Cristina Kirchner chega ao ‘meio do caminho’
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Cristina Kirchner chega ao ‘meio do caminho’

arielpalacios

10 de dezembro de 2009 | 11h00

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Nas eleições presidenciais de 2007, do total de 27 milhões de eleitores votaram 19 milhões. Cristina Kirchner recebeu 8,65 milhões de votos.
No entanto, 8 milhões de eleitores abstiveram-se de votar. Outros 1,33 milhão votaram em branco. Outros 240 mil eleitores anularam seus votos.
No total, 9,570 milhões optaram por não depositar seus votos a favor de candidato algum. Isto é, foram a principal opção no processo eleitoral argentino de 2007.

Cristina Kirchner (CFK) e seu marido, antecessor, ex-presidente e partner político, Néstor Kirchner.
Ilustração do cartunista argentino El Niño Rodríguez (seu site: www.elninorodriguez.com ; site do jornal ‘Crítica’ no qual publica diariamente: www.criticadigital.com/nino/ )

FATOS, NÚMEROS E PECULIARIDADES DOS DOIS ANOS DE CFK NO GOVERNO
Cristina E. F de Kirchner completa nesta quinta-feira dia 10 de dezembro dois anos no governo. Está no meio de seu mandato. Há exatos dois anos foi empossada como presidente da República e recebeu a faixa e o bastão presidencial do próprio marido, Néstor C. Kirchner. Foi a primeira vez na História do mundo em que um presidente, eleito nas urnas, passava o poder à cônjuge, também eleita por vias democráticas.
A campanha de Cristina foi realizada com o respaldo de toda a máquina do governo do marido e antecessor.

DENOMINAÇÕES
Cristina Kirchner faz questão de ser chamada de “presidentA“, com a letra ‘A’ no final.
Apelidos de Cristina: “Rainha Cristina”, “A rainha do Botox”, ou diretamente as iniciais ‘CFK’.

VOTOS
Evolução da votação dos Kirchners, desde que chegaram ao poder, há seis anos:
Presidencial, em 2003: 22% dos votos
Parlamentar em 2005: 38,9% dos votos
Presidencial em 2007: 45,6% dos votos
Parlamentar em 2009: 30% dos votos
(Todos os votos referem-se aos votos válidos emitidos)

APOGEU
Cristina controlava, quanto tomou posse em dezembro de 2007, entre parlamentares próprios e aliados
– 161 deputados, de um total de 257
– 47 senadores, de um total de 72

QUEDA
Cristina controla, dois anos após sua posse, entre parlamentares próprios e aliados
– 104 deputados, de um total de 257
– 36 senadores, de um total de 72

PLANOS DE PODER
Entre 2006 e 2007, os Kirchners definiram um plano para a sucessão (segundo fontes do governo e analistas) :
– Kirchner, com o primeiro mandato, entre 2003 e 2007.

– Entre o final de 2006 e início de 2007 ficou definido que a candidata para a sucessão de Kirchner seria Cristina.

– Cristina foi eleita em 2007 (cujo mandato conclui em 2011).

– O casal monitoraria clima político para ver se em 2011 conviria mais a candidatura de Kirchner, que voltaria ao poder, ou a de Cristina, que apresentaria-se para reeleição.

– Se Cristina fosse a candidata para reeleição em 2011, Kirchner esperaria seu turno para 2015.

– Esses planos estariam em stand by atualmente, já que o casal possui 70% de imagem negativa. Mas, os Kirchners tentam ampliar sua base de poder com uma série de leis, aprovadas recentemente:
1 – Lei de Mídia (que restringe a ação dos meios de comunicação críticos com o governo)
2 – Prorrogação dos ‘superpoderes’ econômicos (pacote de leis que permite que a presidente possa alterar grande parte do Orçamento Nacional sem necessidade de aprovação do Parlamento)
3 – Reforma política (que complica a existência dos partidos pequenos e favorece o Peronismo e a União Cívica Radical)

FALHAS, PROBLEMAS E CRÍTICAS
– Cristina Kirchner é criticada por sua vaidade pessoal, sua fama de shopaholic, supostas cirurgias plásticas e autoritarismo.

– Ela e seu marido são suspeitos de enriquecimento ilícito

– Ministros e ex-ministros são suspeitos de vários casos de corrupção

– Oposição afirma que Kirchners ‘improvisam’ política econômica

– Cristina é acusada de “fraca”, por deixar que seu marido seja o real poder do governo

– Em março de 2008 Cristina Kirchner abriu um conflito de vários meses de duração com os ruralistas. Tentou implementarn um impostaço agrário para arrecadar US$ 2 bilhões. Mas, o país e o Estado argentino tiveram perdas de US$ 7 bilhões.

– Desde o ano passado abriu uma guerra contra os principais meios de comunicação do país

– No ano passado o governo de Cristina foi o alvo dos primeiros panelaços desde a crise de 2001-2002

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ECONOMIA

Evolução do PIB
2003 (quando seu marido Néstor Kirchner tomou posse): 8,8%
2004: 9%
2005: 9,2%
2006: 8,6%
2007: 8,6% >(Cristina tomou posse em dezembro desse ano)
2008: 7%
2009: (previsões) O governo calcula que o PIB crescerá 0,5%; os economistas afirmam que teria queda de 3%.

