Da raposa ao pinguim, os apelidos da política argentina
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Da raposa ao pinguim, os apelidos da política argentina

arielpalacios

21 de agosto de 2009 | 02h00

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Quem ocupa o poder agora na Argentina são “Los Pingüinos”. Os Pinguins. No passado houve raposas, tatus, tartarugas, morsas, uma pantera cor de rosa, um turco, etc, etc…(na ilustração, Skipper, Kowalski, Rico e Private, os mafiosos pinguins do filme ‘Madagascar’)

manos Quase todo político de peso na Argentina possui um apelido. Em diversos casos, até mais de um. As denominações podem referir-se à características físicas, da personalidade ou sobre a forma como governam. Os apelidos podem ser elogiosos, mas muitas vezes são cruéis, e em mais de uma ocasião colaboraram na queda de um presidente.
O ex–presidente Carlos Menem (1989-99) foi o que mais acumulou apelidos. Para parte da população foi “El Turco” (O Turco), por causa de suas origens sírias (isto é, dos tempos em que os sírios integravam o Império Otomano, ou Turco). Os argentinos que o apreciavam nos anos 90 o chamavam de “Carlitos” (Carlinhos).

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“El Turco” não hesitava em dar um ‘touch’ de Oriente Médio em seu cotidiano. Nesta foto, uma das tantas cenas do então presidente dançando com uma odalisca

Quando anunciou que disputaria sua primeira reeleição, em 1995, começou a ser chamado de “Carlos I”. Em 1998, quando indicou que tentaria reinterpretar – de uma forma peculiar – a Constituição, de forma a permitir um segunda reeleição, foi chamado de “Carlos II”.

Em seu primeiro governo Menem (1989-95), “El Turco” frequentava o leito de diversas modelos, vedetes do Teatro de Revista, mulheres parlamentares e secretárias de Estado. Por ter à sua disposição um verdadeiro “harém”, foi chamado de “Charly” em alusão à série de TV “Charlie’s Angels” (As Panteras), no qual o chefe, Charlie, estava constantemente em uma piscina, rodeado de curvilíneas garotas vestidas com minúsculos biquínis.

Mas, no final de seu segundo governo esta denominação utilizou-se pouco, e só era citada quando se realizava alguma referência aos tempos – de outrora – nos quais Menem dava uma de Casanova.

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Amalia ‘Yuyito’ González, vedete do Teatro de Revista, com a qual Menem teve um tórrido affaire em seus tempos de arromba. Menem quis casar-se com ela quando estava em seu primeiro mandato, afirmam seus biógrafos. Mas, seus ministros o dissuadiram disso.

Para seus subordinados e seguidores políticos, Menem era simplesmente “El Jefe” (O Chefe).

Os seguidores – que nos anos 90 eram milhares, mas que na virada do século XXI reduziam-se a um punhado de saudosistas fanáticos – também possuíam uma denominação: “menemistas”.

Os ultra-menemistas são chamados de “gurkas”, em alusão aos fanáticos guerreiros nepaleses, que não hesitam em cortar gargantas com seus punhais.

Muitos argentinos consideram que pronunciar o sobrenome do ex–presidente dá azar, e da mesma forma como no Brasil diversas pessoas referem-se ao Diabo como “O Demo” ou “O Tinhoso”, Menem na Argentina tornou-se “Méndez”.

O sucessor de Menem, o sonolento e hesitante Fernando De la Rúa (1999-2001), transformou-se em “Frenando De la Duda” (Brecando da Dúvida), apelido criado pelo cartunista Nik.
A denominação tornou-se popular rapidamente e colaborou na queda de sua imagem. De la Rúa renunciou em dezembro de 2001, no meio de uma onda de saques e caos social.

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De la Rúa, em uma pose tradicional

De la Rúa foi sucedido por três presidentes ultra-provisórios: Ramón Puerta, presidente do Senado, que ficou no comando do país do dia 20 a 23 de dezembro de 2001. Ele foi seguido de Adolfo Rodríguez Saá, que a princípio ficaria seis meses no cargo (a idéia era convocar eleições).
Mas durou apenas uma semana. No dia 30 de dezembro já estava de malas feitas. Durante um tempo, foi ironicamente chamado de “Adolfo el breve”.
E este personagem pitoresco, que anos antes havia sido sequestrado em um motel com um aparelho de uso sexual, possivelmente a pilhas (a história merece um relato longo posteriormente, outro dia) foi seguido do presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Camaño, que ficou na presidência da República do dia 30 de dezembro até o dia 2 de janeiro (Camaño e Puerta foram excessivamente mais breves que Rodríguez Saá para merecer um apelido).

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“El Cabezón” se estica para colocar a faixa presidencial em “El Pingüino”

Nesse dia ele passou a faixa para o presidente provisório Eduardo Duhalde (2002-2003), batizado de “El Cabezón” (O Cabeção), por causa de seu proeminente crânio.
Baixinho e cabeçudo, ele era chamado de “Tachuela” (tachinha) por seus colaboradores mais antigos. Este apelido utiliza-se somente para denominá-lo quando não está por perto. Jamais para chamá-lo pessoalmente.

A esposa de “El Cabezón”, Hilda Beatriz González de Duhalde é carinhosamente chamada de “Chiche” (derivação de seu segundo nome, Beatriz) pela família e pela população.
Mas, entre os assessores que trabalham com ela há anos, é simplesmente a “Chinche” (percevejo), pelo seu tamanho “mignon”, ou melhor, “mini-mignon”. Os assessores, com ironia, comentam quando o casal Duhalde se aproxima: “lá vem a Tachinha e o Percevejo”.

