De “Não pagaremos um centavo sequer” a “Não pagar seria ilegal” (da expropriação da YPF ao acordo com a Repsol, com parceria com Chevron no meio). E um pouco de Stokowski e Pernalonga
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De “Não pagaremos um centavo sequer” a “Não pagar seria ilegal” (da expropriação da YPF ao acordo com a Repsol, com parceria com Chevron no meio). E um pouco de Stokowski e Pernalonga

arielpalacios

02 de dezembro de 2013 | 01h55

Ministro Axel Kicillof: “Pagar é coisa de tontos” (2012). “Não pagar seria ilegal” (2013). Na foto, Kicillof com a presidente Cristina Kirchner durante a posse do acadêmico como novo chefe da pasta da Economia.

Há um ano e meio, quando a presidente Cristina Kirchner expropriou a YPF, o então vice-ministro da Economia, Axel Kicillof, afirmou que “pagar (à Repsol) seria coisa de tontos”. Na época, Kicillof, autor do plano de expropriação, além de defender a ideia de “não pagar um centavo sequer” aos espanhóis, alegou que a Repsol é que devia dinheiro ao país, já que tinha dívidas US$ 9 bilhões. No entanto, na semana passada Kicillof, atualmente ministro, agora afirma que “seria impossível não pagar, já que isso seria ilegal”.

Na terça-feira da semana passada o governo Kirchner – sem o alarde nacionalista do ano passado, e utilizando um tom de conciliação – fez um pré-acordo/entendimento com a espanhola Repsol sobre a indenização pela expropriação de sua subsidiária argentina, a YPF, a maior companhia petrolífera no país.

O pré-acordo estipula que governo Kirchner pagará à Repsol US$ 5 bilhões em títulos da dívida pública argentina em um prazo de dez anos. Mas, com os juros, os próximos dois governos argentinos pagarão aos espanhóis um total de US$ 8 bilhões.

Neste fim de semana o chefe do gabinete de ministros da presidente Cristina Kirchner, Jorge Capitanich, anunciou que o governo começará em um par de dias as negociações com a Repsol.

Capitanich – deixando de lado frases pronunciadas no ano passado pelo governo como “pagar é coisa de tontos” – afirmou que “até o momento as conversas são muito boas”.

O ministro Kicillof, afirmou que o governo e a Repsol “ainda precisam discutir muitíssimos detalhes”. Segundo ele, “o fator importante é que a Repsol desistiria de todos os litígios nos tribunais internacionais”.

Fluvio Ruiz Alarcón, um dos diretores da petrolífera mexicana Pemex, empresa que é acionista da Repsol e que participou ativamente das negociações do pré-acordo, afirmou que “a parte mais difícil (das negociações) já passou”. Segundo o conselheiro da Pemex na Repsol, Arturo Henríquez, o acordo definitivo ficaria pronto antes do Reveillon.

Presidente Cristina Kirchner exibe uma proveta com uma amostra de petróleo das primeiras extrações da YPF na primeira metade do século XX.

VALORES – Em janeiro de 2012 a YPF tinha um valor de mercado US$ 18 bilhões. Nesse momento, quando começaram os rumores sobre uma iminente expropriação, a empresa perdeu seu valor de forma acelerada.

Quatro meses depois, em abril de 2012, na época da intervenção do governo, a empresa só valia US$ 8 bilhões.

Um ano depois, em abril passado, o valor da totalidade da empresa era US$ 5,2 bilhões.

Os cálculos atuais indicam que valor de toda a YPF seria de US$ 6,6 bilhões.

Desta forma, se o total vale US$ 6,6 bilhões os 51% das ações expropriadas pela presidente Cristina teriam um valor de US$ 3,3 bilhões.

Isso indicaria que a Repsol, ao conseguir do governo Kirchner US$ 5 bilhões no pré-acordo, obteve US$ 1,7 bilhão de vantagem na negociação com a Casa Rosada.

A diferença a favor da Repsol é maior se for levado em conta que, com os juros, os US$ 5 bilhões em bônus a serem pagos em dez anos, o pagamento do Estado argentino à empresa espanhola será de US$ 8 bilhões.

A vantagem para os espanhóis é maior ainda se levarmos em conta a dívida reclamada por Kicillof no ano passado, de US$ 9 bilhões. Esta dívida espanhola citada no ano passado pelo governo Kirchner já foi “esquecida”.

Desta forma, entre pagamentos à Repsol, os juros e a dívida arquivada, a expropriação da YPF implica em um custo de US$ 17 bilhões aos cofres do Estado argentino.

O atual governo da presidente Cristina pode se dar ao luxo de assumir esses pesados compromissos financeiros, já que a maior parte desta dívida ficará a cargo dos próximos dois governos argentinos.

