Chamaelonidae menemensis (a política de Menem com um baita touch de Boy George)
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Chamaelonidae menemensis (a política de Menem com um baita touch de Boy George)

arielpalacios

10 de junho de 2011 | 08h13

 

Os camaleões – chamaeleonidae – são famosos por sua habilidade de mudar de cor de acordo com as circunstâncias, por sua língua rápida e alongada, além dos olhos, que podem ser movidos de forma independente um do outro. Os Menems – Carlos e Zulemita – protagonizaram nas últimas semanas uma camaleônica transformação política que os levou de ferozes inimigos do kirchnerismo a declarados admiradores da administração da presidente Cristina. “O grupo é bastante antigo, já que são conhecidos fósseis procedentes do Paleoceno”, segundo a Wikipedia…sobre os camaleões, claro. O simpático representante acima é o Bradypodion pumilum. Foto da Wikipedia.

 “Os peronistas não são bons nem ruins… são incorrigíveis!”. A frase, do escritor Jorge Luis Borges, indicava que os integrantes do movimento político criado pelo general Juan Domingo Perón eram capazes das mais estranhas manobras para permanecer no poder. Esse é o caso da transformação do ex-presidente Carlos Menem (1989-99) e sua filha Zulemita Menem de arqui-inimigos em aliados do governo da presidente Cristina Kirchner.

Menem, famoso por suas políticas neoliberais, expoente do consenso de Washington na América Latina, costumava chamar o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) de “satânico”, por causa de suas políticas estatizantes. Além disso, acusava a presidente Cristina de “levar o país ao apocalipse”.

Há pouco tempo Menem considerava o casal Kirchner como representante de Satã na Argentina. Acima, o tinhoso em ilustração de Gustave Doré, nosso supimpa artista francês do século XIX. A imagem mostra o sr. das Trevas após levar um peteleco divino.

 Mas, o discurso com alusões bíblicas ficou para trás. Dias atrás Menem anunciou que votará na reeleição de Cristina, já que é a “única pessoa capacitada para governar”. Menem aposta que a presidente “vencerá no primeiro turno”. Sobre seu marido, morto em outubro passado, Menem disse que “foi um bom governante e fez o país funcionar”.

A transformação de Menem em aliado dos Kirchners começou em 2009, quando o ex-presidente respaldou uma série de projetos de lei do governo no Senado. Seu voto – e abstenção, em algumas ocasiões – foi crucial para permitir o uso, por parte do governo, das reservas do Banco Central, entre outras medidas.

Desta forma, Menem – um ortodoxo neoliberal e integrante da ala direita do partido peronista (Justicialista) – favoreceu o governo Kirchner (da ala centro-esquerda do peronismo) em leis que ampliavam a interferência estatal na economia.

Em troca, Menem – que precisa ser reeleito senador para continuar com a imunidade parlamentar, e assim, evitar ser colocado no banco dos réus por uma série de casos de corrupção – conseguiu o respaldo político do governador kirchnerista de La Rioja, Beder Herrera, que conta com abundantes fundos da Casa Rosada.

Em Buenos Aires, os ministros do gabinete Kirchner não declaram respaldo direto a Menem. No entanto, as críticas que costumavam fazer ao período menemista saíram da agenda diária. Coincidentemente, os processos contra Menem na Justiça tiveram um ritmo lento nos tribunais nos últimos dois anos.

Kirchners foram declarados aliados de Menem no início dos anos 90. Uma década depois eram inimigos mortais. Mais um decênio passou e agora são circunstanciais aliados.

Desta forma, o nome de Menem e de Cristina Kirchner estarão juntos nas listas de votação daqui a quatro meses. Além disso, o ex-presidente quer que sua filha Zulemita siga a carreira política da família e que seja candidata a deputada federal nas eleições de outubro.

Zulemita, que depois da separação dos pais em 1991 agiu como virtual primeira-dama de Menem – tal como Keiko Fujimori foi de seu pai Alberto nos anos 90 – faz mistério sobre o assunto. Mas, declarou que respalda a reeleição de Cristina, à qual declara “a digna admiração”: “é uma mulher com garra e faz tudo por nós”.

Gregor Johann Mendel ( 20 de julho de 1822 – 6 de janeiro de 1884) foi o “pai” da genética graças a seus estudos com as ervilhas. Segundo o ex-ministro do Interior de Menem, Carlos Corach, o menemismo e o kirchnerismo possuem a mesma marca “genética”.

GENÉTICA: “É o melhor soldado que o governo de Cristina Kirchner possui!”, dispara com ironia o senador Luis Juez, do Partido Novo, que acusa Menem de ter migrado às “fileiras kirchneristas”. O senador Gerardo Morales, da União Cívica Radical (UCR), o principal partido da oposição, afirma: “Menem está trabalhando para o governo”.

