Cobos, a rebelde ‘mosquinha morta’ (perfis dos presidenciáveis da oposição argentina, parte 4)
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Cobos, a rebelde ‘mosquinha morta’ (perfis dos presidenciáveis da oposição argentina, parte 4)

arielpalacios

11 de janeiro de 2011 | 16h44

Vice-presidente Julio Cobos ilustrado pelo cartunista argentino El Niño Rodríguez. Site do cartunista: http://www.elninorodriguez.com/

Pacato, low profile e supostamente inofensivo, o vice-presidente Julio Cesar Cleto Cobos era considerado o parceiro ideal para a chapa de Cristina Kirchner em 2007, quando o então presidente Néstor Kirchner preparava uma sucessão protagonizada pela própria cônjuge. Na época, Cobos rachou com seu partido, a União Cívica Radical (UCR), de oposição, para entrar na chapa governista. Ele e seus dissidentes foram ironicamente batizados de “Radicais-K”, em alusão à inicial do casal presidencial. Na época Cobos era visto como uma “mosquinha morta” – um vice-presidente sem ambições – que não implicava em riscos para o casal Kirchner.

No entanto, a parceria entre o vice e a presidente durou apenas oito meses. Com o passar do tempo, Cobos começou a divergir da política econômica do casal Kirchner. Mas, o racha consolidou-se em julho de 2008 quando Cobos, na categoria de presidente do Senado, derrubou com seu voto de Minerva o impopular projeto de lei de “impostaço agrário” da presidente Cristina.

O “impostaço” havia gerado um locaute sem precedentes dos ruralistas, além de panelaços da classe média nas grandes cidades em apoio inédito aos agricultores.

Seu voto contra o casal Kirchner transformou Cobos em uma figura popular, algo raro para um vice-presidente argentino.

As frases por ele pronunciadas na sessão do Senado – com dramático nervosismo – para explicar sua decisão de votar contra a própria presidente foram rapidamente estampadas em camisetas que foram sucesso de vendas na internet.

“A História me julgará”, “Meu voto não é positivo” e “Este é o momento mais difícil de minha vida”, entre outros, foram os dizeres que transformaram-se um hit em 24 horas. Imagens do “voto não-positivo”, aqui.

O merchandising da denominada “Cobosmania” também esteve presente nas canecas que ostentam as frases que levaram o antes desconhecido vice à categoria de superestrela da política argentina em 2008. Uma pesquisa da consultoria D’Alessio Irol indicou na época que 75% dos argentinos aprovam o gesto de Cobos de votar contra o governo Cristina.

Imediatamente Cobos foi isolado pelos Kirchners, que o consideraram um “traidor”. A presidente Cristina não fala com ele desde 2008. Com frequência integrantes do governo pedem sua renúncia e o acusam de estar por trás de uma “conspiração” que supostamente reuniria ruralistas e partidos da oposição para implementar um hipotético “golpe de Estado”. No entanto, Cobos resistiu a todas as pressões, alegando que, como vice, também havia sido eleito pelo voto popular.

Tempos de boas relações com a presidente Cristina Kirchner acabaram em 2008.

Entre 2008 e 2009 C0bos foi considerado a grande alternativa para derrotar Kirchner nas urnas. No entanto, de lá para cá Cobos perdeu protagonismo, já que não se posicionava claramente como candidato da oposição, além de continuar no cargo de vice-presidente de um governo ao qual posicionava-se contra.

Os analistas indicam que Cobos errou em sua estratégia, já que – segundo eles – deveria ter deixado o cargo e firmar sua posição como líder da oposição contra os Kirchners.

A atitude vacilante de Cobos foi o foco da imitação do vice feita no programa “Gran cuñado” (Grande Cunhado), uma paródia do Gran Hermano (Big Brother). O programa, em 2009, ironizava os principais políticos argentinos, incluindo o casal Kirchner. Acima, na foto o imitador de Cobos em “Gran Cuñado”.

Mas, Cobos vacilou no meio da feroz – e dinâmica – arena política argentina. Isso levou vários simpatizantes e aliados a desertar de suas fileiras. Simultaneamente começaram a aparecer outras candidaturas dentro da UCR.

Uma delas foi o senador Ernesto Sanz, outrora aliado mas atualmente rival na UCR, que conseguiu maior visibilidade graças aos intensos debates que agitaram o Parlamento entre 2008 e 2010. De quebra, a figura de Cobos começou a enfrentar a concorrência de outro correligionário, Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raúl Alfonsín.

O resultado foi que desde 2009 Cobos gradualmente passou a um segundo plano nas especulações sobre presidenciáveis na Argentina.

No entanto, apesar da perda de terreno dentro das fileiras opositoras ainda é um nome de peso como presidenciável.

 

Cobos costuma participar de maratonas. Ao fundo, a Casa Rosada, o palácio de governo onde está “el sillón de Rivadavia”, a cadeira presidencial que ambiciona conquistar nas eleições de outubro.

TRINCHEIRA – Filho de um portenho e uma bonaerense, Cobos, nascido em 1955, foi o primeiro mendocino da família. Seu pai, militante peronista, mudou-se à Mendoza para fugir da repressão do golpe que derrubou o presidente Juan Domingo Perón em 1955. Décadas depois, seu pai – fanático torcedor do River Plate – lamentaria, com ironia: “minha vida só tem duas desgraças: um filho radical e um neto do Boca Juniors”. Cobos estudou no Liceu Militar e depois entrou na Universidade Tecnológica de Mendoza, onde se formou em Engenharia Civil. Ali conheceu sua esposa, também engenheira.

Em 1978, quando a Argentina quase entrou em guerra com o Chile pela disputa do canal de Beagle, foi designado tenente e esteve em uma trincheira esperando o ataque chileno na Cordilheira dos Andes (a guerra não aconteceu; paradoxalmente, hoje é um dos principais interessados na integração do Mercosul com o Chile).

Depois, trabalhou na atividade privada e foi reitor da Universidade. Apolítico, só em 1991 entrou na UCR, quando foi convocado para trabalhar primeiro na prefeitura e depois no governo provincial no comando das obras públicas. Em 2003, diante do descrédito popular com os políticos tradicionais, a figura de Cobos apareceu como uma opção “técnica”, com jeito de “administrador”. Na ocasião, derrotou o candidato de Kirchner.

Gosto pela aventura: Há poucos anos Cobos atravessou a Cordilheira dos Andes com uma mula (foto do acervo do vice-presidente)

Aventureiro, Cobos gosta de fazer trekkings (atravessou a Cordilheira com uma mula) e acompanha o filho a concertos de rock. Mas, ao mesmo tempo, é sóbrio e discreto. Não beija bebês, mas se detém, no meio de sua corrida diária (corre sozinho, sem guarda-costas), para conversar com os pedestres. Seu escritório na época em que era governador de Mendoza, no austero edifício do governo, não mostrava luxos. A primeira coisa que exibia com orgulho, quando o entrevistei em 2006, é a foto dos três filhos.

Seu ídolo político é o ex-presidente Arturo Frondizi (1958-62), que tal como Cobos, protagonizou uma dissidência da UCR que obteve o respaldo (embora temporário) peronista. Admira o ex-presidente chileno Ricardo Lagos. Define-se como “progressista-liberal a favor da inclusão social”.

Na área de política exterior considera que os governos argentinos deveriam fazer maiores esforços para que o Mercosul tenha mais institucionalidade. “Hoje funciona como alfândega imperfeita”, lamenta. 

   

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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