Guinada no outfit presidencial: depois de três anos Cristina Kirchner abandona monocromatismo funéreo
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Guinada no outfit presidencial: depois de três anos Cristina Kirchner abandona monocromatismo funéreo

arielpalacios

26 de novembro de 2013 | 21h15

Cristina Kirchner de branco. Depois de três anos o luto presidencial foi encerrado. Uma reunião nesta terça-feira dia 26 com executivos estrangeiros foi a primeira ocasião pública para mostrar a nova escala cromática não-necrômana da presidente.

A presidente Cristina Kirchner, antigamente uma usuária cotidiana de vestimentas de cores claras, ostentou desde a manhã do dia 27 de outubro de 2010 as cores escuras do luto. Naquela madrugada morreu seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007). De lá para cá, Cristina vestiu-se – impreterivelmente – de preto total durante três anos e 23 dias.

Na semana passada Cristina passou para a fase do “luto parcial”, ou “luto flexível”, ao aparecer – pela primeira vez desde a cirurgia na cabeça – em um vídeo com uma camisa branca. No entanto, a cor do luto permanecia na calça preta e no cardigan da mesma cor. Na ocasião a presidente Cristina Kirchner posou ao lado de um cão branco venezuelano – “Simon” – e um pingüim de pelúcia preto e branco.

Uma semana depois, nesta terça-feira a presidente Cristina deixou o luto flexível para aparecer vestida de branco. Era o fim do monocromatismo funéreo.

O novo look presidencial foi exibido durante uma reunião com Kurt Bock, Ceo da empresa química germânica Basf.

O luto de Cristina foi sui generis para os padrões argentinos, já que somente velhinhas muito conservadoras e ultra-católicas nos cafundós do interior usam o luto fechado.

O luto de Cristina era tão marcante que no ano passado um fabricante de brinquedos fez uma boneca da presidente com um figurino ad hoc. A “Barbie” presidencial, de um metro de altura, ostentava uma faixa presidencial, vestido de luto, colar de pérolas, pulseira combinando, cinto cor de marfim e tinha megahair.

Cristina e Cristinita. À esquerda, a presidente argentina em versão Homo sapiens. À direita, a presidente argentina em versão Barbie nacional. Ambas estavam com outfit funéreo.

EFEITO VIÚVA – Nos primeiros dias após a morte de Néstor Kirchner a opinião pública e os analistas políticos acreditavam que o luto seria removido uma semana após o funeral, na missa de sétimo dia. No entanto, a permanência do luto modificou as especulações, que começaram a indicar que acabaria ao completar o sexto mês. As profecias se repetiram quando estava perto o primeiro aniversário. Depois, com a posse de seu segundo mandato. Mas, o figurino da presidente viúva permanecia igual.

Na semana prévia à morte de Kirchner, a aprovação popular da presidente Cristina estava em pouco mais de 20%. Mas, uma semana depois chegou a 30%. Dois meses mais tarde, no Natal de 2010 já estava em 40%. Os cientistas políticos indicavam que tratava-se do “Efeito Viúva”, fator de impacto de uma sociedade que cultua os mortos.

Desde que Kirchner morreu, até semana passada, todos os discursos de Cristina faziam alguma referência ao marido defunto.

Alejandra Dahia, editora-executiva da revista “Notícias” – e a jornalista argentina que mais acompanhou de perto as mudanças no figurino de Cristina Kirchner – analisou em 2011 que, com o luto, ela “exibia a aliança política que mantém com seu marido morto”. Mas, os designers argentinos de moda também afirmavam que o figurino também tinha um lado mais frívolo, já que a cor preta a faz parecer mais elegante e magra.

No dia 8 de outubro Cristina foi operada de um hematoma no crânio. Depois, esteve 45 dias longe da vista dos argentinos. Quando retornou às câmeras, estava com o meio-luto. Algo havia mudado nesse período de convalescença. Uma semana mais tarde o luto não existia mais.

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Até no escaldante verão portenho Cristina Kirchner usava o luto. Acima, com um leque para arejar o rosto. 

“ELE” – O jornalista e escritor Pablo Mendelevich reuniu os principais verbetes utilizados pelo kirchnerismo no livro “O relato kirchnerista em 200 expressões”. Há um verbete no qual explica o uso de “Ele”.