Carlos Corach, ex-ministro do Interior, que nos anos 90 foi o principal articulador político de Menem, declarou neste fim de semana que não existe contradição no respaldo do ex-presidente ao atual governo: “o kirchnerismo e o menemismo possuem a mesma marca genética”.

MENEM, PODER ATOMIZADO E BANCO DOS RÉUS: Durante duas décadas Carlos Menem foi uma das principais figuras da política argentina e o indiscutível caudilho do peronismo. Mas, em 1999, ao deixar a presidência da República – que havia ocupado por dez anos e meio – começou a perder influência e aliados.

Em 2001 ficou em prisão domiciliária durante cinco meses, acusado de contrabando de armas. Liberado, voltou à arena política. No entanto, só acumulou fracassos. Em abril de 2003 disputou a presidência do país contra Néstor Kirchner mas desistiu de concorrer ao segundo turno, decepcionando militantes e aliados.

Em 2005 amargou o segundo lugar nas eleições para senador de La Rioja, província que havia controlado durante 30 anos. Em 2007, candidato a governador, ficou em terceiro lugar.

Atualmente Menem está sendo julgado na Justiça pela explosão da fábrica militar de Río Tercero, ocorrida em 1995. A Justiça suspeita que a explosão foi feita para encobrir a ausência de armas e pólvora contrabandeadas para o Equador e a Croácia entre 1991 e 1994. Menem também está sendo processado por irregularidades na investigação do atentado realizado em 1994 contra a associação beneficente judaica AMIA, que causou a morte de 85 pessoas.

Apesar dos reveses Menem – que completará 81 anos daqui a quatro semanas – não perde a pose e diz que continuará na ativa por várias décadas. Nos comícios, perante seus simpatizantes, com voz alquebrada, exclama: “viverei como o faraó Ramsés, até os 104 anos!”

PECULIARES CONEXÕES: Os Kirchners respaldaram ativamente a política de privatização nos anos 90 feita por Menem. Como governador da província de Santa Cruz, onde estão algumas das maiores jazidas de gás e petróleo do país, Nestor Kirchner apoiou – e fez campanha a favor – da privatização da estatal energética argentina, a Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF). Em 2004, quando estava na presidência do país, Kirchner criou uma mini-estatal energética, a Enarsa. A YPF continua privatizada, nas mãos da espanhola Repsol. No entanto, de forma gradual, o Grupo Petersen, controlada pela família Eskenazy, aliada dos Kirchners há longo tempo, está adquirindo ações da empresa (atualmente possuem mais de um quarto do total do pacote acionário).

Durante os anos 90 os Kirchners tampouco se opuseram à anistia que Menem concedeu em 1991 aos ex-comandantes da ditadura militar (1976-83). Mas, depois da posse, em maio de 2003, Kirchner decidiu que o julgamento dos militares – e o fim da anistia – era sua prioridade na área de direitos humanos.

No atual gabinete Kirchner existem diversos ex-integrantes do governo Menem, além de velhos aliados parlamentares.

Menem já havia protagonizado guinadas peculiares desde o início de sua carreira. Durante 30 anos foi um intenso crítico dos EUA e da Grã-Bretanha. Nos meses prévios à eleição presidencial de 1989 foi à Líbia e Síria pedir fundos para sua campanha. Na mesma época pregava recuperar as ilhas Malvinas “a fogo e sangue”. No entanto, após sua posse, manteve um alinhamento automático com os EUA (as denominadas “relações carnais”), tentou reaver as Malvinas com uma insólita estratégia diplomática (a chancelaria argentina enviou ursinhos de pelúcia aos habitantes das ilhas – os kelpers – além de vídeos de Winnie The Pooh).

Menem também negou seu passado de muçulmano (toda sua família é muçulmana, inclusive seus filhos com a ex-esposa Zulema Yoma) e apresentou-se como “católico apostólico romano” para disputar as eleições de 1989. Na época, a Constituição argentina determinava que uma pessoa, para tomar posse como presidente da República, deveria ser católico e casado.

A canção do camaleão (The chamaleon song) Um hit dos anos 20, aqui.

E outro “Chameleon”, desta vez com Maynard Ferguson, batuta trompetista canadense que tocou com Dizzy Gillespie e Stan Kenton. Ele foi o autor de “Goona fly now”, a música do filme Rocky, protagonizada por Sylvester Stallone. Para ouvir o “Chameleon”, Aqui.

E, não poderíamos deixar de citar um dos emblemas dos anos 80, George Alan O’Dowd – a.k.a. Boy George – com seu “Karma Chameleon”, na qual um de seus versos diz “I’m a man without conviction…I’am a man who doesn’t know how to sell a contradiction”. Aqui.

 

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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