“Corralito”: Há dez anos a Argentina entrava no caos social, político e financeiro (uma década de “El Colapso” parte 3)
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“Corralito”: Há dez anos a Argentina entrava no caos social, político e financeiro (uma década de “El Colapso” parte 3)

arielpalacios

01 de dezembro de 2011 | 11h38

 

Em meio à crise, favelados argentinos – vários dos quais ex-integrantes da classe média – tiveram que recorrer a ratos, gatos e cavalos para evitar a fome.

“Fica melhor se condimentado com alho”. Este foi o comentário gastronômico pronunciado perante o Estado nos primeiros dias de maio de 2002 na periferia da cidade de Quilmes sobre a forma de tornar a carne de gato mais saborosa. Além disso, recomendaram que a carne felina requeria uma hora de fogo baixo para tornar-se “mastigável”. Nas favelas dessa cidade na zona sul da Grande Buenos Aires os habitantes chegaram ao ponto de caçar ratos para alimentação. Para evitar doenças, os roedores eram lavados com água sanitária. Na mesma semana, 400 quilômetros dali, na cidade de Rosário, um caminhão capotou com um carregamento de vacas. A população de uma recém-criada favela – a maioria ex-integrantes da classe média – atacou o caminhão, esquartejando as reses no lugar. A Argentina, país que outrora havia sido caracterizado pela opulência alimentícia, estava arruinada. Sua população – que havia integrado o antigamente denominado “Paraíso da classe média latino-americana” – estava empobrecida.

Na próxima quinta-feira os argentinos recordarão com amargura uma década dessa crise que costumeiramente é chamada de “El Colapso” (O Colapso), quando o PIB despencou 10%. Dez anos depois – enquanto assistem pela TV as cenas dos protestos sociais na terra dos antepassados, a Europa – os argentinos poderão relembrar os tempos sombrios enquanto saboreiam um “bife de chorizo” (embora menos suculento do que décadas atrás). A economia, nos últimos oito anos, cresceu a um ritmo de 7,6% em média anualmente. As perspectivas, para o ano que vem, embora menos otimistas por causa do contexto internacional, não são catastrofistas.

Enquanto que em 1991, dez anos antes do colapso, somente 4% dos argentinos tinham fome crônica, a proporção disparou para 28% em 2002, em plena crise.

“Atualmente a fome atinge 5% da população, isto é, 2 milhões de pessoas”, afirma ao Estado Artemio López, sociólogo e diretor daconsultoria Equis, especializada na análise da pobreza e desemprego.

Segundo o analista, a fome foi reduzida em grande parte graças aos planos de assistência social dos governos do ex-presidente Nestor Kirchner(2003-2007) e de sua viúva e sucessora, a presidente Cristina Kirchner.“Atualmente, os planos fazem que pobreza não esteja na faixa 28%. E a indigência, sem a ajuda estatal, estaria em 10%”.

A pobreza que era de 10% em 1991, uma década antes da crise, atingiu picos históricos em 2002, quando afetou 54% dos argentinos. Segundo López, a pobreza despencou nos últimos oito anos e atualmente assola 20,1% dos argentinos, embora o governo – cujos índices oficiais são questionados – afirme que a proporção de pobres não passa dos 10%.

Em 1991 o desemprego estava em 5%. Ao longo da década foi subindo gradualmente. Na véspera da crise, em outubro de 2001, 18% dos argentinos não tinham trabalho. Mas, com o colapso, disparou para 24% em 2002. Atualmente está em 7%. “É interessante ver que Kirchner, em 2003, assumiu o governo com 22% dos votos, isto é, dois pontos percentuais a menos que a proporção de desempregados”, afirma López.

CORRALITO – A economia argentina ia aos trancos e barrancos desde que a crise mexicana de 1994 atingiu o país. Mas, no ano 2000, a renúncia do vice-presidente Carlos “Chacho” Alvarez disparou a desconfiança no país, cuja taxa de risco do país começou a crescer aceleradamente. Falidas, 14 das 24 províncias argentinas – em rebelião aberta com o governo federal – começaram a emitir “moedas paralelas”, sem lastro, para poder pagar funcionários públicos e fornecedores.

