento.

A greve geral coincide com um panorama econômico pessimista para este ano e o ano que vem e a retomada do crescimento da pobreza, que atualmente atingiria 30% dos argentinos, segundo dados dos sindicatos e da Igreja Católica. De acordo com um relatório emitido na terça-feira pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB argentino crescerá somente 0,5% em 2014, enquanto que em 2015 o aumento seria de 1%. Para complicar, o governo, perante o déficit fiscal, está cortando subsídios aos consumidores dos serviços públicos de água e gás. Além disso, planeja em breve a suspensão de subsídios à energia elétrica.

Os sindicatos exigem que o governo Kirchner dê seu aval para negociações sobre aumentos salariais sem teto previamente estabelecido. Além disso exigem que o governo concorde com a realização de negociações salariais a cada semestre (em vez do atual sistema anual). Como forma de combater os efeitos da inflação – que diversos economistas calculam que estaria entre 40% e 45% neste ano – seus negociadores pedem aumentos de 30% a 50%

Os sindicatos também exigem que o governo apresente um plano claro de combate à inflação. No entanto, nos últimos anos, a Casa Rosada restringiu-se a implementar vários congelamentos de preços que fracassaram, além de negar a existência de uma escalada inflacionária.

Sindicatos afirmam que Cristina Kirchner traiu os “ideais peronistas”. Acima, cartaz de 1952 mostrando a relação íntima da CGT com Evita Perón e Juan Domingo Perón.

PODER – Por trás desta greve também está o melindre dos sindicalistas peronistas, que perderam espaços de poder dentro do governo Kirchner em ministérios, no parlamento e na diretoria das estatais para novos grupos de poder, principalmente a organização “La Cámpora”, denominação da juventude kirchnerista.

O governo Kirchner, perante o desafio das três centrais sindicais que até poucos anos atrás eram suas aliadas, reagiu com declarações minimizando a greve. “Será basicamente uma paralisação dos transportes”, sustentou o ministro do Trabalho, Carlos Tomada. O ministro referia-se à adesão dos trabalhadores de ônibus urbanos, trens e metrô, além dos trabalhadores da companhia aérea estatal Aerolíneas Argentinas.

No entanto, um dos líderes sindicais aliados da presidente Cristina, o metalúrgico Antonio Caló, indicou que “a paralisação será grande”.

O secretário-geral da CTA ‘rebelde’, Pablo Micheli, afirmou que “aquele que queira ir para o trabalho terá que ir caminhando ou em bicicleta”.

A paralisação também atinge o funcionamento dos caixas eletrônicos, da coleta de lixo, postos de gasolina e supermercados. “Ninguém se mexerá neste dia”, prometeu o caminhoneiro Hugo Moyano.

Enquanto as três centrais sindicais peronistas paralisam suas atividades, grupos da esquerda realizarão piquetes nas estradas de acesso à capital argentina e nas principais avenidas da cidade. Os organizadores destes bloqueios a estradas e avenidas planejam realizar 40 piquetes em todo o país.

O líder sindical Luis Barrionuevo afirmou que as centrais trabalhistas já estão programando novas greves, desta vez de 48 horas, para os próximos meses.

CONTRA O GOVERNO

Confederação Geral do Trabalho (CGT) ‘Rebelde’ – A maior central sindical da Argentina. Seu chefe é Hugo Moyano, que durante décadas liderou o sindicato dos caminhoneiros. No longo período (2003-2011) no qual foi aliado do casal Kirchner era definido como a “tropa de choque” do governo, já que conta com mais de 200 mil militantes diretos entre os caminhoneiros (além de outros sindicatos) de rápida mobilização para realizar piquetes nas estradas e bloqueios contra empresas. Foi o principal respaldo social do governo Kirchner. Moyano pediu mais espaço de poder dentro do governo em 2010 e 2011. No entanto, a presidente Cristina negou a conceder cargos ao caminhoneiro, que iniciou um gradual afastamento, até ficar totalmente do lado da oposição em 2012.

Confederação Geral do Trabalho ‘Azul e branca’ – Grupo dissidente liderado pelo controvertido Luis Barrionuevo, do sindicato de restaurantes e bares. Esta CGT oscilou no início entre criticar o governo e fazer aproximações circunstanciais com os Kirchners. Em meados de 2012 esta central decidiu posicionar-se contra o governo. Há poucos meses deu sinal de reunificar-se com a CGT ‘rebelde’.

Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA) ‘Rebelde’ – Central sindical de perfil de esquerda que surgiu em meados dos anos 90 para opor-se à CGT (que na época era aliada do governo do presidente Carlos Menem e respaldava as privatizações). A CTA conta com sindicatos de funcionários públicos, associações de desempregados e de aposentados (uma novidade no sindicalismo argentino). Além dos sindicatos de origem peronista, a CTA também conta com sindicatos com influências socialistas e comunistas. Este grupo possui um “braço político”, o partido de esquerda “Projeto Sul”, do cineasta e deputado federal Fernando Solanas. Há quatro anos começou a ter posições críticas contra o governo Kirchner e sofreu um racha por esse motivo.

A FAVOR DO GOVERNO

Confederação Geral do Trabalho (CGT) “oficial” – É liderada por Antonio Caló, secretário-geral da União Operária Metalúrgica (UOM). A central de Caló está sendo chamada de CGT-Alsina, em referência à rua onde está, no centro portenho, embora também seja ironicamente denominada de CGT-Balcarce, em alusão à rua onde está o palácio presidencial. No início, Caló anunciou total respaldo à política econômica da Casa Rosada. No entanto, nos últimos meses começou a reclamar da escalada inflacionária.

Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA) “oficial” – Setor que rachou com a ala crítica do kirchnerismo após uma eleição embalada em denúncias de fraudes em 2010. Seus líderes são chamados de ‘pelegos’ e ‘subservientes’ a presidente Cristina por parte dos ‘rebeldes’.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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