Cristina Kirchner e opositores passam neste domingo por sui generis “semi-final” eleitoral
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Cristina Kirchner e opositores passam neste domingo por sui generis “semi-final” eleitoral

arielpalacios

14 de agosto de 2011 | 15h06

Pela primeira vez na História, hoje os argentinos irão às urnas para votar em eleições de convenções partidárias simultâneas, abertas e obrigatórias. Há poucos meses, as primárias – cujo motivo original era o de definir os candidatos presidenciais de cada partido entre vários pré-candidatos – prometiam não passar de um mero trâmite burocrático para confirmar os candidatos únicos que cada grupo político já definiu na prática e de forma antecipada entre março e junho. No entanto, perante a disparidade de pesquisas eleitorais e a atomização da intenção de voto, e o grande volume de indecisos, as eleições deste domingo transformaram-se em uma virtual semifinal das eleições presidenciais do dia 23 de outubro.

Os resultados que começarão a aparecer entre hoje à noite e a madrugada desta segunda-feira (a Argentina não conta com voto eletrônico, que o governo Kirchner não aprova) indicariam quais seriam as chances da presidente Cristina Kirchner obter a vitória no primeiro turno, além de desvendar qual é o candidato favorito da oposição.

Segundo o cientista político Mario Serrafero, pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet), estas primárias seriam um “virtual primeiro turno no qual será possível visualizar o rendimento de cada um dos competidores”.

A analistade opinião pública Mariel Fornoni, da consultoria Management & Fit disse ao Estado que “embora exista um cenário que mostra que mais de 55% do eleitorado não votaria no kirchnerismo, a marcante dispersão da oposição é um fator que possibilitaria uma vitória dapresidente Cristina em outubro”.

Uma pesquisa da Management & Fit indicou que a presidente Cristina, da Frente pela Vitória, uma sublegenda do Partido Justicialista (Peronista), conta com 36,8% das intenções de voto. O deputado Ricardo Alfonsín, candidato da União Cívica Radical (UCR), que integra a coalizão União para o Desenvolvimento Social (Udeso), possui 17,5%, enquanto que o ex-presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003), de uma facção do peronismo dissidente, contaria com 12,7%.

O governador de San Luis, Alberto Rodríguez Saá, de outro setor peronista dissidente, tem 6,2%, enquanto que o socialista Hermes Binner possui 6,1% das intenções de voto. A deputada Elisa Carrió, da Coalizão Cívica, apelidada de “a caçadora de corruptos”, conta com 4,5%.

No entanto, com a projeção dos indecisos, Cristina poderia obter 41%. Esta proporção seria suficiente para sua vitória no primeiro turno, já que no sui generis sistema eleitoral argentino, vence na primeira fase nas urnas o candidato que consiga 40% dos votos, sempre que o segundo colocado esteja dez pontos percentuais abaixo (isto é, com menos de 30%). A outra alternativa para vencer no primeiro turno é a de obter 45% dos votos, independentemente da margem que tenha para o segundo colocado.

Alfonsín, com a projeção de indecisos, teria 19,6%, enquanto que Duhalde ficaria com 14,3%. Estes dois candidatos, os melhores posicionados da oposição, lutam para conseguir o segundo lugar e obter uma grande diferença do terceiro. Desta forma, o candidato da oposição com mais votos, poderá apelar à necessidade do “voto útil”para derrotar Cristina Kirchner. Segundo Fornoni, as primárias servirão aos candidatos para verificar quais são os ajustes estratégicos que deverão ser feitos nos próximos – e decisivos – dois meses.

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INI-PERFIS DOS PRINCIPAIS CANDIDATOS PRESIDENCIAIS

CRISTINA KIRCHNER –Primeira presidente mulher eleita democraticamente nas urnas na Argentina, Cristina Kirchner também ostenta o recorde mundial de ter sido o primeiro caso de um cônjuge que recebe a presidência da república das mãos de seu próprio marido. O ex-presidente Néstor Kirchner, considerado por analistas políticos, a opinião pública e o próprio entourage presidencial o verdadeiro poder nos três primeiros anos do governo de Cristina, morreu em outubro passado. Na ausência do defunto marido, Cristina tornou-se a candidata do governo na corrida para obter o terceiro mandato kirchnerista.

RICARDO ALFONSÍN– Ricardo Alfonsín é definido com frequência como um semi-clone de seu pai, Raúl Alfonsín, primeiro presidente civil com a volta da democracia em 1983. Ricardo foi lançado como presidenciável durante o velório de seu pai, em 2009. Mas, ser “filho de” teve seus prós e seus contras, sendo usado tanto para elogiá-lo como para condicioná-lo. “Não sou Raúl Alfonsín, sou Ricardo Alfonsín!”, responde visivelmente irritado quando insistem nas comparações com a figura paterna.

EDUARDO DUHALDE– Durante duas décadas e meia Duhalde foi o referente de poder na provínciade Buenos Aires, que concentra quase 40% do eleitorado argentino. Em 1989 foi vice-presidentede Carlos Menem.Em 1991 foi eleito governador bonaerense. Em 1999 perdeu a eleição presidencial. Mas, em janeiro de 2002, quando o país estava mergulhado na maior crise de sua História, foi designado presidente provisório. Em 2003 conseguiu eleger o até então desconhecido Néstor Kirchner como sucessor. Kirchner o abandonou e Duhalde perdeu quase todo seu poder. Agora pretende fazer sua reentrada triunfal.

ELISA CARRIÓ – “Cavaleira templária da República” é uma das definições aplicadas a Carrió, conhecida por sua visceral luta pela ética na costumeiramente corrupta política local. Desde que entrou na política por acaso em 1994, tornou-se a principal denunciante de casos de corrupção dos governos de plantão. Seus inimigos e aliados reconhecem que tem temperamento “apaixonado” e “genial”. Mas também afirmam que é “precipitada”. Leitora de Kierkgaard e Freud, costuma fazer analogias filosóficas e psicanalíticas sobre a política nativa.

ALBERTO RODRÍGUEZ SAÁ– Poucos políticos no mundo poderiam reunir os adjetivos de “eficaz”, “caudilho” e “amigo de extraterrestres”. No entanto, o governador de San Luis,Alberto Rodríguez Saá, acumula todas essas qualificações. Alberto – famoso por afirmar que tem contatos telepáticos com os habitantes do planeta Xilium – é descendente de caudilhos que governaram a província no século dezenove. Seus críticos o acusam de “corrupto”. Seus defensores afirmam que “rouba mas faz…e faz muito, com eficácia”.

HERMES BINNER – Líder do Partido Socialista, Binner é um moderado que compensou sua ausência de carisma – elemento crucial na política argentina, marcada por líderes populistas – com a construção de uma imagem de “eficácia” durante seu governo na província de Santa Fe. Binner, um dos poucos governadores sem envolvimento em escândalos de corrupção, ambiciona os votos dispersos da esquerda e da centro-esquerda decepcionada com o kirchnerismo.

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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