Seu sucessor foi o governador da província de Santa Cruz, Néstor Kirchner, um desconhecido na esfera nacional até ser candidato presidencial. Na província era chamado pela mídia local de “Lúpin”, nome de um personagem de uma popular tirinha em quadrinhos, com o qual se parecia, pelo narigão e olhos arregalados.

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Lúpin, o piloto de olhos esbugalhados que vive delirantes aventuras. Kirchner, antes de virar pinguim, era Lúpin para os amigos de sua natal Santa Cruz

No entanto, Kirchner foi imediatamente chamado de “El Pingüino” (O Pinguim) pelos jornalistas, em alusão à sua região natal, a gélida Patagônia. O entourage de Kirchner – composto majoritariamente de patagônios como ele – é denominada pela imprensa de “La Pingüinera” (A Pinguineira).

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Kirchner, como pinguim, na visão do cartunista Nik. O detalhe: os tradicionais mocassins que Kirchner utiliza

Sua esposa, sucessora e atual presidente, Cristina Fernández de Kirchner, por sua pose de diva e tom autoritário é chamada “La Reina Cristina” (a rainha Cristina), em alusão ao filme protagonizado por Greta Garbo nos anos 30, no qual interpretava a absolutista e vaidosa rainha Cristina da Suécia.
Os assessores e biógrafos não-autorizados afirmam que ela adora ser chamada de “rainha”. Ocasionalmente também é chamada de “La Pingüina” (A Pinguim-fêmea).

gretaGreta Garbo em ‘Rainha Cristina’. Aqui, o link do Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=nFFtj4N9rfw&feature=related

ANIMAIS POLÍTICOS
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O presidente Roca, considerado uma ‘raposa’ por seus contemporênos (à direita, olha para seu colega, o general Pablo Ricchieri…que virou nome da estrada que liga o aeroporto de Ezeiza à cidade de B.Aires). Desenho do grande caricaturista da virada do século XIX para o XX, José María Cao Luaces. Publicado na revista ‘Caras y Caretas’ em 1901

A moda dos apelidos data de fins do século XIX. Na época, o presidente Julio A. Roca era chamado “El Zorro” (A raposa), por seu modo ‘maquiavélico’ de ser.

Décadas após, o presidente Hipólito Yrigoyen (1916-22 e 1928-30) fez sua carreira política com o nome de “El Peludo” (O Tatu), já que seu rosto tosco e sua personalidade inescrutável recordavam esse subterrâneo mamífero.

O presidente Arturo Illía (1963-66) foi batizado por caricaturistas de “La Tortuga” (A Tartaruga). A imagem de que era extremamente lento nas decisões popularizou-se e colaborou na perda de respaldo popular e político. Diversos historiadores afirmam que o apelido cáustico colaborou na queda de seu governo, já que os militares o derrubaram sem sequer um sinal de resistência popular. Décadas depois, diversos ex-críticos de Illia fizeram mea culpa, pois perceberam que seu governo teve um grande crescimento econômico. Além disso, apesar das divergências ideológicas, o destacam como o mais honesto dos presidentes. Ele faleceu em um hospital público em 1983.

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Landrú, o cartunista que criou o apelido de “tartaruga” para Illía, também criou o apelido do general que derrubou “La Tortuga”, isto é, o ditador Onganía, que transformou-se em “La Morsa” (A Morsa). O general é o da esquerda. Os Odobenus rosmarus, mais pacíficos que o general em questão (que passou em penúltimo posto em sua turma de cadetes) são os da direita

Quem derrubou Illía foi o general Juan Carlos Onganía, chamado de “La Morsa” (A Morsa), por causa de seu bigode-escovão e os grandes caninos que recordavam o obeso mamífero de águas frias.

O general e ditador Jorge Rafael Videla (1976-81), que governou o país no primeiro trecho do último e sangrento regime militar, era chamado de “La Pantera Rosa” (a Pantera Cor de Rosa), por causa da similitude de seu caminhar ondulante e de sua magreza com o personagem dos desenhos animados.

Além disso, Videla, atualmente em prisão domiciliar por sequestro de crianças durante a Ditadura, ganhou o apelido por sua sorte em escapar por um triz de vários atentados, tal como a Pantera se salvava de pianos que caíam de cima dos prédios ou de rochas de uma avalanche.

PALÁCIO E POLTRONA
Além de pessoas, a mídia também refere-se aos centros do poder por vias indiretas. Esse é o caso da forma para denominar a Casa Rosada, por seu endereço, “Balcarce, 50”. Mutatis mutandis, uma espécie de Downing Street 10 portenho.

Outro exemplo de apelido aplicado pelo jornalismo a um símbolo do poder é o “sillón de Rivadavia” (a poltrona de Rivadavia), denominação da cadeira presidencial, feita de madeira folheada à ouro e veludo carmesim. Este “sillón” é praticamente sinônimo de “presidência da República”.

No entanto, ao contrário do que o apelido indica, esta não é a poltrona de Bernardino Rivadavia, o primeiro presidente argentino, que governou na década de 1820. Desgastada pelos cupins e o tempo, hoje está em um museu. Ela foi substituída por outra umas sete décadas depois, durante o governo de Roca. O “sillón”, na verdade, é de “El Zorro”.

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O ‘sillón de Rivadavia’. Na verdade, o sillón de Roca (foto da presidência da República)

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