Cristina Kirchner turbina sua cruzada anti-dólar e anaboliza “corralito verde”
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Cristina Kirchner turbina sua cruzada anti-dólar e anaboliza “corralito verde”

arielpalacios

30 Maio 2012 | 12h16

 

De olho no dólar: governo intensifica cruzada contra a moeda dos EUA, principal objeto do desejo no cotidiano financeiro dos argentinos.

O “corralito verde”, a denominação irônica que os argentinos aplicam ao sistema de controle de dólares do governo da presidente Cristina Kirchner, ficou mais intenso nesta terça-feira com a entrada em vigência do controle estatal sobre a compra de dólares que os turistas argentinos pretendam levar para seus gastos no exterior. Com esta nova norma, o governo Kirchner impõe a obrigatoriedade de um pedido especial à Administração Federal de Ingressos Públicos (Afip) – sigla da a Receita Federal argentina – no qual os contribuintes deverão especificar, além da quantia de moeda americana que pretendem comprar, o motivo da viagem, a duração prevista, as escalas dos voos, a data de nascimento do turusta, dados trabalhistas, entre outros detalhes.

Após encaminhar o pedido no site de internet do organismo, a pessoa deverá esperar que a Afip autorize – ou não – a compra de dólares. A aquisição destas divisas, caso seja autorizada, deverá ser realizada no câmbio oficial, que possui uma cotação mais baixa do que o paralelo. O dólar oficial, que ontem estava em 4,49 pesos, ostentava uma cotação de 5,84 pesos no “blue” (denominação portenha do paralelo), que cresce a cada dia, com o florescimento dos “arbolitos” (doleiros) nas ruas do centro portenho.

A cruzada anti-dólar desatada pela presidente Cristina em novembro passado tornou-se no maior sistema de controles de compra de moeda estrangeira da História da Argentina. “A divisa americana deve utilizar-se somente para as imperiosas importações de (insumos de) alguns produtos elaborados na Argentina”, sustentou na terça-feira o ex-chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, atual braço-direito da presidente Cristina no Senado.

Deputados da oposição acusaram a medida do governo Kirchner de “inconstitucional”.

Mas, mais do que cutucar a oposição, as declarações do influente senador intensificaram os rumores sobre uma eventual pesificação dos depósitos em dólares. Alguns dos boatos indicam que o governo poderia – compulsoriamente – determinar que esses depósitos teriam uma cotação fixa. Os rumores sustentavam que esta cotação seria de 4,43 pesos. Mas, não passavam de boatos até o fechamento deste post.

Os argentinos costumam há 4 décadas guardar suas economias em dólares (de preferência em esconderijos domésticos), com o objetivo de preservá-las da inflação, confiscos bancários ordenados pelos governos de plantão, fechamentos ‘inesperados’ de bancos, transformação de depósitos em bônus, etc.

CRUZAR EL CHARCO – As medidas sobre o dólar poderiam levar milhares de argentinos à procura de pacotes turísticos e passagens de avião a partir de Montevidéu, capital do Uruguai, que está a apenas 25 minutos de voo de Buenos Aires. Isto é, o clássico “cruzar el charco” (atravessar o ‘charco’, isto é, o rio da Prata).

Na capital uruguaia os argentinos poderiam comprar seus dólares sem a burocracia e o controle da receita argentina e viajar para o exterior sem ter que prestar explicações ao governo Kirchner. Ontem, segundo Sergio Bañales, presidente da Associação Uruguaia de Agências de Viagens, diversas agências turísticas em Montevidéu receberam registraram um aumento nas consultas de argentinos que desejam viajar à Europa e Estados Unidos partindo do aeroporto internacional de Carrasco.

Por trás da cruzada anti-dólar está a tentativa do governo de equilibrar as contas fiscais e reduzir o superávit comercial.

Cristina Kirchner e seu Rolex Presidente. A presidente argentina critica a obsessão argentina pelos dólares. Mas, a própria Cristina em sua declaração juramentada de bens, isto é, oficial, declarou que tinha US$ 3,06 milhões em aplicações financeiras na moeda americana.

CERCO AUMENTA – O cerco ao dólar ficará mais intenso a partir da segunda-feira da semana que vem, já que nesse dia entram em vigência as normas que determinam que as pessoas residentes no país que quiserem comprar dólares com os fundos conseguidos de um empréstimo hipotecário terão que conseguir uma autorização especial da Receita para fazer a operação.