Mendelevich sustenta que esse pronome, “utilizado por Cristina Kirchner depois de outubro de 2010 para equivaler seu marido morto com Deus explica melhor uma dimensão dos kirchnerismo relacionada com a fé”.

O autor ressalta que o pronome “Ele” para referir-se a Néstor Kirchner, morto na plenitude de sua carreira, com apenas 60 anos, indica uma “expectativa messiânica, inerente ao populismo”.

Cristina até alterou o trecho do juramento presidencial que faz alusão à eventual falta de cumprimento de seus deveres – “caso assim não o faça, que Deus e a Pátria o exijam” – acrescentando seu marido no meio: “caso assim não o faça, que Deus e a Pátria e …Ele o exijam!”

A inexorável garrafinha de água mineral. Cristina Kirchner. A filha presidencial, Florencia, a cineasta que estudou em Nova York. E o luto.

NECROMANIA – “Necromania” é a obsessão dos vivos pelos mortos (não confundir com “necrofilia”, que designa o sexo com os cadáveres). Segundo Claudio Negrete, autor de “Necromania: História de uma paixão argentina”, o ex-presidente Kirchner “já ganhou seu espaço na cultura necrômana nacional. Ele já entrou para a galeria dos ilustres mortos que a sociedade argentina se encarregará de manter vivo. Seu nome foi usado intensamente nas campanhas eleitorais”.

O escritor e ensaísta Tomás Eloy Martínez, autor de “Santa Evita” e “O voo da rainha”, morto há poucos anos, criticava com ironia a obsessão de seus compatriotas pelos mortos: “a necromania é coisa típica dos argentinos, tal como o doce de leite”.

REBATIZADOS – Nos últimos três anos o país foi o cenário de uma desenfreada febre de fúnebre toponímia, que consistiu em mudar todos os nomes para “Néstor Kirchner”.

Tudo começou no próprio dia do funeral de Kirchner, 29 de outubro, quando em Río Gallegos, cidade natal do ex-presidente, militantes kirchneristas colaram adesivos em cima das placas da Avenida Julio Roca, rebatizando-a de “avenida Néstor Kirchner”.

Esse rebatizado informal foi corroborado dias depois pela câmara de vereadores da cidade em uma sessão onde os kirchneristas cantavam em coro: “você já vê, você já vê, é para o Néstor que olha desde o céu”.

Isso gerou uma corrida acelerada de prefeitos, vereadores, governadores e deputados em todo o país para rebatizar todo tipo de coisa antes dos outros.

Desta forma, foram designadas com o nome do defunto presidente Kirchner ruas, avenidas, escolas, uma rodoviária, um túnel, pontes, torneios de futebol, bolsas de estudo, hospitais, conjuntos habitacionais e até um laboratório de estudos genéticos bovinos. Uma das duas maiores hidrelétricas do país, na Patagônia, ostentará o nome do ex-presidente morto, homenagem que nenhum outro ex-presidente obteve em toda a História argentina.

Além disso, as autoridades inauguraram estátuas de Kirchner em diversos pontos do país. Seu nome também designa o prédio da Faculdade de Jornalismo da Universidade de La Plata, embora o ex-presidente jamais tenha dado uma coletiva de imprensa.

Kirchner no Céu, junto com Perón. Fotomontagem que circula na web.

BEATIFICAÇÃO – O historiador José Luis Romero afirma que nestes três anos a presidente Cristina “colocou Kirchner em uma esfera sobrenatural que, por um lado, motiva seus militantes. E, por outro, serve de inspiração à viúva, atual presidente”.

Romero sustenta que Cristina fez nos últimos anos um uso da figura de Kirchner similar ao que o imperador Augusto fez com a imagem de Júlio César, em referência à política de idolatria que o primeiro imperador romano aplicou com seu famoso tio general, assassinado dentro do Senado em Roma.

O historiador sustenta que o governo realizou uma “espécie de beatificação” de Kirchner que é acompanhado da “elaboração de um relato mítico contraditório”.

E, para encerrar esta noite, um gênio interpreta outro: o tango “Para lucirse”, de Astor Piazzolla, por Aníbal Troilo:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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