Cristina Kirchner: seu câncer, a blindagem política, seu vice e os x-files caribenhos (e de bônus track, as doenças que os presidentes argentinos tentaram esconder).
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Cristina Kirchner: seu câncer, a blindagem política, seu vice e os x-files caribenhos (e de bônus track, as doenças que os presidentes argentinos tentaram esconder).

arielpalacios

28 de dezembro de 2011 | 23h25

 

“El sillón de Rivadavia”, apelido da cadeira presidencial. Cristina Kirchner estará ausente durante algumas semanas dessa sala. Seu vice, Amado Boudou, estará ali sentado (foto da presidência da República Argentina).

A presidente Cristina Kirchner está com câncer na tireóide. Ela será operada no dia 4 de janeiro. O anúncio de sua doença foi feito na terça-feira no final da noite por seu porta-voz, Alfredo Scoccimarro. Muitos argentinos foram dormir sem saber nada sobre a notícia. Na manhã seguinte, milhares de argentinos, ao serem informados da doença da presidente Cristina acharam que era uma piada, já que era o dia 28 de dezembro, denominado “Dia dos Inocentes”, o equivalente hispano-americano ao 1 de abril, o dia da mentira. Vários governadores kirchneristas ficaram sabendo pela TV da doença da presidente ou muitas horas depois.

Mas, apesar do impacto inicial que a notícia teve na presidente, nesta quarta-feira, poucas horas depois do anúncio de sua doença, Cristina cumpriu rigorosamente sua agenda do dia e até fez um discurso no qual falou sobre sua saúde.

Exibindo bom ânimo, a presidente reuniu-se com governadores das províncias argentinas, prometeu-lhes a rolagem da dívida provincial e agradeceu o apoio recebido por diversos setores políticos e sociais. No entanto, Cristina aproveitou o discurso, transmitido pela maioria dos canais, para disparar críticas contra os meios de comunicação, os sindicatos e as companhias de combustíveis.

Cristina exigiu mais esforços de todos os setores e indicou que ela não tem condições de fazer tudo ao mesmo tempo. Depois, sugeriu que está sacrificando-se, “colocando a saúde a serviço do país”.

Cristina disse que o presidente venezuelano Hugo Chávez foi o primeiro em telefonar para desejar uma recuperação rápida. Cristina recordou que o líder bolivariano propôs a criação de um clube de presidentes que venceram o câncer e ressaltou que ela disputaria a presidência dessa entidade.

Nesta quinta-feira a presidente viajará para El Calafate, no extremo sul do país, onde possui uma elegante casa para descanso. Ali ela passará o Reveillon junto com a família. Ela volta direto de El Calafate para sua operação na semana que vem.

HOSPITAL PRIVADO – A presidente Cristina não utilizará a unidade presidencial do Hospital Argerich (um hospital público) inaugurado em 2003 pelo então presidente Néstor Kirchner (acompanhado de sua esposa e então primeira-dama e senadora Cristina) para atendimento dos presidentes argentinos.

Cristina, em vez desse centro, utilizará o elegante e privado hospital Austral, da Opus Dei, na zona noroeste da Grande Buenos Aires, em Pilar (a principal área dos condomínios fechados na Argentina).

O casal Kirchner nunca utilizou as instalações do Argerich.

MERCADOS, PREOCUPAÇÕES E O VICE ROQUEIRO – Os mercados ficaram relativamente preocupados com a notícia sobre o câncer de Cristina Kirchner. A Bolsa de Buenos Aires teve queda de 1,3%.

O motivo da preocupação é que o sistema político argentino está extremamente centralizado na figura do presidente, fato que gera incertezas quando a pessoa que comanda o país está com problemas de saúde.

Os aliados do governo declararam apoio enfático para Cristina Kirchner, enquanto que grupos de militantes já planejam uma vigília que começará na frente do hospital um dia antes da operação do câncer na tireóide.

Durante a ausência de Cristina – a presidente terá uma licença de 20 dias – ficará na presidência interina do país o vice-presidente Amado Boudou. Nesta quarta-feira, no discurso, Cristina até fez uma piadinha com seu vice-presidente: “olha aí o que você vai fazer, hein?”.

