“Corralito Verde” de Cristina Kirchner completa três anos (e um breve dicionário de dolarês argentino)
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“Corralito Verde” de Cristina Kirchner completa três anos (e um breve dicionário de dolarês argentino)

Nesta quinta-feira, dia 30, completam-se três anos do início das restrições que a Administração Federal de Ingressos Públicos (Afip) aplicou aos argentinos para a compra de dólares. Nessa data as autoridades obrigaram os contribuintes a conseguir a autorização do Fisco para a aquisição da divida americana, tradicional refúgio financeiro dos argentinos. Desta forma, o governo da presidente Cristina Kirchner, assolado pelo crescimento do déficit fiscal, recorreu às restrições para usá-las como um torniquete para deter a fuga de divisas.

arielpalacios

30 de outubro de 2014 | 14h20

 

Governo da presidente Cristina Kirchner, apelidade de “La Pinguina” (A Pinguim-fêmea, em alusão a El Pinguino, apelido do defunto ex-presidente Néstor Kirchner) aplicou uma série de medidas impostas aos argentinos que praticamente impedem que comprem dólares (foto de Ariel Palacios incluindo o Ben Franklin, o casal JD Perón e Evita Perón e os pinguins de Madagascar).

Nesta quinta-feira, dia 30, completam-se três anos do início das restrições que a Administração Federal de Ingressos Públicos (Afip) aplicou aos argentinos para a compra de dólares. Nessa data as autoridades obrigaram os contribuintes a conseguir a autorização do Fisco para a aquisição da divida americana, tradicional refúgio financeiro dos argentinos. Desta forma, o governo da presidente Cristina Kirchner, assolado pelo crescimento do déficit fiscal, recorreu às restrições para usá-las como um torniquete para deter a fuga de divisas.

Mas, as medidas da Casa Rosada para limitar a liberdade que os argentinos haviam tido nas quatro décadas anteriores para a compra de dólares, provocaram de forma imediata o ressurgimento do mercado paralelo de dólares, desaparecido desde 1991.

Ao longo deste período as restrições, chamadas ironicamente de “corralito verde” pelos argentinos também provocaram a drenagem de reservas do Banco Central. Desde 2011 as reservas tiveram uma queda de US$ 20,2 bilhõe, equivalente a uma perda de 42,5% do volume que possuía há três anos). Parte substancial desses fundos foram utilizados para a guerra cambial de Cristina em sua cruzada anti-dólar. As reservas do BC estão atualmente em US$ 27383 bilhões, o equivalente à uma redução de US$ 3,21 bilhões desde janeiro.

No início das restrições o dólar oficial era cotado em 4,28 pesos. Mas, depois de três anos do início das restrições, a cotação está atualmente está em 8,55 pesos.

A cotação paralela do dólar, que começou em outubro de 2011 em 4,49 pesos atualmente está em 14,68 pesos. Em janeiro estava em 10 pesos, patamar que lhe valeu a irônica denominação de “Dólar-Messi”, em alusão ao número que o astro do futebol ostenta na camiseta da seleção. Em setembro alcançou o recorde de 15 pesos, que lhe valeu o nome de “Dólar-Baile de debutantes”.

O governo de “La Pinguina” (A Pinguim-fêmea, apelido de Cristina Kirchner) também limitou as remessas de imigrantes residentes na Argentina e restringiu o envio de lucros por parte de filiais no país às empresas matrizes. Sem poder enviar os dólares para fora as empresas reinvestiram o dinheiro no país, fato que manteve durante boa parte deste tempo um aumento dos investimentos. Mas, desde o final do ano passado diversas empresas começaram a fechar suas portas e deixar o país. Segundo a Cepal, os investimentos estrangeiros diretos caíram 27% no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período deste ano.

Além de gerar uma escassez de divisas necessárias para a importação de insumos para a indústria argentina. Sem acesso à divisa, os importadores argentinos devem atualmente US$ 5 bilhões a seus fornecedores no exterior. “As restrições sobre os dólares produzem escassez da divisa e isso impacta na atividade produtiva, já que as empresas estão tendo que dar férias coletivas a seus operários porque não conseguem importar insumos para produzir, fato que aprofunda a recessão”, sustenta Mariano Lamothe, da consultoria Abeceb.

Sem o “corralito verde”, afirma a consultoria Economía & Regiones, a Argentina teria em 2014 um superávit comercial de US$ 12 bilhões, 110% maio ao total estimado para este ano.

Além disso, como efeito paralelo, o corralito gerou uma corrida cambial que, por seu lado, acelerou a escalada inflacionária. Além disso, com a proibição para as operações imobiliárias em dólares, o setor entrou em crise. Nos últimos doze meses fecharam 884 imobiliárias, informou a Ordem de Tabeliães da cidade de Buenos Aires. Segundo a consultoria Reporte Imobiliario, este é o pior ano para o setor desde 1980.

RESTRIÇÕES

Na primeira etapa o “corralito verde” proibia aos argentinos a compra de dólares para poupar, rompendo com o costume de comprar a divisa americana para guardar em casa, nas caixas de segurança, nas cadernetas de poupança na Argentina ou em contas no exterior.