Governo de Cristina Kirchner fez um acordo com cláusulas secretas com a empresa petrolífera Chevron, emblema do capitalismo dos Estados Unidos, país onde a presidente enviou sua filha Florencia estudar cinema (em N.York). Na foto, Cristina com o presidente Rafael Correa, que expulsou a Chevron por causa de suposta mega-contaminação e prejuízos às comunidades indígenas. Enquanto que o líder bolivariano equatoriano abre ofensiva contra a empresa americana na Justiça internacional a presidente peronista abre as portas para a multinacional.

GUINADA – Nos últimos dois meses a Casa Rosada retomou negociações com outrora “inimigos mortais”, entre eles, o Fundo Monetário Internacional (FMI). O governo Kirchner prometeu apresentar ao Fundo até o final de dezembro um novo índice de inflação, já que as atuais estatísticas elaboradas pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) são suspeitas de elevada manipulação desde janeiro de 2007.

O governo Kirchner também retomou as negociações pendentes desde 2007 para pagar uma dívida de mais de US$ 6 bilhões que possui com o Clube de Paris. Além disso, iniciou uma aproximação com os “holdouts”, denominação dos credores de títulos da dívida pública argentina que não aderiram às reestruturações da dívida de 2005 e 2010. Durante anos a presidente Cristina chamou os “holdouts” de “fundos abutre”. Mas, agora o governo está disposto a conseguir um acordo e encerrar esta outra frente de batalha.

Além disso, em outubro, o governo fechou um acordo com cinco empresas (Azurix, Blue Ridge, Vivendi, National Grid e Continental) que haviam iniciado demandas judiciárias perante o Centro Internacional de Arbitragem de Investimentos (Ciadi). O acordo implicará no desembolso de US$ 500 milhões às empresas, que desistiram dos processos.

O governo Kirchner – que havia expropriado a YPF em nome da “soberania energética” – tentou desde o ano passado obter capital externo para financiar a companhia. Depois de tentar seduzir duas companhias petrolíferas de países aliados – a venezuelana estatal PDVSA e a Petrobrás – a presidente Cristina teve que fechar um acordo (com cláusulas secretas) vantajoso para a Chevron, emblema do capitalismo de “El Império” (O Império), forma como os militantes kirchneristas denominam os Estados Unidos.

Os militantes da ala esquerda do kirchnerismo ainda tentam digerir este acordo com o emblema do capitalismo americano.

As conversas sobre um acordo definitivo com a Repsol é um dos sinais da aproximação aos mercados que o governo da presidente Cristina Kirchner está tentando realizar.

Esta aproximação também está gerando uma onda de mal-estar entre os militantes da ala esquerda do governo.

No entanto, me disse um deputado aliado do governo, citando uma frase clássica do fundador do movimento peronista: “não temos que nos surprender, já que a presidente Cristina é uma total peronista. Ora, (o presidente Juan Domingo) Perón disse a um grupo de assessores em 1973 que a melhor forma de governar era como dirigir um carro de forma especial: dê o pisca-pisca para a esquerda…e vire o volante para a direita”.

Juan Domingo Perón dirigindo uma lambreta em 1953

YPF FOI ESTATAL, PRIVATIZADA E NACIONALIZADA

A companhia petrolífera YPF, fundada em 1922, foi a principal estatal argentina até 1992, quando, dentro do processo de privatizações realizado pelo então presidente peronista Carlos Menem(1989-99), foi vendida para um grupo de empresários argentinos. Na época, a privatização foi respaldada pela então deputada Cristina Kirchner e seu marido, Néstor Kirchner, governador da petrolífera província de Santa Cruz, peronistas e aliados de Menem.

Em 1999 os empresários argentinos que controlavam a YPF, e o Estado argentino – que ainda contava com ações na empresa – venderam a totalidade da companhia à espanhola Repsol. A partir dali, o management da companhia foi deslocado de Buenos Aires para Madri. Na primeira década do século a YPF passou a representar metade do faturamento do grupo espanhol.

Em 2007 Néstor Kirchner, na época presidente da República, pressionou a Repsol a vender parte das ações aos Eskenazi, família de empresários argentinos, donos do Grupo Petersen, além de amigos do casal presidencial. A partir dali, a presença argentina – embora privada – começou a aumentar. No início de 2011 os Eskenazi compraram outros 10%.

Em abril do ano passado a presidente Cristina Kirchner anunciou a expropriação da empresa alegando a “recuperação da soberania energética”. O ex-presidente Carlos Menem defendeu a expropriação de sua antiga aliada, posterior inimiga e novamente atual aliada, Cristina Kirchner.

Menem e o casal Kirchner nos anos 90: juntos privatizaram a YPF. 

E, para encerrar, o Nocturno do Quarteto Número 2 de Aleksandr Porfírievich Borodín (????????? ??????????? ???????). Esta é uma gravação de 1957. Na batuta, Leopold Stokowski. O ator americano Christopher Lloyd afirma que inspirou-se no físico de Stokowski (um britânico com antepassados poloneses) para desenvolver seu personagem ‘Doc’ Emmet Brown de “De volta para o futuro”.

O jeitão de Stokowski inspirou Christopher Lloyd

E aqui, Pernalonga faz paródia de Leopold Stokowski:

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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