Cristina Kirchner cria secretaria para “coordenar pensamento nacional” e um “ibope estatal”
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Cristina Kirchner cria secretaria para “coordenar pensamento nacional” e um “ibope estatal”

arielpalacios

08 de junho de 2014 | 21h56

Ricardo Forster, intelectual kirchnerista, que exalta a figura do casal Kirchner, será o secretário da Coordenação do Pensamento Nacional.

Coordenar o “pensamento nacional”. Essa será a função da secretaria da Coordenação Estratégica do Pensamento Nacional, criada por decreto da presidente Cristina Kirchner, publicado na quarta-feira no Diário Oficial, que determinou que o chefe dessa nova entidade será o filósofo e ex-candidato a deputado pelo kirchnerismo, Ricardo Forster. O objetivo oficial da secretaria, que estará na órbita do Ministério da Cultura, é o de “projetar, coordenar e instrumentar uma usina de pensamento nacional, ajustado com as diretrizes que a secretaria defina”.

A secretaria, que estará encarregada, segundo o decreto, de “estimular” a “percepção do ser nacional”, também financiará a produção de filmes que sejam distribuídos como “material de formação”. A referência ao “ser nacional” gerou críticas ontem na mídia, já que era uma expressão que a ditadura militar (1976-83) argentina utilizava com frequência para exaltar os “valores” patrióticos e criticar a “subversão apátrida”.

O novo secretário, Ricardo Forster, derrotado nas eleições parlamentares de outubro passado, tornou-se conhecido na opinião pública nos últimos anos por ser um dos líderes da “Carta Aberta”, grupo de intelectuais que respaldam o kirchnerismo de forma incondicional, que relativizam os casos de corrupção da Casa Rosada.

O filósofo, que define-se como “um democrata de verdade”, ficou surpreso com a designação de “coordenador do pensamento”, já que foi informado pelos meios de comunicação: “espero que me telefonem para me avisar de forma oficial”. Forster também sustentou que a nova secretaria “não será um comissariado político”.

Há vários anos a presidente Cristina e seus aliados afirmam que é preciso vencer o que denomina de “a batalha cultural”, expressão que a Casa Rosada utiliza para denominar a épica do governo para ocupar a maior parte possível dos espaços na mídia, deslocando a “oligarquia”. Desta forma, o governo subsidiou a produção de séries e filmes que exaltam figuras do passado histórico argentino admirados pela presidente Cristina e dão a versão “oficial” da História.

Há três anos o governo Kirchner criou outro organismo controvertido: “Instituto Nacional de Revisionismo Histórico Argentino e Ibero-americano Manuel Dorrego”, que depende do Ministério da Cultura e funciona com fundos públicos. Cristina, na ocasião, determinou que a revisão da História do país será uma atividade controlada pelo Estado argentino. Na cabeça da entidade colocou na época o historiador Mario ‘Pacho’ O’Donnel, um declarado admirador dos caudilhos argentinos.

Neste “combate cultural” o governo também criou as primeiras histórias em quadrinhos estatais da América do Sul, distribuídas gratuitamente pela agência Télam à maioria dos jornais do país, especialmente do interior, mais pobres. A intenção era a de reduzir a influência dos quadrinhos estrangeiros, exaltar valores nacionais e apontar “traidores da pátria”.

Presidente Cristina Kirchner durante cerimônia na Casa Rosada.

IBOPE ESTATAL – Nesta sexta-feira Cristina Kirchner anunciou a criação de um “confiável” sistema estatal de medição da audiência na TV, denominado “Sistema Federal de Medição de Audiências” (Sifema). Este “ibope” estatal pretende, segundo Cristina, “monitorar” aquilo que “40 milhões de argentinos assistem pela TV, de norte a sul”.

A presidente sustentou que a medição elaborada por essa entidade será “independente”, já que será elaborada por onze universidades. Não existem antecedentes no mundo de medições de audiência realizadas por um organismo público.

“Queremos fazer um sistema totalmente transparente, de qualidade internacional e que possa ser auditado por todos”, disse Cristina, que também sustentou que a nova entidade pública permitirá que “os argentinos conheçam quais são suas preferências e seus gostos”.

No entanto, a criação de um “Ibope para o povo”, tal como o denominam os assessores da presidente Cristina Kirchner, surge em meio a um clima de desconfianças acumuladas sobre as estatísticas elaboradas pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec). A administração Kirchner é acusada de manipular desde 2007 os índices de inflação, pobreza, desemprego e PIB.

A presidente criticou o atual sistema de medição de audiências, elaborado pela empresa brasileira Ibope, e afirmou que o mecanismo do Sifema será feito com “precisão científica”.

O governo Kirchner havia anunciado em meados de 2010 a criação “iminente” de um sistema estatal de medição de audiências. No entanto, de lá para cá adiou várias vezes o projeto. Mas, segundo Cristina, o sistema já está funcionando em pequena escala, com medições na cidade de Buenos Aires e a região metropolitana.

Nos últimos anos o governo Kirchner aumentou gradualmente sua presença em diversas áreas da comunicação. Em 2008 declarou guerra aberta a diversas empresas de mídia, principalmente contra o Grupo Clarín. Na sequência aprovou a lei de mídia (que limita a ação dos grupos de comunicação) e preparou uma virtual intervenção na única fábrica de papel de jornal do país (por intermédio da declaração de bem de utilidade pública).

Além disso, realizou os maiores gastos da História da Argentina em publicidade oficial e estatizou as transmissões dos jogos de futebol, ao longo dos quais somente veicula publicidades com elogios à presidente Cristina e suas obras.

Jazz para embalar esta jornada, “I’m at the top of the world”. Com o genial Al Jolson:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

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