Cristina arrasa nas primárias e oposição sofre “apocalipse” eleitoral
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Cristina arrasa nas primárias e oposição sofre “apocalipse” eleitoral

arielpalacios

16 de agosto de 2011 | 08h09

 

Para oposição argentina, primárias deste domingo tiveram efeito equivalente a um apocalipse. Caso não ocorram drásticas guinadas, a Argentina poderia acumular doze anos de kirchnerismo. Acima, Teste Romeo de bomba nuclear na Operação Castle no atol de Bikini, Oceano Pacífico, no 27 de março de 1954.

A presidente Cristina Kirchnerteria sua reeleição praticamente assegurada no 23 de outubro, dia no qual os argentinos irão novamente às urnas para participar do primeiro turno das eleições presidenciais. A afirmação foi realizada ontem (segunda-feira) por analistas políticos e lideranças políticas que avaliaram que os 50,07% dos votos (com 96,84% das urnas apuradas nesta segunda-feira no início da noite) que apresidente Cristina tevenas eleições primárias argentinas deste domingo superaram qualquer pesquisa de opinião pública e as próprias bocas de urna elaboradas por consultorias vinculadas ao governo.

Com este resultado, Cristina ultrapassou sua própria marca de 2007, quando foi eleita presidente com 45,2% dos votos.

Em seu primeiro discurso após o encerramento das urnas, apresidente argentina -candidata da Frente pela Vitória, uma sublegenda kirchnerista do partido Justicialista (Peronista) – celebrou o resultado com uma expressão pouco comum na política: “esta foi um vitória do amor”.

Nesta segunda-feira), ostentando um rigoroso vestido preto em sinal de luto por seu marido, o ex-presidente NéstorKirchner – Cristina, em uma mini-coletivade imprensa na Casa Rosada, o palácio presidencial, afirmou que havia “quebrado a alma nestes quatro anos, que é algo que as pessoas valorizam em seus líderes”. A presidente, acompanhada por todo ogabinete presidencial, afirmou: “estes votos foram um reconhecimento a meu trabalho”.

A fala de Cristina chamou a atenção, já que a presidente costuma ser arisca à imprensa e não dava uma coletiva de imprensa desde antes da morte de seu marido em outubro passado. Além disso, no discurso e nas respostas, Cristina evitou seus costumeiros ataques à mídia e aos mercados e mostrou-se aberta ao diálogo com outras forças políticas, embora “no âmbito do Parlamento”.

Ensopado de lebre. Segundo Cristina, antes de sentar à mesa para saborear o quitute, é preciso abater o bichinho.

LEBRE – Cristina também evitou o ufanismo sobre sua eventual vitória nas eleições presidenciais de outubro com uma metáfora: “antes de fazer o ensopado de lebre, é preciso primeiro caçar a lebre”.

Enquanto isso, a oposição, desarticulada e dividida por profundos antagonismos, não conseguiu emplacar um candidato de pesopara enfrentar Cristina Kirchner, que obteve quase 38% a mais que o segundo colocado nestas eleições,Ricardo Alfonsín, da União Cívica Radical (UCR), que teve 12,17%. Uma décima atrás estava o ex-presidente Eduardo Duhalde, peronista dissidente,com 12,16%. O socialista Hermes Binner obteve 10,26%. Outro peronista dissidente, Alberto Rodríguez Saá, conseguiu 8,09%.

DOZE ANOS – Mariel Fornoni, analista política e diretora da consultoria de opinião pública Management & Fit, considera que “esta é uma situação muito delicada para a oposição”. Fornoni disse ao Estado que “o governo conseguiu 50% dos votos. A oposição reúne os outros 50%. Mas, é uma oposição desarticulada. Estes resultados indicam que, juntando os quatro anosde Nestor Kirchner, mais o atual governo de Cristina e uma assegurada reeleição, nós, argentinos, poderíamos ter doze anos de kirchnerismo…”.

Apresidente Cristina venceuem 23 das 24 províncias do país. Na empobrecida Santiago del Estero, no norte, arrebatou 80,15% dos votos. Em outra província assolada pela pobreza e o clientelismo, Formosa, conquistou 70,24%. Em La Rioja, onde o kirchnerismo fez uma insólita aliança com o ex-presidente Carlos Menem(1989-99), seu outrora arqui-inimigo, Cristina conseguiu 50,5%.

Cristina também teve o primeiro lugar na cidade de Buenos Aires – tradicional reduto anti-kirchnerista – onde obteve 30% dos votos. No entanto, tal como em 2007, Cristina não venceu na província de San Luis, governada há três décadas pelos irmãos Rodríguez Saá, peronistas dissidentes. Ali, Alberto Rodríguez Saá, teve 52% dos votos, enquanto que Cristina conseguiu 28,4%.