O governo do presidente Fernando De la Rúa, atingido por fuga de divisas e uma corrida bancária, desesperado em conter a conversibilidade econômica (que determinava a paridade um a um entre o dólar e o peso), decretou o “corralito”, denominação do mega-confisco bancário implementado no dia 1 de dezembro de 2001.

A medida, em vez de acalmar os ânimos, levou milhões de argentinos às ruas para protestar contra o governo. No dia 20 de dezembro daquele ano milhares de pessoas – aos gritos – pediram a renúncia de De la Rúa, que deixou o governo na mesma noite.

Nas portas dos bancos – todos os dias, durante meses – centenas de milhares de correntistas batiam panelas para exigir a devolução de seu dinheiro. Apesar da recuperação da economia, os argentinos nunca mais voltaram a confiar plenamente nos bancos e nos governos.

As violentas manifestações de 2001-2002 – cujo principal modus operandi eram os piquetes – não ocorrem mais. Mas, os piquetes, embora pacíficos, consagraram-se como a modalidade par excellence de expressão social dos argentinos.

DESCONFIANÇA – Segundo o economista Fausto Spotorno, da consultoria Orlando Ferreres e Associados, a bancarização argentina em 2001, baixa em comparação com outros países da América Latina, tinha depósitos que representavam 18% do PIB. Dez anos depois do corralito, os depósitos equivalem a apenas 7% do PIB. “Não é somente a desconfiança, é também pela inflação”, sustenta Spotorno, que destaca que o combate à escalada inflacionária é uma das batalhas que o governo da presidente Cristina Kirchner deixou pendente.

A dolarização da economia argentina, uma característica histórica, acentuou-se na década que transcorreu desde a crise. Enquanto que os argentinos possuíam US$ 81 bilhões no exterior, em caixas de segurança ou no prosaico – mas confiável – colchão doméstico, atualmente escondem fora da fiscalização governamental e das contas correntes um total de US$ 150 bilhões, segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).

Spotorno sustenta que o lado positivo dos últimos anos é o crescimento econômico, a proporção mais baixa da dívida pública em relação ao PIB,e a balança comercial como mundo, superavitária. Mas, considera que a pobreza ainda permanece em níveis elevados, inferiores aos tempos da crise embora maiores do que há duas décadas, e corre o risco de tornar-se estrutural.

Além disso, afirma que o governo precisará tomar medidas urgentes para combater a crise energética. “Também ocorre uma baixa entrada de capitais estrangeiros, e de quebra, falta acesso aos mercados internacionais de crédito e um gasto público excessivo”.

CALOTE – Vinte e três dias depois do corralito – quando tomou posse o terceiro sucessor de De la Rúa, o presidente provisório Adolfo Rodríguez Saá– a situação agravou-se com a declaração de calote dos títulos da dívida pública com os credores privados. A Argentina, além de arruinada, protagonizava o maior default da História mundial e tornava-se paria dos mercados internacionais de crédito.

Nos meses seguintes o país passou por momentos surrealistas, entre os quais o dia em que a província de San Luis especulou declarar a independência para livrar-se dos problemas nacionais argentinos. Na mesma época, credores japoneses pediram a representantes doministério da Economiaquea Argentina vendesse parte da Patagônia para pagar as dívidas.

“Não gosto de lembrar daqueles tempos”, afirma ao Estado com voz angustiada Graciela Rossi. Ela, durante a crise, perdeu seu trabalho de professora de jardim de infância em uma escola portenha. “Meu marido teve que fechar a microempresa que tinha. Viramos ‘cartoneros’ (catadores de papel). Levamos dois anos para sair do fundo do poço”. Quando termina a frase, Graciela – atualmente atendente em uma loja de roupas no bairro de classe média de Caballito – seca duas lágrimas que escorrem por suas bochechas e arremata: “só quero pensar em coisas boas daqui para a frente. Aquilo foi o inferno”.

