Da pompa ao ibope: 109 anos de visitas presidenciais
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Da pompa ao ibope: 109 anos de visitas presidenciais

arielpalacios

22 de abril de 2009 | 10h19

csalles
As barbas presidenciais: Manuel Ferraz de Campos Salles, à esquerda; Julio Argentino Roca, à direita.

Ruas cheias de guirlandas e arcos do triunfo. Esses foram alguns dos vários elementos que os portenhos colocaram nas ruas da capital argentina para exaltar a visita do presidente do Brasil Manuel Ferraz de Campos Salles à Buenos Aires em outubro de 1900.
Na ocasião, 300 mil portenhos (a cidade contava com 1,2 milhão de habitantes na época, isto é, uma de cada quatro pessoas da cidade foi às ruas receber o visitante) urraram o nome do brasileiro nas ruas da cidade, celebrando seu desembarque. Campos Salles dava início às visitas presidenciais brasileiras no exterior.

Campos Salles colocava seus pés em Buenos Aires para retribuir uma visita feita pouco mais de um ano antes, em agosto de 1899, pelo presidente argentino Julio Roca ao Rio de Janeiro. À beira da Bahia de Guanabara, Roca teria dito uma frase histórica, “tudo nos une, nada nos separa”.

A frase, no entanto, é uma daquelas que se encaixam na categoria de ‘se non è vero, è ben trovato’, já que ela seria pronunciada nesse exato formato em 1910, pelo então presidente eleito da Argentina, Roque Sáenz Peña, durante sua visita ao Rio de Janeiro.

“Hoje em dia essa afirmação pode parecer banal. Mas na época, foi revolucionária”, me disse o ex-embaixador do Brasil em Buenos Aires, Luiz Felipe de Seixas Correa, anos atrás.

Roca também deixou para os registros históricos uma categórica afirmação (esta, de cunho próprio): “o Brasil e a Argentina devem unir-se por laços da mais íntima amizade, porque juntos serão ricos, fortes, poderosos e livres”.

galeota
Galeota que transportou Roca em direção ao cais do Rio de Janeiro

O presidente argentino foi recebido por 150 mil pessoas acotoveladas na área do cais no Rio de Janeiro. Roca foi levado do navio ao porto na requintada galeota que havia transportado Dom João VI oito décadas antes em sua partida do Brasil rumo à Lisboa.

“Ovações delirantes” foi a definição dos jornais da época sobre a chegada de Roca, superior à acolhida de um super-star do rock ‘n roll nos dias atuais.

http://query.nytimes.com/mem/archive-free/pdf?_r=1&res=9406EFD8123DE633A25752C1A96E9C94689ED7CF

Deu no The New York Times: o link da notícia da visita de Roca ao Rio de Janeiro

COM TODA A POMPA – Ao contrário das visitas presidenciais atuais – corriqueiras, de apenas 24 horas, com comitivas de poucas dezenas de pessoas, e que muitas vezes passam desapercebidas para o grande público – a viagem de Campos Salles à Buenos Aires foi em grande estilo.

O presidente viajou na companhia de centenas de pessoas, no encouraçado “Riachuelo”. Além deste navio, foi à Buenos Aires parte da esquadra brasileira, que levava o resto da comitiva presidencial.

Campos Salles permaneceu em Buenos Aires durante uma semana com atividades que incluíram idas à Ópera, ao Hipódromo e diversas recepções com bailes.
Os dois presidentes foram os protagonistas do primeiro filme rodado na Argentina. O cinegrafista Eugenio Py gravou as imagens do desembarque do presidente brasileiro no porto de Buenos Aires, além de uma conversa de Roca e Campo Salles na escadaria em um palacete portenho.

Neste link do site Youtube estão algumas das imagens do primeiro filme rodado na Argentina, feito pelo cineasta Eugenio Py. O filme mostra o desembarque de Campos Salles em Buenos Aires. O presidente brasileiro aparece – de perfil – caminhando rapidamente no meio das pessoas que o recebem. Campos Salles movimenta-se da direita para esquerda da tela. Sua imagem aparece entre o segundos 9 e o 12 do filme.

SEM POMPA, MAS COM IBOPE – Quase 109 anos depois, nesta quarta-feira à noite, desembarcará em Buenos Aires o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

As visitas de uma semana de duração ficaram no passado. Hoje em dia, tal como esta viagem de Lula à Buenos Aires, as estadias duram menos de 24 horas e concentram-se em reuniões de trabalho (e não mais em saraus e apresentações líricas).

Embora a pompa de antanho não se repita na atualidade em cada visita (esta será a décima quarta que faz à Argentina) o presidente Lula monopoliza a atenção da mídia portenha.

Na Argentina, Lula consegue seduzir os setores da esquerda (que consideram que ele ainda tem “espírito sindicalista”) além de deleitar os empresários (que invejam a política industrial do governo brasileiro). Com intensa frequência, a imprensa argentina tece longas lisonjas ao presidente brasileiro.

LILdS, o presidente Lula – em diversos casos mostrado pela mídia argentina como a antítese de Cristina Kirchner, cuja popularidade despencou desde o início do ano – conta com 97% de aprovação entre os argentinos, segundo uma pesquisa realizada pela consultoria Poliarquia no final do ano passado. O nível de popularidade do presidente brasileiro entre os argentinos supera amplamente a imagem positiva de qualquer outro político nativo.

A pesquisa também indicou que 93% dos entrevistados – todos líderes de opinião – sustentaram que o governo da presidente Cristina deveria aprofundar a política de aproximação com o Brasil. Somente 1% dos entrevistados defendem um afastamento do Brasil.

Um ex-vice-chanceler argentino me disse com ironia: “tem muito brasileiro que não está satisfeito com o Lula? Hehehehe…se quiserem, podem enviar o Lula para cá. A gente aceita feliz da vida! Em troca, a gente envia para vocês a Cristina Kirchner…”

Link para a coluna do analista Jorge Castro, na edição desta 4afeira no jornal “Clarín”. A coluna trata do peso do Brasil na política regional e mundial.
http://www.clarin.com/diario/2009/04/22/elpais/p-01902898.htm

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