De Kadafi/Qadhaffi a Kirchner/Kitchner (interrompemos nossa programação para fazer uma breve ponte entre ‘Os Hermanos’ e “Os Brimos” e expomos 112 formas de escrever o nome do líder líbio)
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De Kadafi/Qadhaffi a Kirchner/Kitchner (interrompemos nossa programação para fazer uma breve ponte entre ‘Os Hermanos’ e “Os Brimos” e expomos 112 formas de escrever o nome do líder líbio)

arielpalacios

24 de fevereiro de 2011 | 14h45

Faço uma breve interrupção em minhas férias para colocar esta postagem, já que este assunto era assaz tentador. E, embora não tenha a ver diretamente com “Os Hermanos”, até acabei encontrando um vínculo entre os assuntos. Por isso, só por hoje, fazemos uma ponte entre Os Hermanos e Os Brimos…

Às vezes reclamo que esquecem de colocar a letra “s” no final do Palacios. Ou reclamo que colocam o acento agudo no sobrenome (“Palácios” estaria incorreto, pois este sobrenome é de origem espanhol, e portanto, sem acento na segunda letra ‘a’, ao contrário da versão em português). Mas, esta breve dupla de confusões não se compara ao padecimento sofrido pelo coronel/presidente da Lìbia, Kadafi, cujo sobrenome (e também seu prenome, Muamar), é alvo das mais variadas formas de soletrar.

Como explica estupendamente o colega Luiz Raatz – sempre supimpa – na edição de hoje do “Radar Global” (para ver o texto, clique aqui), nós, no Estadão, optamos pela versão “Kadafi”, enquanto que a concorrência prefere “Gaddafi”, entre outras.

O The New York Post diz Khadafy; o britânico Guardian usa Gaddafi; o Boston Globe oscila entre Khadafy e Gadhafi. O Departamento de Estado dos EUA usam “Mu’ammar Al-Qadhafi”. Enquanto que a NBC opta pelo Khaddafy, a Fox News prefere o Qaddafi. A CNN decidiu pelo Gadhafi, que parecia um ponto médio no meio de tanta versão. E não é coisa só de ocidental, pois a agência chinesa estatal Xinhua, em seus textos em inglês usa “Muammar Khaddafi”.

 O problema atinge o próprio Kadafi, que não sabe bem como transcrever seu sobrenome. Em 1986 ele respondeu uma carta de uma escola do estado americano de Minnesotta com o seguinte formato: “Moammar El-Gadhafi”.

Mas, o site oficialdo líder líbio recebia o internauta até uns dias atrás (agora está desligado, talvez por causa de todo o rebu que tomou conta de seu país) com os dizeres “Welcome to the official site of Muammar Al Gathafi”.

Isto é, em vez do El-Gadhafi da carta que enviou à Minesotta, aparecia Al Gathafi no próprio site.

 O nome do coronel líbio, ao ser escrito no alfabeto latino passou pelas mais diversas variáveis, com toda profusão de uso de ‘D’s, ‘F’s e ‘H’s, além de “I” e “Y”, em todas as posições possíveis. Uma espécie de Kamasutra da arte de soletrar. E nem falemos sobre o prenome do presidente líbio, que vai de Moamar, Mu’ammar, Mummar e Muhammar.

Nestes dias cheios de notícias sobre o Kadafi lembrei das diversas formas como vi políticos, diplomatas e leitores escreviam o sobrenome Kirchner. Vi de tudo: de Kirschner, Kirshner, Kitchen e até Kitchener, como o lord inglês (!!!).

 

 Este não é Kirchner, Néstor, mas sim, Kitchener, ou melhor, Horatio Herbert Kitchener, Lord e barão de Karthoum (ou Jarthoum… ou Jartúm, Jartum ou Kartum, e por aí vai)

… E além da grafia, a pronúncia. Entre 1999 e 2001, quando era ministro da Economia José Luis Machinea, era comum que na época, talvez influenciadas pela telenovela “Terra Nostra” (que levou muitos tópicos da cultura italiana à população brasileira de forma talvez nunca antes vista, tão concentrada), que as pessoas no Brasil falassem “Maquinéia”.

Isto é, as pessoas viam um “ch” e logo achavam que devia ser proveniente da península. Ma che! Não era como “inchiostro” nem “Cherubini”! Neste caso, Machinea não era um nome italiano. Toda hora tinha que explicar que era um nome basco, que pronunciava-se simplesmente “Matchinéa”.

Uma telenovela brasileira de temática italiana e o ministro argentino de origem basca.

… E nem falemos sobre a cidade de Ushuaia, capital da província de Tierra del Fuego. A pronúncia do nome seria equivalente a “Ussuáia”. O “sh” do meio não é inglês, logo, não é necessário pronunciar Ushuaia como “Uxuáia”. A letra “h” neste caso é muda, mudíssima (a palavra provém do idioma indígena yagán, que é a mistura de ush, que significa “ao fundo” ou “crepúsculo” com waia, equivalente a ‘bahia’).