As medidas também implicaram na proibição do uso de dólares por parte dos argentinos e estrangeiros residentes no país nas operações imobiliárias.

Nessa primeira etapa do “corralito verde” a compra de divisas ficou apenas autorizada para o caso de viagens ao exterior.

No entanto, posteriormente o governo Kirchner decidiu flexibilizar as restrições, permitindo, de forma limitada, a compra de dólares para poupar.

Mas, em setembro passado, perante a escalada do dólar, a Afip anunciou o aumento para o volume mínimo de receita mensal que uma pessoa na Argentina deve ter para conseguir a autorização para comprar dólares com o objetivo de poupar na moeda americana.

A Afip elevou em 22,5% o volume mínimo requerido de 7.200 pesos para 8.800 pesos, quantia equivalente ao dobro de um salário mínimo.

PRESIDENCIÁVEIS – Os candidatos da oposição às eleições presidenciais do ano que vem já prometem desmontar o “corralito” quando tomarem posse. Um deles, Sergio Massa, peronista dissidente, líder da Frente Renovadora, afirmou que o “corralito verde” pode ser “desmontado” em um prazo de 100 dias.

O presidente do Banco Central, Alejandro Vanoli, afirmou ontem (quarta-feira) que o governo não imporá “restrições adicionais” à compra e venda de divisas.

Vanoli afirmou que não está preocupado pelo nível de reservas do BC. Ele também descartou que o governo implemente uma nova desvalorização da moeda, tal como no início deste ano.

FRISSON DOS ARGENTINOS PELO DÓLAR ACUMULA QUATRO DÉCADAS

Em 1953, desde o alto da sacada da Casa Rosada, perante uma multidão acotovelada na Praça de Mayo, o presidente Juan Domingo Perón fez uma pergunta em tom de desafio: “alguém aí viu um dólar de perto?”. A multidão respondeu em uníssono: “não!” Perón sorriu satisfeito. O líder tentava minimizar a crescente importância da moeda americana em seu país. Mas a realidade o contrariava, pois até os militantes peronistas, na surdina, começavam a poupar em dólares.

No entanto, o frisson tornou-se generalizado a partir dos anos 70, quando o dólar transformou-se o refúgio preferido dos argentinos para resguardar suas economias em tempos de crise (e também em tempos de calmaria financeira e social). A procura pela divisa americana é um fenômeno nacional que envolve todas as classes sociais. Atualmente, segundo estimativas do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), os argentinos – desde a manicure até o CEO de empresas – acumulariam um total de US$ 217 bilhões fora do sistema financeiro, escondidos no tradicional colchão (entre outros refúgios domésticos), em caixas de segurança e contas bancárias no exterior.

Os argentinos tiveram de sobra nos últimos 40 anos para desconfiar dos governos e do sistema bancário. Desde 1974 a Argentina padeceu seis períodos de graves crises econômicas (sem incluir as crises breves ou mais suaves), incluindo confiscos bancários, desvalorizações abruptas, calote da dívida pública com credores privados (incluindo os pequenos credores argentinos).

Os momentos de inflação e as três épocas de hiperinflações (1989, 1990 e 1991) provocaram a perda do valor da desprestigiada moeda nacional, o peso argentino.

Os governos alternaram de forma quase esquizofrênica momentos de total abertura comercial com épocas de intenso protecionismo, privatizações e reestatizações.

De quebra, nestes 40 anos o país foi governado por 19 presidentes diferentes, entre militares e civis (incluindo os provisórios). Nestas quatro décadas passaram pela pasta da Economia 33 ministros, enquanto que o Banco Central está em seu trigésimo-quarto presidente. O país entrou em guerra uma vez (Malvinas, 1982) e quase foi à guerra em outra (com o Chile, 1978, pela disputa do canal de Beagle).

O jornalista econômico Alejandro Bercovich, que em conjunto com Alejandro Rebossio, escreveu “Sou Verde”, livro que relata e analisa o frisson dos argentinos pela moeda americana, disse ao Estado que “na contra-mão da Argentina no Brasil ninguém saberia dizer quanto sua casa custa em dólares. Mas aqui todos sabemos o valor na moeda americana. Além disso, o refúgio sempre foi o dólar, inclusive nos anos 90, quando não havia inflação. Ou, como entre 2003 e 2008, quando valia mais a pena as aplicações financeira, investir na Bolsa de Valores ou nos títulos da dívida. No entanto, apesar dessas outras alternativas, os argentinos continuaram indo atrás da moeda americana…esta é uma economia adicta ao dólar”.

PRESIDENTE DOLARIZADA – Em 2012, em plena cruzada anti-dólar da presidente Cristina, veio à tona um paradoxal detalhe: segundo sua declaração oficial de bens, a presidente investia em dólares.

Cristina possuía US$ 3,6 milhões em aplicações financeiras na moeda de “el império” (“o império”, denominação que seus militantes aplicam para referir-se aos Estados Unidos).

Ela havia tido essas aplicações em dólares durante uma década.