GLOSSÁRIO DA CRISE ARGENTINA DE 2001

PANELAÇO: O “cacerolazo” (panelaço) é barulhenta modalidade de protesto que embalou as manifestações populares em 2001, 2002 e 2008 nas principais cidades do país. O protesto consiste em bater de forma rítmica utensílios metálicos de cozinha, principalmente as “cacerolas” (panelas). No início de 2002 um inventor portenho criou a “máquina de panelaço”, que consistia em uma panela com uma manivela que na ponta tinha a tampa do utensílio doméstico. Ao girar a manivela, a tampa batia na panela ritmicamente, propiciando um menor esforço por parte do “cacerolero” (“panelaceiro”?). Na ocasião, vendeu várias centenas de unidades. Mas, a recuperação econômica de meados de 2002 acabou com seu incipiente business. Na mesma época, embora com um sucesso um pouco mais prolongado, o empresário Gustavo Federico Gómez lançou no mercado o jogo “Cacerolazo” (Panelaço), que consistia em conseguir as melhores condiçõesde vida para a população de uma província. No meio do tabuleiro do estilo do “banco imobiliário” existiam obstáculos como os sindicatos, empresas, o governo federal, partidos políticos, o FMI, bancos, a polícia, o jornalismo, a igreja. Se uma das cartas indicava tempos ruins pela frente, o jogador podia revidar acudindo a um panelaço de protesto. 

Para um “instant cacerolazo”, ver este site chileno, aqui.

Chilenos foram os criadores mundiais dos primeiros panelaços, em 1973. Mas, a utilização desse protesto em grande escala – e diariamente, ao longo de mais de um ano – pode ser atribuído aos argentinos.

PIQUETE: Bloqueio de avenidas, ruas e estradas por grupo de pessoas como modus operandi de protesto. No início, quando eram poucos, os piqueteiros bloqueavam com pneus em chamas e escombros. Atualmente, com excedente de manifestantes, os bloqueios são feitos com “barreiras humanas”. Acessórios dos piqueteiros: lenços cobrindo parte do rosto, que podem ser úteis na hora do gás lacrimogêneo (e também para proteger sua identidade das forças policiais). Há dez anos eram comuns varas de madeira, barras de ferro, canos de PVC com cimento dentro, utilizados tantopara a defesa pessoal, para o ataque, ou simplesmente para intimidar. No interior do país eram frequentes os estilingues. Mas, atualmente são raras as manifestações com estes objetos. Os piquetes possuem o acompanhamento musical dos bumbos (instrumento originário das mobilizações do Peronismo). Atualmente os piquetes são utilizados por todas as classes sociais, desde a baixa à alta. Esse modus operandi já foi utilizado por militantes trotskitas que exigiam o fechamento das lanchonetes McDonald’s até por militantes da ala radical da Igreja Católica que queriam fechar uma exposição do artista plástico León Ferrari.

CORRALITO: Literalmente, “curralzinho”, expressão também usada para o cercadinho de bebês. Denominação irônica do congelamento de depósitos bancários implantado em dezembro de 2001 pelo governo De la Rúa. O corralito desatou a fúria dos argentinos com o governo e os bancos.

CORRALÓN: Confisco dos depósitos a prazo fixo e cadernetas de poupança em dólares. Foi implementado pelo presidenteEduardo Duhalde em janeiro de 2002.

ESCRACHO: É um protesto personalizado, realizado na frente das residências das pessoas-alvo da manifestação. A modalidade, além de incluir gritos contra as pessoas “escrachadas” contempla o arremesso de objetos contundentes sobre a residência da pessoa. Ou, em uma versão mais light, o arremesso de tinta ou lama contra as janelas e paredes da residência. Os alvos dos escrachos em 2001 e 2002 eram primordialmente os integrantes da equipe econômica, governadores, prefeitos e parlamentares.

PLANOS TRABALHAR: Denominação genérica dos subsídios-desemprego fornecidos pelos governos Duhalde e do casal Kirchner.

TRUEQUE: Os “clubs del trueque” (clubes de escambo) foram em 2002 o âmbito onde os falidos argentinos trocavam produtos ou serviços por outros objetos. Desta forma, uma cabeleireira cortava o cabelo do farmacêutico em troca de determinado remédio. Os clubes surgiram primeiro na periferia. Mas, no meio da crise, o escambo até desembarcou no antes seleto bairro da Recoleta.