No entanto, no Brasil pronuncia-se de forma correta o sobrenome do ex-piloto de Fórmula 1, ex-governador de Santa Fe e atual senador Carlos Reutemann, ao dizer “Róitmann” (sem ‘parentescos’ com a Odete, hein!). Na Argentina, o próprio Reutemann vê como os compatriotas pronunciam mal este sobrenome germânico ao dizer simplesmente “Réuteman”.

Conversando ontem à noite por mail com o amigo e colega Gustavo Chacra, emblemático correspondente do Estadão em N.York (para ver seu blog, clique aqui ) ele recordou que “a Veja grafa como o Estadão, Kadafi. A Folha usa Ghadafi. Tanto faz. É uma transliteração do árabe para o alfabeto latino. Vale a sonoridade. E a primeira letra, gutural, não tem um correspondente fiel no nosso alfabeto. Alguns escutam com K, outros com G. Meu sobrenome, Chacra, pode ser grafado como Shaqra, Chakra, Shakra ou como quiser o freguês”.

O Gustavo também indicou uma curiosidade: “o caso do sobrenome Khoury. O Kh soa como “r”. Mas, na Argentina e no Brasil falam como se fosse o C. E Khoury quer dizer “padre” em árabe, dando origem ao termo “cúria católica”. Enfim, temos também a mesma questão no russo, no chinês com Beijing e Pequim e a dúvida segue pelo mundo afora”.

 

Quase um brotinho: o coronel Kadafi, em 1969, quando seu nome não era questão de debate. E quando ainda não haviam inventado o botox. Nesse ano chegou ao poder. E, até a publicação desta postagem, ainda permanecia aferrado ao governo.

Em 2009 a rede ABC News, dos EUA, que chama o líder líbio de Moammar Gaddafi, divulgou uma lista com 112 versões diferentes que havia registrado ao longo dos anos.

 

  • Qaddafi, Muammar
  • Al-Gathafi, Muammar
  • al-Qadhafi, Muammar
  • Al Qathafi, Mu’ammar
  • Al Qathafi, Muammar
  • El Gaddafi, Moamar
  • El Kadhafi, Moammar
  • El Kazzafi, Moamer
  • El Qathafi, Mu’Ammar
  • Gadafi, Muammar
  • Gaddafi, Moamar
  • Gadhafi, Mo’ammar
  • Gathafi, Muammar
  • Ghadafi, Muammar
  • Ghaddafi, Muammar
  • Ghaddafy, Muammar
  • Gheddafi, Muammar
  • Gheddafi, Muhammar
  • Kadaffi, Momar
  • Kad’afi, Mu`amar al
  • Kaddafi, Muamar
  • Kaddafi, Muammar
  • Kadhafi, Moammar
  • Kadhafi, Mouammar
  • Kazzafi, Moammar
  • Khadafy, Moammar
  • Khaddafi, Muammar
  • Moamar al-Gaddafi
  • Moamar el Gaddafi
  • Moamar El Kadhafi
  • Moamar Gaddafi
  • Moamer El Kazzafi
  • Mo’ammar el-Gadhafi
  • Moammar El Kadhafi
  • Mo’ammar Gadhafi
  • Moammar Kadhafi
  • Moammar Khadafy
  • Moammar Qudhafi
  • Mu`amar al-Kad’afi
  • Mu’amar al-Kadafi
  • Muamar Al-Kaddafi
  • Muamar Kaddafi
  • Muamer Gadafi
  • Muammar Al-Gathafi
  • Muammar al-Khaddafi
  • Mu’ammar al-Qadafi
  • Mu’ammar al-Qaddafi
  • Muammar al-Qadhafi
  • Mu’ammar al-Qadhdhafi
  • Mu`ammar al-Qadhdh?f?
  • Mu’ammar Al Qathafi
  • Muammar Al Qathafi
  • Muammar Gadafi
  • Muammar Gaddafi
  • Muammar Ghadafi
  • Muammar Ghaddafi
  • Muammar Ghaddafy
  • Muammar Gheddafi
  • Muammar Kaddafi
  • Muammar Khaddafi
  • Mu’ammar Qadafi
  • Muammar Qaddafi
  • Muammar Qadhafi
  • Mu’ammar Qadhdhafi
  • Muammar Quathafi
  • Mulazim Awwal Mu’ammar Muhammad Abu Minyar al-Qadhafi
  • Qadafi, Mu’ammar
  • Qadhafi, Muammar
  • Qadhdh?f?, Mu`ammar
  • Qathafi, Mu’Ammar el
  • Quathafi, Muammar
  • Qudhafi, Moammar
  • Moamar AI Kadafi
  • Maummar Gaddafi
  • Moamar Gadhafi
  • Moamer Gaddafi
  • Moamer Kadhafi
  • Moamma Gaddafi
  • Moammar Gaddafi
  • Moammar Gadhafi
  • Moammar Ghadafi
  • Moammar Khadaffy
  • Moammar Khaddafi
  • Moammar el Gadhafi
  • Moammer Gaddafi
  • Mouammer al Gaddafi
  • Muamar Gaddafi
  • Muammar Al Ghaddafi
  • Muammar Al Qaddafi
  • Muammar Al Qaddafi
  • Muammar El Qaddafi
  • Muammar Gadaffi
  • Muammar Gadafy
  • Muammar Gaddhafi
  • Muammar Gadhafi
  • Muammar Ghadaffi
  • Muammar Qadthafi
  • Muammar al Gaddafi
  • Muammar el Gaddafy
  • Muammar el Gaddafi
  • Muammar el Qaddafi
  • Muammer Gadaffi
  • Muammer Gaddafi
  • Mummar Gaddafi
  • Omar Al Qathafi
  • Omar Mouammer Al Gaddafi
  • Omar Muammar Al Ghaddafi
  • Omar Muammar Al Qaddafi
  • Omar Muammar Al Qathafi
  • Omar Muammar Gaddafi
  • Omar Muammar Ghaddafi
  • Omar al Ghaddafi (breve comentário: esta lista, lida de forma corrida, não rende um bom rap?)