Piadas à parte, o vice Boudou não é pessoa do agrado de Máximo Kirchner, filho da presidente, que embora sem cargo algum, é muito influente no governo de sua mãe.

Boudou, roqueiro nas horas vagas – e também em horário de trabalho – tampouco conta com o apreço dos setores mais à esquerda do kirchnerismo, que não esquecem que ele foi um economista da ala mais ortodoxa do neoliberalismo há menos de uma década. Além disso, ele é visto como um “arrivista” pelos kirchneristas mais puros.

Os analistas afirmam que Boudou não tem o jogo de cintura que é imprescindível para lidar com a costumeiramente turbulenta política argentina.

Para complicar, Boudou tampouco base política própria. Ele era o ministro da Economia de Cristina Kirchner, sem muita autonomia, já que o ex-presidente Nestor Kirchner, enquanto esteve vivo, foi o ministro da economia virtual do governo de sua mulher. Depois da morte de Kirchner, a economia ficou em piloto automático.

Cristina escolheu Boudou para o cargo de vice porque confia plenamente em sua lealdade, de forma a evitar a traumática experiência que teve com o vice de seu primeiro mandato, Julio Cobos. E, além disso, porque Boudou não representa um perigo interno.

O vice apareceu recentemente, durante sua festa de aniversário, de cueca samba-canção tocando a guitarra elétrica ao lado do roqueiro Andrés Calamaro. A presidente Cristina não gostou da imagem e deu um puxão de orelhas no vice.

Há poucas semanas Cristina chamou Boudou – em rede nacional de TV – de “mauricinho”, já que o vice reside no elitista bairro de Puerto Madero.

Boudou entoa um rock nacional com o roqueiro Andrés Calamaro. Foto da revista Gente.

APOGEU – O surgimento desta doença coincide com o momento de apogeu de Cristina, que foi reeleita com 54% dos votos em outubro. Ela tomou posse de seu segundo mandato há 18 dias, conta com a obediência de 21 dos 24 governadores argentinos, tem maioria no Senado e na Câmara de Deputados.

BLINDAGEM – Os analistas afirmam que Cristina Kirchner será fortalecida com este cenário, da mesma forma que sua popularidade disparou quando ficou viúva no ano passado. Eles sustentam que esta é uma chance de mostrar o lado mais “humano” de Cristina, que costuma ter fama de durona. Além disso, ela ficará temporariamente “blindada” contra as críticas.

Hugo Moyano, líder da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a principal central sindical do país, que havia disparado fortes críticas sobre Cristina nas últimas semanas, exigindo aumentos salariais e mais espaço de poder aos sindicatos, declarou nesta quarta-feira que estava “consternado” pela notícia. Moyano, em rota de colisão com Cristina há meses, fez uma trégua temporária e expressou que a presidente conta com toda a “solidariedade” dos operários argentinos.

Scully e Mulder poderiam resolver o caso? H.Chávez considera que “El Império” aplicaria tecnologia para induzir ao câncer de presidentes da esquerda (ou esquerda light ou esquerda ma non troppo) sul-americana. Não incluiu seu antigo rival, Alvaro Uribe, na equação.

X FILES CARIBENHO – Não é trama de filme de James Bond nem ficção-científica. Mas, quase isso: o presidente Hugo Chávez apresentou nesta quarta-feira sua teoria de que “El Império” – o “O Império”, isto é, os Estados Unidos – estaria por trás dos casos de câncer que afetaram diversos presidentes e ex-presidentes sul-americanos desde 2009.

O líder bolivariano disse que suspeita que os americanos teriam desenvolvido uma tecnologia para induzir ao câncer. Chávez citou a lei das probabilidades e disse que é muito difícil encontrar explicações para o que está acontecendo com os políticos da esquerda ou esquerda light (ou esquerda ma non troppo) sul-americana, como os presidentes do Paraguai Fernando Lugo, o próprio Chávez, além de Cristina Kirchner agora. Nessa lista Chávez inclui Dilma Rousseff, quando ainda era ministra, além de Luiz Inácio Lula da Silva, já na categoria de ex-presidente.