PATACONES: As “moedas paralelas” foram a peculiar forma de dinheiro utilizada intensamente durante a crise financeira, econômica e social de 2001-2002. Na ocasião, 14 das 24 províncias argentinas tiveram que recorrer à emissão dessas moedas. “Patacones”, “Lecops” e “Cecacors” foram os nomes de algumas das catorze “moedas paralelas” – também chamada de “quase-moedas” – emitidas na época pelos falidos governos provinciais para pagar salários de funcionários e fornecedores. Entre 2001 e 2003 as “quase-moedas” constituíram 38% do circulante da Argentina. Os “patacones” foram os mais populares.

DADOS SOBRE A ECONOMIA ARGENTINA ENTRE 2001 E 2011 

NÚMERO DE PIQUETES NA ARGENTINA (calculado pelo Centro de Estudos Nueva Mayoría)

2001 – 2336 piquetes

2002 – 1278

2003 – 1278

2004 – 1881

2005 – 1199

2006 – 817

2007 – 608

2008 – 5.608

2009 – 1399

2010 – 754

2011 (primeiro semestre) – 875

DÍVIDA PÚBLICA (dados do Ministério da Economia e consultorias econômicas)

2001 – US$ 144 bilhões

2002 – US$ 137 bilhões

2003 – US$ 179 bilhões

2004 – US$ 191 bilhões

2005 – US$ 129 bilhões

2006 – US$ 137 bilhões

2007 – US$ 145 bilhões

2008 – US$ 146 bilhões

2009 – US$ 147 bilhões

2010 – US$ 164 bilhões

PARTICIPAÇÃO DA DÍVIDA NO PIB

2001: 53,8%

2002: 134%

2003: 139%

2004: 125%

2005: 70,7%

2006: 64,2%

2007: 55,5%

2008: 44,9%

2009: 49,4%

2010: 44%

2011: 39,7% (estimativa) 

PIB (dados do Ministério da Economia, Indec e dados próprios da consultoria Orlando Ferreres e Associados)

2001 – US$ 268 bilhões

2002 – US$ 102 bilhões

2003 – US$ 127 bilhões

2004 – US$ 151 bilhões

2005 – US$ 181 bilhões

2006 – US$ 212 bilhões

2007 – US$ 260 bilhões

2008 – US$ 324 bilhões

2009 – US$ 297 bilhões

2010 – US$ 372 bilhões

2011 – US$ 448 bilhões (estimativa)

VARIAÇÃO DO PIB (dados do Ministério da Economia e consultorias econômicas)

2001: -4,4%

2002: -10,9%

2003: 8,8%

2004: 9%

2005: 9,2%

2006: 8,5%

2007: 8,7%

2008: 6,8%

2009: 0,9%

2010: 9,2%

2011: 8% (estimativa)

INFLAÇÃO (a partir de 2006 começam divergências entre cálculo oficial e extra-oficial)

2001: 4%

2002: 41%

2003: 3,7%

2004: 6,1%

2005: 12,3%

2006: 9,8% (mas, para economistas independentes foi de 10,7%.)

2007: 8,5% (mas, para economistas independentes foi de 25,7%.)

2008: 8,6% (mas, para economistas independentes foi de 28%.)

2009: 7,7% (mas, para economistas independentes foi de 25%.)

2010: 10,9% (mas, para economistas independentes foi de 26%)

RESERVAS DO BANCO CENTRAL (Dados do BC argentino)

2001: De US$ 36 bilhões (janeiro) caiu para US$ 15 bilhões (dezembro)

2002: US$ 10,4 bilhões

2003: US$ 14 bilhões

2004: US$ 19 bilhões

2005: US$ 28 bilhões

2006: US$ 32 bilhões

2007: US$ 46,1 bilhões

2008: US$ 46,3 bilhões

2009: US$ 47,9 bilhões

2010: US$ 52 bilhões

2011: US$ 47 bilhões

 

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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