Mas, perante o escândalo gerado pela existência dessas aplicações na moeda americana, a presidente anunciou que “pesificaria” seu investimento.

Vários outros integrantes do governo – ministros e secretários – possuíam (e alguns ainda possuem) aplicações ou depósitos na divisa “yankee”.

 

BREVE DICIONÁRIO DE “DOLARÊS” ARGENTINO

Arbolito: “Arvorezinha”. Denominação dos cambistas. Antigamente o termo era aplicado somente às pessoas que ficavam na rua vendendo e comprando dólares na cêntrica rua Florida. Eram chamados assim porque ficavam imóveis, no meio do calçadão, tal como os vasos com arbustos que nos anos 70 existiam nessa via. Atualmente é aplicado para qualquer tipo de doleiro.

Cuevas: Escritórios nos quais trocam-se grandes quantidades de dólares. Alguns são recônditos. Outros, mais óbvios, estão dissimulados como agências de turismo, brechós e lotéricas, entre outros.

Delivery de dólar: Serviço feito pelas “cuevas” para a entrega de dólares aos clientes em seus domicílios. Geralmente os doleiros levam o maço de notas escondidas no tornozelo, dentro da meia.

Dólar Blue: Dólar paralelo. O nome “Blue” (azul) vem de “blue chip”, jargão da operação que pode ser feita pela bolsa de valores para transferir dólares para o exterior. O dólar usado pelos cambistas passou a ser chamado com o mesmo termo cromático.

Dólar Messi: Nome que o paralelo recebeu quando chegou aos 10 pesos, em alusão ao número dez que o astro argentino Lionel Messi do Barcelona FC possui na camiseta. Depois passou para “Dólar-Tevez” quando chegou nos 11 pesos. Há um mês – por alguns dias – chegou aos 15, recebendo a denominação de “dólar-baile de debutante”.

Corralito Verde: Expressão irônica para designar a bateria de restrições aplicadas pela presidente Cristina Kirchner, que praticamente impedem que os argentinos adquiram a divisa americana de forma legal.

Pesificação: A transformação de dólares para pesos. Os ministros do governo Kirchner afirmam que é preciso “pesificar” a dolarizada mente dos argentinos.

Luca verde: Mil dólares. Uma luca, na gíria portenha, equivale a mil.

Palo verde: Um milhão de dólares. Um “palo” equivale a um milhão. 

BREVE RESUMO:

OS ARGENTINOS SÓ PODEM ADQUIRIR DÓLARES PARA…

– Para o caso de viagens ao exterior (com a apresentação da passagem área) e uma detalhada explicação para onde viajará e os lugares onde o avião fará escala. Além disso, os habitantes deste país precisarão explicar ao Estado argentino os motivos que o levam a fazer essa viagem. Depois de avaliar estes dados, a receita federal decidirá se permite a liberação de dólares para essa pessoa.

Mas, a compra da moeda americana para viagens só poderá ser efetuada com dinheiro “bancarizado”. Desta forma, os argentinos ficam proibidos de adquirir os dólares com dinheiro em espécie, já que terão que resignar-se à compra da moeda americana por cartão de débito ou por cheque. A nova restrição sobre a moeda americana permitirá que apenas 30% da população possa comprar dólares, já que 70% dos argentinos – tradicionalmente desconfiados do sistema financeiro – não estão bancarizados.

– Para o caso de doações para pessoas vítimas de catástrofes naturais ou para casos de caráter humanitário de conhecimento público.

OS ARGENTINOS ESTÃO LIMITADOS PARA ADQUIRIR DÓLARES PARA…

– Para poupar, rompendo com o costume dos argentinos de comprar a divisa americana para guardar em casa, nas caixas de segurança, nas cadernetas de poupança na Argentina ou em contas no exterior (muitas das quais no vizinho Uruguai).

OS ARGENTINOS ESTÃO PROIBIDOS DE ADQUIRIR DÓLARES PARA…

– Para comprar imóveis, rompendo com a tradição de mais de quatro décadas de cotar casas, terrenos e apartamentos na moeda americana, o único ponto de referência estável em meio à diversas desvalorizações e períodos inflacionários na Argentina.

SEGUNDO O GOVERNO, OS ARGENTINOS DEVEM ESQUECER DO DÓLAR PORQUE…

– Segundo disse em 2012 a então presidente do Banco Central, Mercedes Marcó del Pont, é preciso evitar que o dinheiro fique “ocioso” (isto é, dentro dos colchões, outros esconderijos domésticos, caixas de segurança ou contas no exterior, costume que milhões de argentinos exercem há décadas). “Hoje podemos dizer que não temos escassez estrutural de dólares. Mas, não podemos nos dar ao luxo de que esses dólares se desloquem para fora da produção e fiquem ociosos. Esses dólares devem ser utilizados permanentemente para garantir o crescimento econômico!”, exclamou.

– Porque “o dólar é um problema cultural dos argentinos”, segundo o então chefe do gabinete de ministros, Juan Abal Medina, cujo pai é assessor há décadas do homem mais rico do mundo, o mexicano Carlos Slim.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

No mesmo ano recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

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