Mas, Chávez não incluiu na lista seu inimigo, o ex-presidente colombiano Alvaro Uribe, que sofria de uma queratose actínica, doença que pode transformar-se em um câncer de pele.

No entanto, o fato é que – teorias conspiratórias à parte – os líderes políticos sofrem tensões acima do normal e cuidam pouco da saúde. Se for para encontrar um grupo de outros líderes com problemas de saúde podemos ver qualquer época.

Por exemplo, o ano 1940, quando Adolf Hitler e Benito Mussolini tinham sífilis (com seus efeitos no sistema nervosos); o britânico Winston Churchill com problemas cardíacos (e inícios de problemas vasculares cerebrais) e Iósif Stálin e Franklin Delano Roosevelt com AVCs que escondiam da população. Na época, só Charles De Gaulle exibia uma saúde de ferro.

O colunista político e médico argentino Nelson Castro chama estes males de “doença do poder”.

“É só uma gripe” ou “é apenas um check up”: frase clássicas dos governo argentinos para dissimular doenças graves de seus presidentes. Em 1993 Carlos Menem – a.k.a. “El Turco” (ou “Méndez”) estava sendo operado da carótida. Mas governo tentava convencer que era um baita resfriado.

DOENÇAS PRESIDENCIAIS – Os governos argentinos, de forma geral, não sabem lidar bem com a comunicação sobre as doenças dos presidentes. Esse foi o caso em 1974, quando o presidente Juan Domingo Perón estava gravemente doente, o governo afirmava que ele tinha “apenas uma gripe”.

Em 1993 o então presidente Carlos Menem foi internado às pressas. Nas primeiras horas o governo disse que não passava de uma gripe. Mas, na realidade ele estava sendo operado da carótida. Quando a verdade veio à tona os mercados ficaram tumultuados, já que o país estava em plena etapa de privatizações e o ministro da Economia, Domingo Cavallo, teve que aparecer na TV diversas vezes para acalmar os ânimos.

Em 2001 foi a vez do presidente Fernando De la Rúa, que teve uma obstrução na carótida em meio à grave crise econômica e à fuga de divisas que levaria ao colapso da economia argentina no final daquele ano. O ministro da Saúde, Héctor Lombardo, médico pessoal de De la Rúa, complicou o cenário ao afirmar de forma naif que o presidente tinha “um pouquinho de arteriosclerose…”.

Em 2004 o presidente Néstor Kirchner foi internado com uma hemorragia no duodeno. Nas primeiras horas os porta-vozes da Casa Rosada afirmavam que a internação às pressas do presidente não passava de uma reação a um medicamento do tratamento dentário. Posteriormente revelaram a verdade.

No ano passado, Kirchner foi operado duas vezes por obstruções da carótida. Mas, em ambas ocasiões o governo – nas primeiras horas – afirmava que havia sido internado para um mero “check-up”.

Uma semana depois da segunda operação Kirchner havia retomado plena atividade política apesar das recomendações médicas. Em setembro foi submetido à uma angioplastia. Menos de 48 horas depois participava de um comício ao lado da mulher. E um mês e meio depois, morreu.

CRISTINA E SUA SAÚDE – Em janeiro de 2009 a presidente Cristina passou mal e cancelou todas suas atividades durante cinco dias. Na época o governo disse que Cristina havia sofrido um desmaio por causa de uma “desidratação”.

Mas as explicações oficiais não convenceram, já que a presidente sempre carrega uma garrafinha de água mineral.

Nelson Castro, colunista político e médico – que escreveu um livro sobre o sigilo que costuma aparecer em torno às doenças dos presidentes argentinos disse na época que o comunicado oficial sobre o desmaio “não refletia toda a verdade”.

Castro sustentou que a versão sobre o desmaio de Cristina Kirchner foi uma demonstração de que as doenças dos presidentes “são assuntos de Estado que tem enormes implicâncias políticas”.

Neste ano a presidente Cristina passou mal em cinco ocasiões.

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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