Choripán: O hot-dog argentino
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Choripán: O hot-dog argentino

arielpalacios

11 de março de 2009 | 07h08

O hot dog americano possui uma versão argentina que transformou-se em um ícone da culinária popular. A versão nativa do sanduíche yankee é o “choripán”. O nome sintetiza seu conteúdo: “chori” (pelo “chorizo”, isto é, uma lingüiça de proporções e densidade magnificadas) e “pan” (pão).

O crocante pão francês com o suculento – e costumeiramente oleoso – chorizo é a pièce de résistance de todo comício político, estádio de futebol e manifestação popular argentina. Embevecidos pelo delicioso cheiro que o choripán emite – e a fácil manipulação deste fast-food – os consumidores do quitute não prestam atenção nas horripilantes condições sanitárias nas quais esse ícone alimentício é preparado (pelo menos, em grande parte das vezes).

CHORIPÁN E PODER – Comer um choripán é condição sine qua non de candidato político em campanha. A foto do candidato caminhando pela rua no meio da população (especialmente os setores pobres) mastigando o hot dog nativo a modo de snack entre um discurso e outro é um clássico da política argentina. Não comer um choripán poderia ser visto como um sinal de esnobismo.

De quebra, o choripán é presença tradicional nos churrascos (de qualquer classe social), preferencialmente como prólogo da ingestão de abundantes quilos de carne bovina.

No meio da crise financeira, econômica e social de 2001-2002, quando o país estava em plena turbulência social, manifestações percorriam diariamente o centro portenho. Em várias ocasiões, grupos nacionalistas de esquerda gritavam, especialmente na frente do Mac Donald’s e do Burger King, “Choripán sim, hambúrguers não!”, a modo de palavras de ordem. Diversas filiais das redes de fast-food foram apedrejadas. Uma delas, na frente do próprio Obelisco, foi incendiada totalmente por coquetéis molotov.

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O Choripán é presença inevitável em marchas e manifestações políticas; é também a pièce de résistance de eventos esportivos de massas, constituindo-se no elemento gastronômico fundamental de uma jornada em um estádio de futebol.

Choripán1

CHIMICHURRI – E, se comer um choripán pelo menos uma vez na vida é imperativo para entender parte da cultura (e política) argentina é preciso que ele esteja acompanhado – comme il faut – pelo chimichurri.

O chimichurri consiste em um molho composto de orégano, salsinha, cebola, alho, pimenta, páprica e azeite de oliva, que os argentinos costumam derramar em cima de diversas carnes. Os chorizos são o principal alvo do uso do chimichurri. São o equivalente ao queijo ralado em uma macarronada.

O chumichurri teria sido inventado noa meados do século XIX no meio das campanhas militares argentinas que gradualmente conquistaram a parte meridional dos Pampas e da Patagônia. O autor, afirmam os especialistas, teria sido o irlandês Jimmy McCurry, que marchava com as tropas. Mas, pronunciar “Jimmy McCurry” teria sido tarefa difícil para os argentinos da época, que optaram por denominar o molho com a corruptela do nome do irlandês como “chimichurri”.

No entanto, alguns gastrônomos afirmam que o chimichurri é uma derivação do pesto genovês. No meio das lendas que cercam este elemento da gastronomia local, existem diversos papers que indicam que o nome seria proveniente do basco “Tximitxurrí”, o equivalente a “uma misturada de muitas coisas”. O autor do chimichurri não seria o irlandês supracitado, mas sim, os bascos que migraram (em centenas de milhares) para a Argentina no século XIX.

Enquanto isso, em Israel, um brasileiro e um argentino tentam emplacar o choripán entre os consumidores em Tel Aviv. Quem explica é meu amigo Gustavo Chacra, em seu blog Diário do Oriente Médio.
Gustavo Chacra

PS: Atenção! Disse que o choripán é a ‘versão’ local do hot-dog. Não disse que o choripán foi ‘inventado’ na Argentina. A combinação de pão com linguiça é costumeira em várias partes do mundo. Mas, o fato de que ele seja o fast-food por excelência de um país, isso – especificamente – aplica-se à Argentina, onde, inclusive, possui conotações políticas fortes (isso, sim, é exclusividade local).
É como o feijão preto…existe em várias partes do mundo. Misturado com pedaços de leitão? Também, em muitos países. Mas, isso não tira a brasilidade da feijoada, não é?
Em breve contarei sobre o chivito, fast-food uruguaio. Que, no próprio Uruguai chama-se em vários casos de “chivito canadiense” (embora não tenha nada do Canadá!)
Nestes tempos de globalização há cada vez menos espaço para chauvinismos gastronômicos. A ‘pureza culinária’ pode ser boa. Mas a fusão culinária também, não é?
Se não fosse por isso, jamais teríamos tido a macarronada com molho de tomate.
O macarrão é chinês de origem mas adaptado magistralmente pelos italianos, enquanto que o tomate é de origem…peruana!
E a batata, tão comum na culinária alemã? Pois bem: do continente americano, possivelmente originária no Peru (mas espalhada para o resto da região).
A batata foi crucial para que Federico II da Prússia pudesse alimentar seus súditos no século XVIII.
E nem falemos do churrasco! As vacas que chegaram nas Américas vinham da Europa. E o leitão, idem. O que seria do torresmo mineiro sem a Europa?
Abraços e abrazos,
Ariel

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