Pobreza
– A pobreza caiu de 54% em 2003, quando Kirchner tomou posse para 23,4% em 2006.

– Em 2007, começam disparidades entre as estatísticas do governo e economistas independentes

– Em julho de 2009,
a) segundo o governo, a pobreza atingiu 13% da população;
b) para economistas independentes e a Igreja Católica, a pobreza voltou a crescer e atinge de 30% a 40% dos argentinos

Desemprego
O desemprego caiu…
– Dos 17,8% em 2003
– Para 8,1% em 2007 (quando Cristina tomou posse)
E começou a subir…
– Atualmente o governo afirma que o desemprego é de 9%, mas analistas privados dizem que passou dos 12%

Reservas do Banco Central
As reservas do BC passaram de US$ 14 bilhões em 2003 para US$ 50 bilhões em 2007 (quando Cristina tomou posse).
Atualmente são de US$ 47 bilhões.

Cotação do dólar
A cotação do dólar passou de 2,9 pesos em 2003 para 3,16 pesos em 2007. Atualmente a cotação é de 3,80 pesos.

Fuga de divisas
2008: US$ 23,6 bilhões
2009: US$ 14,5 bilhões (entre janeiro e novembro)

O ‘MEIO DO CAMINHO’

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Em dois anos o casal Kirchner dilapidou hegemonia política e levou o país à crise econômica

Cristina Kirchner completa nesta quinta-feira dois anos de governo, o exato ponto no meio de seu mandato presidencial. Quando chegou ao governo, no dia 10 de dezembro de 2007, com o respaldo de 45,6% dos votos nas eleições presidenciais – o dobro dos 22% obtidos em 2003 por seu marido e antecessor, o ex-presidente Néstor Kirchner – e uma popularidade de 55%, ela contava com o respaldo de 20 dos 24 governadores e o apoio de intelectuais, organizações de defesa dos Direitos Humanos e os sindicatos.

Além disso, controlava – entre aliados e parlamentares próprios, 161 deputados, de um total de 257 na Câmara. No Senado era obedecida por 47 senadores de um total de 72.

Na ocasião, o cientista político Rosendo Fraga, afirmou ao Estado: “começa um período de hiper-presidencialismo”. O casal Kirchner estava no pináculo do poder. Perante esse cenário de hegemonia a classe política apenas fazia uma pergunta na época: “quem será candidato à sucessão em 2011? Cristina ou Néstor?”.

Mas, dois anos depois, grande parte desse capital político está desintegrado. O golpe de misericórdia no encolhimento do poder dos Kirchners foi a derrota nas eleições parlamentares de junho, quando o governo obteve somente 30% dos votos válidos em todo o país.

Atualmente, juntando aliados e deputados próprios, na Câmara o casal Kirchner somente possui 104 parlamentares de um total de 257.
No Senado também perdeu a maioria que ostentava, já que conta com 36 senadores de um total de 72.
O problema é que o voto de Minerva está nas mãos do vice-presidente da República, Julio Cobos (que também é o presidente do Senado), que rachou com Cristina Kirchner durante o conflito com os ruralistas no ano passado. Para irritação dos Kirchners, Cobos é um potencial presidenciável da oposição.

Pela primeira vez em seis anos o governo será minoria no Parlamento. “O kirchnerismo não poderá mais sentir-se o dono do Congresso Nacional. Será apenas um inquilino a mais”, ressalta o colunista político Fernando Laborda.

Dos 24 governadores, apenas 10 obedecem Cristina, especialmente aqueles das províncias em graves problemas financeiros, que dependem dos fundos federais para pagar o funcionalismo público e evitar conflitos sociais. O esvaziamento do poder também foi interno, já que um terço do peronismo deixou as fileiras do governo e organizou-se como um grupo dissidente.

Nesse intervalo de dois anos a presidente deflagrou um insólito conflito com o setor ruralista que paralisou o país, gerou desabastecimento de alimentos, intensificou a escalada inflacionária. De quebra, o conflito mobilizou a classe média das grandes cidades, que protagonizou os primeiros panelaços desde a crise de 2001-2002. A fuga de divisas bateu todos os recordes históricos, enquanto que os investidores internacionais optavam por países previsíveis como o Brasil, Chile e até o pequeno Uruguai.

O cenário conturbado complicou-se mais com a decisão da presidente de pressionar o empresariado para aumentos salariais. A estatização inesperada da companhia aérea Aerolíneas Argentinas, do sistema de aposentadorias e das transmissões dos jogos de futebol intensificaram os temores do empresariado. Na semana passada, a Associação Empresarial Argentina (AEA), costumeiramente de baixo perfil, criticou a “excessiva intervenção do Estado na economia”.

Mas, desde a derrota nas eleições parlamentares em junho, até a semana passada, quando o novo Parlamento prestou juramento, os Kirchners atarefaram-se em conseguir uma série de medidas que lhes garantirão poder político, apesar da elevada impopularidade.