ECONOMIA – A socióloga Graciela Romer disse ao Estado que a vitóriade Cristina deve-se em parte ao “conservadorismo da população, que preferiu não mudaro time que conseguiu implementar um boom de consumo, apesar da inflação e da pobreza”. Na mesma linha de pensamento, Fornoni destaca que existe uma “percepção” de “estabilidade econômica” na população. “E, o que vale, nestas coisas, é aquilo que as pessoas percebem, tal como ocorreucom Carlos Menem em 1995, quando foi reeleito graças à bolha econômica. Mas, esta bolha, pouco depois estourou”.

E falando em hecatombes políticas, “Os quatro cavaleiros do Apocalipse” segundo o nuremburguês Albrecht Dürer. Em alemão soa mais terrível: “Die vier apokalyptischen Reiter”

OPOSIÇÃO ARGENTINA NÃO TERIA TEMPO PARA REVERTER O CENÁRIO DE DERROTA

O clima de perplexidade imperava desde o fim da noite de domingo entre os líderes da oposição, que não conseguiam digerir a ampla vitória de Cristina Kirchnernas eleições primárias. Além disso, existia estupefação pela simultânea fragmentação sem precedentes na História eleitoral argentina dos partidos de oposição. O jornal “La Nación”, crítico do kirchnerismo, acusou os líderes da oposição de “incapazes” e de terem sido “espancados” nas urnas pela presidente Cristina.

Os analistas afirmam que a oposição não conseguiu capitalizar a miríade de escândalos de corrupção do governoKirchner e ressaltamque nos 68 dias até as eleições presidenciais do 23 de outubro, não existe tempo suficiente para reverter o cenário de derrota que surgiu nas eleições primárias.

O sociólogo e analista político CarlosFara, o único pesquisador cujas pesquisas indicavam em suas projeções que Cristina chegaria aos 50%, disse ontem ao Estado que “não haverá um segundo turno em novembro. A eleição será definida mesmo no primeiro turno em outubro. O tamanho do triunfo do governo neste domingo indica que Cristina vencerá as eleições presidenciais, mantendo mais ou menos os mesmos votos destas eleições primárias. Já entre os candidatos da oposição pode haver alguma variação. Mas, nada que altere o resultado final”.

Mariel Fornoni, da consultoria Management & Fit, concorda: “pior não poderia ter sido para a oposição. Será tremendamente difícil que os candidatos da oposição possam mudar este cenário”, sustentou ao Estado. “No máximo, um dos dois principais candidatos da oposição poderia subir dos 12% obtidos no domingo para uns 20%. Mas não muito mais do que isso”.

No entanto, o ex-presidenteEduardo Duhalde, candidato do peronismo dissidente, exibiu otimismo e sustentou que enfrentará Cristina em outubro. “Vamos dar um grande susto ao governo”, afirmou sorridente. Sem entusiasmo, o candidato da União Cívica Radical,Ricardo Alfonsín, prometeu a seus aliados “correções e ajustes” nos próximos dois meses de campanha. Depois, tentou consolar seus militantes: “este foi somente um ensaio geral…a verdadeira eleição é em outubro!”.

CORRUPÇÃO – Fara considera que o governo vencerá as presidenciais, mesmo que comecem a aparecer novos casos de corrupção envolvendo integrantes do gabinete. “Por mais escândalos que ocorram, eles tem um peso muito relativo na opinião pública”. Além disso, descarta que a crise econômica internacional tenha efeitos significativos na população antes das eleições. “Mesmo que a inflação acelere muito nos próximos dois meses, as pessoas decidiriam que Cristina continuará por mais quatro anos”.

O jornalista e historiador Jorge Lanata recorda que Menem também foi reeleito pelos argentinos apesar da saraivada de escândalos de corrupção em 1995.

ELEIÇÕES PRIMÁRIAS…MAS SEM PRÉ-CANDIDATOS PRESIDENCIAIS: As eleições primárias – ou convenções partidárias – foram durante décadas totalmente optativas na Argentina. O Peronismo havia feito sua última convenção em 1989. A UCR, em 1999. Em 2009, o governo Kirchner implementou uma lei que tornava as primárias em ato obrigatório a todos os eleitores (e não somente os afiliados partidários), que seriam feitas de forma simultâneas com todos os partidos.

Na época, a intenção doex-presidente NestorKirchner, considerado o verdadeiro poder no governo de sua mulher, apresidente Cristina Kirchner, era o de derrotar seus concorrentes internos do partido Justicialista (Peronista).

Mas, na prática, isso não aconteceu, já que os dissidentes formalizaram grupos políticos separados, como o ex-presidente Duhalde. De quebra, entre março e junho deste ano todos os partidos com candidatos presidenciais definiram internamente – entre acordos de lideranças – seus candidatos únicos.

As primárias – cujo motivo original era o de definir os candidatos presidenciais de cada partido entre vários pré-candidatos – prometiam não passar de um mero trâmite burocrático para confirmar os candidatos únicos que cada grupo político já havia definido na prática e de forma antecipada entre março e junho. Mas, ao mesmo tempo, as primárias transformaram-se em uma virtual “mega-pesquisa eleitoral” que definiu a posição que cada candidato teria entre os argentinos para as presidenciais de outubro.

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Abraços a todos,

Ariel

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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