Com certeza, nas redações dos meios de comunicação em todo o mundo a expectativa é que o futuro sucessor do turbulento coronel mediterrâneo tenha – além de vários predicados administrativos para governar o país que está em um momento complicado – um nome e sobrenome que gere uma transliteração menos complicada.
E acrescento uma explicação do Wikipedia, que indica que dentro da própria língua árabe existem algumas formas diferentes de como escrever o nome do citado presidente líbio:

“Because of the lack of standardization of transliterating written- and regionally-pronounced Arabic, Gaddafi’s name has been transliterated in many different ways into English and other Latin alphabet languages. Even though the Arabic spelling of a word does not change, the pronunciation may vary in different varieties of Arabic, which may cause a different romanization. In literary Arabic the name ???? ??????? can be pronounced /mu??am?aru lqað?ða?fi?/. [?] represents a voiced pharyngeal fricative (?). Geminated consonants can be simplified. In Libyan Arabic, /q/ (?) may be replaced with [?] or [k] (or even [?]; and /ð/ (?) (as “th” in “this”) may be replaced with [d] or [t]. Vowel [u] often alternates with [o] in pronunciation. Thus, /mu??am?ar alqað?ða?fi?/ is normally pronounced in Libyan Arabic [mu??æm??r? ?l?æd?dæ?fi]. The definite article al- (??) is often omitted”.

Mas como escrevo o nome? Denominação de Mao Tsé-Tung, líder chinês, também passou por uma miríade de transcrições. Mao, escrevendo em seu escritório de Pequim/Beijing/Peking, etc.

Kadafi não é o primeiro nem será o último chefe de Estado/governo que terá seu nome escrito de várias maneiras.

O defunto e embalsamado líder chinês Mao Tsé-Tung (quem for a Pequim/Beijing/Peking não pode deixar de visitar o mausoléu de Mao, pois é uma experiência imperdível) já foi chamado em diversas partes do mundo de Mao Zedong, com direito a versão com o circunflexo em Mao Tsê-tung. Os franceses, além de chamá-lo de Mao Zedong, também o escrevem como Mao Tsé-toung ou Mao Tsö-Tong. A versão Bao Zedong também pulula alhures. E com a versão adicional de Zhedong (com o ‘h’ no meio).

Bom, os próprios chineses podem escolher entre os caracteres tradicionais ??? … ou os caracteres simplificados ???. E em pinyin (a versão oficial chinesas de transcrição fonética do chinês mandarim para o ocidente) é Máo Zéd?ng.

O russo que criou a Perestróika e a Glasnost, nosso careca Mikhail Sergeievitch Gorbatchov, já apareceu pelo planeta como Mijaíl Sergéyevich Gorbachov Em russo, para os curiosos, é ?????? ????????? ????????. Os jornais alemães costumam grafar o nome do último presidente soviético de Michail Sergejewitsch Gorbatschow. Já os bascos optam por escrever assim: Mikhail Gorbatxov. 

Os franceses preferem usar e abusar do trema (ah, o querido e assassinado trema pelo acordo luso-brasileiro!), assim: Mikhaïl Sergueïevitch Gorbatchev. De vez em quando o sobrenome aparece como Gorbatchov.

Os italianos costumam referir-se a ele como Mikhail Gorbaciov. Os húngaros, Mihail Szergejevics Gorbacsov. Os suecos, Michail Sergejevitj Gorbatjov. Em português também há versões diferentes, mas as principais costumam ser Mikhail Serguéievich Gorbachev ou Gorbatchev..

‘Gorbie’, para fazer as coisas mais simples, em um quadro de Andy Warhol… que nasceu como Andrew Warhola.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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