Entre as medidas estão a aprovação dos superpoderes econômicos (com os quais poderá reconfigurar grande parte do Orçamento Nacional sem aprovação do Congresso), a lei de mídia (que limitará os meios de comunicação críticos) e a reforma política (que restringirá a criação de novos partidos).

A socióloga e analista política Graciela Römer disse ao Estado que inicia um cenário insólito para a Argentina, já que nos dois anos que restam o casal Kirchner terá que lidar com um Parlamento opositor: “este é o governo menos disposto a submeter-se às restrições que um sistema republicano de governo impõe. Este governo faz isso em nome de uma concepção cesarista da democracia e de colocar a luta contra os ‘inimigos do povo’ antes das regras formais do sistema democrático”.

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Néstor Kirchner, ‘cão de guarda’ de Cristina no Parlamento, promete ‘guerra’ contra oposição.
Ilustração do cartunista argentino El Niño Rodríguez (seu site: www.elninorodriguez.com ; site do jornal ‘Crítica’ no qual publica diariamente: www.criticadigital.com/nino/ )

NÉSTOR, O VERDADEIRO PODER POR TRÁS DE CRISTINA
Ao longo dos anos 80 e 90, Néstor Kirchner e sua esposa Cristina Kirchner fizeram carreiras política paralelas. Enquanto ele era eleito prefeito de Río Gallegos e posteriormente governador da província de Santa Cruz, ela chegava à Câmara de Deputados, para entrar no Senado na sequência. Quando Kirchner chegou à presidência, os rumores do âmbito governamental indicavam que Néstor pedia constantemente os conselhos de Cristina. Por este motivo, quando ela foi eleita sua sucessora (a primeira vez na História mundial que uma esposa sucedia ao próprio marido por intermédio das urnas) a classe política e a opinião pública consideravam que o país teria um “governo bicéfalo”.

Mas, imediatamente os argentinos perceberam que o verdadeira cabeça do governo de Cristina Kirchner era seu marido Néstor. O ex-presidente, formalmente fora da administração federal, continuou reunindo-se com seus ministros (que havia repassado à esposa). Líderes sindicais encontram-se primeiro com Kirchner para fechar acordos antes de assiná-los com a presidente.

Graciela Römer considera que “os argentinos esperavam que Cristina Kirchner se encarregasse dos pontos fracos do governo de seu marido, isto é, melhorar a institucionalidade e abrir diálogo com a oposição. Nada disso aconteceu. E para complicar, acrescenta-se o impacto da crise financeira mundial, o desemprego e a inflação. De quebra, o aumento da criminalidade. Isso tudo explica a derrota que os Kirchners sofreram nas eleições parlamentares”.

Römer destaca que a “hiper-presença de Néstor Kirchner em seu governo não permitiu que Cristina Kirchner desenvolva uma agenda e um perfil próprio, fato que a expôs a um enfraquecimento de sua imagem”.

Kirchner, na semana passada, prestou juramento como deputado federal. Os analistas afirmam que nesse posto agirá como “cão de guarda” do governo de sua esposa.

O cientista político Rosendo Fraga sustentou que o encolhimento do poder no Parlamento será uma experiência política nova para o kirchnerismo e para o próprio Néstor Kirchner. Fraga sugere que a adaptação não será fácil: “se bem os líderes políticos mudam de ideologia de acordo com os interesses, conveniências e as circunstâncias, eles não mudam de personalidade…”.

‘CÃO DE GUARDA’
Kirchner prestou juramento pela primeira vez em sua vida como parlamentar e assumiu sua cadeira de deputado federal, para a qual foi eleito nas eleições de junho passado.

Na ocasião o “kirchnerismo” sofreu uma derrota histórica, ao ficar com apenas 30% dos votos em todo o país. A derrota implicou na perda da maioria que Kirchner e sua esposa e presidente Cristina Kirchner ostentaram na Câmara e no Senado ao longo dos últimos seis anos e meio.

Kirchner, que até ontem havia acumulado cargos executivos (prefeito da cidade de Río Gallegos, governador da província de Santa Cruz e presidente da República), não será um deputado qualquer do governista partido Justicialista (Peronista). Kirchner – segundo parlamentares governistas e da oposição indicaram ao Estado – será um “cão de guarda” de sua esposa nessa casa do Congresso Nacional.

O próprio Kirchner declarou à imprensa: “eu é que vou apresentar no plenário os projetos do Poder Executivo”.

Os analistas políticos estão curiosos pelo comportamento que Kirchner terá no plenário, já que o ex-presidente foi conhecido por governar por decretos, prescindindo em boa parte de seu mandato (2003-2007) do Parlamento. “Kirchner despreza a instituição do Parlamento”, disse recentemente ao Estado o ensaísta Marcos Aguinis, autor de “O atroz encanto de ser argentino”.

Durante o juramento dos colegas Kirchner não seguiu o protocolo e conversou e riu com parlamentares sentados a seu lado.

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Ácido humor portenho não poupa os Kirchners

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