De Borges a Maradona, do cacerolazo ao bife de chorizo
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De Borges a Maradona, do cacerolazo ao bife de chorizo

arielpalacios

08 de março de 2009 | 20h59

Em 1969 o economista americano Simon Kusnetz (1901-1985) tentou enquadrar a inenquadrável Argentina: “existem quatro modelos de países no planeta. O primeiro modelo é desenvolvido, dos ocidentais capitalistas. O outro é o subdesenvolvido, dos países do bloco comunista. Depois, estão o Japão…e a Argentina!”. Outra versão, do próprio Kusnetz, é mais irônica: “existem três tipos de países nos mundo. Os normais. O Japão. E a Argentina”.

Quarenta anos depois, a Argentina continua gerando perplexidade. O historiador José Ignacio García Hamilton, argentino, afirma: “É surpreendente…este país conta com médicos com preparação de Primeiro Mundo, tivemos cinco prêmios Nobel, dos quais três da área científica; universidades de bom nível, pioneiros na região em física nuclear. Mas, a cultura política é totalmente hispanoamericana, acostumada à hegemonia, aos caudilhos, à exaltação dos líderes militares e da pobreza, além da transgressão da lei”.

Seu conterrâneo Rosendo Fraga, think tank, também mostra surpresa com o próprio país: “A Argentina é o país de Jorge Luis Borges, o escritor latino americano de cultura mais universal…mas também é a de Diego Armando Maradona, o ídolo transgressor. A Argentina é ambas coisas ao mesmo tempo!”.

Na primeira metade do século XX Buenos Aires foi chamada pelo escritor francês André Malraux “capital de um império imaginário”. Pose não lhe faltou ao longo de décadas. E mesmo após a sequência de graves crises econômicas que teve desde 1975 (uma – rigorosamente – a cada sete anos, incluindo a atual), a cidade possui uma intensa vida literária e teatral e é um dos principais centros de produção cinematográfica da região.

E nem falemos das constantes crises políticas. Desde a volta da democracia, em 1983, só dois presidentes (Carlos Menem e Néstor Kirchner) conseguiram concluir seus mandatos no prazo previsto. Entre o 20 de dezembro de 2001 e o 2 de janeiro de 2002 – em apenas 13 dias – a Argentina teve cinco presidentes.

Vistos geralmente através dos filtros de uma série de clichês e estereótipos, os argentinos e a Argentina costumam pegar os brasileiros de surpresa (e também o resto do planeta), evidenciando que eles ainda são – apesar da proximidade e da maior integração proporcionada pelo Mercosul nos últimos 18 anos – um grande mistério.

É a terra do suculento “bife de chorizo”, do tango de Carlos Gardel e dos dribles de Maradona. Mas é muito mais do que isso. É o país dos barulhentos “cacerolazos” (panelaços), de uma ácida auto ironia própria (essas piadas que a gente costuma comentar no Brasil sobre os argentinos são de autoria, a maior parte das vezes…dos próprios argentinos! Aliás, eles gostam mais do Brasil do que os brasileiros imaginam, e não fazem piadas de brasileiros).

É também o país de uma burocracia que teria feito Franz Kafka parecer um escritor sem imaginação, terra de antagonismos políticos bicentenários e de leis sociais de vanguarda. Concentra a maior comunidade judaica da América Latina…e também os maior número de grupos neonazistas.

Peculiar, fascinante, irritante, enigmática. Os adjetivos a serem aplicados à Argentina podem abranger um amplo leque.

Este blog pretende informar, analisar principalmente sobre os ‘Hermanos’ argentinos, mas também os ‘Hermanos’ uruguaios, paraguaios e chilenos. E, acima de tudo, aspira ser um ponto de encontro para a troca de opiniões sobre aqueles que – gostem uns e não gostem outros – são nossos vizinhos.

BorgesMaradona

J.L Borges, símbolo da Argentina para uns; D.A. Maradona, símbolo da Argentina para outros

“Borges? O Borges era o Maradona de nossa literatura!” – Frase pronunciada por um favelado da Grande Buenos Aires em 1986, entrevistado pela TV local, poucas horas depois da notícia do falecimento do escritor em Genebra

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