Essa medida promete complicar as operações do mercado imobiliário argentino, que há quatro décadas são feitas exclusivamente em dólares. O setor registra uma queda nas vendas desde as primeiras medidas contra o dólar em novembro passado. Na cidade de Buenos Aires, segundo a Câmara Imobiliária Argentina, a queda foi de 11% nos primeiros quatro meses deste ano em comparação com o mesmo mês de 2011.

Os analistas econômicos na city financeira portenha afirmam que a medida é um passo a mais na direção da “pesificação” da economia argentina.

PENSAR EM PESOS – O senador Fernández afirmou ontem que “os argentinos terão que acostumar-se à ideia de que a Argentina terá que pensar em pesos”. Um dia antes Fernández havia declarado que “seria um suicídio” uma eventual flexibilização das restrições que o governo impôs para a compra de dólares.

O senador também sustentou que apenas 11% dos argentinos poupam em dólares, embora economistas independentes sustentem que a proporção real sobe para 50%, já que milhões de pessoas guardam – informalmente – dólares no colchão, em contas bancárias no vizinho Uruguai e outros esconderijos a salvo do sistema financeiro argentino e dos governos de plantão.

No entanto, uma das argentinas que poupa e investe em dólares é a própria presidente Cristina, que em sua declaração de bens de 2009 indicava que 62% de suas aplicações financeiras eram na moeda americana.

Fernández fez um alerta para os argentinos que tentem “driblar” os controles para compra de dólares: “caso o Estado os cace, terão que pagar!”

Visite a Alemanha Oriental. Mas, antes é preciso pedir licença à Receita Federal Argentina. A foto acima mostra um Volkspolizei de guarda no túmulo do soldado desconhecido em 1974.

ALEMANHA ORIENTAL – Entre as várias opções de países para viajar o site da Afip coloca a da Alemanha Oriental, Estado que deixou de existir em outubro de 1990. Além disso, também indica a existência da Alemanha Federal, além da República Federal da Alemanha. O jornal “La Nación” ironizou ontem o erro do governo: “Se tiver que viajar à Alemanha comunista, precisará informar a Afip”.

E já que a conexão é argentino-teutônica, aqui vai um tango em alemão, “Der Tango der Sehnsucht” (O tango da saudade), aqui.

E o velho hino da Alemanha Oriental, o “Auferstanden aus Ruinen”, que tem seu charme. Uma melodia interessante, aqui.

BREVE DICIONÁRIO DOS DÓLARES NA ARGENTINA

Corralito verde: Denominação da série de medidas aplicadas pelo governo da presidente Cristina sobre a compra e venda dos dólares desde novembro passado.

Blue: O dólar no paralelo. A denominação relativa à cor é nova.

Arbolito: O termo, que significa “arvorezinha”, designa os homens que ficavam em pé, imóveis, tais como os arbustos existentes nos anos 70 no meio do calçadão da rua Florida. Eles sussurravam, como o barulho do vento nas folhas: “dólar, dólar…”. O uso do termo posteriormente ampliou-se e é usado atualmente para todos cambistas ilegais, estejam nas ruas ou em escritórios. O termo também é aplicado aos doleiros-delivery.

Cueva: “Caverna”. O termo designa os escritórios no centro de Buenos Aires onde as operações de compra e venda da moeda americana são de volume substancial.

Luca verde: Mil dólares. Uma luca, na gíria portenha, equivale a mil.

Palo verde: Um milhão de dólares. Um “palo” equivale a um milhão.

Charge de Joaquín Lavado, a.k.a Quino. Sempre supimpa.

FRASES DOS GOVERNOS DE PLANTÃO SOBRE O DÓLAR

“Quem aí viu um dólar de perto?”: Frase em tom de desafio do presidente Juan Domingo Perón em 1953 perante uma multidão acotovelada na Praça de Mayo, tentando minimizar a crescente importância da moeda americana no pós-guerra, que começava a despertar o interesse dos argentinos, cansados dos constantes turbulências da economia local.

“Quem aposta no dólar perde”: Frase de Lorenzo Sigaut, ministro da economia da Argentina em 1981. Uma semana depois da frase a cotação do dólar aumentou em 35%, contrariando as previsões do ministro.

“Quem depositou dólares receberá dólares”: Frase do presidente provisório Eduardo Duhalde em plena crise em janeiro de 2002. Mas, dias depois, implantou o “corralón” (confisco das contas em dólares).

“Acostumem-se à ideia de que a Argentina terá que pensar em pesos”: Frase do senador kirchnerista Aníbal Fernández, na terça-feira.

 Bom resto de semana a todos!

De bônus track, um Piazzolla que evoca o Chile, “Violetas populares”. Aqui.

E outra piazzolliana peça: “Decarísimo”, com o grupo BuenosAires 8. Aqui. 

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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